Duas semanas tinham se passado desde que o clube de natação perdera um dos membros mais importantes do time. Natalie poderia dizer que estava tudo bem, mas não seria realmente verdade. Os membros já não estavam mais tão pra baixo com o acontecimento, mas a figura loira, alegre e responsável ainda fazia muita falta — era como se todos estivessem sem o equilíbrio que havia durante o treino.

Mesmo tendo chego há pouco tempo, Natalie podia perceber isso de longe. Os treinos ficaram mais intensos, os outros membros do clube agora falavam ainda menos com Gabe, e o time feminino parecia mais fraco do que nunca. Mesmo Rachel, a nadadora com mais potencial deles, estava indo mal.

Jessica também estava esquisita. Depois de sair da natação, tinha acabado se transferindo para o clube de dança, qual agora passava a maior parte do dia. Ela trocava poucas palavras com as garotas durante as aulas, dificilmente falava com alguém do antigo time sem ser para dar um "oi", e só voltava ao normal nas vezes em que estavam no dormitório conversando.

Natalie de alguma forma se sentia responsável por aquilo tudo, principalmente por não conseguir fazer nada para ajudar os novos amigos. Talvez fosse paranoia de sua cabeça, mas todos pareciam felizes antes, por que as coisas tinham que desandar assim que chegou?

Era uma quinta-feira, fim do período de aulas e hora do jantar. Natalie, Tina e Rachel conversavam a caminho do refeitório – sem a companhia Jessica, que pra variar tinha ido diretamente para o seu novo clube –, quando foram paradas por George.

— Ei, meninas, vocês vão amanhã ver meu jogo, né? — Ele perguntou talvez meio afobado.

— Jogo? — Natalie questionou. — Que jogo?

— O jogo contra a East Soul. Vai ser às 18h, lá na quadra 2. — Respondeu.

— Ah... não sei seu eu vou, George, não curto muito futebol. — Tina disse. — E talvez esse horário eu esteja um pouco ocupada.

— Jamie vai também. — Ele disse, com um sorriso no rosto. Sabia que aquele era o pronto fraco da garota.

— Sério? — Tina pensou um pouco. — Ah... bom, quer saber? Mudei de ideia. Talvez seja legal ir para lugares diferentes às vezes, não?

Natalie, Rachel e George se entreolharam, rindo. Natalie achava engraçado como a amiga de cabelos curtos mostrava realmente gostar de Jamie. No decorrer dos dias ela não deixou de notar todas as vezes em que a menina parecia boba falando dele, ou quando ficava vermelha em sua presença — e, particularmente, tinha quase certeza que ela não percebia isso.

— Nós todas vamos pra torcer por você, George. — Rachel falou.

— Ah, a Jessica vai também, né? — Ele perguntou. — Percebi que ela não está mais tão grudada em vocês como antes, mas tentem arrastá-la pra lá. Tem uma pessoa que queria uma chance pra falar com ela.

O olhar significativo que ele mandou às meninas não precisava de muitas explicações. Era óbvio que aquela pessoa era William.

— Certo. — Natalie disse. — Vamos dar um jeito de trazê-la com a gente.

— Estou contando com vocês. — Falou o garoto antes de sair de lá.

O trio então voltou a seguir seu caminho de antes, chegando ao refeitório, com Tina comentando:

— Seu irmão está bem preocupado com a Jess, não acha, Nat?

— Acho. — A menina respondeu, se sentando numa das mesas. — Ele ultimamente parece tão pra baixo quanto ela, isso é esquisito.

— Você acha que ele gosta dela? — Rachel perguntou.

Natalie deu de ombros.

— Will tem os motivos dele para estar assim sobre isso. ­— Falou.

Tina e Rachel se entreolharam, sabendo que talvez fosse parecer um pouco inconveniente perguntarem sobre o assunto. Voltaram a comer e jogar conversa fora, tentando mudar um pouco de assunto, quando alguém cutucou Tina.

— Christina, Alice está precisando de você na sala do conselho estudantil. — A voz masculina esganiçada disse. Era Luca, o garoto magrinho e de traços asiáticos.

Tina revirou os olhos.

— Não posso nem comer em paz? — Questionou.

— Se não quiser ver os outros membros do Consellho extremamente bravos, não. — O garoto respondeu.

A garota de cabelos curtos respirou fundo, se levantando da mesa.

— Encontro vocês no dormitório. — Falou, vendo as amigas assentirem.

