São Francisco
5 Capítulo 4
Notas iniciais
Senhor Sidle fez questão de ao retornar para onde Sara e eu estávamos minutos depois dele ter saído dali com sua esposa, de ele próprio me levar até o quarto em que eu ficaria.
Sara quis vir junto com a gente, mas seu pai não deixou, alegando que ele aproveitaria a oportunidade pra conversar a sós comigo. Eu que aquela altura até já tava mais calmo, depois que ele disse isso voltei a ficar nervoso.
Seguimos, senhor Sidle e eu pelas escadas em direção ao cômodo que eles haviam reservado pra mim no andar de cima da pousada.
Tão logo entramos no cômodo e o senhor Sidle não me deu tempo de nada, foi logo apontando a cama pra eu sentar enquanto ele se acomodava em uma cadeira que havia próxima à escrivaninha.
E enfim havia chego o momento que eu tava receando e ao mesmo tempo ansiando pra chegar.
Era hora de enfrentar o sogrão!
Houve um breve silêncio antes que Otávio enfim se pronunciasse.
—Sabe, vou ser bem franco com você... — Seu Otávio começou a falar comigo enquanto passava a mão pelo queixo liso. _...Eu não gostei nada de saber que você na verdade era namorado da minha filha.
—Eu posso imaginar.
—Inclusive quase liguei pra sua casa pra vetar sua vinda pra cá. Mas Laura me aconselhou a não fazer isso pela Sara. Minha filha estava muito contente e empolgada com a sua vinda pra cá.
—Eu também estava empolgado e contente pra vir aqui ver sua filha.
—Eu posso imaginar. — Com certo sarcasmo, ele repetiu as palavras que eu lhe disse há instantes. Bem, eu acho que já começo a suspeitar de onde o jeito sarcástico de Sara vem.
—Senhor Sidle...
—Otávio. — Ele me interrompeu, corrigindo-me. _Apesar de me agradar a formalidade com a qual me trata, mas pode me chamar apenas de Otávio mesmo.
—Como quiser. — Eu não ia ser louco de contrariá-lo. Nem a pau! _Então... Otávio... eu gosto muito da sua filha. Na verdade, eu a amo!
—Ama?!
Vi o senhor Sidle erguer uma de suas sobrancelhas e se recostar na cadeira. Acho que o peguei de surpresa com o que disse. Talvez ele não esperasse em ouvir tais palavras de mim. Ou até mesmo não acreditasse muito naquilo, ou nem levasse muita fé nas minhas palavras.
—Sim, amo. — Confirmei com a absoluta certeza de que aquilo era a mais pura e límpida verdade. Eu amo a Sara _E quero pedir sua autorização pra namorar sério à Sara. Eu vim aqui não só pra rever a sua filha, mas também pra falar com o sen... quer dizer, com você porque eu queria que soubesse que minhas intenções com Sara são sérias.
—Ok! Eu tô começando a ver que são sérias mesmo pelo seu tom firme e também pela 'defesa' desacerbada da minha filha em relação a você. Mas... Me esclarece uma dúvida, como esse namoro de vocês pode dar certo com cada um morando em um estado diferente do outro? Esse tipo de namoro moderno que vocês jovens acham que pode dar certo com um morando longe do outro, não dá. Pode ser que até dê no começo como deu nesses meses que me esconderam isso. Mas acha realmente que isso vai durar mais tempo? Além do mais, eu não quero minha filha fazendo papel de boba por você tá enganando-a com outras lá em Las Vegas.
—Eu jamais vou enganar a Sara com nenhuma outra garota. Isso não tem a menor chance de acontecer.
Eu não conseguia mais me ver com outra garota que não fosse a minha namorada. Era com ela que eu queria ficar e mais ninguém. Só era pra minha "garota insuportável" que eu tinha olhos.
—Então vai ser esse negócio de namoro à distância, mesmo é?
—Também não.
Eu achei por bem contar pra ele o que eu tinha em mente.
—Muito possivelmente, eu venha morar à poucos quilômetros daqui. Tô no aguardo da resposta da Universidade da Califórnia quanto a eu ser aceito pra ingressar nela. E se eu for aceito como tenho quase certeza que serei, então poderei vir todo fim de semana visitar a Sara.
—Sei.
—E assim teremos um namoro como todo casal normal tem. E depois, com o tempo, Sara também pode ir algumas vezes me visitar lá onde eu morar. Talvez até passar um fim de semana comigo, quem sabe.
—Nem pensar! Você subiu no ônibus agora e já quer sentar na janela? Negativo! Minha filha não vai passar fim de semana sozinha com você. Se quiser vê-la, pode vir aqui. Te arranjamos um quarto e você passa o fim de semana aqui. Agora, Sara ir até você, não tem a menor chance.
Pelo visto ele é bem jogo duro. Tudo bem, mais uma vez resolvi não contrariar o meu sogro.
—Ok, então.
—Minha filha sabe sobre isso da Universidade?
—Não. Eu quero fazer uma surpresa pra ela. Inclusive, quero pedir pra não comentar nada com ela, por favor. Só vou contar à ela quando sair o resultado confirmando a minha aprovação na Universidade, o que será na semana que vem.
—Ok. E se por acaso, você não for aceito nessa Universidade, nós voltamos aquela mesma questão: como vai ficar essa sua relação com a Sara?
Eu não via a menor hipótese disso não vir a acontecer. Tinha ido muito bem na prova então, eu tava certo que passaria. E foi exatamente isso que falei pro pai da Sara.
—E você pretende cursar o quê, rapaz?
—Biologia.
