Sweet Sad Melody
1 Sad Memory
Notas iniciais
Não ousem chamar meu psicólogo pra dizer que eu virei depressiva, são uma e meia da manhã HAHA
Essa é uma fanfic triste, sobre um Itália triste, e um mundo pós segunda guerra mundial.
A música usada é Sad Memory - Yiruma.
Boa leitura.
As boas novas correram pelo pequeno vilarejo italiano rapidamente, apesar de não haverem meios de comunicação além dos gritos e fofocas nas mercearias.
“Os soldados estão voltando”
Mães ansiosas correram para a entrada da cidadezinha, apertando lenços e demonstrando um nervosismo característico. A esperança e o medo caminhavam lado a lado em tempos de guerra. Esposas choravam com medo, e crianças aguardavam curiosas pela volta de um pai que muitas delas nunca tinham nem mesmo visto.
Seis anos se passavam agora, e aquele era o fim de uma chacina, de um reinado de terror. Tendo o estado italiano apoiado o lado errado ou não, seres humanos são o que são. E a guerra terminara.
A terra começou a tremer sob os pés deles. Pescoços esticaram-se para observar enquanto do alto da colina ao longe os caminhões surgiam em fileira, um atrás do outro. Os perdedores foram recebidos com alegria e festança. Cães latiam, pessoas gritavam nomes, em busca de uma voz conhecida.
Todos os cinco caminhões estavam fechados firmemente.
Um pequeno rapaz com as roupas azul-escuras de seu exército observou enquanto os caminhões paravam um atrás do outro na praça principal. Ele estava sentado no beiral da veneziana de madeira, e apesar de sua postura aparentemente relaxada para os que viam de longe, ele tremia e seus olhos estavam vermelhos pelas lágrimas.
Como um ‘País’, ele conhecia a dor de seu povo. E quando alguns poucos soldados desceram dos caminhões, seu coração apertou-se no peito.
Porque aqueles eram a minoria. Porque eles estavam ali não para receber honrarias e boas vindas, mas para dar à cidade as más notícias.
O choro começou quando eles desceram o primeiro caixão de mogno.
E um por um os números cresciam cada vez mais, e um por um eles foram alinhados por toda a extensão da praça, dando uma, duas, três voltas.
Aqueles eram seus “heróis”. Aquilo foi o que restou de seus homens, de seus filhos, de seus maridos.
Ninguém que retorna da guerra está vivo.
Feliciano – um nome tão cruelmente irônico naquele momento – fechou os olhos e apertou os punhos, forçando-se a continuar ali. Gritos cortavam o ar até ele, desespero, pânico, dor... A dor de seu povo. A dor dele.
Sua nação estava em luto.
O rapazinho encolheu-se numa bola e ouviu em silêncio sua punição. Porque ele deveria ter lutado também. Porque muitas daquelas mortes teriam sido evitadas se ele tivesse lutado ao lado daqueles homens.
Esse é o tipo de pensamento confuso que aqueles que estão vivos têm. O desespero de precisar encontrar um “culpado”. Ou a necessidade de uma esperança. O tão cruel ‘e se’, que talvez fosse responsável por ainda mais mortes. E se?
Choro. Crianças chorando, mães chorando... Feliciano chorou também.
Por quê?
O mundo lindo que ele costumava retratar em suas tão famosas pinturas, a alegria e a paz que preenchia seu amado país... Onde estavam elas agora? Onde estavam os pais daquele país? Onde estava o país em si?
A resposta era: escondido num quarto, refletindo sua própria incapacidade. Itália soluçou, engasgou, gritou. Apertou o peito com os dedos em garras, tentando desesperadamente arrancar de dentro de si aqueles sentimentos. Em sua mente, a dor de centenas, de milhares repercutia.
Aquele era o fardo que ele carregava.
Na cama de seu pequeno cômodo, uma nação destruída.
Itália fora o responsável por salvar aquele soldado alemão das ruas de sua capital destruída. Os cabelos loiros estavam desalinhados no travesseiro de plumas, e por debaixo dos lençóis brancos as feridas. Queimaduras, rachaduras.
Se o pequeno Itália estava ferido, Ludwig estava destruído.
Cansado demais, o rapaz italiano desceu da sacada e fechou as janelas, vedando-as com panos. Mesmo assim, em sua mente os gritos continuavam.
Ele voltou para perto da cama pequena e encolheu-se ao lado do corpo maior. Antes ele costumava se sentir seguro ali. Agora tudo o que ele sentia era a aflição queimando-o ao sentir cada ferida no corpo de seu melhor amigo e aliado. Ele não sabia dizer se a cena que mais o machucava estava do lado de dentro ou do de fora do quarto.
Delicadamente ele apoiou os fios castanhos no colchão, ao lado do braço de Ludwig, sentado da desconfortável cadeira de madeira que se tornara seu conforto nas últimas semanas.
Itália não apertou as mãos do amigo, nem suplicou para que ele acordasse, porque ele não era egoísta. E por ele Alemanha poderia dormir por uma eternidade, Feliciano estaria ali quando ele acordasse. E ele diria “Bom dia”, sorriria e perguntaria “você quer macarrão ou pizza?” como fazia antes daquela maldita guerra.
Era o mínimo que ele poderia fazer.
Incapaz de se conter, ele soluçou, inconsolavelmente e sozinho ele chorou por mais algumas horas como fizera todos os dias daquela maldita semana. Ele chorou até não conseguir mais forças para fazê-lo. Chorou até que as lágrimas secassem – pelo menos por aquele dia – e até que dormisse pelo cansaço.