Ela saiu do refeitório atrás de Luca, já sabendo do que se tratava aquela reunião repentina. Era dia de dar a satisfação semanal sobre como andava o seu trabalho em ajudar Alexander.

Bom, poderia dizer que os últimos dias tinham sido pouco promissores. Embora já tivesse virado costume passar um tempo na quadra velha quase todos os dias, naquela semana as coisas estavam mais apertadas com o clube e a escola e Tina não conseguira ver o garoto problemático mais do que duas vezes. Isso era ruim para sua aproximação com ele, diria, já que perdeu um tempo valioso de conversa e extração de informações.

Novamente deu de cara com todos os membros do conselho sentados ao redor da mesa de reuniões quando chegou lá. Algumas pessoas tinham pilhas de papéis ao seu redor, enquanto outras apenas seguravam pranchetas e conversavam. Cena normal para quem já fazia parte daquele meio há um tempo.

Tina se sentou em uma das cadeiras vazias, e logo Alice, a ruiva sentada na ponta, começou a dizer olhando alguns papéis:

— Percebemos que não houveram avanços desde que te mandamos para ajudar Alexander. Ele continua matando boa parte das aulas, não vai para o clube... O que anda fazendo por aí?

— Eu estou me esforçando para me aproximar dele. ­— Respondeu. — Não é fácil virar melhor amiga de uma pessoa que nem te conhece.

— Ah, outra coisa. — Laura, a menina de cabelos loiros sentada do outro lado da mesa disse. — Os professores têm reclamado do seu rendimento também, Nolace, o que está acontecendo?

Tina suspirou.

— Nada de mais. ­— Respondeu. Sabia que o motivo era a saída de Jessica do time de natação, mas não queria o pessoal do conselho envolvido nos seus problemas.

— Eu espero mesmo. — Alice disse. — Enfim, trate de se apressar com essa tarefa. Se até semana que vem o Campshire não mostrar nenhum tipo de mudança, você estará com os dias contados no conselho estudantil. Pode ir agora.

Christina suspirou, irritada, e se levantou da mesa. Ok, talvez em momentos como aquele, sair do conselho estudantil não parecesse ser uma ideia tão ruim assim, mas ela não iria desistir do cargo tão fácil. Tinha que encontrar Alex, e aquela era a hora perfeita para isso.

Xx

— É incrível como você pegou o jeito rápido, Jessica, mesmo estando tão pouco tempo com a gente. — A mulher magra disse, admirada. Aquela era Arantia, a professora de dança. — Qual era seu antigo clube mesmo?

— Clube de natação. — A garota respondeu, um pouco cabisbaixa.

— Ah, os brutamontes da natação. — Ela riu. — Ainda bem que veio para cá a tempo. Ganhamos um grande talento conosco.

A menina engoliu a seco e ligou novamente o rádio, voltando a dançar a coreografia que tinha aprendido mais cedo. Faziam exatamente dezesseis dias que saíra do clube de natação, e estava se sentindo terrivelmente mal. Nunca imaginou que ficar longe de seus amigos fosse ser tão torturante, ainda mais depois de entrar num clube em que as pessoas sequer falavam com ela direito.

O que pôde observar naqueles dias era que definitivamente ali não era seu lugar. Reinava no estúdio um sentimento de competição e "cada um por si" que não lhe fazia bem. A professora, extremamente bajuladora, era quem incentivava essa competição interna entre os alunos, e talvez por isso ninguém tivesse falado com Jess desde o seu primeiro dia. Mesmo assim, a menina estava se forçando a passar a maior parte do tempo lá. Não para ensaiar e nem para se acostumar com o ambiente, e sim para evitar ter muitos encontros com os antigos colegas de clube. Ela não queria aqueles olhares tristes em sua direção, a fazendo se sentir culpada pela escolha, e muito menos queria ouvir os colegas reclamarem sobre as competições e a forma que o treinador pegava no pé deles. Tinha que seguir em frente, esquecer a natação e não ser um empecilho na vida de todos, eram esses seus objetivos.

— Acho que já chega por hoje, né? — A professora falou à meia dúzia de membros que restavam no estúdio de dança, desligando o rádio. — A próxima competição está longe, ainda preciso que vocês cuidem da própria saúde e treinem apenas o quanto puderem.

Os adolescentes assentiram silenciosamente.

— Descansem bem. — Ela disse, acenando à eles e os vendo ir pouco a pouco para fora do lugar.

