Symphony of a heartbreak
1 Girl in the yellow dress
Notas iniciais
Espero que gostem!
“Meninas, por favor, chequem suas bagagens uma última vez antes de subirem” Momo instruiu, falando um pouco mais alto para ser ouvida “lembrando que todos os assentos do ônibus já foram sorteados. Obedeçam a ordem numérica!”.
Ela suspirou quando Mina passou por ela, tagarelando tão alto com uma outra garota que Momo duvidava que houvesse escutado uma palavra do que havia acabado dizer. Mas, à bem da verdade, a menina do cabelo rosa era tão neurótica com suas roupas e maquiagens que era bem provável que já houvesse checado suas malas meia dúzia de vezes antes de pensar em coloca-las no compartimento designado do ônibus. Ela envolveu o próprio torso com os braços, sentindo a brisa fria da madrugada, e conteve um bocejo. Era impressionante que seu corpo sentisse sono no meio de toda aquela gritaria.
Ela ouviu uma voz masculina altiva e familiar exclamando seu nome, e o som de passos apressados ribombando no pátio externo. Nem sequer precisou olhar para saber quem era:
“Iida” ela cumprimentou, e então: “o que você está fazendo aqui?”.
“Yaoyorozu” ele acenou com a cabeça, ajeitando os óculos de forma mecânica “eu vim ajudar com a organização, eu sei como as turmas podem ser”.
Momo abriu um sorriso fraco, até um tanto complacente. Não eram nem cinco horas da madrugada ainda, mas Iida havia saído da casa dele para ajudar. Talvez ele devesse concorrer à presidente do grêmio estudantil naquele ano – ela sentia como se o cargo de representante de classe ainda não fosse suficiente para o garoto.
“Eu agradeço, mas-”.
“Ei, quatro-olhos, tá fazendo o que aqui, porra?” o tom de voz sempre cortês interrompeu-a antes que ela pudesse terminar, e Katsuki apareceu no vão da porta do ônibus, equilibrado em um degrau com metade do corpo para fora “vai dormir mané”.
Iida pareceu respirar fundo antes de responder “Bakugou, bom dia. Eu vim apenas ver se a Yaoyorozu precisava de alguma coisa”.
“A gente tá aqui com ela, pode vazar, antes que eu-”.
Meneando a cabeça, Momo colocou as mãos nos ombros de Iida suavemente e o empurrou para longe do alcance de Katsuki. “Desculpa por isso. Ele fica ainda pior de manhã. E eu realmente agradeço pela preocupação, Iida, mas não há necessidade. O Katsuki pode criar algum problema, mas eu tenho o Shouto e os veteranos para ajudar. Vai ficar tudo bem”.
Ele lançou um olhar por cima do ombro dela, erguendo as sobrancelhas meio incrédulo, mas por fim resignou-se e concordou. Mas ficou por perto mesmo assim enquanto Momo observava os outros estudantes entrando no ônibus, um a um.
“Eu só fico um pouco tenso. Você e o Monoma são os únicos representantes de sala na viagem, e, não sei. Não é um grupo muito comportado, é?”.
Ela se dignou a rir “não, não são. Mas nós vamos ficar bem. Você deveria dormir”.
“Certo. Mas não se desgasta demais, ok? As nacionais de física vão ser na semana que vem, e eu não acho que podemos ganhar sem você”.
Momo afagou de leve os ombros dele, assentindo, e então ele se retirou. O sol já estava se levantando, mergulhando o pátio em uma luz alaranjada cruel, quando Momo sentiu o primeiro bocejo quebrar suas barreiras e ressoar. Ela esfregou os olhos com os punhos fechados, e, de repente, sentiu alguma coisa macia e aconchegante sendo colocada em torno dela.
“Coloquei uma almofada na sua poltrona mais cedo, antes do ônibus virar essa confusão, e com sorte, ninguém deve ter pegado ainda” Shouto disse, sorvendo um gole cuidadoso do seu chá, tão quente que a fumaça se condensava na frente do rosto dele “você também deveria descansar”.
