São Francisco
2 Capítulo 1
Notas iniciais
Algumas horas antes do reencontro no aeroporto...
As férias haviam chego há mais de uma semana e enfim eu me preparava pra ir à São Francisco visitar Sara. Eu mal podia acreditar que depois de longos meses de separação, hoje eu não só ia ver minha namorada novamente, como também, ia poder beijá-la, abraçá-la, sentir seu cheiro.
Deus! Como eu estava sentindo falta da minha "garota insuportável"!
Um sorriso bobo vi no meu reflexo no espelho enquanto terminava de pentear meus cabelos. Um misto de ansiedade com pura alegria era o que eu via. Mal consegui dormir na noite passada de tanta ansiedade pra esse dia chegar.
—Gil!!! Já está pronto, querido?
—Quase, mãe! Só tô terminando de pentear o cabelo.
—Então se apresse. Temos que chegar ao aeroporto pelo menos com uma hora de antecedência do seu voo pra fazer check-in.
—Ok. Já tô saindo.
Uma última arrumada nos cabelos, perfume e eu tava pronto pra ir reencontrar Sara em São Francisco.
...
—Desse jeito, você vai cavar um buraco no chão.
Minha mãe me resmungou em tom divertido, enquanto me via andar de um lado para o outro naquela aérea onde aguardávamos o voo ser chamado.
—Esse voo que não anunciam logo.
—Ainda não está nem na hora de ser anunciado, querido. Calma!
Eu estava uma pilha de nervos e ansiedade pra viajar logo.
—Senta aqui do meu lado.
Mesmo não querendo me sentar, eu fui e atendi o pedido da minha mãe.
—Meus Deus! Que mãos mais frias, Gil.
—Eu tô nervoso. É a primeira vez que viajo de avião.
—Bom... não é só pela viagem de avião em si que está tão nervoso assim, não é?
Minha mãe me conhecia bem demais pra que eu tentasse enganá-la.
—Ok! Eu tô mais assim também pelo meu reencontro com a Sara e... pelo fato de conhecer os pais dela. Será que eles vão gostar de mim pessoalmente?
Era uma preocupação que há dias me atormentava. Era uma experiência que eu até então não tinha passado. Conhecer os pais de uma namorada era algo novo pra mim.
Eles até então só me conheciam pela tela do computador, agora, estaríamos frente a frente e eu estava um tanto apreensivo com isso. E havia um agravante nisso que me deixava ainda mais apreensivo. O pai da Sara era um sujeito sério e pior, bravo, bem bravo. Sem contar, que ele tinha ciúmes da filha. E pior ainda, ele nem sonhava quem de fato eu era pra filha dele. Somente a dona Laura sabia que eu era namorado da Sara. O senhor Otávio achava que eu era só um amigo da filha dele e que estava indo visitar a minha "amiga". Ele sabia que tinha sido na minha casa que sua filha ficou e achava que nós tínhamos virados grandes amigos por causa disso. Mas não era bem assim!
Sara não quis contar pra ele a verdade sobre quem eu era pra ela. Isso por duas razões: uma, que seu pai não ia entender esse namoro a distância e outra, porque ele era daquele tempo em que o rapaz vai primeiro falar com o pai da garota antes pra pedir autorização dele pra namorá-la, pois foi assim que Otávio fez quando foi com a mãe da Sara. Então era isso que eu teria que fazer também, se quisesse namorar sério com Sara. Além de ganbar moral com meu sogro e me dar bem com ele, além de mostrar que as minhas intenções eram as melhores com a filha dele.
—Tenho certeza que eles vão gostar! Você é um bom rapaz.
—E se o pai da Sara não aceitar que eu namore a filha dele? Se ele achar que não tô a altura de namorar a Sara?
—Você mostra pra ele com atitudes que está sim a altura de namorar a filha dele.
—Falando parece fácil. Acho que na hora vou ficar tão nervoso que nem sei se conseguirei falar o que tenho que falar.
—Sabe quem você tá me lembrando falando assim?
—Quem? — Lancei um olhar à minha mãe.
—Seu pai. — Minha mãe sorriu ao mencionar meu pai. _Um dia antes dele ir falar com seu avô pra pedir autorização pra gente namorar, eu lembro que a gente conversou sobre a ida dele lá em casa e ele tava todo nervoso e falando exatamente assim que nem você.
—Meu avô era bravo? Sara disse que o pai dela é bastante.
Eu não conheci meu avô. Ele morreu antes de eu nascer.
—Seu avô era militar. Quer homem mais bravo e rígido que esse?
Nós sorrimos disso.
—O pai da Sara também morre de ciúmes da filha, segundo ela me disse. — Comentei logo em seguida.