Em seu sono conturbado, ele murmurou por nomes de desconhecidos. No meio da noite, ele acordou incapaz de encontrar paz. O resto da madrugada foi passado num banquinho em frente a uma tela em branco.
O vazio encarava-o, e ele o encarava de volta. O branco que antes o convidava a fazer algo agora o repelia, trazendo a ele a lembrança de uma paz hipócrita. Movido pelo desespero ele puxou o primeiro pote de tinta que encontrou e lançou-o sobre o cavalete, derrubando-o com um estrondo.
O negro manchou o quadro e o chão, rolando para longe antes de parar ao sopé da parede. Itália que, de pé, arfava em sua raiva, observou a bagunça que fizera. Seu único pensamento foi “Ludwig enlouqueceria se visse isso.”
E realmente ele cogitou ir até a cama e gritar no ouvido do alemão que o quarto estava uma bagunça, numa tentativa de acordá-lo, mas não o fez. Ao invés disso ele arrastou os pés até a bagunça, ergueu seu cavalete caído e limpou a tinta do chão lentamente como o trabalho exigia, até que o quarto parecesse novo.
Quando ele se sentou no banquinho outra vez, uma tela negra preencheu sua visão, surpreendendo-o. A tinta já estava seca quando ele testou, e realmente o preto da tela parecia muito menos deprimente do que o branco de antes.
Itália puxou um pincel e sua palheta de cores, sem nunca tirar os olhos da tela a sua frente.
Ele pintou pelo resto da madrugada, e do dia. A janela continuou fechada e o quarto escuro. Itália não via realmente seu trabalho, mas aquela era a parte menos importante.
E como eu escrevo, ele pintava. Desesperadamente tentando preencher os espaços brancos e lacunas vazias, silenciosamente odiando a solidão auto-imposta mas esperançosamente aguardando, desejando, ansiando... Pelo nascer do sol que ele não via.
Um tempo interminável depois seu braço cansado abaixou-se e ele encarou o breu a sua frente.
Itália sorriu.
Em sua mente ele enxergou suas memórias pintadas não na tela mas tem todo o quarto. Talvez se ele abrisse a janela agora veria o sol, os pássaros, a vida prosseguindo.
Mas ali no quarto ele pintara seu próprio céu, repleto de estrelas. E num cantinho, onde antes caíra a tinta, havia um complexo de barracas montadas sobre a terra marrom em que seu rodapé se transformara. E desse pequenino complexo de barracas destacavam-se duas delas, onde havia uma pequena fogueira. E na fogueira havia um homem uniformizado, que visto á distância parecia tão pequeno e insignificante, mas para ele significava tudo. Esse homem sorria e conversava com outros homens que rodeavam a fogueira. Eles gargalhavam e sua alegria preenchia a noite, e o quarto escuro.
Ao lado desse homem estava um rapaz, que comparado aos outros tinha uma aparência fraca e quebrável. Mas ele trazia àquele ambiente uma harmonia esquisita, e ao lado dele, os homens pareciam-se mais com homens e menos com soldados.
E esse rapaz olhava furtivamente para o homem ao seu lado, observando de tempos em tempos enquanto ele levava a caneca de cerveja aos lábios e aproveitava uma noite pacífica antes de voltar ao caos que era o mundo.
E Itália sorriu, e chorou ao mesmo tempo, orgulhoso por ter conseguido encontrar algo de bom em tanto mau.
Porque por mais egoísta que soasse, se não fosse por aquela maldita guerra, ele não poderia ter conhecido Ludwig.
E não teria amado ele como amava.
Em sua mente o som do fogo aquecia-lhe o corpo frágil e fraco depois de tanto tempo sem descanso e sem cuidados. Ele caiu de joelhos no chão e chorou porque ele conseguia ouvir as risadas dos soldados, e conseguia ver o sorriso de canto de Ludwig por uma piada que ele contara.
E o fogo aqueceu seu coração e deu a ele esperança de que tempos como aqueles poderiam voltar. E foi por isso que Feliciano limpou suas lágrimas e ergueu-se do chão com um sorriso no rosto.
Ele aproximou-se da cama, onde Ludwig ressonava e aproximou seus rostos, pousando sobre os lábios do loiro um beijo delicado e casto.
Itália saiu pela porta, murmurando algo sobre o preparo de macarrão pronto porque estava com fome demais para fazer a massa, e por isso não viu a forma com que as sobrancelhas loiras do alemão franziram-se, e seus olhos se apertaram e se abriram em seguida, piscando inseguros ao notar a escuridão do quarto.
Ele moveu a cabeça, com medo de erguer-se por saber que doeria, e observou a forma com que os pontos brancos no quarto negro pareciam brilhar de verdade. E seus olhos pousaram-se naquele único canto “iluminado” pela fogueira, e ele sorriu.
O cheiro de macarrão chegou ao seu nariz e ele absorveu-o com satisfação, por que aquele era o cheiro de seu lar. E o cheiro da felicidade que Feliciano trazia à sua vida.
Misturado com o cheiro da tinta fresca, e o barulho das risadas, e as festas e a alegria e o calor que Itália por si só representava, aquele era o cheiro do amor.
Do amor de Ludwig.
Escondido entre tantas outras pinturas esquecidas, havia um quadro completamente negro, se não fosse por dois únicos pontos azuis irregulares. Os olhos safira observaram enquanto o soldado alemão erguia-se da cama e caía no chão.
E observou quando um rapaz italiano surgiu em seu socorro, e observou enquanto eles se abraçavam e choravam juntos.
E então aquele quadro fechou seus olhos, satisfeito com o final feliz que pintara.
Notas finais
Agradeço aos que leram, e ainda mais aos que comentarem.
Beijos, Gin-chan
Fale com o autor