Ela apoiou a cabeça no ombro dele, decididamente cansada demais para protestar, e agradecendo aos céus por ele ser tão mais alto, e os dois caminharam de volta para o veículo, o primeiro de uma trinca, recheado de adolescentes que se dividiam entre caindo do sono por cima uns dos outros, ou bêbados de tanta cafeína e energético que pareciam estar prestes a subir pelas paredes do ônibus.
Seria uma longa, longa viagem. Ela bocejou de novo e deixou que a Shouto a guiasse.
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“Kaminari, se você não abaixar o volume desse joguinho estúpido agora, eu juro que eu vou cometer um assassinato em série!” Jirou resmungou, se esticando para bater com o punho na poltrona do garoto.
“Em série?” Shouji repetiu.
“É quando um assassino mata mais de uma pessoa” Shinsou contribuiu, de onde tinha o nariz enfiado em mais um romance policial.
“Valeu pelo monólogo, ó lorde criminalístico” Camie pronunciou-se, de onde tinha o rosto apoiado em uma mão, bem acima do apoio de costas de Jirou “mas não foi isso que o tio quis dizer, sacou?”.
“Eu disse em série porque se não me ajudarem a parar com esse som dos infernos, vou matar todos vocês juntos” decretou.
“Uau, Jirou. Por que todo esse mal humor?” Sero cutucou “Caiu da cama hoje cedo, foi?”.
“Na verdade, sim!” ela resmungou, cruzando os braços e o fitando com um olhar tão azedo que o sorriso do garoto morreu no rosto “cai da cama, bati meu tornozelo, perdi o café da manhã, e agora estou presa nesse pedaço de lataria com o Kaminari que NÃO DESLIGA ESSA PORCARIA DE SOM”.
O garoto finalmente cedeu, bloqueando o celular e deixando-o cair sobre o colo, gesticulando exasperado com as mãos em seguida “Ok, desculpa! Eu não sabia que a sua manhã tinha sido tão merda assim”.
Camie dobrou o braço para conseguir massagear de forma desengonçada a nuca de Jirou, murmurando algumas palavras de apoio. A verdade é que a manhã dela nem havia sido tão ruim assim, mas ela detestava viagens em grupo. Enquanto sua sensibilidade auditiva havia lhe garantido ótimas oportunidades musicais (e um convite do maestro para continuar sendo monitora da banda marcial mesmo depois de sair do grupo, querendo focar nos estudos), tudo isso podia muito facilmente se transformar em um pesadelo quando ela estava reclusa em um ambiente pequeno com muitos outros barulhos.
Kaminari era o rei de tornar qualquer ambiente pequeno em um pandemônio, afinal.
Ela estivera, bem como o restante do grupo, extasiada com a notícia de terem sido classificados para as nacionais, mas bem que ela queria que a escola deles fosse um pouco mais próximo de Tóquio. E agora se perguntava o quão melhor os estudantes da UA iriam se sair sem terem passado quase doze horas com as bundas sentadas nos assentos desconfortáveis de um veículo de segunda mão.
Entretanto, pensando bem, ela duvidava que a UA viajasse em qualquer coisa que não fosse primeira classe. Não com aquelas gordas doações milionárias dos Yaoyorozu e dos Todoroki.
Depois de ter desligado o joguinho inferno, Kaminari começou a puxar assunto com Shinsou, à princípio pedindo que ele contasse um pouco sobre o enredo do livro que estava lendo, e então, passando a fazer todo tipo de piada e teoria de mal gosto sobre os personagens, o que deixou o normalmente estoico trompista vermelho até as orelhas. Camie pareceu se divertir ajudando.
Jirou suspirou, fechando os olhos, e colocou os protetores de ouvido, afundando da melhor forma que conseguiu na cadeira de almofadas finas. Só mais algumas horas, ela pensou, só mais algumas longas horas.
Quando ônibus finalmente parou, Jirou estava há muito adormecida. Ela foi gentilmente acordada por uma mão balançando seu ombro, e, quando abriu os olhos, encontrou os olhos tímidos de Amajiki vacilando entre ela e o piso do veículo. O veterano era sempre uma presença bem-vinda para ela, porque Jirou se sentia estranhamente familiar com a eterna vergonha e delicadeza com a qual ele tratava as pessoas.