Minha mãe tentou me tranquilizar dizendo que isso era normal. Meu avô mesmo também morria de ciúmes dela e quase não aceitou o namoro dela com meu pai, mas meu pai conseguiu dobrar com paciência aquela ciumeira toda do sogro e namorar com minha mãe. E era isso, que mamãe disse que eu devia fazer pra me sair tão bem, como meu pai se saiu.
Poucos minutos depois enquanto a gente conversava já sobre outro assunto, vimos Phil aparecer. Ele parecia nos procurar e assim que olhou em nossa direção, minha mãe acenou pra ele e então ele veio até nós.
—Oi, querida!
Phil deu um beijo na boca da minha mãe. Eu sorri discretamente ao lembrar que isso antes me incomodava, mas agora não mais.
Nesses meses que se passaram, Phillip e eu, nos tornamos amigos mesmo. Ele era um bom padrasto. Excelente, na verdade! E eu aprendi a gostar verdadeiramente dele.
—Gil! — Ele me deu um abraço e algumas tapinhas nas costas. _Que bom que cheguei há tempo de me despedir de você. Dei uma fugida do trabalho só pra isso. E aí, ansioso pra viajar?
—Ansioso e nervoso não só pra viajar, mas pelo reencontro com Sara e com o fato de conhecer os pais dela.
—Posso imaginar. Mas vai dar tudo certo, rapaz.
—Ele tá preocupado se os pais principalmente, o pai da Sara vai aceitá-lo bem.
Antes que Phil me dissesse qualquer coisa, eu tomei a frente e lhe disse:
—Phil vou te fazer uma pergunta e quero que responda com sinceridade e não pra me agradar, ok?
—Claro. Pode perguntar o que quiser.
—Você aceitaria um cara como eu namorando a sua neta, porque a sua filha não dá.
Ele riu e minha mãe também.
—Claro que aceitaria um rapaz como você namorando a Bia. Você é um ótimo rapaz, Gil. Ajuizado. Responsável. De excelente caráter. Eu ficaria muito contente se minha neta arranjasse alguém que nem você pra namorá-la.
—Valeu, Phil.
O primeiro chamado do meu voo foi anunciado naquele instante e eu me despedi da minha mãe com um longo e apertado abraço. A gente ia ficar duas semanas sem se ver. Essa era a primeira vez que ficaríamos tudo isso de tempo longe um do outro. Já era meio que um 'ensaio' pra ela começar a ir se acostumando com a ideia de eu longe dela, já que se eu fosse aceito na UCLA iria morar longe dela e de Las Vegas.
—Diz pra Sara que mandei lembranças e que eu adoraria ter ido com você pra visitá-la, mas com a exposição chegando não foi possível.
—Eu digo sim.
—Vou ficar com tanta saudade de você. E sem contar, que esse vai ser seu primeiro aniversário e Natal que passará longe de mim. — Minha mãe tava quase chorando. _Você podia deixar pra ir depois do seu aniversário e regressar antes do Natal, Gil.
Suspirei encarando Phil que apenas sorriu. Aquele assunto de novo. Já perdi as contas de quantas vezes ela já disse isso.
—Mãe, desse jeito eu só ia passar uma semana com a Sara. E a gente já conversou sobre isso.
Meu aniversário seria daqui à quatro dias. E atendendo ao pedido de Sara, eu decidi que passaria essa data com ela já que quando foi o aniversário dela há dois meses, não estive presente. E minha namorada ainda me convidou pra passar o Natal com ela e seus pais. Eu aceitei seu convite que fora reforçado por dona Laura.
A minha decisão de passar o meu aniversário e também o Natal com a Sara e a família dela, deixou minha mãe triste e até sentida. Eu sei disso, apesar dela tentar me convencer do contrário. Mas eu queria muito passar essas duas datas ao lado de Sara. Seria a primeira vez que passaria um aniversário e o Natal com uma namorada.
—Beth, querida, ele já passou vários aniversários e Natais com você e, ainda vai ter muitos outros pela frente pra passar ao lado do seu filho. Mas, agora que o Gil tem uma namorada é normal que queira passar com ela essas datas comemorativas. — Phil piscou pra mim e afagou as costas da minha mãe que estava ainda abraçada à mim.
Minha mãe tava fazendo um dramalhão mexicano com aquilo e também com a minha escolha pela a Universidade.
—Eu sei, Phil. Mas além disso, também são muitos dias longe. — Ela se afastou um pouco e tocou meu rosto.
—Mãe são só duas semanas.
—E eu vou morrer de saudades do mesmo jeito que se fosse apenas uma semana.
