"Eu fui aceita na Wild Winters, e tenho um mês pra decidir se vou ou não pra fora do país."

Aquelas palavras fizeram Jessica ficar boquiaberta. Era uma notícia extremamente chocante, mas maravilhosa para quem tinha noção da importância daquele colégio dentro do ramo dos esportes. Se a Shooting Star era uma passagem direta para as grandes competições e para as seleções nacionais, a Wild Winters era simplesmente a maior oportunidade pra virar alguém realmente importante ao redor do mundo todo, como um ingresso para o sucesso imediato. Definitivamente o sonho de qualquer esportista.

— Isso é sério? — A loira questionou, ainda com aquela expressão de surpresa estampando seu rosto.

Rachel assentiu, e então apoiou o queixo numa das mãos.

— Eu sei que você imagina que eu devo estar maluca por me sentir triste com algo assim, mas... sei lá. É difícil.

Jessica suspirou, ainda mastigando os pequenos detalhes daquilo, e então deu um tapinha no ombro de Rachel.

— Relaxa, Rae, não vou te julgar por isso. Eu sei muito bem como é estar presa a uma escolha, e eu entendo que não é fácil. — Disse, surpreendendo a amiga com tais palavras. — Como soube que foi aceita?

— Recebi uma carta no dormitório há alguns dias. Uma semana, na verdade. — Respondeu, voltando ao semblante cabisbaixo de antes. — Lá dizia que eu tinha um mês pra tomar minha decisão e pegar o avião. Com tudo pago.

— Eu só queria saber porque não nos contou antes. — A loira cruzou os braços. — Você está se remoendo há uma semana completamente sozinha?

Rachel balançou a cabeça negativamente.

— Tenho pedido conselhos ao Eric, o zelador do ginásio. — Deu de ombros. — Ele é um ótimo conselheiro, na verdade, mas mesmo com as palavras dele... eu continuo tão confusa, você não faz ideia. Não contei a vocês porque tive medo de me pressionarem a fazer algo, o que me deixaria ainda mais confusa.

Jess então deu um pequeno sorriso para tentar confortar a menor e a abraçou, suspirando.

— Mesmo essa sendo uma grande chance, eu e as meninas vamos te apoiar no que você escolher, você deveria saber disso. — Disse. — E se você for mesmo, deveria saber que vai fazer muita falta no dormitório ao lado, não é só você que vai sentir saudades.

— Eu vou chorar. — A baixinha resmungou. — Eu realmente quero ir, mas ficar longe de todo mundo parece uma ideia tão... ruim. Não é como se eu fosse só mudar de escola ou algo assim, eu vou pra outro país também, não vou poder ver vocês e nem minha família por um bom tempo e ainda por cima sequer vamos poder nos formar juntas.

— Mas por outro lado, você vai se formar numa escola incrível, vai conhecer outro país, outras pessoas, outra cultura... imagina só, que sensacional. Nós ainda vamos poder nos comunicar pela internet, e quem sabe todo mundo planejar de pegar um voo pra lá em algum feriado.

Rachel suspirou.

— Pensando por esse lado, parece que vai continuar tudo a mesma coisa. Eu queria realmente poder acreditar nisso e deixar o receio pra lá. — Disse num tom derrotado. ­- Mesmo assim, obrigada pelas palavras.

— Sou tão boa quanto o Eric?

— Melhor que ele, talvez. — Riu.

Jessica entendia a amiga. Estava longe dos amigos há algumas semanas e sentia na pele como era se separar de pessoas importantes. Era uma comparação ridícula de se fazer, já que a menina baixinha estava indo para o outro lado do mundo enquanto ela continuava bem ali, mas a grande fenda de distância que sua saída do clube tinha criado entre si e os amigos poderia ser comparada ao oceano que Rae atravessaria.

A diferença era que, enquanto Rachel estaria se aproximando de seus sonhos ao se afastar da terra natal, Jessica estava cada vez mais distante deles assim como das pessoas importantes pra si.

Como se lesse seus pensamentos, a menina de cabelos escuros falou:

— Eu não sei se já te disse isso, mas você faz falta no clube, Jess.

A loira fitou o chão com aquelas palavras.

— O clube também faz falta pra mim... — Disse com um ar reflexivo, e então voltou ao seu silêncio de antes, apenas ouvindo o som da água que corria despreocupadamente da fonte atrás delas naquele começo de noite.

Xx

Tina tinha acabado de se despedir da família no carro e cruzar o portão de entrada. Carregava uma mochila nos ombros, uma pasta azul em mãos e um brilhante e satisfeito sorriso no rosto. Tinha se esquecido de como era bom ver sua família aos domingos.

Estava cansada depois de uma tarde corrida cuidando dos irmãos mais novos em casa, porém alegre porque aquele tempo brincando de aquarela e trocando novidades tinha definitivamente a revigorado. Ter três irmãos, sendo dois deles mais novos e uma mais velha, não era uma tarefa muito fácil na maior parte do tempo, mas tinha suas vantagens também. Uma delas era que, mesmo que seus pais estivessem extremamente ocupados até mesmo aos domingos, tinha sempre alguém pra conversar e passar o tempo — o que foi o caso daquela tarde.

Fitou a pasta em suas mãos e sorriu, se lembrando que deveria ver uma pessoa antes de ir para o dormitório. Se perguntava se Alex estaria na quadra àquelas horas enquanto seguia o caminho de pedrinhas entre a grama e às árvores, em direção a onde o mato começava a crescer mais e os caminhos pareciam se fechar até se tornarem inexistentes. Tinha passado boa parte da tarde pensando no ex-corredor e no quanto o menino costumava ficar sozinho por aí, o que definitivamente não era bom.

