São Francisco
9 Capítulo 8
Sara e eu retomamos a nossa caminhada em direção pra onde ficava a pousada da família dela. Mas no meio do caminho, minha namorada propôs de tomarmos uma água de côco no quiosque do padrinho dela.
O sinal de alerta já piscou na minha cabeça.
Lá era onde o tal Kylie trabalha. Será que logo no meu primeiro dia ali já ia conhecer o tal surfista, ex da Sara?
E será que ela nem se tocou disso?
Ou tava me levando lá de propósito?
A julgar pela forma natural com a qual ela propôs aquilo, certamente, a resposta para as duas questões era: não!
Seguimos até o quiosque e eu não comentei nada a respeito do tal surfista estar por lá. Se tivesse até que seria logo bom pra conhecer de uma vez a fuça do sujeito.
Chegamos em frente ao tal quiosque, que na verdade, era uma grande barraca, e com Sara seguindo à minha frente, nós entramos no lugar. Algumas mesas daquelas de plásticos na cor branca, estavam dispostas com alguns poucos clientes pelo espaço do estabelecimento. Não havia muita gente. Talvez por já tá quase escurecendo o movimento era de poucas pessoas já.
Alguns poucos passos e nós chegamos ao balcão do lugar, onde um homem alto, de pele morena, cabelos escuros e que devia ter na faixa dos quarenta e poucos anos de idade, sorriu pra gente, ou melhor, pra Sara.
—Olha só quem resolveu aparecer?! Se não foi a minha afilhada preferida.
O homem disse direcionado a minha namorada que sorriu enquanto se acomodava numa banqueta que havia ali próximo do balcão. E eu a imitei, sentando-me ao lado de Sara.
—Até parece que o senhor tem outra afilhada além de mim, padrinho.
—Justamente por você ser a única afilhada que tenho, é que se torna a preferida ora bolas!
Observei o homem mais velho comentar com um sorriso. Depois disso, ele deu um beijo na testa de Sara quando a mesma se inclinou pra abraçá-lo. Logo em seguida, ele olhou pra mim. Ao notar seu olhar interrogativo, minha namorada então tratou de me apresentar à sujeito.
—Padrinho esse é o Grissom. Ele é meu namorado. Gil esse é o Paul, meu padrinho como você já deve ter sacado.
Estendi a mão pra cumprimentá-lo e com um sorriso desconfiado, ele aceitou meu cumprimento sem nenhuma demora. Coisa totalmente contrária do pai da Sara.
—Olá, rapaz!
—Olá!
—Nunca te vi por aqui antes.
—É que eu não sou daqui. Moro em Las Vegas.
O sujeito então me encarou e me analisou... Analisou... Analisou bem pra depois olhar para Sara e dizer:
—Esse seu namorado não é aquele que vocês jovens de hoje em dia costumam arranjar na internet, não é Sara?
—Qual é Paul?! Eu não sou de arranjar namorado pela internet.
—Então como vocês se conheceram se ele nem é daqui?
Tomando a frente, eu me adiantei a Sara e tratei de responder a pergunta feita pelo padrinho dela.
—Ela ficou na minha casa quando foi passar as férias em Las Vegas. Foi assim que a gente se conheceu.
—Exatamente, padrinho. Esqueceu que fui à Vegas?
—Oh! Pior que eu esqueci! Que cabeça minha!
Paul bateu de leve com a mão em sua testa e tanto Sara quanto eu rimos disso.
—E essa moça te importunou e pegou muito no seu pé lá?
—Demais!
—Ei! — Sara exclamou em censura e indignação, e batendo-me de leve no braço.
Seu padrinho e eu rimos dela.
—Seu pai já sabe que você tem namorado, Sara?
—Soube ontem sem querer! Grissom e eu tínhamos combinado de contar quando ele viesse aqui. Mas meu pai xereta ouviu a conversa que eu tava tendo com a mamãe e aí...
—Deixa eu advinha... Ele quase surtou quando soube disso.
—Quase não, padrinho, ele surtou total.
O padrinho de Sara explodiu em gargalhada diante de nós. Olhei pra Sara e ela revirou os olhos pela reação de seu padrinho.
—Isso não tem graça, Paul, pra você ficar gargalhando assim.
Concordava com minha namorada. Mas seu padrinho não concordava com a gente.
—Pra mim tem. Adoraria ver a cara do Otávio quando soube disso.
—Eu vi a cara dele. E quer saber? Não era das melhores. Parecia até o King Kong furioso. Só faltou, ele bater no peito com as duas mãos e gritar, pra ficar igualzinho.
Outra gargalhada do padrinho de Sara e dessa vez, nem eu pude me conter e ri daquele absurdo que minha namorada disse.
—Sara, você é péssima, querida.
Eu diria que ela era louca mesmo por dizer isso do próprio pai!
—Péssimo é o meu pai, padrinho, que fica fazendo marcação em cima de mim e do Grissom, feito um zagueiro chato em cima do artilheiro do time adversário. E hoje é só o primeiro dia do Gil lá em casa. Ainda tem mais treze pela frente.
—Paciência, Sara. E paciência pra você também. — O padrinho da minha namorada se dirigiu à mim. _Acho até que mais do que paciência, rapaz, você vai precisar de sorte pra dobrar um sogro como meu amigo. Aquilo ali é uma tremenda "carne de pescoço".
Apenas assenti pra ele com um forçado sorriso. Paul nem precisava ter me dito aquilo, pois eu já tinha sacado isso no pouco tempo em que já havia passado ao lado do pai de Sara.