Os outros dois, postados atrás dele, no entanto, estavam muito diferentes. Mirio e Nejire basicamente vibravam de animação, aguardando não tão paciente que seu amigo (namorado? Jirou não era capaz de dizer) terminasse de acordá-la.
“Quase todo mundo já desceu” Amajiki informou.
“Seus amigos estão te esperando lá fora!” Nejire completou, naquele tom de voz que sempre dava a impressão de que ela havia tomado dez ou mais xícaras de café.
Jirou preguiçosamente se levantou da cadeira, agradeceu ao motorista, e seguiu os veteranos para fora do ônibus. Quando checou pela sua bagagem, no entanto, encontrou o compartimento vazio, e virou-se para perguntar dos três, mas eles apenas lhe disseram que não faziam ideia. Mirio saiu puxando os dois pelas mãos, indo fazer o check-in no hotel, sendo os únicos maiores de idade além do professor.
“Procurando por isso?” Kaminari cutucou-a no ombro.
Ele vinha trazendo a própria mala de rodinhas com uma mão, e a mochila dela, bem como a maleta com os afinadores e outros itens que ela precisaria mais tarde. Seu sorriso era o mesmo de sempre, mas seu olhar disse a Jirou que ele estava pedindo desculpas por mais cedo, à sua maneira.
“Obrigada” ela sorriu, e estava sendo sincera. Depois de olhar rapidamente ao redor, perguntou: “onde estão os outros?”.
“Shinsou foi ao banheiro, coitado, não aguentava mais. O Sero foi com o Kirishima para, nas palavras deles, ‘pegarem os melhores quartos, idiotas’ e o Shouji foi com eles para impedir que eles façam alguma besteira. E a Camie-”.
Um grito estridente o cortou na metade da frase, e Jirou quase exclamou um palavrão. Era impossível não reconhecer a voz de Camie, mesmo daquela forma. Ela girou sobre os calcanhares para ver a direção da qual estava vindo, e notou que um trio de veículos reluzentes haviam estacionado logo atrás dos deles, tomando quase todo o espaço do estacionamento externo. Um homem que parecia estar na metade dos seus trinta anos havia descido do primeiro ônibus, o cabelo loiro e pálido amarrado na altura da nuca, e seguindo ele, vinha um garoto com os fios da mesma cor, mas muito mais espetados. Ele mal havia dado dois passos além do ônibus quando foi atacado por um vulto que Jirou conhecia muito bem.
“CAMIE, MAS QUE PORRA VOCÊ TÁ FAZENDO?!”
“Jovem Bakugou, por favor-!” o homem tentou, mas foi acometido por uma série de tosses.
“Então esse é o famoso Bakugou?” Kaminari disse, em um tom de compreensão “eu esperava que ele fosse, sei lá, mais alto”.
Jirou ficou calada, assistindo, enquanto Camie completamente ignorava as reclamações do garoto, enlaçava seu torso com os braços, e o girava em um abraço. O menino resmungou e gritou obscenidades, até que um outro apareceu, colocando uma mão no ombro de Camie e pedindo para que ela o colocasse no chão. Esse segundo tinha o cabelo mais esquisito que já tinha visto na vida, e ela era amiga de Shinsou.
Uma fileira de alunos começou as descer dos ônibus, e juntarem suas malas, um depois do outro. O homem com o cabelo loiro que parecia meio doente foi junto com uma garota muito alta de cabelo preto para recepção, deixando os alunos para se espreguiçarem e conversarem ao ar livre.
“Eles são os caras da Academia de Tóquio, então?”
“Cacete, Shinsou!” Kaminari exclamou, na voz mais fina que ela já havia ouvido sair da boca dele “vai assustar outra pessoa”.
“Eu só fui no banheiro, cara” ele deu de ombros. “Enfim, eles são nossos maiores competidores, certo?”.
Jirou murmurou “A Camie vive falando como esse amigo dela é um ótimo percussionista... sem falar daquele garoto, o Todoroki mais novo, que foi treinar trompete em Milão quando era mais novo”.
Kaminari apoiou um braço no ombro dela, cotovelo dobrado e sorrisinho de canto “mas todos nós sabemos por que que as arquibancadas deles ficam lotadas, não é?”.
