Sweet and Sour
1 Capítulo 1 - O Esquartejamento de Matilda
Notas iniciais
Comentem!
Beijos!
Bisou ♥
Belle.Époque
CAPÍTULO 1
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O que Maria sentiu quando colocou os olhos em Nathan foi uma batida de carro. Como se conseguisse ver o desastre acontecendo, em câmera lenta, bem à sua frente, mas simplesmente não conseguisse evitar... e, para o seu desespero, não. Não se tratava de uma metáfora.
Tudo bem que, o carro não era dela, mas sim dele. Maria jamais se atreveria a contribuir com o aquecimento global e o fim do maldito mundo. Então, na verdade, ele bateu em sua bicicleta quando estava estacionando o seu carro em frente à emissora de TV. Ela só tinha dado alguns passos para trás e parado para tirar o capacete e, quando se virou para trás, viu o desastre iminente acontecendo diante de seus olhos.
E o assistiu em câmera lenta.
— NÃAAAAAAAO! — ela gritou.
O carro foi para trás um pouco demais... O suficiente para derrubar sua bicicleta.
Não só isso: ele passou por cima dela. Como um maldito psicopata. Como se esse sempre tivesse sido o seu plano: destruir o patrimônio de alguém.
Só com o estrago feito, ele parou. Como se pensasse: “tem algo errado aqui”.
E então Nathan olhou pela janela e aquela moça de longos cabelos cor-de-rosa e pele morena estava com os olhos verdes arregalados e a boca aberta. Como se ele tivesse acabado de atropelar alguém na sua frente. Oh, merda...
— MATILDAAAAAAA! — ela gritou, como se sentisse dor.
Espera, o quê?!
Ele pulou para fora do seu carro, mas tudo o que encontrou foi uma bicicleta amassada debaixo dos seus dois pneus traseiros. E a moça, que lhe olhava com raiva e lágrimas nos olhos, veio para cima dele como se quisesse lhe assassinar com o seu capacete cor-de-menta. Por causa de uma maldita bicicleta.
— Qual é a merda do seu problema?! — ela bradou, furiosa. — Meu Deus! Você é cego?! Não olha por onde anda?! Olha só o que você fez! Tem ideia do quanto ela me custou?!
Eram tantas perguntas que ele nem soube como responder, além de:
— Você não deveria ter parado sua bicicleta tão perto de uma vaga para PNE.
E então o queixo dela caiu.
— Como é que é?!
— É uma vaga para portadores de necessidades especiais e sua bicicleta estava fora do bicicletário... — ele insistiu e então deu de ombros. E o jeito com que fazia isso parecia sacudir todo o seu corpo. — Na minha opinião, você assumiu o risco.
Maria soltou uma respiração profunda, como se não acreditasse no que ouvia.
O garoto à sua frente era inacreditável, mas ela deveria imaginar que ele seria o tipo de cara que não estava nem aí para o que era certo. Era o que dizia a sua aparência: os cabelos negros e lisos, grandes na frente que iam diminuindo atrás — revelando uma nuca muito branca e uma parte de seu corte que era aparada à máquina —, o casaco de couro que vestia no inverno e os rasgos enormes nos joelhos de sua calça jeans.
Ele tinha personalidade, ela tinha que admitir.
A personalidade que dizia: “sou um maldito anarquista e foda-se as leis”.
“Aí está alguém que se levantou da cama hoje para acabar com o meu dia” ela pensou.
— Você quer que eu acredite que é deficiente?!
Aquele cara só podia ser o ápice do mau-caratismo.
Ele devia ter a sua idade, por volta dos vinte e poucos anos — com certeza, filhinho de papai para conseguir ter um carro, nesse país nessa idade —, visivelmente saudável e ainda tinha coragem de falar com ela como se ele fosse deficiente ou seja lá o que fosse.
— Ah, entendi, você só pode ser retardado, não é?
Ele fez uma careta.
— “Deficiente” e “retardado” são palavras ofensivas.
— Bem, talvez eu queira te ofender.
— Por que eu passei por cima de uma bicicleta sem querer? Você está querendo ofender toda uma minoria... Ou melhor, duas minorias só por causa de um maldito problema particular?
Ele tinha um ponto e Maria não pôde evitar de sentir seu rosto ficar vermelho. Então ela lhe pediu desculpas e ele as aceitou. E só quando aquele maldito rapaz de traços asiáticos ergueu a cabeça, como se fosse superior, foi que a moça percebeu o quanto aquilo era errado. Era para ele estar lhe pedindo desculpas. Tinha acabado de atropelar a Matilda!
— Espera. Não mude de assunto! Você passou por cima da minha bicicleta!
— Bem, eu ia chegar lá — ele disse, coçando sua nuca, naquele lugar onde os cabelos eram mais baixos. — Sinto muito por isso. Sua bicicleta estava em meu ponto cego.
Ela cruzou os braços, estupefata.
— Então a culpa continua sendo minha?