—Paul pára de fazer terrorismo com o Grissom.
—Não tô fazendo terrorismo. Apenas tô 'mandando a real' pra ele como vocês jovens dizem.
—Sei.
—Mas me diz, o que veio fazer aqui, além de me apresentar seu namorado?
—Quem disse que eu vim aqui pra apresentá-lo pra você?
—Nossa, quanta consideração com o homem que é como um segundo pai pra você, sua mal-criada.
Sara apenas riu do que foi dito.
Era engraçado ver a interação da minha namorada com o padrinho dela. Eles se falavam e se tratavam como se fossem dois amigos da mesma idade. E a provocação era mútua entre eles.
—A gente veio tomar uma água de côco bem gelada. Por acaso tem?
—Aqui a água de côco sempre tá bem gelada. Sabe disso!... E vou apanhar duas pra vocês. Volto já.
Sara avisou ao padrinho dela que a gente ia se sentar numa das mesa que estavam vagas na areia, bem de fronte a barraca dele. Ao consentimento de Paul que logo depois disso foi apanhar nossas águas, Sara e eu nos encaminhamos para onde minha namorada disse. Descemos a pequena escada de madeira e logo já estávamos acomodamos em dois bancos, sob a sombra de um guarda-sol de vime que era fixo na areia, assim como os bancos e a mesa de madeira.
Não demorou nem dois minutos que nos encontrávamos ali e uma moça já depositava um côco diante de mim e outro diante de Sara. A moça inclusive, trocou algumas rápidas palavras com minha namorada e depois seguiu de volta em direção à barraca.
—Seu padrinho me pareceu um sujeito super gente boa.
—E ele é. Adora ficar tirando com a minha cara.
Ela admitiu-me com um sorriso.
Ficamos ali de papo e namorando enquanto apreciávamos nossas águas de côco e admirávamos o final do pôr-de-sol. Depois de certo tempo decidimos ir embora, pois tínhamos dito ao pai de Sara que não íamos demorar muito e, já tinha até escurecido por completo.
—Sara aqui tem banheiro? — Cochichei a minha namorada enquanto seguíamos para dentro do quiosque a fim de se despedir do padrinho dela.
Ela me confirmou e me apontou a direção onde ficava as cabines dos banheiros. Lá nos fundos do estabelecimento, escondido atrás das pilhas altas de grandes de cervejas e refrigerantes.
Segui pra lá.
Eu tava apertadão e não ia dá pra esperar chegar na pousada pra me aliviar, mesmo que o lugar ficasse relativamente perto de onde nos encontrávamos.
Pro meu azar uma cabine do banheiro estava ocupada e a outra trancada, com uma placa pregada na porta, a qual se lia: interditado.
Mereço!
Tomara que quem quer que esteja ali no outro banheiro, não demore.
No que eu estou esperando, chega uma mulher com um menino que devia ter uns cinco anos.
—Você tá esperando pra usar o banheiro também?
Assenti pra mulher.
—Mamãe vai demorar muito pra chegar a minha vez?
—Temos que esperar, o rapaz entrar primeiro e depois é a sua vez, filho.
Olhei para o garoto e a cara dele de desesperado pra se aliviar, devia ser a mesma que se via em mim.
—Se eu tiver que esperar muito, vou fazer o número 2 na sunga, mãe! — Ouvi o garoto reclamar. Sua mãe chamou seu nome em tom de censura por ter dito aquilo alto.
Eu fiz força pra não rir do garoto, senão eu faria o número 1 no meu short.
Pobrezinho do garoto tava pior do que eu.
Resolvi ser solidário com ele. O garoto tava mais necessitado que eu.
—Quando a pessoa que está no banheiro sair, a senhora entra com o garoto logo. Eu espero.
"Tomara que esse molequinho seja rápido pra se aliviar!", Pensei enquanto a mãe do garoto me agradecia a gentileza de deixar seu filho passar na minha frente.
A pessoa que estava lá dentro da cabine, saiu naquele instante. Era um homem gorducho que parecia bem aliviado. De certo, ele estava que nem eu e o garoto antes de entrar ali. E eu esperava ficar que nem ele quando saísse de dentro da cabine.
A mulher com o filho entraram e eu fiquei a espera da minha vez. Depois de CINCO torturantes minutos o garoto saía de dentro do banheiro morto de contente por ter se aliviado. Ao passar por mim, a mãe dele me agradeceu novamente, por ter cedido a minha vez ao filho dela. Resmunguei um rápido "de nada" e segui pra entrar no banheiro. Mas estanquei na porta ao sentir o cheiro horrível e podre que a peste do garoto deixou.
Cristo amado!
Eu tinha duas escolhas: uma, aguardar o fedor diminuir e aí, depois entrar pra me aliviar e correr o risco de nisso não aguentar a espera e, acabar 'molhando as calças'. Ou a opção dois: encarar o fedor e me aliviar logo.
Como àquela altura eu já tava apertado demais, quase não aguentando mesmo, eu optei pela opção dois.
—Respira pela boca e entra, Grissom. — Repeti num sussurro a mim mesmo.
Foi o que fiz e poucos instantes depois, eu saia completamente feliz e aliviado.
Segui de volta pra onde Sara estava à minha espera. Certamente, minha namorada já devia estar achando que me perdi ou fui abduzido. Ri do pensamento. Mas logo meu sorriso se desfez com a cena que vi de um cara deslizando a mão pela extensão do braço de Sara enquanto eles se falavam muito próximos, na maior alegria e cheios de sorrisos.
Que palhaçada era aquela?!
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