Sweet Sacrifice
26 Capítulo 25
Notas iniciais
Naquela noite, o céu estava absurdamente nublado. A lua e as estrelas escondiam-se por detrás das densas nuvens negras. Nem uma delas ousaria brilhar naquela fria noite. Asgard estava de luto pela morte de seu nobre príncipe. Eu não compreendia como era capaz de ainda me manter em pé, meu coração se retorcia por dentro de meu a cada grito dado por Guren, eu nunca a vi tão fora de si.
Com todas as minhas forças eu desejava poder ir até ela e lhe reconfortar, mas eu mesma não conseguia me controlar, diante de tamanha tristeza que me afligia. Era tão difícil recordar-me de algum momento alegre ou feliz, fazia tanto tempo que a amargura e melancolia me acompanhavam.
De certa forma, uma parte de mim via uma luz no fim do túnel. Rhaegan se fora, mas não me deixara só, pela primeira vez levei a mão até meu ventre e sorri, verdadeiramente alegre porque eu o tinha. Uma pequena e frágil esperança crescia dentro de mim. Eu sentia como se algo em meu interior mudasse completamente, a perda me feria bruscamente, porém era como se todo aquele sofrimento consecutivo me fortalecesse. A menina se fora e em seu lugar surgira uma mulher, talvez mais forte, talvez mais madura... Quem sabe.
Tudo o que eu queria era poder tomar as rédeas da situação. Proteger aqueles que amo. Eu havia feito uma promessa a Rhaegan de proteger sua avó e era exatamente o que eu faria. Finalmente me afastei da janela, sentindo a gélida brisa invadir o pequeno quarto. Ela estava sentada naquela mesma cadeira, ainda segurando a pequena e fria mão do garoto, parei diante dela, mas minha voz falhou. Não sabia o que lhe dizer. Meu dever era ter impedido que aquilo acontecesse.
— Khaleesi, deveria descansar. Esforçou-se demais, pode fazer mal ao bebê. —aconselhou Guren, com seus olhos repletos de água. Como pode alguém em seu estado preocupar-se comigo? Aquilo foi demais para mim. Cai de joelhos diante dela, segurando suas mãos.
— Perdoe-me, minha amiga. Eu falhei com você, meu dever era tê-lo salvado. —suspirei pesarosamente. Ela passou a mão por meus cabelos e beijou minha cabeça carinhosamente.
— Não há como evitar o inevitável, criança. Ele sabia o que o esperava desde seu nascimento. — disse ela, pude sentir suas lágrimas molharem minhas mãos, levantei o rosto, fitando sua face devastada. A mulher forte e madura dera lugar a avô arrasada.
— Como ele podia saber de sua morte? Isto é impossível. — retruquei, incapaz de entender o porquê dela dizer aquilo.
— Porque ele estava destinado a isto. — virei-me, observando surpresa, Mira pela primeira vez em seu tom sério. Ao ouvi-la Guren arregalou os olhos, em espanto —Sei que a senhora desejava que eu mantivesse está história em segredo, mas ela é nossa Khaleesi e amiga, Rhaegan a amava e ela a ele. Daenerys tem o direito de saber. — a mais velha assentiu, se dando por vencida — Rhaegan morreu devido a um decreto antigo. Diz a lenda que muitos deuses desciam a terra e envolviam-se com as humanas que lhes concebiam semideuses. Houve uma vez que um destes deuses uniu seus filhos, formando um exército e se rebelou contra Odin. O pai de todos foi vitorioso. Contudo, temendo que isto se repetisse decretou que todos os bastardos dos deuses deveriam morrer ao completarem dez anos. Apenas os nascidos reconhecidos por Odin viveriam. Infelizmente Rhaegan não foi reconhecido por Odin, considerado um bastardo desde o dia em que nascera. Por vezes sua mãe e Guren suplicaram por sua vida, mas fora em vão. Ele sempre soube de sua morte e a aceitava tranquilamente. Rhaegan era especial demais. — uma lágrima brotou nos olhos de Mira, ela fez questão de seca-la era totalmente contra sua personalidade chorar. Mesmo em momentos como aquele.
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As palavras dela me afetaram de uma forma que ninguém poderia imaginar. Assim que Mira as disse agi com extrema naturalidade, porém logo dei alguma desculpa para poder retornar ao castelo. Eu não esperava descobrir tal coisa, por mais que a situação estivesse tensa entre mim e Odin não pensava que se agravaria de tal forma. Ele havia sido o responsável pela morte de Rhaegan, seu próprio neto, uma criança inocente e adorável que fora rejeitada unicamente por capricho de um deus cruel. Eu nem ao menos podia culpar Loki por suas crueldades, afinal ele tinha a quem puxar.