Subiu as escadas estreitas do morrinho, na grande expectativa de mostrar algo ao amigo que costumava ficar ali, e sorriu ao enxergar de relance os cabelos lisos do mais velho.

Mas foi quando se aproximou mais que se surpreendeu um pouco ao notar uma quase invisível fumaça vinda dali, e então finalmente viu a figura de Alex sentada no chão com um cigarro entre os dedos. Ela cruzou os braços. Alexander estava fumando?

Tina tossiu com o cheiro da nicotina, chamando a atenção do ex-corredor, que até então olhava para o nada depressivamente. Ela definitivamente detestava aquele cheiro.

— Então quer dizer que você fuma? — A menina questionou, se aproximando do amigo. — Estou surpresa, de verdade.

— Só fumo quando estou estressado. — Ele deu de ombros, jogando fora o cigarro que tinha em mãos. Christina fez uma careta. — E você parece não ter gostado muito disso.

— Eu odeio cigarros. — Falou, se sentando ao lado dele. — Isso tem um cheiro horrível, e agora ele vai ficar impregnado em você.

Alex deu uma baixa risada, aparentemente sem tanto humor assim. Ele não estava bem, o que era mais do que claro baseado em sua expressão.

— O que veio fazer aqui essas horas? — Ele questionou, tentando mudar de assunto. De fato conseguiu sucesso, já que a menina de cabelos curtos logo abriu um sorriso completamente diferente da anterior expressão de desgosto.

— Ah, vim te entregar uma coisa. — Disse, pegando a pasta azulada, antes deixada ao seu lado no chão e entregando nas mãos do menino.

— O que é isso?

— Eu te disse que fui visitar minha família, né? Então, comentei sobre você e o pessoal do clube com meus irmãos mais novos e... bom, agora você tem fãs.

Alex a fitou, intrigado, vendo a menina sinalizar para que ele abrisse a pasta. Ele fez o indicado, e nem mesmo o estresse de antes o impediu de abrir um sorriso ao encontrar ali alguns desenhos de traços infantis de um cara de óculos, cabelos castanhos e olhos escuros.

— Sou eu? — Perguntou, vendo os papéis um por um, enquanto Tina assentia. Em algumas folhas haviam também desenhos do clube de natação e de seus membros, mas o que mais lhe chamou atenção foi o último da pasta, que definitivamente não tinha sido feito por uma das crianças. Seu rosto estava desenhado detalhadamente no papel, com um traço bonito e firme, dignos de um artista.

— Ah... — Tina tirou o papel da mão de Alex, pigarreando. — Eu fiz esse porque eu não tinha nenhuma foto sua e o Jason e a Loreen queriam saber como você era, pra poderem desenhar e tal.

— Você realmente fez isso? Está muito bom. — Elogiou, pegando a folha de volta pra fitar o desenho novamente. Christina corou com o elogio. — Onde aprendeu a desenhar assim?

— Minha irmã mais velha é ilustradora. — Deu de ombros. — Ela meio que me ensinou algumas coisas.

Alex sorriu, e então olhou para a menina ao seu lado.

— Quem diria. — Foi o que disse simplesmente, antes de voltar a olhar os desenhos na pasta. — Seus irmãos parecem fofos, quero conhecer eles um dia.

— Eles também querem te conhecer, acredite. Ficaram animados com a ideia de um corredor do clube de atletismo ser meu amigo. ­- Deu de ombros.

Então o semblante de Alexander ficou um pouco mais sério e Tina se socou mentalmente por mencionar o clube. O menino sempre mudava de humor drasticamente quando seu esporte, o mesmo qual estava afastado, era mencionado.

Alex, ao terminar de olhar todas as folhas com um sorriso fraco desenhado nos lábios, guardou todas elas na pasta e a estendeu a Christina. A menina fez sinal para que permanecesse com ele.

— Os desenhos são pra você. Se você quiser, claro. — Tina disse. — Se não quiser, pode deixar comigo mesmo porque meus irmãos realmente fizeram muita coisa, mas...

— É claro que eu quero. — A interrompeu, sorrindo. — Se eu não dividisse o quarto com dois brutamontes do time de rúgbi, provavelmente colaria em uma das paredes.

— E qual o problema com os brutamontes de rúgbi? Eles não curtem desenhos infantis? — Brincou.

— Afeta a masculinidade deles. — Alexander riu, mostrando as covinhas que a menina não via há algum tempo.

Tina se viu um tanto imersa naquele sorriso por alguns segundos a fio, se lembrando então de que aquela não era a mesma expressão do menino que encontrara tragando um cigarro minutos antes. Estava curiosa para saber que tipo de coisa tinha lhe acontecido para que estivesse estressado a ponto de fumar às escondidas na escola. Deveria perguntar?

Mentalmente se socou mais uma vez por mostrar tanto interesse assim nos problemas do menino. Nos últimos dias tinha notado que Alex estava tomando uma importância bem maior do que o esperado em sua vida, e mesmo que ele fosse seu amigo, era óbvio que aquela preocupação toda da menina de cabelos curtos ia bem além disso. Apesar de tudo, custava a admitir a si mesma que as coisas realmente não estavam mais acontecendo apenas por causa do conselho estudantil ou da afeição que tinha criado pelo garoto de cabelos lisos — ao invés disso, preferia se chamar de intrometida ou curiosa em excesso.

— Você está com uma cara estranha. — Alex resmungou, acordando Christina de volta para o mundo real. Ele tirou do bolso da calça jeans uma pequena embalagem verde cintilante e a menina arqueou uma das sobrancelhas, curiosa. — Uma bala pelos seus pensamentos.

A garota riu.

— Está mesmo querendo comprar meus pensamentos por essa mixaria, Alex?

— É de hortelã.

— Fechado.

