Symphony
1 Papéis e permanentes
A garota abriu os olhos com uma notável preguiça, bocejando em seguida. As orbes esmeralda estavam um pouco ressecadas, e por isso alcançou o colírio na ponta da escrivaninha, e pingou nos olhos. Colocou os óculos de grau altíssimo, e se espreguiçou. Tinha passado toda a tarde estudando, e havia cochilado. Claro, medicina não era uma carreira tão fácil quanto os doramas que sua melhor amiga assistia, faziam parecer.
Sakura Haruno, aos dezessete, não era uma garota lá muito atraente. Quer dizer, ela atraía olhares sim, mas porque tinha uma aparência um tanto estranha: Era bem magra, sua pele muito branca por falta de sol, olhos verdes e brilhantes e um cabelo naturalmente rosa pastel. Tinha 1,61 de altura, e costumava usar roupas muito maiores do que ela, ou de gosto um pouco duvidoso. Além disso, portava sempre um óculos maior que seu delicado rosto, e, bem... Aparelhos auditivos.
Sakura havia perdido pelo menos 70 a 75% de sua audição quando completou sete anos. Seus pais viajavam para cidade vizinha para aproveitar a praia, quando infelizmente, um motorista perdeu o controle na pista, e acabaram colidindo. Ela bateu a cabeça, a buzina foi pressionada de forma que o zumbido afetou a membrana do ouvido. Os pais faleceram no hospital, e a garota quebrou um braço e havia torcido o tornozelo e o pulso.
Com a morte dos Haruno, e visto que eram uma família reservada e ambos eram filhos únicos de pais falecidos, ela acabou indo para um orfanato. Com a audição cada vez mais debilitada e com dores no ouvido, a garota voltou ao hospital várias vezes, e os médicos apontaram que ela estava perdendo a capacidade de ouvir progressivamente. Passou por algumas cirurgias, e após perder boa parte da audição, conseguiu estabilizar. Infelizmente, precisou aprender a língua dos sinais para conseguir se comunicar de maneira adequada.
Desceu as escadas da casa.
—Olha só quem decidiu aparecer. – Uma mulher loira e de olhos verde folha sinalizou, enquanto falava. – Achei que teria que ir lá te buscar a força.
—Quase teve. – Ela sinalizou de volta enquanto conversava. – Estou com fome demais. – Resmungou.
—E quando não está? – O homem sentado na mesa teclava no notebook, quando ambas o olharam e ele riu. Tinha olhos escuros e cabelo preto, preso por um rabo de cavalo. Tinha também uma barba. – Nossa Sakura tem uma buraco negro no lugar do estômago, sejamos sinceros. – Sinalizou, e uma gota surgiu na cabeça da garota, enquanto a mãe ria.
Shikamaru e Temari Nara eram um casal interessante. Passaram todo o fundamental e o ensino médio brigando como cão e gato, mas ainda assim se casaram, e se amam profundamente. Eram um bom exemplo a ser seguido, depois de quase vinte anos juntos. Ambos mostraram para Sakura que havia ainda uma esperança e bondade nos seres humanos.
Temari era enfermeira residente quando Sakura começou a frequentar o hospital, por causa das dores de ouvido. Ela e Shikamaru eram recém casados, e o marido tinha acabado a faculdade, cursando o mestrado. Não tinham pretensão de ter uma criança, até conhecer o pequeno ser cor-de-rosa.
Foi amor à primeira conversa. Ela era uma pessoa um pouco triste, mas totalmente justificado: Tinha acabado de perder os pais, e ainda por cima, perdia pouco a pouco um dos principais sentidos. Ainda assim, era pura e doce, e enfrentava tudo com a cabeça erguida. Temari então conversou com Shikamaru dizendo “se você não concordar com isso, eu vou cria-la sozinha, mas vou ficar com ela.”
