Sweetener

1 Sweetener — capítulo único


Killua poderia jurar que sua vida nunca fora doce. Muito pelo contrário, tal sabor adocicado nunca fora sentido por ele em meio ao gosto enferrujado do sangue daqueles que assassinava cobrindo suas mãos — muito menos na mansão fria onde morava, com as pessoas que residiam nela. Sua família poderia ser tudo, menos aconchegante.

A ideia de lar doce lar não existia para ele.

Talvez fosse por esses motivos que ele era tão fascinado por chocolate. O sabor sempre o preenchia de uma forma única, como nada que já tivera a oportunidade de comer. Mas não era qualquer chocolate que cumpria esse papel, apenas os ChocoRobots eram capazes de fazê-lo se sentir acolhido.

Era um contentamento que acabava sempre que a caixinha em formato de robô ficava vazia.

Esse era o único porém dos chocolates, eles não duravam. Muito pelo contrário, acabavam na mesma voracidade com que ele os comia.

A vida de Killua era fria e vazia sem esses pequenos momentos.

Ter de acumular poder para ser reconhecido, ter de acumular vidas destroçadas para ganhar renome, ter sempre que cumprir por algo para que assim e só assim, fosse acolhido pelo vazio daqueles corações que o rodeavam.

Claro que haviam exceções, mas sua família nunca via com bons olhos sua amizade com os empregados.

A vida de Killua sempre corria nessa constante, nesse ritmo e ele já havia se acostumado, deveria ser acostumado a isso, pois não havia uma escapatória de seus deveres enquanto um Zoldyck. Por mais poderoso e capaz que fosse, ele ainda se via preso aqueles que lhe criaram e ensinaram tudo o que sabia, como se houvesse algo que o impedisse de pensar adiante. Ver além dos muros que o cercavam.

Então existiu alguém que pudesse fazer isso por ele.

Não apenas uma pessoa, mas apenas aquela pessoa importava. Gon importava.

Gon fora aquele que lhe mostrara a saída que ele não conseguia enxergar, a possibilidade que ele nunca cogitara pois, até o momento em que o conhecera ele era vazio de vontade. Vazio de desejo, de ambição.

Até conhecer Gon Freecss ele, Killua Zoldyck, era apenas carne, músculos e ossos, uma massa moldada a vontade de sua família.

Um boneco, um fantoche usado para tirar a vida dos outros assim que ordenado.

Até conhecer Gon, tudo o que Killua conhecia era a vida de um assassino, que matava por quem estivesse disposto a pagar pelo preço de um membro dos Zoldyck.

Até a luz coberta por doçura de Gon chegar e lhe preencher, tudo o que Killua era consistia em vazio e trevas. Um breu sem fundo.

Um sol contagiante para uma lua solitária sem um planeta para orbitar.

Era assim que a amizade dos dois era.

Uma razão para uma força sem medida.

Apoio, confiança.

Com Gon ao seu lado, Killua podia jurar que experimentara o lado doce da vida. A maior alegria que uma criança poderia sentir ao lado daqueles de quem gosta, de seus amigos. Todos os dias eram uma nova aventura, um mundo diferente a ser descoberto — por mais que a malícia de seu instinto assassino insistisse em aparecer no melhor dos momentos, mais importante que isso, ele descobrira que poderia dar outro uso para suas habilidades mortais.

Estar ao lado de Gon valia mais do que um estoque de dois anos de ChocoRobots!

Ele só torcia para que essa amizade não acabasse tão cedo.

Que esse laço que os unia não fosse desfeito por tão pouco.

Notas finais
Me baseei no fim do arco do Exame Hunter para escrever essa peça, quando o Gon vai buscar o Killua na mansão da família dele - com uma dose de inspiração vinda de Ariana Grande.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!