Jessica pegou sua bolsa do chão e tomou um grande gole de água da garrafa que tinha ali. Estava cansada de tanto dançar, mas se pudesse, não pararia. Sabia que teria que voltar para o dormitório e dar de cara com as amigas lá, e ainda não conseguia vê-las sem ficar triste. Talvez nunca fosse conseguir essa proeza.

Saiu do estúdio, que era no segundo andar do prédio de dança, e desceu as escadas sem muita pressa. O lugar era grande, bonito e bem decorado, mas mesmo assim não a impressionava muito. Talvez houvessem outros lugares pela S.S. bem mais interessantes.

Foi quando passou pela porta que se assustou ao encontrar uma das pessoas que menos queria ver por ali: William. Certo, ele com certeza era quem estava bem lá no topo da lista, e por isso Jessica tinha passado os últimos dezesseis dias evitando até pensar em estar no mesmo local que ele. Não queria olhar para a cara da pessoa que a viu na pior situação de sua vida, não enquanto ainda estivesse frágil por aquilo.

Ela não soube bem como reagir. Apertou os olhos e arqueou uma das sobrancelhas, vendo o garoto desencostar da parede do prédio e andar em sua direção. Ótimo, não tinha escapatória.

— O que está fazendo aqui? — Jess disparou rudemente. Esse era seu mecanismo de defesa em situações assim.

William cruzou os braços e a fitou.

— Não sei, provavelmente vim me candidatar para o clube de balé. — Ironizou.

A loira revirou os olhos.

— Eu deveria te processar por perseguição. — Ela falou.

— E eu deveria te processar por me evitar. — Rebateu.

— Isso nem é motivo pra processar uma pessoa. — Jessica disse, indignada.

— Eu não ligo. Agora, sério, dá pra parar de tentar me evitar em todo lugar? — William foi direto ao ponto. — Eu odeio isso, você não sabe nem disfarçar.

A menina de cabelos loiros respirou fundo e cruzou os braços.

— O que quer que eu faça? Te chame pra tomar um chá mesmo não gostando de você? Você mesmo disse da última vez que nos falamos para te lembrar de ser ignorante comigo, então...

— Me desculpe por te empurrar na fila. — William a interrompeu.

— O quê?

— É isso aí. Não é por isso que tem raiva de mim? Então estou pedindo desculpas.

Jessica respirou fundo mais uma vez, fitando William sem entendê-lo muito bem.

— Por que está aqui na porta do meu clube? — Perguntou finalmente.

— Queria ver como você está. — Falou, sincero, dando de ombros.

— Nós nem nos damos bem, por que essa preocupação toda?

O menino alto contorceu o rosto numa expressão séria, diferente do habitual, o que deixou Jessica com medo da resposta que ele daria.

— Não quero que você desista da natação. Nós não nos damos bem e sequer tivemos tempo para conversar normalmente, mas é sempre triste ver alguém talentoso desistir assim.

— Então você veio até aqui pra falar na minha cara que está com pena de mim?

— É impressão minha ou você só filtra algumas partes da conversa pra usar contra mim? Que garota irritante. — Ele revirou os olhos. — Não. Eu não tenho pena de você, só não quero que acabe mal e se arrependa disso depois.

— Você não tem nada a ver se eu me arrepender ou não.

— Você está certa, eu não tenho. Mas o pessoal do clube sim, e eles estão péssimos por causa da sua saída. — Disse firme. — Todos querem que você volte.

A menina respirou fundo. Estava confusa. Não sabia ao certo se aquele cara estava sendo legal demais ou ignorante com ela, porque apesar de sua fala séria, ele ainda assim aparentava estar preocupado.

— Eu não acredito nisso. — Jessica falou. — Não acredito eles estejam mal sem mim, isso tudo parece só papo furado pra me fazer voltar.

— Então vá lá e veja por si mesma.

— Eu não vou entrar naquele lugar de novo.

— Resta acreditar na minha palavra, não? — William falou, cruzando os braços. — Olha, eu só estou tentando te ajudar. Não me leve a mal por isso.

— Tarde demais, já levei. — A menina falou. Embora aparentemente não expressasse muitas emoções em seu rosto, era óbvio que queria chorar, e ela tinha ciência de que o garoto alto parado à sua frente sabia daquilo.