Ela rolou os olhos, estapeando o braço dele “sem comentários machistas por favor”.
“Eu não disse nada” ele ergueu as mãos “além do mais, não estou preocupado”.
“Não?”.
Kaminari estalou a língua “Não. Porque a gente tem você”.
Jirou bufou. Quando ela começou a andar na direção do prédio, Kaminari deu o melhor de si para segui-la, mesmo levando todas as malas.
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“Tudo certo!” Professor Toshinori esfregou as palmas das mãos com um sorriso satisfeito, e afastou-se do balcão, pegando um cafezinho na máquina “Foi mais rápido do que eu pensava”.
“Mais rápido?” Momo repetiu, meio chocada “Metade deles esqueceram as permissões dos pais, e um garoto passou mal com os doces da recepção porque não sabia que era alérgico à amora?!”.
Toshinori riu, encostando-se em uma coluna “Esse tipo de... contratempo é mais comum do que você imaginaria, jovem Momo. Nos meus anos de professor, eu já tive que lidar com coisas bem piores. E eu imagino que você passará pelo mesmo” ele tomou um gole demorado “... isto é, se você ainda quiser ser professora”.
Momo abaixou os olhos para onde suas mãos se uniam, ainda segurando o cobertor de Shouto. Ela havia conversado sobre isso com os meninos, claro, e com os seus pais, vez ou outra, mas bem poucas com o professor. Ainda era um assunto sensível, mesmo após tantos anos.
“Eu penso sobre isso” ela respondeu. “Nada definitivo ainda”.
“Claro” Toshinori assentiu “você ainda é nova. Tem muito o que ver pela frente. Mas é uma aluna brilhante, não se esqueça disso”.
Toshinori então pediu licença e se retirou (provavelmente antes que aquela conversa se tornasse desconfortavelmente emocional) e ela ficou relativamente sozinha na recepção. Relativamente porque o cômodo estava apinhado de outros adolescentes, falando alto uns com os outros e rindo de piadas que ela não compreendia.
“Momo!” a voz de Katsuki cortou a cacofonia, os ouvidos treinados dela facilmente a captando, e ele logo entrou no seu campo de visão, ao lado dele, vinha... “essa é a Camie, minha dor de cabeça desde os 9 anos. Camie, essa é a Momo, ela é foda, então não fala merda”.
“Camie” Momo estendeu uma mão para um cumprimento.
“E aí morena, morô?” ela respondeu, e Momo conteve uma risada vendo a forma como Katsuki contorceu o rosto em uma careta “cê é gatinha, viu?”.
“Obrigada, você também é muito bonita” ela riu dessa vez “você já sabe onde fica seu quarto, Katsuki?”.
Ele rolou os olhos “do lado do metade-metade de merda, já sei. Eu só vou com a Camie ali fora e já volto, eu” ele parou de repente, e pareceu pensar em alguma coisa, mas mudou de ideia “fica de boa. Eu já volto”.
Momo acenou com uma mão enquanto a figura de Katsuki diminuía com a distância, e foi deixada para seus pensamentos apenas por tempo o suficiente para Shouto se aproximar, trazendo as malas dela “Desculpa a demora. Eu esbarrei com um cara estranho de outra escola no caminho”.
Aceitando o braço que ele oferecia, Momo respondeu: “sem problemas”.
Eles pegaram o elevador para o 4º andar com mais doze adolescentes e suas bagagens. A pousada era um prédio simpático, em cores neutras do lado de fora, e muito bem conservada por dentro. O design interior era quase totalmente clássico japonês, o que não era nenhuma surpresa, considerando que a irmã mais velha de Shouto era a proprietária. Momo ficara até impressionada que eles haviam aceitado abrir parte do interior tradicional pelo elevador, mas ela supunha que não seria muito prático para os hospedes ter que subir todos aqueles lances de escada.
“Foi você quem se ofereceu para carregar, agora aguenta!”.
“Eu não sabia que você estava trazendo um estúdio inteiro aqui!”
“Deixa de ser dramático!”.
“Parece que alguém está brigando” Shouto comentou.