O garoto jogou o doce nas mãos da amiga e se apoiou nos cotovelos para ouvir o que ela ia falar.

— Por que você estava estressado? — Questionou, e Alexander lhe lançou um olhar curioso. — Era sobre isso que eu estava pensando.

O menino de óculos deu um longo suspiro.

— Não é legal te entupir dos meus problemas.

— Fala sério, Alex, você sempre banca o cara misterioso e nunca me conta nada, como vai me entupir de problemas?

Ele riu baixo, assentindo em concordância com a fala da menina. Então sua expressão voltou a ficar nublada, e ele disse:

— Esbarrei num dos caras do clube mais cedo, discutimos e quase comecei uma briga. É isso. — Deu de ombros.

— Um dos caras do clube, você quer dizer um dos seus amigos?

— Eu tenho quase certeza de que nós não somos mais amigos há um bom tempo. — Soltou um riso frio, enfiando uma das mãos no bolso para pegar o maço de cigarros que havia ali.

Tina fechou a cara com aquilo e arrancou os cigarros da mão dele.

— Ei.

— Sem chances, não vou te deixar fumar. Não aqui, nem agora. — Advertiu, usando o mesmo tom que costumava brigar com os irmãos mais novos. — Você sabia que esportistas não devem fumar?

— Não sou mais um esportista, Tina. — Tentou pegar o maço de cigarros da mão da menina, mas ela foi mais rápida ao enfiar aquilo no próprio bolso. — Fala sério.

— Nada disso. — Disse autoritariamente. — Agora por favor, dá pra tirar essa expressão depressiva do rosto, Alex? Não é legal consigo mesmo ficar assim por causa daquelas pessoas. Não é isso que elas querem, afinal?

Alexander suspirou, assentindo. Não gostava muito de admitir que Tina estava certa, embora soubesse que aquilo era um fato inegável. Oliver queria vê-lo mal. Talvez não por pura crueldade e rancor eternos, mas ele tinha dado motivos para que o antigo melhor amigo lhe desejasse tais coisas. No entanto, certamente aquilo não tirava a culpa do atual capitão do clube de atletismo de toda a história.

— Eu sou um idiota, né? — Questionou à menina, que revirou os olhos.

— Não. ­- Ela deu uma cotovelada nele. ­- Eu não te acho um idiota, pelo menos.

O menino a fitou por alguns segundos.

— Você é mesmo uma pessoa muito legal, Tina, mas não sabe nada sobre mim. — Soltou mais um daqueles risos secos que de certa forma irritavam a colega. — Eu prefiro que não saiba também.

Tina conteve uma risada antes que saísse, se lembrando da ficha com todos os dados de Alexander que carregava na mochila, presente do conselho estudantil. O menino nem fazia ideia do quanto a garota de cabelos curtos sabia sobre ele, mesmo que o mais importante não estivesse escrito nas folhas grampeadas. Ela pigarreou, dizendo:

— Você matou uma pessoa?

— Não. — Alex respondeu, talvez se perguntando onde Christina queria chegar com aquele questionamento.

— Machucou algum animal indefeso?

— Claro que não.

— Fez algo maldoso com alguma menina?

— Não né, Tina.

Ela deu de ombros.

— Então eu não vou te odiar. — Disse, simplesmente. — Esses, pra mim, são os três erros irreparáveis do universo. Desde que não tenha feito nada disso, eu posso te achar uma pessoa legal.

Aquilo deixou Alex em silêncio, e a menina permaneceu igualmente sem dizer nada por um bom tempo. De fato, desconcertá-lo deveria ser a profissão de Christina. Era incrível como a menina tinha capacidade de fazê-lo pensar mesmo sem estar dentro do problema realmente, como mágica.

Por outro lado, a pergunta de sempre flutuava em sua mente: ela seria mesmo capaz de não o odiar mesmo sabendo da verdade?

XX

Era manhã, e o sol amanhecia menos aquecido do que o comum. Com as blusas de frio do colégio e suas respectivas mochilas, Jessica, Rachel, Natalie e Tina iam em direção ao refeitório para tomar o café da manhã.

Rachel estava ansiosa, por isso andava um pouco mais desajeitadamente que o normal. Tinha prometido para Jessica que contaria às outras garotas sobre a carta naquela manhã, e mesmo que já imaginasse o tipo de reação que as amigas teriam, se sentia receosa porque não era só isso que tinha para falar.

Depois de uma madrugada inteira pensando em que decisão tomar após a longa conversa com a menina de cabelos loiros, sim, Rachel tinha escolhido o caminho que iria seguir.

— Qual nossa primeira aula de hoje? — Natalie perguntou sonolenta à Tina, que bocejou em resposta.

— Sei lá. — Disse, dando de ombros. — Acho que Inglês.

— É isso mesmo. — Jessica confirmou enquanto via o horário no celular, e Natalie fez uma careta. Odiava a professora de inglês. — Olha pelo lado bom, depois é aula do Julian.

— Graças aos céus. — Tina falou dramaticamente. — A aula de geografia nunca foi tão interessante como tem sido desde que Julian chegou. Eu realmente gosto disso.

— Isso é um pouco cruel. — Rachel observou. — Precisamos que a professora fixa quebrasse um dedo pra aula ficar legal.

— Verdade. — Natalie concordou. — Somos pessoas más.

— Procuro não pensar muito nisso pra não me lembrar que eu sou alguém muito insensível. — Tina deu de ombros, arrancando risadas das outras.

Chegaram silenciosamente ao refeitório. Natalie e Tina se encarregaram de irem buscar as comidas para o grupo, enquanto Jessica e Rachel buscavam um lugar em meio a multidão de alunos recém-acordados que se alimentavam para irem para a aula. Quando se sentaram numa mesa vazia, a menina de cabelos escuros batucava os dedos no tampo de madeira, receosa.