Quando Shikamaru conheceu a garotinha dos olhos da esposa, se encantou igualmente. O processo de adoção foi cansativo e demorado, e quando se findou, os dois dedicaram sua vida à nova filha, e mais novo membro da família. Eles optaram por deixar o sobrenome Haruno, em respeito ao amor da menina pelos falecidos pais biológicos.
Temari a ensinou a língua de sinais, e contribuiu com a vontade da garota de fazer parte da área da saúde. Shikamaru era professor, mais especificamente de matemática. Nos primeiros anos escolares, muito bullying e incompreensão por parte dos alunos a tornaram retraída e tímida. Encontraram então uma boa escola, já no ensino médio, que atendia às necessidades especiais da garota, com intérpretes para cada aula. Sakura também tinha seus amigos próximos. Os Nara a ensinaram a utilizar a linguagem de sinais e conversar ao mesmo tempo, para não atrofiar suas cordas vocais, e prejudicar sua capacidade de fala.
—Seu pai está no espírito de implicar com a gente hoje, Sakura. – Temari sinalizou e revirou os olhos. – Ignore ele.
—Não posso mais querer interagir com minha esposa e minha filha que estou implicando. Como você é chata, Temari, é só uma brincadeira. – Sinalizou. – E você ainda riu.
—Pelo amor de Deus, Shikamaru, quase vinte anos e você ainda é insuportável. – Respondeu, enquanto sinalizava.
—E isso faz com que seja impossível você me amar menos. – Piscou.
—Gente, na minha frente não, valeu. Já não basta a vela que eu seguro pros meus amigos todo dia, segurar pros meus pais é demais. – A garota sinalizou, fazendo-os rir.
Sakura atualmente era bem humorada, e com piadinhas ácidas, com respostas sempre na ponta da língua. Se sentou, enquanto Temari servia o jantar. Não era muito o tipo que gostava de conversar durante a refeição, então, enquanto tomava a limonada, observou os pais discutindo.
—Eu quero dar a notícia!
—Mas eu estou há dias atrás disso na internet.
—Mas eu tive a ideia de procurar na internet.
—Não tenho culpa de não gostar de mexer num computador!
—Vocês poderiam tentar não se engolir no grito. Quer dizer, eu sou surda, mas não totalmente ainda. – Brincou. Coraram. – Parece que é sobre mim...? O que querem contar? – Sinalizou.
—Bom querida, é que nós temos um presente pra você. – Temari tomou a palavra antes do marido, que fechou a cara. Riu. – Notamos que você têm tido dificuldades de escutar ultimamente, e que você está há quase cinco anos com o mesmo aparelho.
—Então pensamos que ele já estava muito desgastado pra você, e estava na hora de comprar um novo. – Shikamaru sinalizou. – Seus tios também contribuíram, então nós compramos um modelo bem sofisticado e levamos para ajustar para você.
—Aqui estão. – A mãe depositou a caixinha perto garota. – É rosa, como seu cabelo. – Sorriu.
Ela sentiu os olhos se encherem de água. Ela sabia que aparelhos sofisticados eram avaliados em até quatro mil dólares, e levando em conta que pagaram em ienes, era muito dinheiro. Abriu delicadamente a caixa, tocando o aparelho com delicadeza. Dava até para escondê-lo em meio aos cabelos, tão parecido os tons eram.
—E-eu... Nem sei o que dizer. Obrigada? – Secou a bochecha, e sorriu. – Eu estava precisando muito, mas eu sei que isto foi muito caro. Não precisava ser tão luxuoso assim.
—Você é nossa filha. – Shikamaru tocou seu ombro. – Quando nós te escolhemos, escolhemos dedicar nossa vida toda a você.
—E você é uma boa menina, minha querida. – Temari sorriu. – Você não nos dá nenhum trabalho, é uma aluna exemplar, está sempre se colocando em último plano, quando na verdade é nossa prioridade.
—Isso ainda é muito pouco pra toda felicidade que você nos trouxe por todos esses anos. – O pai disse. – Não vai colocar?