O maldito deus a quem sempre respeitei e defendi na verdade não passava de um odioso matador de crianças. Caminhei em passos firmes pelo longo corredor que dava até o salão de Odin, fechei meus punhos sentido meu sangue esquentar, em instantes era como se minhas veias fervessem. O fogo em mim havia despertado, o que instantaneamente atraiu meus dragões, o tempo fizera com que eles crescessem ainda mais. Deveriam estar do tamanho de Rhaegan, ou seja eles também estavam mais fortes do que antes.
Os inúmeros guardas pelos corredores tentaram me impedir de prosseguir com a desculpa de que ele estava tendo uma audiência com o príncipe e detestaria ser incomodado. Meu único desejo era ter a cabeça de Odin em uma bandeja. Eu estava cega de ódio, era como se houvesse um dragão furioso dentro de mim, sedento por sangue, quem entrasse no meu caminho seria esmagado como um inseto.
Ao dizer " Dracarys " todos os que me importunavam foram carbonizados sem misericórdia, deixando uma longa trilha de cadáveres. Minha consciência não pesara, ela estava ausente naquele momento. Me aproximando do salão, coloquei ambas as mãos sobre as grandiosas portas, feitas de puro ouro, elas deveriam pesar algumas toneladas, porém eu inexplicavelmente consegui abri-las sem dificuldade. Deixando tanto Loki quanto Odin boquiabertos ao me verem. Eu nem sequer fazia ideia do quão assustadora e poderosa eu me encontrava naquele momento.
— Dracarys. — ordenei. Os três imediatamente espirraram fogo contra Odin, que infelizmente fora protegido por uma parede de fogo criada por Loki. Obviamente suas chamas eram mais poderosas que de meus jovens dragões.
— Dany, o que está fazendo? — gritou Loki, me olhando perplexo ao desfazer a parede.
— Saia da minha frente, Loki, do contrário não serei misericordiosa. — o ameacei, friamente. Eu não me importaria de feri-lo para conseguir o que eu tanto desejava: Odin morto.
— Como ousa atacar um deus? — Odin levantou-se de seu trono, fitando-me com aquele irritante olhar arrogante e soberbo, me irando ainda mais.
— Você não é um deus para mim e sim um monstro desgraçado. — vociferei, me aproximando deles — Como pôde matar seu próprio neto?
— Então é por isso? — suspirou, como se a notícia o tranquilizasse — Ele finalmente morreu. Ótimo. — ouvi-lo dizer aquilo só fez com que o último resquício de razão que havia em mim fosse completamente exterminado. Avancei até eles, subindo a escadaria, fiquei a poucos degraus de distância de Odin. Loki permanecia entre nós, certificando-se de que não nos matássemos.
— Caso eu não haja como o fantoche que deseja também pretende matar meu filho? — disse em tom baixo, arqueando uma sobrancelha. Em minha mente eu só esperava por uma resposta para me livrar de Loki e matar Odin. Meu marido encarou o pai, assim como eu curioso com a resposta.
— Eu não desejo matá-lo. Ele será meu neto, um herdeiro legitimo. Não engane-se, não sou nenhum assassino. Aquele garoto era um bastardo, estar vivo era uma desonra a memória de meu filho.
— Ainda bem que Thor está morto, é melhor do que ter um pai como você. — disse secamente, Odin deu um passo à frente com os olhos cheios de fúria.
— Eu deveria acabar com a sua vida insignificante. — berrou, levantando o dedo em minha direção — Sua ousadia jamais será perdoada. Eu me enganei gravemente com você.
— Vamos, faça. Me mate. — provoquei, o encarando atrevidamente.
— Já chega, Daenerys. — ordenou Loki virando-se para mim — Sei que está afetada pela morte do garoto, mas precisa se controlar. Não posso permitir que coloque a vida de nosso filho em risco. — e voltou a olhar para Odin — Desculpe, pai. Isso não irá se repetir.
— Está bem. Leve sua esposa daqui. Ela não está em seu juízo perfeito, deve repousar pela criança. — recomendou Odin, voltando a se sentar. Calmo e sereno, sem remorso algum por Rhaegan.