— Tudo bem. — William disse ao perceber a pressão sob a garota. — Não vou te atrapalhar mais por hoje. Mas saiba que eu não vou desistir tão fácil.

Então, ao terminar de dizer aquilo, ele saiu dali, deixando a garota loira um pouco atônita em frente ao prédio bem decorado da turma de dança.

Xx

Natalie estava sentada na arquibancada do clube de natação, bem lá no alto, quando viu Gabe entrar no ginásio. O horário do jantar já tinha acabado, Tina ainda estava por aí e Rachel parecia atarefada na biblioteca, por isso a garota estava ali sozinha.

Mesmo de longe, Natalie podia notar como o garoto de cabelos castanhos parecia estressado ­— pra variar. Ele vestia a bermuda de natação e a touca, sem camisa, mostrando seus músculos discretos e seu porte físico perfeito para um nadador. Outras garotas de sua antiga escola a invejariam por ter aquela visão privilegiada, mas apesar de tudo, a menina de cabelos cacheados não ligava muito para esse tipo de coisa. Embora arrumasse paixonites em todo canto, ver caras sem camisa não a impressionava nem um pouco. Era rotina.

Gabe entrou na água e então foi evidente a sua mudança de expressão. Ele ficou com um semblante leve, como se estivesse em seu habitat natural. Era outra pessoa praticamente. O garoto nadava exibindo seu talento para as arquibancadas vazias, quase como se estivesse numa competição profissional, e por alguns segundos Natalie sentiu inveja de toda aquela habilidade. Era incrível como as pessoas babacas eram sempre as melhores.

Seus momentos de admiração ao menino não duraram muito, pois logo o viu parar de nadar e fitar exatamente o ponto onde estava sentada.

— Está me perseguindo? — Ele questionou num tom consideravelmente alto para que a menina pudesse ouvir de lá de cima.

— Eu cheguei aqui primeiro. — Exclamou de volta.

Gabe revirou os olhos. E lá vamos nós, Natalie pensou.

O menino saiu da piscina com sua carranca novamente. Ele tirou os óculos de mergulho e sua touca, mas a menina foi até onde ele estava antes que saísse do ginásio.

— Você vai embora? — Questionou.

— É claro. Não quero uma maluca me observando. — Ele disse rudemente.

Natalie revirou os olhos.

— Pois eu faço questão de sair antes. — Disse no mesmo tom.

— Não, pode ficar. Já perdi a vontade de nadar.

— Fala sério, — Ela bufou — você é sempre insuportável assim com qualquer coisa?

O menino respirou fundo.

— Por que essa insistência toda pra eu nadar? — Questionou.

— Porque é o único jeito em que você não parece um babaca. — Respondeu, na lata. — É toda sua. — Apontou para a piscina.

O menino a olhou num misto estranho de surpresa e irritação.

— O que foi?

— Nada. — Ele resmungou, ajeitando sua touca de natação novamente.

Gabe a encarou, vendo a garota virar-se para sair, mas sua voz interrompeu seus passos:

— O que estava fazendo lá em cima?

Natalie novamente virou-se em sua direção.

— Pensando. — Respondeu num meio suspiro. — Aqui é um lugar bom pra pensar.

— Estava pensando na Jessica? — Ele questionou. Sua expressão era séria, e o tom de voz o mesmo de sempre, mas aquela pergunta...

— Também. — Respondeu novamente. — E no motivo dela ter saído.

Gabe cruzou os braços e desviou o olhar de Natalie.

— Eu não deveria estar falando isso para você, mas eu não fiz aquilo de propósito. — Falou. — Não falei com ela daquele jeito na intenção de ofendê-la.

A menina de cabelos cacheados arqueou uma das sobrancelhas.

— Ah, certo, então uma coisa daquelas soa como um elogio na sua cabeça? — Ironizou.

— Não, eu só... — Ele bufou. — Certo, quem liga? Não tenho que te dar satisfação de nada.

E dito isso o garoto saiu em direção à grande piscina. Natalie cruzou os braços e suspirou, observando o rapaz de costas largas que desaparecia no ginásio. O príncipe do gelo sendo um pouquinho empático? Essa era nova.

Talvez fosse em decorrência do fato de ninguém do clube, nem mesmo John, estar falando direito com ele, mas Gabe tinha "baixado a bola" nos últimos dias. Ele parecia bem mais reflexivo do que o costume, e embora a carranca continuasse a mesma de sempre, aquilo surpreendia Natalie. Quem ia imaginar que Gabe Mitchell estaria pensando nas consequências de seus atos?