— Relaxa. — Jess lançou um olhar reconfortante, notando a ansiedade da amiga. ­- Você já sabe a reação das meninas. Natalie vai ter um surto e Tina vai ficar falando "meu Deus, que incrível". Isso se ela não soltar um daqueles "cara, eu sentia que você ia passar".

Rachel riu. Era verdade, as outras duas meninas eram extremamente previsíveis em qualquer situação.

Então logo Nat e Tina apareceram trazendo o café da manhã de costume delas: um copo grande de vitamina de frutas e pão de queijo. Se sentaram e foi então que Jessica lançou um olhar significativo à menor, que pigarreou.

— Tenho que contar uma coisa pra vocês antes de comermos e irmos pra aula. — Disse desajeitadamente.

— Tarde demais, já estou comendo. — Tina falou, enquanto dava uma mordida em seu pão de queijo despreocupadamente. — Mas desembucha aí.

— Eu... bom, recebi uma carta falando que fui aceita pra estudar na Wild Winters.

Talvez aquela fosse a milésima vez que dizia tais palavras, já que tinha treinado em frente ao espelho por um bom tempo como contaria aos outros madrugada anterior, mas a emoção continuava a mesma do começo — lhe parecia ainda surreal o fato de ter sido aceita na maior escola de esportes do mundo.

Como previsto por Jessica anteriormente, Natalie e Tina ficaram boquiabertas e não disfarçavam a expressão de espanto e animação com a notícia. Christina foi a primeira a reagir, parabenizando a amiga e fazendo milhares de perguntas desconexas que ninguém conseguia entender, enquanto Natalie permanecia em choque.

— Isso é o máximo! — Exclamou. — Você conseguiu a bolsa pro ano que vem?

— É aí que as coisas complicam. — Rachel riu baixo. — Eu precisaria me decidir até mês que vem, arrumar minhas malas e me mandar pra longe. Conseguiram essa vaga especial, e se eu não me decidisse até o dia, iriam passar a diante pra outro estudante daqui.

Tanto a garota de cabelos curtos quanto a de cabelos cacheados se entreolharam.

— Isso é sério? — Tina questionou, surpresa.

— Sério. E... bom, passei esses dias todos pensando no assunto sem tirar nenhuma conclusão, mas aí ontem... — Suspirei. — pensei bem no assunto, e resolvi ir mesmo.

Aquela foi a vez de Jessica a encarar surpresa, para então abrir um enorme sorriso.

— Estou feliz por você. — A loira falou à amiga.

— Eu também. — Tina fez uma expressão chorosa, se esticando sob a mesa para tentar dar um abraço em Rachel. — Minha pequena idosa está crescendo tão rápido, estou tão orgulhosa.

— Corta essa, Christina. — Rae fez uma careta, rindo.

Natalie olhava para a cena com uma expressão dramática de reflexão.

— Você vai ficar dois anos estudando na Wild Winters? — Questionou e Rachel assentiu. — Então isso significa que só vamos ter você com a gente depois que nos formarmos?

Novamente a menina assentiu, e Jessica deu uma cotovelada na garota.

— Não piora a situação, Nat. — Murmurou.

— É que isso é muito esquisito. Eu só estou com vocês há um mês e to com vontade de chorar por causa disso, é como se eu estivesse no grupo há uma eternidade.

— Sabe que eu tenho a mesma sensação? — Rachel questionou, dando de ombros. — É estranho. Acho que vou sentir mais falta daqui do que eu imagino...

As quatro garotas se entreolharam. Realmente sentiam como se aquele grupo estivesse junto desde sempre, quando na verdade as únicas ali que se conheciam antes de todos eram Christina e Jessica. Mesmo que a última delas não estivesse mais no clube, uma coisa era fato: tinham definitivamente sido unidas pela natação, e mesmo em pouco tempo, sabiam que aquele seria o melhor time que encontrariam na vida.

Xx

— Ninguém? Ninguém sabe quais sãos os fatores usados pra definir o clima de uma região? — O professor Julian questionou, em tom ofendido. Era mais uma de suas aulas incríveis, e a turma agora passava por uma pequena dinâmica, como uma chamada oral. Infelizmente poderiam dizer que a turma C não era uma das mais exemplares em Geografia. — Bom, eu admito que estou chocado com vocês. Imaginei que gente no segundo ano do ensino médio saberia me responder uma coisa tão simples como essa.

— A professora só passava textos. — Um dos alunos se queixou.

— Pois vocês deveriam ter lido os textos. — Ele cruzou os braços, rindo. — Aposto que ela não passou aquilo pra enfeitar o caderno, não acham?

Os alunos assentiram, cabisbaixos, e então o homem de aparência jovem soltou uma risada animada.

— Cá entre nós, eu entendo vocês. Copiar textos também não é minha praia. — Deu de ombros. — Mas bom, eu ainda preciso que vocês tenham minha matéria no caderno, então... vou passar um quadro-resumo do assunto na próxima aula a explicar tudo direitinho. Correto?

Todos assentiram.

— Fim da dinâmica, então. Vocês têm vinte minutos de aula livre. Mas antes de tudo... alguma pergunta?

Foi então que uma menina, sentada bem na frente, levantou a mão. Suas amigas ao seu lado riam baixo, murmurando a ela algo como "não faça isso".

— Diga, Jane. — Apontou para a menina.

— Hã... — Ela estava tão risonha quanto as outras colegas. — Professor, você é casado?

— Isso é uma pergunta sensível pra um solteirão de trinta e poucos anos, sabia? — Brincou. — Infelizmente eu não sou casado, e espero que essa pergunta não seja porque alguma de vocês meninas desenvolveu um interesse amoroso em mim, porque se for, saibam que não fazem o meu tipo.