— Sabe, você pode ser o deus dos deuses, mas isso não o torna invencível. Um dia eu serei forte, verdadeiramente forte, aí então você terá o que merece. Eu irei te destruir, eu juro pela vida desta criança em meu ventre que eu terei seu sangue em minhas mãos. — ele me encarou boquiaberto, indignado com minha afronta — A propósito, meu filho se chamará Rhaegan. — me virei furiosa, caminhei as presas, fugindo daquele salão. Eu não suportaria olhar por um minuto a mais para aquela criatura deplorável.
Ao atravessar por mais uma vez os grandes portões do salão de Odin me deparei com o corredor impecável. Ninguém poderia imaginar que ali ocorrera um massacre há poucos minutos atrás, asgardianos pareciam ser ótimos em esconder coisas, principalmente cadáveres. Segui em frente determinada e um tanto desnorteada quanto ao que fazer, meu plano de matar Odin havia sido um fracasso, mas em meu peito permanecia a vontade de exterminá-lo. Eu precisaria ser paciente e objetiva: Primeiro, precisava me tornar mais poderosa que Loki.
— Daenerys, o que está acontecendo? — gritou Loki, caminhando atrás de mim, tentando me alcançar — Essa não é você.
Eu sabia que não estava sendo eu mesma naquela hora, sentia como se outro alguém tivesse tomado o controle sobre mim. " Mate-o! Se tirá-lo do caminho poderá matar Odin " Uma voz esganiçada surgia em minha mente, repetindo sem parar estas palavras, como se tentasse me convencer a acabar com a vida de Loki. Ouvi um bater de assas e instintivamente sabia que eram meus dragões que estavam atrás de Loki. Então este era o plano maligno que brotava em minha mente usar os dragões para matá-lo covardemente.
" Enquanto ele viver não permitirá que toque em seu adorado pai. Ele deixará que Odin também mate seu filho. " Disse a voz com ainda mais ênfase, eu começava a concordar com o que dissera, seu veneno infectava automaticamente meu coração. Ela começara a gritar mais e mais, ordenando que eu o destruísse. Levei uma das mãos à cabeça, sentia como se ela estivesse prestes a explodir.
— Draca... — as palavras escaparam de minha boca, eu não podia matá-lo. Maldita voz. Ela gritou mais alto e me joguei no chão, gritando mais alto que ela — Me deixe em paz!
Loki imediatamente veio ao meu auxílio, jogando-se de joelhos diante de mim. Nem ao menos lhe dei a oportunidade de falar, coloquei os braços ao redor de seus ombros e reclinei a cabeça sobre seu peito, ele me envolveu em seus braços e me deu um abraço apertado. Fazendo com que a voz se silenciasse. Eu me sentia no lugar mais seguro. Livre do ódio, do medo, da loucura ou tristeza. Ele pôs a mão sobre meu queixo e me fez olhar para si.
— Seus olhos estão violeta. — murmurou, apertei meus olhos, torcendo para que eles voltassem a sua cor normal. Ao abri-los novamente o encarei — Está tudo bem, já passou.
— O que há de errado comigo? — balbuciei, entre lágrimas descompensadas.
— Não há nada de errado. Você é forte e aos poucos seus verdadeiros poderes estão se revelando, não precisa temer. Eu irei protegê-la de tudo. — disse ele, com seus olhos fixos aos meus.
— Até de mim mesma? — indaguei, eu não confiava em mim mesma e começava a temer do que seria capaz quando irada novamente.
— Se for preciso sim. — prometeu ele, voltando a me abraçar intensamente. Lágrimas caiam por meus olhos, enquanto eu pensava no quão perto cheguei de matá-lo. E se um dia eu não puder me controlar? Se eu acabar matando Loki? Não, isso não. Eu o amo.
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Sorri involuntariamente ao sentir uma doce e fresca brisa acariciar minha pele. Por um momento era como se a paz reinasse em minha mente e coração, tamanha era a calma em que me encontrava. Me esforcei para abrir os olhos, ainda com a vista um tanto embaçada percebi uma cortina azul turquesa cobrindo uma pequena sacada, aquilo não parecia com o quarto de Loki, virei o rosto me deparando com algo ainda mais estranho.
Uma grande estante de madeira empanturrada de livros empoeirados. Eu reconhecia aquele móvel. Levei os olhos até a mesa de cabeceira, sobre ela repousava um livro também muito conhecido por mim " As crônicas do deus Odin. ", levantei abruptamente me espantando com tudo aquilo, olhei para trás apenas para me certificar do que eu já suspeitava. Uma imensa pintura a tinta na parede de minha cama, levei anos para terminá-la, era Asgard segundo a minha imaginação.
