São Miguel

1 Capítulo único


Emma esfregou mais uma vez a testa com os dois dedos; as palavras que estava escrevendo para o relatório do último caso se embaralhavam na frente de seus olhos turvos de cansaço. Não sabia dizer a quanto tempo não dormia – provavelmente dois, três dias. Cochilou no avião a caminho de casa, mas não o suficiente. Ela suspirou e apertou os olhos, esforçando-se a se concentrar. Só percebeu que havia alguém dentro de sua sala quando o copo de café quente foi apoiado no tampo da mesa. A fumaça subindo do líquido quente era hipnotizante.

— Você quer que eu termine? — A outra agente perguntou, sentando-se em uma das cadeiras que ficava de frente para Emma. A antiga chefe balançou a cabeça de forma negativa, tomando metade do seu café em um gole.

— Acho que terminei.

— Sim. Mas você escreveu “mirralhal” em vez de milharal umas cinco vezes. Deixa eu pelo menos revisar, se não a diretoria vai reclamar no seu ouvido. — Bê pediu, puxando a pasta amarela para si. Emma riu antes de terminar o café.

— Obrigada, prima. Tudo o que eu menos quero é entregar um relatório cheio de erros. Não agora que estou tão perto de voltar a ser reintegrada.

Emma pegou a bolsa na cadeira e deu um beijo estalado na bochecha da prima. Geralmente, familiares não trabalham juntos em equipes do FBI por motivos de apego emocional; mas naquela equipe em específico havia muitas exceções. Desde os últimos anos ela era composta por um grupo fechado de pessoas – sete famílias que sabem da verdade sobre os mundos. Eles eram responsáveis por manter a verdade viva e escondida dentro de seu pequeno grupo, de forma que duas primas podiam trabalhar juntas naquele momento.

— Ei, Emma, você e o Carl podem passar lá em casa no fim de semana? Minha mãe vai estar na cidade, ela adoraria ver vocês — Beatrice comentou, se virando para trás. Emma acenou com a cabeça.

— Claro. Vou falar com o Carl... — ela se calou ao ver a pergunta escondida nos olhos da prima. — Esquece isso, Bea. — Pediu.

— Tudo bem. Eu finjo que ninguém sabe do romance de vocês e vocês fingem que estão namorando em segredo.

— Até mais, Bê! — Emma gritou já de fora da sua sala, acenando com uma mão enquanto a prima ria de dentro do cômodo.

*

Realmente Emma sabia que não deveria manter o romance que estava tendo com um dos colegas em segredo por muito tempo. Da última vez que manteve seu relacionamento em segredo, as coisas foram de mal a pior muito rapidamente; depois da morte da sua companheira, Emma foi afastada da posição de líder, caçada por um sequestrador e mantida em cativeiro por um tempo considerável. Não que todos os eventos tivessem relação com seu segredo, mas ela sabia que aquilo havia piorado tudo. A confiança de sua equipe se abalou por um tempo ao descobrir que Emma e Bonnie estavam mentindo para eles – e para si mesmas, e ela se esforçava o dobro cada dia para retomar essa confiança. Sabia que a descoberta de um novo relacionamento poria tudo a perder.

Seus pensamentos vagavam enquanto ela ia para casa, percorrendo o caminho conhecido de forma automática. Antes de tudo acontecer, Emma dividia o apartamento com Henry e Anthony, um casal de amigos que a acolheram após a morte de Bonnie. Mas há uns dois meses ela morava com Carl, de modo que não se assustou ao ver o namorado estirado no sofá, lendo um livro. Antes de se aproximar dele, guardou a arma e o distintivo num cofre escondido atrás do quadro; ao chegar no sofá, jogou-se ao lado do antigo colega e apoiou a cabeça no ombro dele.

— Você precisa dormir — Carl sussurrou, fechando o livro e puxando o prendedor de cabelo dela para soltar seu cabelo; o agente começou a pentear os longos fios negros com os dedos, já que sabia que isso causava sono na parceira.

— Sim, preciso. A mãe da Bê quer que almocemos com ela amanhã. — Emma se aconchegou mais no abraço e se pegou pensando em como a escolha do maior sofá da loja havia valido a pena. — Ela sabe que estamos juntos.

Por um momento, Carl ficou confuso:

— A mãe da Bê sabe que estamos juntos?

— Não, Dipsei! A própria Bê. — Emma riu, soltando o ar pelo nariz de forma incrédula. Seus pensamentos estavam nublados do sono e se embaralhavam enquanto ela tentava formar a frase.