Os alunos da sala gargalharam.

— Não gosta das novinhas, professor? — Um menino no fundo da sala perguntou, rindo.

— Imoral e ilegal, meu caro. Não sou um professor de nível tão baixo só por ser um substituto. — Brincou. — E eu também prefiro um tipo mais musculoso, se é que me entendem.

Os alunos então se entreolharam, surpresos. Tinham entendido perfeitamente o que o superior dissera, mas não era qualquer um corajoso o suficiente para revelar esse tipo de coisa para a turma toda.

— Você gosta de homens, professor? — Tina, no seu lugar de costume, exclamou de forma indiscreta, fazendo as melhores amigas lhe lançarem um olhar reprovador.

— Hm... será? Fica no ar o questionamento. — Gargalhou. — Agora chega de perguntas pessoais, aproveitem o tempo livre enquanto eu preencho o diário.

E dito isso, o homem de barba se sentou em sua cadeira de rodinhas e repousou os pés sobre a mesa, pegando o diário e tirando a caneta detrás de sua orelha para resolver suas coisas de professor.

— Parabéns por ser a pessoa mais indiscreta da sala, Christina. — Rachel falou, segurando a risada.

— Eu só perguntei, oras. — A menina de cabelos curtos deu de ombros. — Surpreendente. Mas de alguma forma eu já sabia disso, meu sexto sentido não falha.

— Até porque tem tudo a ver uma coisa com a outra, né. — Natalie ironizou.

Enquanto isso, Jessica fitava a janela com uma expressão esquisita, reflexiva. As outras meninas direcionaram o olhar a ela, que só então acordou do transe que tinha se colocado.

— Que foi, Jess? — A mais baixa das quatro questionou.

— Hã... Não estou muito bem. Preciso ir ao banheiro. — Respondeu. — Quanto falta pro sinal bater?

Tina checou o relógio do celular.

— Bastante ainda. Melhor você ir agora, porque a nossa próxima aula é espanhol e o Sr. Martinez não vai te deixar sair.

Natalie e Rachel concordaram. A loira assentiu, ainda pensativa, e então se levantou de seu lugar, indo até o professor pra pedir permissão para sair.

Enquanto isso, no primeiro andar, William perambulava pelos corredores, pensativo. Tinha saído no meio da aula para levar uma caixa à biblioteca, e agora, faltando alguns minutos para o sinal tocar, não tinha a mínima vontade de voltar para a sala.

Sua mente estava presa na competição que chegaria dali a alguns meses. Nunca foi um prodígio da natação como sua irmã gêmea, mas ele realmente tinha a esperança de ganhar uma medalha em alguma modalidade daquela vez, pois passara dias a fio dando o seu máximo nos treinos — o que era, definitivamente, um passo enorme.

Já era a talvez quarta volta que dava pelo andar distraidamente, esperando o tempo passar até o sinal soar pelo prédio principal, quando se assustou ao quase dar de cara com uma figura que saía de uma das salas fitando os próprios pés.

— Acho recomendável olhar pra frente enquanto anda por aí, Jessica. — O garoto disse enquanto cruzava os braços, se divertindo com a expressão de desentendimento da menina.

Ela piscou algumas vezes, até finalmente acordar e coçar a nuca, sem jeito.

— Ah, me desculpa... William. — Disse num tom avoado.

O menino a encarou por alguns segundos, enquanto continuavam parados no meio do corredor. A menina de cabelos loiros estava diferente.

— Tá tudo bem? — Finalmente perguntou o que tinha em mente.

— Tá, ué. — Ela respondeu, tentando contornar o colega para seguir seu caminho, mas ele tampou sua passagem. Jessica lançou a William um olhar fulminante. — Dá pra me deixar passar ou tá difícil?

— Tá difícil. — O menino de cabelos escuros apoiou um dos cotovelos na parede. — No que está pensando que te deixou com essa cara?

Com seu costumeiro olhar um tanto inexpressivo e ao mesmo tempo curioso, Jessica fitou William de cima a baixo. Ele já estava realmente acostumado com aquela expressão, ela sempre o olhava assim quando ele lhe fazia uma pergunta que não queria responder.

Para a surpresa do menino, Jess suspirou, dizendo:

— É obrigatório nadar pra estar no clube de natação?

Will arqueou uma das sobrancelhas. Que tipo de pergunta era aquela?

— Eu... acredito que sim. — Respondeu, dando de ombros. — Por quê?

Com mais um suspiro, ela balançou a cabeça.

— Esquece... — Resmungou, e novamente tentou passar pelo garoto alto, que impediu sua passagem pela segunda vez. — Você é um mala mesmo, hem?

William fez uma careta.

— É impressão minha ou está pensando em voltar pro clube? — Questionou. Dentro de si, uma pequena chama de felicidade se acendeu. A garota não ia desistir completamente do esporte, então?

—Não é isso, eu só... estava pensando sobre o assunto e me veio essa pergunta à mente. Só isso. — Disse, mas o olhar cheio de expectativa do nadador sob si a fez revirar os olhos. — O que foi?

— Você sabe que não precisa mais ficar na defensiva assim comigo. Só desembucha, é melhor do que ficar andando por aí desse jeito, pensando na morte da bezerra.

Jessica bufou e então se encostou na parede do corredor. Olhou para os dois lados pra ver se não tinha ninguém por perto, e então finalmente confessou:

— É, talvez eu esteja pensando em voltar pro clube, mas é só... uma ideia idiota. Quero dizer, eu nem consigo nadar ou sequer entrar no ginásio, e não tenho muitos motivos pra voltar pra lá, apenas...

— Sente falta?

A loira assentiu, e William desviou o olhar para o teto, pensando.