—Vou sim, é que... Eu amo muito vocês. – Começou a chorar copiosamente, embora estivesse muito feliz. Ambos os pais a abraçaram apertado.
Quando se acalmou, terminou o jantar e colocou o aparelho novo. O som invadia seus ouvidos de uma maneira muito melhor. Claro, sua audição ainda era muito mais reduzida que a dos demais adolescentes, mas mesmo assim, aquele aparelho novo era o melhor paliativo que havia ganhado em anos.
Ela escreveu uma extensa mensagens aos seus tios, Gaara e Kankuro, agradecendo-lhes imensamente pelo presente. Eram igualmente apegados a sobrinha adotiva, e faziam o que era possível para ajudar a irmã e o cunhado. Escreveu para seus amigos também, contando da nova aquisição.
Ela não tinha muitos amigos na escola em que estudava. Apenas dois amigos de infância, Naruto e Ino, e seus namorados. Eles tinham um grupo de amigos que se entendiam bem com ela, mas não eram tão próximos. Comemoraram com ela o novo aparelho, e ela se sentia tão feliz que poderia explodir. No dia seguinte, mal podia esperar para mostrá-los.
Sakura tomou um banho então, e se sentou na cama para ler um livro. Foi quando ouviu, na casa vizinha, gritos e mais gritos. Sasuke Uchiha. As discussões familiares na casa Uchiha eram sempre constantes, e muito, muito, muito altas. No geral, conhecia apenas Mikoto e Itachi. Quando se mudaram, ela assou uma bandeja de brownies para os Nara, e ela e Itachi conversaram bastante com seus pais.
Itachi era um garoto legal. Era professor estagiário, e de vez em quando, quando cortava a grama, a cumprimentava da janela. Já Fugaku e Sasuke eram figuras conhecidas por ela apenas de rosto. Quer dizer, Sasuke nem tanto.
Ele era um garotinho revoltado e punk da sua escola. Tinham um amigo em comum, que era Naruto, no entanto nunca trocaram uma palavra. Tinha plena certeza de que ele a achava estranha, e um pouco de receio de trocar palavras com ele e ele decidir ser rude, já que, na maior parte do tempo ele se mostrava bem hostil. Sasuke tinha o cabelo escuro e rebelde atrás. Olheiras moderadas, sendo um bom exemplo de pessoas que ficam acordadas até tarde. Tinha a pele branca, e sempre andava de preto, com uma pulseira de spikes e tinha alguns piercings: Cinco argolas na cartilagem do ouvido direito, um transversal no ouvido esquerdo. Um piercing no lábio, do lado direito, e um na sobrancelha também direita. Embora rude, hostil e aparentemente mal humorado, ele não fazia mal a ninguém. Só era um garoto com um estilo agressivo e uma personalidade difícil.
Mas Sakura reiterava: Não era bem o tipo de pessoa que costumava conversar com ela.
Quando os gritos ficaram mais altos, supôs que ele havia subido para o quarto. Infelizmente, sua janela ficava de frente para a janela do Uchiha mais novo, e aquela barulhada realmente a incomodava e fazia seu aparelho soltar ruídos. Soltou o livro, e foi até a janela, fechá-la para tentar abafar um pouco o som.
Quando olhou sem querer para o quarto do vizinho, o viu com o telefone na mão. Ao escutá-lo repetindo “Karin” diversas vezes, supôs que estaria falando com a namoradinha esnobe. Karin Uzumaki era prima de terceiro grau de Naruto, seu melhor amigo. Ela era bonita, confiante, e Sakura até gostaria um pouco dela, se ela não agisse o tempo todo como a Regina George de meninas malvadas.
Karin tinha tudo: Muito dinheiro, fama nas redes sociais, popularidade na escola, e às vezes a Haruno não entendia a necessidade que ela sentia em ser desagradável com todos. E nem entendia porque Sasuke e ela namoravam sendo tão opostos. Mas analisando bem, o Uchiha também era um pouco popular na escola, e talvez tivessem questões pessoais no meio. Não era bem da conta dela. Enquanto refletia, não reparou que o garoto havia jogado o celular no colchão.