—Hum... olha, rapaz... você pelo que tô vendo e pelo discurso todo que ouvi da minha filha ontem a seu respeito, me parece um rapaz bem ajuizado e mais importante: responsável. Por isso vou deixar que namore a Sara. Mas é o seguinte, camarada... — Vi Otávio se inclinar pra frente na cadeira, apoiar os cotovelos nos joelhos e me encarar seriamente: _... Na primeira que você aprontar com a minha filha, rapaz, você estará em maus lençóis comigo, me entendeu?
Mais entendido que isso impossível!
—Perfeitamente.
—E tem mais...
—Têm é?!
—Sim!... Nada de ficar sozinho no quarto com Sara e de agarramento com a minha filha pelos cantos da casa. Quero respeito aqui dentro. Essa é uma casa de família.
—Eu jamais desrespeitaria a sua filha e sua casa, Otávio.
—Assim espero mesmo. Tô te dando à muito custo pra mim, um voto de confiança, camarada. Então não me desaponte, porque eu posso te garantir que você não vai gostar nada de descobrir o que eu sou capaz de fazer quando fico extremamente desapontado e principalmente, quando fazem algo de errado que magoe a minha filha.
Assenti pra ele enquanto engolia à seco com seu tom bastante ameaçador. Tentaria a todo custo não fazer nada que possa estragar a confiança que tinha aparentemente ganho dele.
—Bom... — Seu Otávio bateu as mãos nas coxas e se levantou da cadeira a qual se encontrava. _... O que eu tinha pra dizer era isso. Espero sinceramente que leve a sério tudo o que eu disse.
Ah, com certeza, eu lavaria MUITO à sério mesmo!
—Eu levarei, sim. E... Obrigado por me aceitar.
—Pra sua informação... Ainda não te aceitei, rapaz. Só aceitei a contragosto, que fique claro, que você namore a minha filha. É diferente.
Nossa! Eu vou cortar um dobrado com um sogro desses. Mas pela Sara vale a pena.
—Então prometo não desapontá-lo e fazer sua filha feliz.
—Acho muito bom cumprir essas promessas principalmente, a segunda que é a mais importante pra mim.
—Pra mim também.
—Vou te deixar se ajeitar no quarto.
Assenti vendo-o se dirigir a porta, mas antes de cruzá-la, ele se virou pra mim e me disse o seguinte:
—Gostei que você não usa brinco que nem esses rapazes moderninhos. Porque se usasse, ia ser um ponto bem negativo pra você e pra eu te deixar namorar à Sara.
—Eu não gosto de brincos e nem tatuagem. — Me apressei em lhe informar.
—Bom saber. Desse jeito, você já subiu no meu conceito dois pontinhos dos cem que ainda precisa remar pra me agradar completamente.
Cem??
Em duas semanas eu não ia chegar a esses cem pontos nem sendo o melhor genro do mundo!
Paciência então!
—Que bom então. — Sorri pra Otávio nem sei porquê. Talvez pra ser simpático e ganhar mais um ponto que seja.
—Mas não se anima muito sorrindo desse jeito pra mim, não rapaz.
Desfiz o sorriso na mesma hora e Otávio então saiu do quarto.
Assim que eu fiquei sozinho, respirei super aliviado, como se um piano tivesse sido tirado de cima de mim. Foi barra!
Mas sabe que mesmo assim ainda acho que ele até que não pegou tão pesado quanto eu imaginei? Eu achava que seria muito pior do que foi. Ainda bem que eu me enganei. E melhor ainda, que eu consegui falar o que era preciso e não ficar mudo diante do meu sogro.
Ouvi meu celular tocar e peguei o aparelho de dentro do bolso da calça. No visor o nome da minha mãe piscava.
Caramba! Eu disse que assim que chegasse ligaria pra ela, mas não fiz isso. E como não fiz, ela tava ligando.
—Oi, mãe.
—Gil, você já chegou na casa da Sara?
—Já sim, mãe. Inclusive já ia ligar pra senhora.
Uma mentirinha leve.
—E como foi a viagem?
—Foi tranquila e rápida.
—E por aí, como foi quando chegou?
—Foi tranquilo também, mãe. — Sorri ao ver Sara aparecer na porta do quarto e depois entrar ali.
—E o pai da Sara?
—O quê que tem ele?
—Como foi?
—Um pouco assustador. É que ele é meio intimidador.
—Mas ele não tratou você mal, tratou?
—Não, mãe.
—Ah, bom.
—Quer falar com a Sara? Ela tá aqui do meu lado.
—Sim, passe pra ela, por favor, filho.
Entreguei o celular pra Sara e fiquei apenas observando-a falar toda empolgada com a minha mãe. Dizem por aí que geralmente, as mães costumam não gostar muito das namoradas dos filhos, ainda mais, quando são filhos únicos, mas no meu caso não teve nada disso. Minha mãe não só gostava de Sara demais como já torcia pra gente muito antes mesmo, de ficarmos juntos.
A conversa delas não durou muito, apenas alguns poucos minutos e logo, elas já se despediam e Sara me passava o celular pra também me despedir da minha mãe.
—Juízo vocês dois aí, Gil!
—Pode deixar, mãe.
—Um beijo, querido.
—Outro pra senhora. — Encerrei a chamada e guardei o celular de novo no bolso da calça.
—Queria que ela e o Phil tivessem vindo com você, sabia?
—Eles também queriam vir, mas... o trabalho de ambos os privou disso.
—Uma pena. Ia ser divertido isso. Minha família e a sua juntas.
—Quem sabe numa próxima oportunidade isso não acontece.
—É!
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