E ele estava certo. Parados na frente de um dos quartos e gesticulando ferozmente um para o outro, estava um par de adolescentes. O garoto, loiro, usando uma jaqueta preta, vinha trazendo três malas, enquanto a garota, mais baixa, com enormes fones de ouvido pendurados em torno do pescoço, tinha um sorriso convencido no rosto.
Momo não os conhecia, mas ela não pôde evitar o que era basicamente o seu instinto natural: “nós podemos ajudar?”.
Os dois pararam de discutir no mesmo momento, virando-se para ela com as bocas ainda meio abertas. Ela notou quando o sorriso do menino se alargou, mas a garota simplesmente desviou o olhar “não. Tá tudo certo aqui”.
“É” ele respondeu, deslizando para o lado e passando um braço pelos ombros da garota “eu só estava aqui, levando todas as malas da minha amiga para o quarto dela. Sabe como é”.
Momo precisou acotovelar Shouto para que ele não risse. “Claro. Bem, se precisarem de alguma coisa, eu estou literalmente no quarto ao lado” ela apontou “Yaoyorozu Momo. Esse é Todoroki Shouto”.
“Prazer”.
“Igualmente. Kaminari Denki, Kyoka Jirou. Quarto ao lado” ele disse “bem, ela está ao quarto do lado. Eu estou no andar de baixo. Se você precisar de alguma coisa”.
Momo sorriu por educação, e a garota – Jirou – puxou o garoto pela manga antes que ele pudesse dizer mais alguma besteira. Atrás deles, um suspiro dramático ecoou, e a professora Midnight estava lá, com as mãos nos quadris, e uma expressão cômica.
“Professora...?”.
“Ah, os jovens atualmente...” ela disse, e partiu.
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Jirou dormiu como uma pedra. Nem mesmo Camie, que estava roncando como um trator na cama do outro lado do quarto conseguiu acordá-la. Ela havia retornado de sabe-se-lá-onde com seu amigo da outra escola algumas horas depois, e caído direto na cama. Jirou ficou agradecida por ela não ter resolvido treinar seus movimentos de muay-thai ou algo assim.
Foi apenas quando Sero, Kaminari e Kirishima começaram a bater coletivamente na porta do seu quarto que ela acordou, e então foi arrastada parcialmente consciente para o lado de fora. Era hora do jantar, e os outros adolescentes também estavam saindo de seus respectivos quartos para comerem. Ela arrastou os pés até o banheiro e tomou uma ducha rápida, enfiando os cabelos em uma tiara e apanhou os fones d ouvido antes de descer com os meninos e Camie para a copa.
“Shinsou, larga esse livro, cara” Sero reclamou, batucando os dedos na mesa enquanto eles esperavam a comida.
“Eu estou quase no final, por favor”.
Jirou hesitou. Ela geralmente não gostava sequer de pensar em ficar sem os seus fones à, pelo menos, o alcance das suas mãos. Mas seus pais e Kaminari haviam dito que talvez ela devesse começar por gestos pequenos, então, ela respirou fundo, e os tirou.
“Aqui” disse “você não vai conseguir terminar com todo esse barulho”.
Shinsou a olhou espantado, mas Kaminari parecia ter aberto o sorriso mais largo da sua vida. Jirou encolheu os ombros e olhou para o prato vazio, sentindo exposta, mas, ao mesmo tempo, bem.
“Ei, olha ali” o garoto chamou sua atenção “é aquela garota que você achou gata”.
“Eu sei que o sonho da sua vida é ser eu, mas por favor, para de interpor as suas próprias opiniões em mim” ela retrucou “foi você quem a achou... bonita”.
Ela se perguntou como ele havia conseguido encontra-la naquele mar de adolescentes, mas, olhando bem, ela realmente se destacava. Estava usando um vestido amarelo que ia até os joelhos, e parecia combinar com o cabelo espetado do garoto mal-humorado que vinha atrás dela, e, do seu outro lado, o menino do cabelo meio ruivo e meio branco, vestido todo de preto e com olhar distraído.
Camie imediatamente pulou da cadeira e acenou. Como que empurrado por uma força magnética, o garoto loiro grunhiu e começou a caminhar na direção da mesa deles. Jirou perguntou-se como Camie conseguia manter-se sempre tão alegre. Os outros dois vinham logo atrás deles.