Carl a apertou mais contra si, aproveitando os momentos de paz que tinha com sua parceira entre os dias tumultuados perseguindo assassinos e psicopatas. Antes de Emma finalmente dormir, ele notou algo estranho em suas roupas:

— Sua medalhinha...

— Eu perdi. Foyet arrancou de mim durante a perseguição — ela murmurou de volta, a voz triste. Então o sono a venceu, e ela fechou os olhos e adormeceu.

O namorado a abraçou com um pouco mais de intensidade. Ele sabia o quanto aquela medalhinha significava para Emma, pois foi dada pela irmã quando ainda eram crianças; Charlotte morreu alguns anos atrás, e aquela medalhinha era a única lembrança palpável que Emma tinha para se lembrar da irmã mais velha. A maioria das pessoas nem sabia que Emma carregava aquele símbolo de fé preso ao pescoço, mas Carl estava junto dela tempo o suficiente para conhecer esse pequeno detalhe. Ele se pegou pensando no que poderia fazer.

*

Quando Emma acordou, ainda estirada no sofá, se pegou pensando em quanto tempo estava dormindo. Tentou olhar pela janela, mas as cortinas fechadas, impedindo-a de olhar para o céu; o celular de Carl estava na mesinha de centro, então a agente se esticou para pegá-lo. A luminosidade incomodou seus olhos por um segundo, mas o incômodo maior foi perceber que dormira quase uma tarde inteira; já passava das oito da noite e seu estômago roncou, reclamando do tanto tempo que estava em jejum. Foi quando percebeu que, da cozinha, vinha cheiro de pizza recém-comprada.

— Você acordou! — Carl sorriu ao aparecer no batente da porta. Emma se pegou completamente hipnotizada por aquele sorriso tão lindo.

— Nós temos um trato de não me deixar dormir durante a tarde inteira, Dipsei! — Emma reclamou, chamando-o pelo sobrenome e se sentando de forma brusca no sofá. Seu corpo reclamou ao ser mexido de forma tão brusca, resultando em uma tontura de leve que Emma lutou para controlar. Carl a ajudou a se erguer.

— Não pude te acordar, Evans. Você sempre parece tão relaxada quando está dormindo; como se nada no mundo te incomodasse. Fica ainda mais linda, me faz ficar mais apaixonado.

— Eu odeio quando você usa palavras legais comigo — ela resmungou, de certa forma de maneira infantil.

Carl sorriu enquanto os dois caminhavam até a cozinha, onde duas caixas de pizza e uma garrafa de refrigerante os esperavam. Faminta, Emma pegou uma fatia antes mesmo de se sentar. Por um tempo, eles dois conversaram de coisas banais, sobre a chuva que caia do lado de fora e sobre como a mãe de Beatrice reagiria ao ver os dois juntos – depois de tanto brigarem na infância e praticamente se odiarem por anos antes de se acertarem. Então Emma se lembrou de algo e, após lamber os dedos, trouxe o assunto à tona:

— Acho que devemos contar para os outros; sei que a Bê já percebeu porque nos conhece desde crianças, mas os outros logo vão perceber também.

Carl ficou em silêncio por um tempo, olhando para suas mãos; seus pensamentos se voltaram sem nenhum motivo para o dia em que aquelas mesmas mãos faziam massagem cardíaca no peito de Emma, lutando para trazê-la de volta a vida, para fazer seu coração voltar a bater. Naquele momento ele percebeu que estava apaixonado por ela, e a simples ideia de perde-la o fazia morrer de medo. Seu rosto deve ter denunciado o que ele pensava, porque Emma se esticou e entrelaçou seus dedos, piscando para ele de forma compreensiva.

— Podemos continuar a nos esconder, se você achar melhor. Não é uma alternativa que me agrada, mas...

— Não. — O agente a cortou, sorrindo ao brincar com os dedos da companheira. — Não, vamos contar. É injusto esconder, e eu não aguento mais isso, na realidade. Vamos contar.

Emma balançou a cabeça, os cabelos negros balançando junto. Seus olhos verdes brilharam em direção aos olhos dele, da cor do carvão, e os dois sorriram um para o outro. A agente se ergueu e puxou a cadeira para o lado dele, até estarem com os braços colados – assim como seus lábios. O beijo foi rápido, mas o suficiente para fazer ambos desejarem continuar juntos por mais uma infinidade de dias.