— Não é uma situação muito fácil.

— Obrigada por me lembrar disso, eu não fazia ideia. — Ironizou.

Will riu baixo, desacreditado no quanto a colega poderia ser ácida às vezes.

— O pessoal do clube também sente sua falta, mas acho que já te disseram isso antes, né? — Questionou, e Jessica assentiu. — Acho que deveria voltar também.

— Não quero criar muitas expectativas sobre isso pra não me dar mal depois. Eu não tenho meios pra voltar se eu não consigo entrar na piscina.

O garoto não era um bom conselheiro, de longe talvez o pior de todos, e outro ponto importante de se notar também era que nunca tinha passado por algo parecido com aquilo, por isso não tinha bem o que lhe dizer. Talvez pudesse piorar a situação se soltasse suas palavras desajeitadas de sempre, e, quem sabe fazer sem querer a garota largar de vez o sonho. Definitivamente não queria algo assim para Jessica.

Foi seguindo tal linha de pensamento, em busca de uma solução para tudo aquilo, que uma ideia veio à sua cabeça, literalmente como se uma lâmpada tivesse lhe iluminado de repente.

— Na minha escola antiga, havia um membro do clube de natação que não nadava. — Ele disparou tal frase repentinamente, fazendo a garota ao seu lado fitá-lo com curiosidade. — Ele era um auxiliar do técnico. Cuidava de supervisionar o time quando ele não estava, de pedir verba para o conselho estudantil quando as coisas apertavam, aparecer nas reuniões escolar em nome do clube, de organizar as competições, marcar os tempos, ajudar a avaliar... O braço direito do treinador, literalmente.

Jessica pensou um pouco.

— Está insinuando que eu deveria pegar esse cargo? — Questionou. — Eu nem sei se nosso clube permite isso. É uma escola diferente.

Will deu de ombros.

— Deveria falar com o Vermont. Eu tenho quase certeza que ele ia adorar um ajudante, ultimamente aquele cara tem estado muito estressado com as competições vindo logo aí. — Aconselhou. — E se quiser, eu vou com você depois das atividades do clube. Não vou ter nada pra fazer mesmo.

Jessica riu baixo, fazendo William receber aquela sensação de trabalho cumprido em seu peito. A menina estava inegavelmente mais alegre do que antes, e mesmo que não fosse tão fácil assim ler o que se passava na mente de Jessica Carter, ele sabia que agora as chances de estar levando sua ideia realmente em conta eram grandes.

Antes que pudessem prosseguir o assunto, o sinal para a terceira aula bateu. Jessica olhou nos olhos do garoto alto, com um sorriso discreto nos lábios.

— Eu acho que... vou pensar bem no assunto. Nunca pensei que eu fosse te dizer isso, mas você foi de grande ajuda, William. Valeu.

— Disponha.

E então ela saiu pelo corredor, deixando seu colega ali, ainda parado no mesmo lugar com um sorriso desenhado no canto dos lábios.

Xx

Gabe odiava filas. Talvez fosse esse um dos motivos que o fazia comer apenas alguns minutos antes do sinal bater, quando todos já tinham saído e o refeitório estava quase deserto: evitar muvucas. É, Gabe também odiava muvucas. Talvez ele odiasse coisas demais.

Infelizmente naquele almoço tinha tido a brilhante ideia de ir comer no horário normal depois de John arrastá-lo até lá quando o sinal do fim da aula soou, e agora ele estava preso num tumulto sendo empurrado pra lá e pra cá apenas pra pegar um... suco.

É, talvez mesmo a requintada S.S., com seus alunos de alto nível social, também pudesse ser considerada uma selva em determinados momentos.

Quando finalmente conseguiu sair daquela multidão que chamavam de fila carregando seu copo de suco de laranja intacto, teve uma surpresa ao esbarrar de costas com alguém que passava. Já ia começar a se queixar, mas quando se virou, se deparou com Natalie ali carregando uma bandeja com alguns copos de suco, que por pouco não caíram.

— Ah, Gabe, me desculpa. — Falou, preocupada com os copos, sem tirar os olhos da bandeja. — Não tinha te visto aí.

— Tudo bem... — Ele falou.

Foi quando seus olhos finalmente se encontraram que o menino fez questão de cortar aquele contato, olhando para o chão. Não tinham mais se visto desde o dia anterior, qual passaram o tempo inteiro juntos, por isso Gabe não podia deixar de se sentir um tanto esquisito. Nunca tinha imaginado que passaria tanto tempo assim com aquela garota, que por sinal agora parecia bem mais íntima dele do que o esperado, e que ainda por cima a deixaria conhecer tanto sobre si. Era no mínimo inusitado — no sentido ruim da palavra, ele queria dizer.

— Acho que é a primeira vez que te vejo almoçando. — Comentou.

— Geralmente não venho comer nesse horário. Muita gente. — Explicou.

Natalie riu baixo.

— Isso é bem a sua cara, na verdade. — Pensou alto. — Comer sozinho, evitar todo mundo...

Gabe assentiu. É, ele era um verdadeiro e completo antissocial, olhando por esse ângulo.

— Bom, eu acho melhor eu ir. Como pode ver, fiquei encarregada de levar as bebidas pra mesa hoje. — Disse, apontando com a cabeça para a bandeja que tinha em mãos. — E a propósito... você deveria vir comer com a gente. Tá tipo o clube todo lá.

O menino de cabelos castanhos bem penteados balançou a cabeça negativamente.

— Não acho que seja uma boa ideia. — Falou com um riso fraco.

— Fala sério, vai se recusar meu convite pra ir comer pela segunda vez?

— Olha, não sei você, mas eu não gosto de almoçar junto de pessoas que não gostam de mim. — Falou, cruzando os braços.