—Querida, ele está indo pra Califórnia passar 14 dias. Não está se mudando de vez pro Japão, não é Gil? — Phil brincou tentando amenizar o clima e descontrai-lo.
—É, mãe. Além do mais, se eu for pra UCLA a gente vai ficar muito mais do que duas sem se ver.
—Isso vai ser difícil pra mim. Por que tinha que escolher uma Universidade em outro estado, Gil?
Era mais um lamento do que uma bronca prontamente.
Eu já ia lhe responder, quando Phil tomou a frente e me livrou de explicar aquilo pela enésima vez à ela.
—Beth... "A gente cria os filhos para o mundo e não pra gente!", Já dizia o sábio, querida!
Ela não contestou as palavras de Phil e me deu um beijo seguido de outro abraço. Depois foi a vez de Phil se despedir de mim com um abraço.
—Boa viagem, Gil. E dê lembranças a Sara e um abraço nela por mim.
—Pode deixar, Phil.
Despedidas feitas, eu segui pra área de embarque. Poucos instantes depois, já me encontrava acomodado em minha poltrona do avião localizada próxima a janela da aeronave e ansioso pra que o voo decolasse logo.
Enquanto olhava pela janela, senti alguém se acomodar ao meu lado. Por curiosidade, virei o rosto na direção da pessoa e descobri que era uma garota. Ela aparentemente devia ter a mesma idade que eu. E após se acomodar ali ao meu lado, a garota começou a puxar conversa comigo.
Seu nome era Jessie e ela parecia ser legal, mas eu não tava muito a fim de conversa naquele momento, só que pra não passar por mal-educado, eu falava com ela.
Jessie me fez lembrar por um instante de Sara, pois ela além de morena e estar usando uma camisa de banda de rock, ainda falava tanto quanto minha namorada.
—Você tá indo visitar alguém?
—Sim. Minha namorada! — Contei.
—Ah, legal! Eu tô indo reencontrar umas amigas e curtir muita praia.
A comissária de bordo avisou pra colocarmos os cintos que a aeronave já iria decolar.
E quando o avião começou a decolagem poucos instantes após o aviso da aeromoça, a garota que estava sentada ao meu lado agarrou a minha mão de supetão. Olhei assustado pra tal Jessie e vi que ela estava de olhos fechados e bem apertados, certamente, de medo. Assim que já estávamos nas alturas, ela largou minha mão e me pediu desculpas pelo que fez. Disse que morre de medo quando o avião decola e pousa.
—Tudo bem.
O voo teria duração de cinquenta minutos. Seria uma viagem curta e rápida. E durante o percurso tranquilo acabei por me render a ficar de conversa com minha mais nova amiga. E quando nos espantamos a comissária de bordo já dizia pra recolocarmos os cintos, pois iríamos pousar. E advinha? Jessie segurou na minha mão de novo enquanto o avião pousava.
—Bom... foi legal te conhecer. A gente se vê quem sabe, muito futuramente, pelos corredores da UCLA ou até mesmo numa das salas de aula de lá, né? Futuro colega.
Ela se aprovada naquela universidade também faria o mesmo curso que eu: Biologia.
—Pois é.
—Tchau, Grissom. Boas férias.
—Pra você também.
Nós saímos da aérea de desembarque e seguimos direções opostas.
Havia muita gente no aeroporto e eu tentava encontrar Sara no meio daquele povo, mas não tava encontrando. Já ia pegar meu celular pra mandar um SMS pra ela perguntando onde exatamente minha namorada estava, quando enxerguei mais adiante, no meio de algumas pessoas que seguravam um papel com o nome de quem aguardavam desembarcar, uma que escondia o rosto atrás de uma folha de papel e eu soube imediatamente que era Sara. E advinha como eu soube disso? Porque no papel estava escrito assim: quatro olhos!
Só havia uma pessoa naquela cidade que eu conhecia e que me chamaria assim, e essa pessoa era Sara.
Sorri daquela maluca. Logo já seguia às pressas até ela que estava parada há certa distância de onde eu me encontrava.
—Sara Sidle! — Anunciei assim que me encontrava diante dela.
—Sou eu!
Ela me respondeu baixando o papel e assim pude ver seu largo sorriso que estampava seu rosto.
—Só podia ser mesmo você quem estava atrás desse papel, sua engraçadinha!
Seu sorriso fez meu coração disparar.
As pessoas a minha volta passaram a não existir mais.
Estar ali diante dela era tudo que eu mais deseja desde que ela embarcou de volta àquela cidade meses atrás.
—E a...
Eu não lhe dei mais tempo pra que me dissesse nada além disso, pois eu a beijei.
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