— Então vamos contar amanhã, na reunião. Eu tenho outra boa notícia para dar para eles, a gente aproveita e conta tudo ao mesmo tempo. — Emma sussurrou contra os lábios dele, um sorriso nos lábios. Carl se afastou dela, estreitando os olhos.

— Outra boa notícia? Será que eu sei o que é?

— Hmm... não. Mas talvez eu possa te contar... depois de um beijo ou dois... — ela sussurrou, se inclinando novamente em direção dele. Os dois trocaram mais beijos e carícias, palavras de amor sussurradas. Por fim, Emma não se aguentou e revelou o que estava escondendo até aquele momento. — Eu fui reintegrada. A diretoria me quer de volta na chefia da unidade. Fui considerada mentalmente estável depois de dois longos anos!

— Ai meu Deus, Emma! — Carl se ergueu para poder abraça-la. Seus rodopios fizeram a agente erguer os pés do chão, rindo de tanta felicidade. — Então além de contar para a equipe que você voltou a ser nossa chefe, vai contar que eu estou namorando a nossa chefe. O Zack vai me matar — ele comentou, e os dois riram mais ainda ao imaginar a reação de Zack Crof, o agente mais velho que tinha um carinho especial por Emma; Crof a criara praticamente como sua filha e poderia ser um pouco paternal demais se tratando da agente.

— Esse dia não pode ficar melhor. — Emma suspirou ao enrolar os braços ao redor do pescoço dele. Suas pernas estavam ao redor da cintura dele, e Carl sustentava o corpo da namorada com os braços. Ele quase se esqueceu da surpresa que havia preparado, mas as palavras dela lhe trouxeram de volta. Ele sorriu, beijando-a, antes de devolvê-la ao chão. — O que foi?

— Eu tenho algo para você. — Carl puxou do bolso uma correntinha de prata com uma medalha do tamanho de uma uva presa a ela. — Eu liguei para a mãe da Bea, descobri qual era o santo da sua medalha...

— É São Miguel. — Emma balançou a cabeça, capturando o presente nos dedos e passando o polegar pelos detalhes em alto revelo. Era diferente daquela que ganhara de Charlotte, mas o santo era o mesmo.

— “Protegendo os que protegem os outros” — Carl leu a frase inscrita acima do anjo. — Nunca soube que os policiais tinham um protetor.

— É, mas nós temos. São Miguel sempre me protegeu e sempre protegeu minha equipe. — Emma ergueu o olhar para ele, emocionada. — Obrigada. De verdade, você não sabe o quanto essa medalha significa para mim. — Ela se lançou novamente aos braços da pessoa que amava, apertando o presente nos dedos e os lábios nos dele.

*

Os dois chegaram cedo no escritório na manhã seguinte. Estava frio, Emma estava entocada dentro de um enorme casaco, o cachecol subindo até a altura de seu nariz; Carl carregava a mochila dele e dela e, ao passarem pela porta de entrada, os dois pararam e se olharam. Os olhos de Emma brilhavam; a medalhinha dada pelo namorado balançava de um lado ao outro, agora claramente a mostra para todos.

— Você tem certeza? Sobre contar para eles? — Ele perguntou, torcendo as mãos de forma nervosa. Emma balançou a cabeça, tirando o cachecol da frente do rosto e sorrindo de forma tranquila para o namorado.

— Você persegue assassinos pelo país e está com medo de contar para nossa família que estamos juntos? — Perguntou para provocar, recebendo um revirar de olhos como resposta. Os dois se aproximaram e se abraçaram numa tentativa de se acalmarem para o que viria a seguir.

Escutaram os passos atrás de si; KL e Marlee entravam na base, conversando, e estancaram ao ver os dois abraçados. Para a maioria dos membros da equipe, Emma e Carl se odiavam e só conversavam porque haviam passado um tempo em cativeiro juntos, sequestrados. Emma olhou para elas, ainda acolhida nos braços do namorado, e sorriu de felicidade pela primeira vez em muito tempo.

— Reunião em cinco minutos, meninas! — A agente avisou, usando seu tom de chefe que não usava há anos.

Antes que elas pudessem reagir, Emma puxou Carl para si e o beijou ali mesmo, na frente de todos. Os dois riram no meio do beijo antes de darem as mãos e caminharem para a sala de reuniões.

Notas finais
São Miguel é um dos meus santos favoritos e, quando descobri que ele era o protetor dos policiais e agentes, achei que encaixaria perfeitamente com a história da Emma e do Carl
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!