Natalie revirou os olhos.

— Me poupe, Gabriel, ninguém te odeia, é você quem odeia todo mundo. — Rebateu. — Vem logo, ninguém vai te engolir não.

Gabe respirou fundo e então finalmente se deu por vencido, concordando em ir. Não sabia bem o porquê, mas ouvir a menina de cabelos cacheados chamá-lo pelo primeiro nome tornava suas palavras impossíveis de discordar, ao mesmo compasso em que o irritava completamente. Proezas que só a Campbell conseguia.

Estavam desorientados procurando a mesa onde os outros adolescentes estavam sentados, qual Natalie dissera estar infelizmente do outro lado do grande refeitório, quando a menina começou a puxar assunto:

— Seu pai é bem legal. — Disse.

Gabe sentiu um nó formar na garganta e resmungou alguma coisa em resposta. Deveria lhe contar que aquele cara só era legal até virar seu progenitor?

— E me parece que você não tem uma boa relação com ele.

— Eu não diria que "não é uma boa relação". — Falou, reflexivo, fazendo aspas com os dedos. — Está mais pra uma péssima relação mesmo. Algo entre o submundo e o tártaro, eu acho.

Natalie arqueou uma das sobrancelhas.

— É tão ruim assim?

— Você nem imagina...

Gabe imaginava que, depois daquilo, a menina mudaria de assunto ou simplesmente ficaria em silêncio, mas contradizendo seus pensamentos ela voltou a falar:

— Ele parece ter muito orgulho de você. Fez questão de contar pra família toda que você é o melhor nadador do clube, que já ganhou medalhas, que é o capitão...

Gabriel riu baixo.

— Eu sou só um troféu. — Disse, assumindo uma expressão séria novamente. — Sou só o sonho que ele não conseguiu realizar, só isso.

E antes que a menina pudesse rebater tal frase, chegaram à mesa onde todos do clube conversavam e riam alto. Nela estavam dispostos todos os membros do clube, George e uma garota de cabelos lisos que Gabe conhecia de vista, a mesma que abraçara Jamie no fim da última competição interna. No meio da mesa, dois lugares ainda estavam vazios — um de frente para o outro.

— Que milagre, a Natalie trazendo o Gabe pra comer com a gente. — Henry notou a presença dos dois antes de todos. A mesa toda então direcionou o olhar aos colegas.

— A parte mais milagrosa é que eles não se mataram no caminho. Olhem só, sucos intactos. — Jamie observou, arrancando risadas dos amigos.

A menina de cabelos cacheados então começou a distribuir as bebidas pela mesa, enquanto Gabe se sentava num dos lugares vagos, ao lado de John.

— Do que estavam falando tão animados? — Natalie questionou, se sentando.

— Estávamos falando sobre o quanto você e Gabe fazem um belo casal. — Tina brincou, recebendo um revirar de olhos da menina. — Brincadeira. Não a parte de fazerem um belo casal, porque isso é verdade.

— Concordo. — John assentiu, recebendo uma cotovelada de Gabe, e rindo com aquilo.

Natalie balançou a cabeça em desaprovação.

— Na verdade estávamos falando sobre como o Vermont está insuportável ultimamente. — Rachel esclareceu. — E Jamie disse que deve ser falta de um amor na vida dele.

— O que é pura verdade. — Henry disse, tomando um gole de seu suco. — Aquele cara anda muito amargurado. Não tinha necessidade de pegar tão pesado nos últimos treinos, ainda falta um mês pra competição.

— Não vou discordar. — Natalie disse. — Acho que eu já comentei sobre eu e Gabe termos ouvido ele discutindo com alguém outro dia, né?

A maior parte dos colegas assentiu, enquanto George, Jessica e a menina de cabelos lisos, Thais, olhavam confusos para os outros. Natalie então explicou rapidamente aos três o que tinham visto naquela noite — sem contar muitos detalhes, por motivos óbvios. — e logo foi indagada:

— Vocês não fazem mesmo ideia de quem poderia estar falando com ele? — Foi Thais quem fez a pergunta, apoiando os cotovelos na mesa.

Tanto Natalie quanto Gabe se entreolharam e negaram com a cabeça.

— Bom, — Jess começou a dizer. — ou ele discutiu porque está irritado, ou ele está irritado porque discutiu.

— Faz sentido. — William observou. — Aposto na última opção. Ele começou a ser carrasco do nada.

— Mas que tipo de discussão deixaria o Vermont tão puto assim? — John questionou.

Os adolescentes pararam um pouco, todos reflexivos.

— Acho que isso não é um problema nosso. — Tina foi a primeira a comentar. — Podem ser problemas familiares, alguma coisa séria... que definitivamente não são da nossa conta. A gente não sabe nada sobre a vida do cara.

— Que a gente não sabe nada é fato. — Jessica falou. — Mas se isso prejudica os treinos, acho que deviam sim fazer alguma coisa.

— Concordo plenamente. — Will disse.

— Eu também. — Jamie falou.

— Como sempre, Jessica a mais sábia do grupo. — Henry brincou, arrancando uma risada da garota.

Natalie cruzou os braços, pensativa.

— Certo, eu também acho que devíamos fazer alguma coisa. — Disse. — Mas o quê? A gente vai chegar no treinador do nada com uma namorada como oferta de paz?

— Não é uma ideia de todo mal. — John falou. ­- Alguns homens melhoram bastante com uma namorada.

— Você, no caso, não melhora nem com duas né. — Gabe disse, fazendo os adolescentes na mesa rirem.

John deu de ombros.

— Eu sou o tipo de cara que vocês não devem usar como exemplo. ­- Falou, e então fitou os amigos. — Estão ouvindo? Não traiam as pitanguinhas de vocês.