Natalie então saiu do ginásio, ainda pensando no garoto mal-humorado, quando seu celular apitou.

1 nova mensagem de Will

William? O que ele poderia querer essas horas?

Will: "Falei com a Jessica hoje."

Natalie se surpreendeu com aquilo. Se apressou em digitar em seu celular e esperou tortuosamente o sinal terrível daquela escola enviar a mensagem.

Natalie: "Não acredito, o que você falou com ela?"

Aguardou um tempo, até o celular apitar novamente.

Will: "Nada demais"

"Ela me odeia, acha que estamos com pena dela..."

"E talvez não volte para o clube tão cedo"

A menina de cabelos cacheados então suspirou. Era uma péssima notícia. Estava acreditando que talvez houvessem chances de Jess se juntar ao clube novamente antes das preparações para o campeonato, mas pelo visto seria muito difícil.

Natalie: "Que droga"

"O que mais vocês falaram?"

Will: "Nós discutimos também."

Natalie: "Novidade. Ela realmente está mal, não?"

Will: "Sim. Não acho que ela esteja muito contente com o pessoal de dança, mas nos resta aceitar a decisão dela até que possamos fazer alguma coisa."

Natalie: "Certo..."

Will: "Onde você tá?"

Natalie: "Chegando no quarto. Estava no clube, mas Gabe apareceu lá..."

Will: "Ah... Ele não discutiu com você, né?"

Natalie: "Ownn que fofinho, está preocupado?"

"Não, só trocamos algumas palavras. Acho que ele está arrependido."

Will: "Duvido muito."

E então depois disso a troca de mensagens entre os irmãos Campbell foi encerrada. William realmente não gostava de Gabe, pensou a menina de cabelos cacheados. Talvez fosse de família. No entanto, bem lá no fundo, Natalie ainda acreditava que Gabe tinha algum conteúdo bom. Sua babaquice era extrema, mas ninguém é completamente podre, né?

Xx

Tina acordou com alguém a cutucando. Abriu os olhos lentamente, tomando um susto ao notar Alex à sua frente balançando uma das mãos para checar se já estava acordada.

— Ei. — Ele cumprimentou com um sorriso ao vê-la despertar.

A menina esfregou os olhos e olhou ao seu redor, notando que estava sentada no chão gelado da quadra velha com um livro no colo e a bolsa ao seu lado. O que estaria fazendo lá...? Ah, certo, tinha subido mais cedo para procurar Alex depois de sair da sala do conselho estudantil. Se lembrava de não ter encontrado o garoto ali e então, para esperá-lo, começou a ler um livro e... adormeceu.

— Oi... —Resmungou, sonolenta, enquanto ajeitava os cabelos. — Está há muito tempo aqui?

— Alguns minutos. Você sabia que fala enquanto dorme? — Ele comentou aleatoriamente, se sentando ao lado dela.

Tina corou.

— O que eu disse? — Perguntou, um pouco desesperada. Sempre tinha experiências ruins com aquela sua característica, como por exemplo quando começou a xingar o treinador no seu sonho durante a aula de Química e ganhou de brinde um treino extra na água gelada.

— Jamie, né? — Ele sorriu sugestivamente e o que era um rosto vermelho da menina de cabelos curtos, acabou virando um verdadeiro pimentão. — Quem é?

— Não conheço nenhum Jamie. — Disse, gaguejando.

O garoto de piercing riu.

— Se você diz... — Falou, dando de ombros, como quem não sabe de nada. — Mas eu chuto que ele seja do clube de natação.

Tina arregalou os olhos.

— Você é algum tipo de médium? — Questionou.

— Com certeza. Você gosta dele, não é? — Perguntou.

Tina cruzou os braços, suspirando. Notou que Alex parecia, mesmo carregando um sorriso no rosto, um pouco abatido naquela noite. Talvez fosse só uma impressão, mas realmente conseguia senti-lo um pouco mais pra baixo que o normal.

— É tão óbvio?

O menino assentiu.

— Amor platônico?

— Infelizmente. Desde o ano passado, aliás. — Tina deu de ombros, fitando Alex. Seus olhos de repente baixaram. Ele definitivamente estava mais baixo-astral do que o comum. — Você está estranho. O que aconteceu?

Alexander riu, coçando a nuca.