“O que você quer, merda?”.
Camie o ignorou completamente “Pessoal, esse é o Bakugou. A gente se conheceu na aula de balé do 5º ano” o garoto soltou um sonzinho estrangulado que passou despercebido por todos, exceto o outro garoto que riu baixinho “Bakugou e amigos do Bakugou, esses são os meus amigos”.
Eles se apresentaram cordialmente. Jirou tentou não olhar muito fixamente para eles, por educação, mas era um pouco difícil, porque o trio era realmente muito bonito. Ela imaginava que o mais novo dos Todoroki, com a cicatriz no rosto, fosse um sucesso e tanto na escola deles. E, no mesmo momento em que começou a pensar isso, ele puxou o cotovelo da garota de leve e disse: “eu vou lá fora bem rápido, o Midorya tá me ligando”.
“Tsc, já não basta tu ser um merda, tem que namorar outro merda também” Bakugou rosnou, puxando uma cadeira com ferocidade, e depois arrastando uma outra para Momo.
Todoroki já estava quase saindo, mas inclinou-se para dizer: “O único motivo de você não ser completamente insuportável é a sua namorada, então fica quieto” e depois desapareceu na multidão.
Bakugou ganiu como um pitbull preso na coleira, mas não disse nada. Momo sorriu sem graça e sentou-se na cadeira que ele havia puxado para ela “então... nacionais?”.
“Sim!” Kirishima imediatamente animou-se “o que vocês tocam, afinal? Eu faço parte da percussão. A Camie toca clarinete, e o-”.
“Trompete” Shinsou informou.
“Trompa” Sero emendou.
“Trompete também” Kaminari pronunciou-se.
Kirishima fez um bico “ah, cara..” mas ninguém deu ouvidos à ele.
Para a sua surpresa, os olhos escuros da outra garota fixaram-se nela: “E você?”.
“Ah, eu” Jirou gaguejou “Eu não faço parte. Não... não mais”.
Kaminari a salvou: “Jirou era nossa violinista principal, mas ela teve que sair para estudar. Mas como ela é muito boa, o professor Aizawa pediu para que ela ficasse como monitora dos ensaios e das performances, e nos ajudasse e tal”.
“A Momo é parecida” Bakugou gesticulou, embora ainda parecesse estar falando à contragosto.
“É?”.
“Eu sou parte do corpo coreográfico, na verdade” ela explicou, parecendo ao mesmo tempo envergonhada e orgulhosa. Jirou achava que entendia o sentimento “quando fazemos performances com a banda marcial, digo. Já que está é uma competição apenas de orquestras, eu fiquei com o violoncelo, mas eu não sou muito boa”.
“Uma porra” Bakugou resmungou, mas não se importou para elaborar.
Jirou franziu o cenho, pensativa. Realmente, era mais do que comum que amigos – principalmente amigos ferozmente protetivos, como aquele Bakugou parecia ser – elogiassem uns aos outros assim, mas ela observou bem a postura de Momo, a forma como ela naturalmente se sentava inclinada, com um braço sobre o colo. E a mão que ela tinha sobre a mesa: os pequenos band—aids, e as linhas avermelhadas. A forma rígida e nada delicada que os nós dos seus dedos eram articulados.
Se ela tivesse que apostar, diria que aquela garota era bem mais do que só uma violoncelista nas horas vagas. A verdadeira questão é se ela estava sendo apenas muito crítica consigo mesma, ou exibindo uma falsa modesta. Jirou sabia que, quando se tratava de músicos, aquela única resposta podia significar muito.
Porém, o jantar foi servido. Momo abaixou seus olhos escuros e Jirou pegou o fone de ouvido de volta quando Bakugou e Camie começaram a discutir por causa dos brócolis.
Quando Todoroki retornou, ele encontrou o loiro soltando fumaça pelas ventas, e Momo calmamente limpando o mingau de aveia que a garota havia jogado nele, com metade do refeitório os encarando em um misto de divertimento e pena.