— Eu não imaginava que havia me casado com uma artista. Sua visão de Asgard é tão superior a realidade. — fitei Loki sentado na beirada da cama, observando a estante atentamente — E além disto é uma mulher extraordinariamente inteligente, estou perplexo por ver tantos livros a meu respeito. Pena que são todos me retratando como um monstro horrendo.
— Suas histórias eram as minhas prediletas. — murmurei, acreditando que aquilo não passava de um sonho ou pura alucinação.
— Que irônico! Você acabou se casando com um personagem de um de seus livros. Sempre soube que não desejava casar-se comigo. — ele parecia tão compenetrado em seus pensamentos, estava mais sombrio e misterioso do que nunca.
— Eu não queria, não do jeito que aconteceu. — ele enfim voltou o olhar para mim — Antes disso eu desejava poder ter conversado com você, cavalgado ao seu lado, sentir borboletas no estômago ao pensar em vê-lo... Queria ter podido me apaixonar por você antes.
— Sentir borboletas no estômago por mim? — ele sorriu discretamente — Talvez eu devesse ter me concentrado mais em conhecê-la do que aterrorizá-la. Eu deveria ter dado uma chance a nós dois.
— Acho que nós dois falhamos catastroficamente em nosso casamento. — conclui, o observando levantar-se e caminhar em direção a sacada.
— Eu concordo. Não podemos continuar com isto, seria loucura. Após o seu surto no corredor, acho que foi anestesiada pelos traumas seguidos e acabou dormindo por dois dias. — arregalei os olhos, se haviam se passado dois dias significava que eu havia perdido... — Sim, você não pode comparecer ao enterro do garoto, foi um belo velório. Agora ele está descansando.
— Meu pequeno anjo está de baixo da terra. — balbuciei, pensando em como Guren estaria agora.
— Seu pequeno anjo ainda vive em seu ventre. — replicou ele, correndo um dos dedos pela seda turquesa — Você talvez esteja pensando que está em algum sonho... Mas não, eu a trouxe de volta a Midgard. — senti o ar me faltar, eu estava realmente de volta — Não se preocupe, poderá ficar com a criança e nenhum humano será ferido. Direi a Odin que fui eu quem decidiu pôr um fim nesta união.
Aquilo era o que eu mais desejava no início de nosso casamento. Eu nunca o suportei, sua crueldade e frieza me apavoravam, mas agora tudo era diferente. Por mais que eu desejasse fugir e me esconder de meus sentimentos, isto seria impossível, em Midgard eu continuaria a amar Loki e me lamentar por ter falhado com ele. Eu não era mais aquela menina ingênua, eu matei, menti, ameacei, eram muitos erros. Abandonar Guren e fazer com que meu filho cresça sem o pai seria mais erros a serem cometidos. Estava na hora de ser firme e mostrar pela primeira vez que era ele quem eu queria.
Levantei da cama, dando alguns passos em sua direção, olhei de relance no espelho e percebi que vestia o mesmo vestido branco do dia em que partira para Asgard. Eu sentia falta deles, mas em meu peito ainda restava a magoa por ter sido sacrificada por eles, talvez fosse melhor continuar afastada, eu os amo, porém não posso perdoá-los. Coloquei a mão sobre seu ombro e ele se virou para mim, provavelmente aguardado um “Adeus”.
— Eu te amo e sei que você me ama! — exclamei, ao passo que meu coração acelerava ao encará-lo tão surpreso — Nós somos dois briguentos egoístas, mas de alguma forma nos completamos. Sou incapaz de imaginar a minha vida sem você. Se não fosse por você eu ainda estaria neste quarto mergulhada em livros, você me fez viver, amar, odiar, você me fez mulher e eu acredito que pode até demorar, bastante, mas eu o farei um homem bom. — ele deu um passo à frente e envolveu seu braço ao redor de minha cintura, puxando-me contra seu corpo.
— Eu odeio quando você me deixa sem palavras. — resmungou ele, com um sorriso malicioso formando-se em seus belos lábios.
— Desculpe, mas você fica tão lindo calado. — deslizei os dedos por seus fios negros e colei meus lábios nos seus. Enfim havíamos dado uma trégua em nossa batalha. Eu voltaria a Asgard, porem meu plano ainda estava de pé. Eu vou matar Odin.
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