— "Faça o que eu digo, não faça o que eu faço". — George fez aspas com os dedos.

O grupo de alunos continuou a longa conversa até o sinal de saída bater. Mesmo com todo o papo, não conseguiram chegar a conclusão alguma sobre o problema de Vermont, e nenhum deles se dispôs a tentar algum diálogo com o homem também — de fato, o medo de acabarem piorando a situação e arranjando mais treino para o time era bem maior.

Surpreendentemente, Gabe conseguiu se integrar com os colegas de clube durante aquele almoço. Talvez, assim como Natalie dissera, o problema não eram os outros o odiarem, e sim ele ter essa impressão de todos mesmo sem tentar interagir. É, ela estava certa sobre muitas coisas.

Xx

O dia já estava escurecendo e finalmente o horário de treino do clube de dança tinha acabado. Naquela tarde, a professora Arantia parecia bem mais apressada do que o comum, e com isso vinham de bônus críticas e mais críticas aos alunos apesar de estarem todos se esforçando.

Jessica e Teresa desciam para o primeiro andar, tomando água em suas garrafinhas, quando a menina de cabelos cor-de-rosa parou a amiga.

— Jess, está tudo bem? — Perguntou.

Jessica ainda estava pensativa. Tinha, depois da conversa com William, quase certeza de que desejava voltar ao clube de natação nem que fosse como uma simples auxiliar, mas ainda temia que seu medo da água não a deixasse entrar naquele ginásio novamente. Se apenas pensar na piscina do clube já a fazia ter náuseas, o que ficar cara a cara com ela poderia lhe fazer?

— Não, na verdade. — Disse, sincera, seguida de uma risada. — Mas nada que precise se preocupar.

— Está com aquela cara de quem está pensando no clube. Acertei?

"Uou, na mosca" a loira pensou, surpresa com a agilidade da colega de clube em lê-la.

— É, algo assim. — Disse. — Estou pensando em voltar...

— Sabia. — Teresa falou, com seu tom de "sabe-tudo". — Não está gostando do clube de dança?

A menina negou com a cabeça.

— Eu gosto de dançar, aqui é legal e mesmo o pessoal não falando comigo, me sinto confortável. — Suspirou. — Mas sabe quando você sabe que não se encaixa?

— Sei. — Sorriu de lado. — E o que é que está te impedindo de ir agora mesmo atrás da transferência de clubes?

— Um medo ridículo de água.

— Ah... então era esse o problema complexo que você tinha? — Questionou mais a si mesma do que à colega. — Acho que eu te entendo perfeitamente.

— Eu duvido muito. — Jess riu.

As duas se dirigiram silenciosamente até a escada em frente ao prédio do clube, onde Resa fez sinal para que se sentassem. Logo, depois de um longo suspiro, começou a falar:

— Eu te contei que tive alguns problemas com meu pé um tempo atrás, né? — Questionou e a loira assentiu. — Bom, eu tive a mesma impressão de que estava tudo acabado. Dança é o meu sonho, e quando me disseram que eu deveria ficar afastada do clube por alguns meses, achei que tudo ia por água a baixo, que eu teria que arrumar outro sonho, que eu nunca mais ia poder dançar...

Ela fez uma pausa reflexiva, provavelmente se lembrando dos dias torturantes fora do estúdio. Então voltou a falar:

— O que eu quero dizer com isso é que eu sei o sentimento, e mais: nada disso se supera sozinho. Sinceramente, se você quiser mesmo voltar a nadar, você vai conseguir perder todo e qualquer medo. Não estou dizendo que vai acontecer imediatamente, trauma é algo que se desfaz aos poucos, mas se você se esforçar e começar a dar os pequenos passos, quando perceber, estará nadando de novo. — Sorriu reconfortantemente.

Uma pequena lágrima rolou pelas bochechas de Jessica. Era uma verdadeira chorona, e aquelas palavras tão motivadoras também não a ajudavam a manter a pose.

— Então... eu deveria tentar? — Questionou, enxugando o rosto com uma das mãos.

— É claro, garota! — A espalhafatosa Teresa exclamou, sorrindo. — Eu vou estar torcendo por você, de verdade. Ah, desde que não esqueça de ir ver minhas apresentações, é claro.

Jess sorriu abertamente e então se levantou, seguida da menina de cabelos rosados, que a abraçou.

Jessica estava a caminho do clube de natação. Seus cabelos bagunçados e sua roupa de treino, pela primeira vez em um bom tempo, não eram sua maior preocupação ao andar apressadamente pelo campus da escola. As palavras de Teresa ainda corriam pela sua mente numa velocidade incrível, e talvez nunca tivesse se sentido tão motivada a fazer alguma coisa antes. Ela, a garota na maior parte do tempo prudente, estava sendo movida pelos instintos a fazer uma grande decisão.

Durante o caminho, numa das praças quase em frente ao ginásio, avistou o professor Julian passar. Ele a fitou curioso, mas a garota não fez muita questão de parar para se explicar, apenas sorriu ao homem e voltou ao seu caminho.

Entrou no clube afobada. Fazia muito tempo que não entrava ali, tempo o suficiente para sentir uma nostalgia esquisita ao atravessar as portas de vidro e se dirigir ao escritório de Vermont, que tinha a porta aberta e a luz acesa.

Respirou fundo ao bater na porta, tomando a atenção do homem de olhos claros, que mesmo parecendo extremamente sério antes, a fitou com um olhar surpreso.

— Jessica? O que está fazendo aqui? — Questionou, fechando seu notebook e observando a menina de cabelos loiros atentamente.

— Eu... — Começou a dizer, respirando fundo para conter as batidas agitadas no peito. — quero voltar pro clube, treinador. Como uma auxiliar.