— Eu diria que é uma culpa compartilhada: você deixou sua bicicleta aonde não deveria e eu deveria ter checado antes de ter dado ré — ele respondeu. E como a moça não lhe parecia nenhum pouco satisfeita com a sua aceitação da culpa, ele meteu a mão no bolso e puxou o celular. — Escute, eu estou um pouco atrasado, mas anote o meu número. Vou tomar a responsabilidade e pagar o conserto, O.K?
“Uau, um verdadeiro Santo. Tão bondoso” ela pensou, mas anotou o seu número.
E salvou como “Assassino de Matilda”.
Quando retiraram a carcaça debaixo do carro dele, no entanto, ela pensou seriamente em mudar o para “Esquartejador de Matilda” ou algo assim porque o desgraçado tinha conseguido, com a ajuda do seu carro, separar o guidão de sua bicicleta do resto do corpo. E ela olhou para aquilo como se nunca tivesse visto em sua vida.
Ele também.
Nathan jamais lhe admitiria isso, mas, naquele momento, segurando a sucata esquartejada da sua bicicleta, aquela garota lhe lembrou muito o quadro da Pietá. Pelo menos, antes de erguer o olhar para ele e lhe encarar como se quisesse retribuir aquela destruição.
Em dobro.
— Eu sinto-... — ele ia tornar a lhe pedir desculpas.
O que aconteceu, no entanto, foi que uma mulher de fone de ouvido e com o celular na mão saiu do prédio e foi até eles, com um segurança. Maria e Nathan tiveram a ligeira sensação de que já tinha lhe visto antes, mas era uma dessas mulheres brancas e aguadas que se parecem com qualquer uma que já cruzou na sua frente.
— Srta. Rodrigues, Sr. Aoyama, o que estão fazendo? Vocês estão atrasados! — ela dizia, parecendo afoita. Então seu olhar foi para a bicicleta e fez um “O” com os lábios.
De fato, Maria estava com pressa e pelo visto o japonês desgraçado ali também, então não se surpreendeu muito quando a mulher lhe assegurou que chamaria alguém para ver o que aconteceu com a sua bicicleta — ou o que restou dela — desde que ela fosse logo para o set.
E então aquela sensação de quando viu o atropelo lhe acometeu de novo. Como se estivesse prestes a testemunhar uma desgraça, em câmera lenta: quando viu o rapaz entrar no mesmo elevador que ela e apertar o mesmo andar.
— Você não podia ter pelo menos pegado outro elevador? — ela disparou.
— Não tinha mais nenhum no térreo.
— E daí? Ao menos respeitasse a raiva que estou sentindo de você!
— Por causa de uma bicicleta? — ele disse, sem esconder o desdém na voz.
Maria cruzou os braços, sobre o moletom cor-de-menta, e então se virou de frente para ele. Quase como se estivesse se controlando para não bater no rosto dele com uma de suas mãos. Pelo menos, era o que o olhar dela dizia à ele: “tome cuidado, garoto”.
— Não é uma bicicleta. É a bicicleta e ela tem nome — retrucou-lhe, furiosa.
— Oh, sim... Matilda.
— Isso, Maltida.
— Certo...
“Que menina louca. Que tipo de pessoa dá nome para coisas?” era tudo o que Nathan conseguia pensar. Afinal, você sabe, são apenas coisas. Tudo no mundo vai parar de funcionar um dia. Nada foi feito para durar para sempre, mas pelo menos ele teve o bom-senso de ficar quieto até o elevador chegar no andar de ambos.
E Maria esperou que eles nunca mais se cruzassem de novo.
— Bem, eu mando um cartão de desculpas e que desejo uma boa recuperação assim que ela sair da cirurgia — foi o que ele disparou, debochado, como se esperasse o mesmo.
No entanto, é claro que não foi isso o que aconteceu.
— Oh, Nathan! Graças à Deus você chegou! — outra loira aguada disse, parecendo aliviada por vê-lo saindo do elevador. — E trouxe a Srta. Rodrigues com você! Que ótimo, só faltavam vocês dois!
— N- nós dois? — Maria gaguejou, incrédula.
— Oh, sim. Para começarmos a gravação de “Sweet Nightmare”!
Eles trocaram olhares, como se não acreditassem naquela situação caótica.
Maria, é claro, foi quem se recuperou primeiro. Ela já esperava alguma desgraça como aquela.
— Ah, então você é um confeiteiro? — ela perguntou, com um sorriso maldoso e largo. — Ótimo, eu mal posso esperar para acabar com você e te roubar o prêmio.
Então ela jogou os cabelos para trás e saiu marchando em frente. Como uma mulher com uma missão.
Nathan olhou para a loira, parecendo confuso.
— Mas eu não sou-...
— Não.
— E ela não sabe...?
— Acho que ela não leu que seria uma edição especial — a loira mostrou um sorriso gentil.
Ele sorriu de volta, por reflexo, e disse:
— Mal posso esperar para roubar o prêmio dela também.
— Esse é o espírito que queremos!
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