O encarava sem enxerga-lo, pensando nas coisas. Quando finalmente saiu de seus devaneios, o garoto a encarava de volta. Corou por constrangimento, se sentindo invasiva com ele. O garoto arqueou a sobrancelha, como se perguntasse o que ela estava olhando.
A rosada encolheu os ombros. Estava envergonhada demais para falar algo, e nervosa, procurou por uma alternativa. Sua mesa ficava de frente para a janela. Alcançou um papel, uma caneta permanente preta no pote de canetas, e escreveu:
“Desculpe-me por parecer espionar. Só fui fechar a janela porque seus gritos estavam altos, mas acabei perdida nos meus pensamentos. Não estava bisbilhotando.”
Ela se curvou, mostrando o papel. Os olhos ônix analisaram com cuidado a escrita, e depois a curvatura totalmente arrependida. Sua mochila estava próxima da janela. Retirou o caderno, e um permanente azul. Escreveu de volta:
“Tudo bem. Não imaginei que pudesse me ouvir sendo surda, embora.”
Bateu no vidro da janela, fazendo-a se levantar e ver a resposta. Surpresa, ela escreveu outro recado.
“Eu posso ouvir bem pouquinho. E uso um aparelho para me ajudar. Se eu consegui ouvir você, é porque sua voz é bem potente, meu chapa. A propósito, como sabe que não tenho uma boa audição?”
Escreveu de volta. Ele leu, e rapidamente escreveu de volta:
“Estudamos na mesma escola. Você é a única da sala que precisa da intérprete de sinais. Na verdade, imaginei que fosse muda também, mas o Naruto só disse que é tímida.”
Sakura riu, e fez negação com a cabeça. Tão fofoqueiro aquele loiro.
“Eu sou um pouco introvertida, verdade seja dita. Mas não sou muda não, inclusive, eu sinalizo falando, para não atrofiar minhas cordas vocais.”.
Explicou.
“Entendo. Desculpe pelo inconveniente, rosinha. As coisas estão estressantes por aqui, mas vou tentar mitigar na próxima.”
Ele escreveu. De repente, ele não parecia tão assustador.
“Seria de grande ajuda, vizinho. Imagino que esteja agitado por aí. Mas tente ser um pouco menos intenso, sério. Quando o som começa a ruir é muito ruim pra mim.”
Mandou.
“Está bem. Você... Se importa se eu perguntar seu nome? Sei que começa com S, mas eu sempre me esqueço.”
Mandou. Ela olhou para o caderno dele por alguns segundos, e então para sua folha. Escreveu o kanji de seu nome pacientemente.
“Sakura.”
Ele leu, e sorriu levemente.
“Muito bem, Sakura. Creio que saiba que meu nome é Sasuke. Não vou mais esquecer o seu.”
Ele a mostrou, e se levantou, fechando a janela. Vermelha, Sakura fechou o vidro e a cortina, e sentando na cama, exasperada. Que viagem tinha sido aquela?
Notas finais
Depois de seis anos eu percebi o quão nonsense a fanfic era, e estou reescrevendo-a embora eu não escreva coisas de Naruto há anos, e por isso espero o flop. Muita coisa mudou de lá pra cá, especialmente meu modo de escrita. Mas eu espero que me deem uma chance de me redimir pela antiga fanfic tosca, e apreciem esse novo conteúdo que estou trazendo, com mais estudos e embasamentos.
Por exemplo, o custo do aparelho auditivo, falar enquanto sinaliza por causa das cordas vocais e até o tempo que a Sakura usou o antigo aparelho foram trazidos com base em muita pesquisa. Então espero fazer certo dessa vez, e espero que vocês gostem. Deixem o feedback se se sentirem a vontade ou quiserem pontuar algo que passou despercebido por mim :D
Nos vemos no próximo!!
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