— Nada interessante o suficiente para eu compartilhar. — Ele respondeu, mas Tina sabia que aquela não era a verdade. — Mas eu tenho que te perguntar uma coisa: por que estava dormindo no chão?

— Não dormi bem essa noite, pra variar. Insônia e tal. — Disse, dando de ombros.

— Faz sentido. E então você dormiu lendo Orgulho e Preconceito? — Alex riu, pegando o livro do colo da menina de cabelos curtos e olhando sua capa avermelhada. — Literatura clássica. Que garota culta.

— É meu livro favorito. — Tina comentou. — É a segunda vez que eu estou lendo essa versão, eu acho.

Alex devolveu o objeto.

— Não consigo ler o mesmo livro mais de uma vez. — Ele encostou a cabeça na parede, olhando para o céu aberto da quadra.

— Nem eu, por isso eu dormi.

Os dois riram.

— Mas fala sério, você está muito esquisito. — Tina insistiu. — Não vai mesmo compartilhar a história nem-um-pouco-interessante comigo? — Lançou seu melhor olhar persuasivo, arrancando risadas do menino.

— Eu realmente acho que não é algo interessante o suficiente de contar pra garota que eu conheço há alguns dias. — Disse, rindo fraco. — Mas digamos que... encontrei alguém que eu não queria encontrar. Só isso. Satisfeita?

— Não realmente. Ainda vou arrancar mais coisas de você. — Olhou ameaçadoramente pra ele, o fazendo rir novamente. — Encontrou sua ex ou algo assim?

— Passou longe. — Esclareceu.

— Encontrou seu tio de segundo grau que jurou matar você e sua família?

Novamente Alex gargalhou, negando com a cabeça.

— Seu inimigo de infância que matou o seu feijão de algodão no fundamental?

— Não, Tina, nada disso.

— Desisto. — Suspirou. — Bom, mesmo que eu não saiba sobre nada da sua vida, acho que você não deveria fica mal por causa dessa pessoa.

— Infelizmente não é algo que eu posso simplesmente parar de me preocupar. — Alex sorriu de lado. — Mas obrigado pelo conselho.

— É um amigo, certo?

Ele a fitou por alguns segundos e deu de ombros, assentindo.

— As coisas vão se resolver no seu tempo. — Falou, no seu melhor tom conselheiro. — Pode não ser do jeito que você imagina, mas vai ficar tudo bem.

— Eu espero que esteja certa. — Disse, reflexivo.

Ficaram um tempo em silêncio novamente, até Tina respirar fundo novamente, decidida a continuar a conversa. Ela disse:

— Você vai ver o jogo do pessoal do clube de futebol amanhã?

Alex deu de ombros.

— Sei lá, provavelmente não. Não sou chegado em futebol.

— Ah, eu também não gosto muito, só vou por causa de um amigo que vai jogar. — Disse, embora em sua mente soubesse que sua verdadeira intenção ao concordar em sair do dormitório amanhã no meio do tempo livre era ver uma outra pessoa por lá. — Você deveria vir. Talvez eu já tenha comentado isso, mas socializar de vez em quando faz bem para as pessoas, já que nem às aulas você vai.

O menino riu, revirando os olhos.

— Vou pensar no seu caso.

— Ótimo, então é um sim. — Tina sorriu. — Deveria levar a sério a parte das aulas também, ou vai repetir de ano.

— Não conte muito com isso. Se eu pudesse, matava aulas até o final do ano. — O menino falou. Do bolso de sua jaqueta, tirou um par de fones e seu celular. — Quer ouvir? — Estendeu um dos lados do fone para Christina.

— Depende, o que vai pôr?

— Talvez rap.

Tina fez uma careta.

— Sério mesmo? — Questionou, e o garoto assentiu. — Péssimo, mas aceito.

Ela colocou o fone no ouvido e Alex deu play na música, rindo com sua expressão de insatisfação. Passaram um bom tempo lá, apenas aproveitando a noite fresca, o som, e conversando sobre todo tipo de coisa, como de costume.

Era esquisito o fato de que mesmo que estivesse fazendo aquilo pelo conselho estudantil, as coisas tivessem andado de forma que Tina realmente aproveitasse a companhia de Alexander. Ele era um cara muito legal, apenas matava aulas e parecia estar quase sempre envolto numa aura meio depressiva. Apesar de tudo, Tina tinha a impressão de que mesmo no final daquele plano do conselho, realmente manteria a amizade do cara esquisito de óculos.