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Professor Aizawa reuniu todos em um cômodo a prova de som no subsolo para um último ensaio antes do fim do dia. Ele começou pelos sopranos, então a percussão, e, por fim, os pianistas e instrumentos de corda. Jirou observou tudo de uma cadeira no canto. Aizawa se certificava de que ninguém falasse absolutamente nada durante os ensaios, então, quando Jirou fechava os olhos, tudo o que ela escutava era a música, os acordes dançando dentro da sua cabeça, rodopiando em piruetas e fazendo malabarismos. Ela conseguia escutar cada instrumento separadamente se quisesse, mas quando os unia, tudo formava um quadro inigualável.
Mas também significava que ela conseguia apontar cada mínimo erro.
Aizawa os fez repetir cada vez que ela dizia alguma coisa, e o ensaio foi longo. Quando chegou ao fim, todos já estavam exaustos. Kaminari despediu-se dela e saiu se arrastando para o quarto. Jirou ficou para ajudar a arrumar as coisas.
Eles já estavam quase no fim quando ela ouviu seus veteranos discutindo:
“Eu estou dizendo! É uma música de amor, eles são namorados” Mirio insistiu.
Amajiki balançou a cabeça “você não tem como atestar isso, é subjetivo”.
“E você também não tem como discordar, então” Nejire comentou, de onde estava sentada em uma das coxas dele, limpando o bocal que havia usado durante o ensaio “eu acho que pode ser os dois”.
Mirio pendeu a cabeça para o lado “os dois?”.
“Ele está apaixonado por ela, isso é óbvio” ela deu de ombros “talvez eles tenham se amado mutualmente um dia. Talvez. O fato é que ele a vê e isso dói. Ela está na pista de dança, longe dele, mas ele a queria perto”.
“Exato” Amajiki assentiu “ele a queria perto, mas ela não está”.
“Eles só estão brigados” Mirio choramingou.
Nejire estendeu uma mão para bagunçar o cabelo ainda meio suado dele “ou eles podem realmente não se conhecerem”.
Jirou os observou por um momento, sentados tão perto, limpando os instrumentos em uma sincronia quase assustadora, e ainda assim, discutindo. Ela se perguntou quantas vezes por dia eles faziam aquilo. Se os outros colegas de classe dele já estavam acostumados.
“De que música vocês estão falando?” ela perguntou, antes que pudesse se conter.
“É..” Amajiki começou, mas Nejire puxou de leve a orelha dele, e recolocou o bocal no saxofone, tocando os primeiros acordes. Mirio a seguiu no violoncelo com uma naturalidade espantosa.
Amajiki não fez menção de pegar seu instrumento, apenas ficou ali, olhando para ao dois, com uma expressão indecifrável, uma das mãos ainda pousada na lombar da garota em seu colo.
“Girl in the yellow dress” uma voz surgiu na entrada da porta, e os três se viraram para ela, em silêncio.
Nejire, no entanto, a olhou de cima a baixo, írises azul bebendo em cada detalhe da garota, e então: “quão apropriado”.
Momo imediatamente desfez a expressão sonhadora, ficando um tanto vermelha “Desculpem! Eu só... o Katsuki me pediu para falar uma coisa com a Camie, e eu vim ver se ela estava aqui. Eu não-”.
“Está tudo bem” Mirio acenou, sorridente.
Eles voltaram a guardar os instrumentos, murmurando entre si, embora Nejire ainda tivesse aquele sorrisinho no rosto. Jirou notou o quão sem graça Momo ficou, e se aproximou.
“Não se preocupa, ela é assim com todo mundo”.
“Assim?”.
“... Flertando, eu acho” ela coçou a nuca “acho que ela gosta da reação que causa nas pessoas”.
“Ela é certamente muito bonita” Momo riu. “Mas ela estava realmente...?”.
“Não” Jirou balançou a cabeça “Digo, eu acho que não. Ela flerta com todo mundo, mas acho que nunca a vi andando com ninguém com exceção deles dois e da Ryuu”.
Jirou ia adicionar um comentário sobre como ela achava que Nejire sem quer tinha olhos para alguém além de Mirio e Amajiki, mas ficou calada. Momo não precisava saber disso. “Então” ela limpou a garganta “Camie já foi dormir”.
“Eu notei. Acho que dizer para Katsuki procura-la amanhã de manhã”.
Jirou brincou com os cadarços do capuz do moletom roxo dela “É. Então...”.
“Eu acho que o seu veterano está certo” Momo disse, de repente “o loiro. Eu acho que ele amava a garota no vestido amarelo, mas alguma coisa aconteceu, e agora tudo o que ele pode fazer é vê-la de longe”.
Jirou ponderou “é uma interpretação melancólica”.
Momo encolheu os ombros “Acho que sim”.
“Mas não é ruim. É... realista. Acho que a maioria das pessoas passa por isso. Quando termina com alguém que ainda ama” disse “é só quem nem todo mundo tinha o talento do Gilmor para escrever uma música sobre isso”.
“Se todos tivéssemos, a única coisa nas rádios seriam músicas melancólicas, não?”.
“Não” Jirou discordou, e Momo a olhou surpresa “Ninguém mais escuta à rádio, Momo. Em que século você vive?”.
“OK, eu armei essa para mim mesma. Mas eu estava falando sério quando disse que todo mundo tem uma garota do vestido amarelo na vida sobre a qual gostariam de escrever”.
Jirou hesitou por um momento, e então: “ou garoto no terno amarelo...?”.
Momo a olhou, mas ela não saberia interpretá-la “nesse contexto, eu prefiro a primeira opção. Músicas românticas são sempre melhores quando há uma bela e dramática musa inspiradora por trás, não é? Essa é alma do romantismo” ela colocou uma mão pensativa no queixo, e emendou “a menos, é claro, que você seja o Sam Smith. Você não acreditaria no quanto eu chorei com Midnight Train”.
Jirou riu, pelo que pareceu a primeira vez desde que colocara os pés naquele maldito ônibus. Ela tomou um gole da garrafinha de água, ainda ouvindo o tom da risada de Momo, e naquele momento, seus três veteranos passaram por elas. Mirio colocou uma mão em seu ombro e perguntou:
“Vocês não vão pegar o elevador com a gente?”.
Eles caminharam juntos. Ainda eram onze e pouco da noite, e aquele elevador não era nenhum trem da meia noite, mas ela achava que serviria.
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Quando ela encontrou Camie ainda acordada no quarto, e ainda por cima, digitando no celular, atirou um travesseiro nela. Os anos de dança clássica e artes marciais fizeram com que Camie nem sequer hesitasse antes de apanhá-lo no ar.
“Aquela amiga do Bakugou estava te procurando”.
“A Momo?”.
“Achei que vocês não se conhecessem”.
Camie deu de ombros. “Um pouco. Katsuki e ela só viraram amigos faz pouco tempo, então...”.
Jirou pensou por um momento, debatendo se realmente precisava saber daquilo, mas por fim decidiu que perguntar não machucaria “eles namoram?”.
Camie deu uma risadinha “Katsuki namora a mesma menina já dois anos, e acho que a Uraraka quebraria o pescoço dele com um golpe de jiu-jitsu se ele pensasse em trair. Não, não. Mas...”.
“... Mas?”.
“Ele é extremamente protetivo com ela, agora que eu parei para pensar” até o tom de voz dela parecia meio confuso “ele e aquele outro, o Todoroki. Eu soube que o último garoto que tentou namorar com ela se deu muito mal, e que ele tem medo desses dois até hoje. Que tipo de coisa será que aconteceu para os dois garotos mais diferentes desse mundo ficarem tão amigos dela?”.
Jirou achou que Camie só estava sendo desnecessariamente misteriosa, mas ela bloqueou o celular e se virou para apagar o abajur em um só movimento, e completou: “Sei lá. Boa noite Jirou”.
E Jirou ficou sozinha no silêncio do quarto, pensando em vestidos amarelos e notas de jazz.
Notas finais
Escola 1: Momo, Katsuki, Iida, Deku, Todoroki, Mina, Uraraka.
Escola 2: Kaminari, Sero, Shinsou, Camie, Shouji, Kirishima, Jirou, Mirio, Nejire, Amajiki.
Professores da escola 1: All Might, Midnight.
Professores da escola 2: Aizawa, Monica.
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