Sweet Sacrifice
25 Capítulo 24
Notas iniciais

Olhei ao redor, examinando cada parte daquele palácio. Ele não mais me encantava, pelo contrário, me causava puro asco. Mira andava ao meu lado, desta vez ela não usava seus trajes simples e desgastados, de agora em diante ela não seria mais minha serva e sim minha dama de companhia. Seu largo sorriso era como um acessório, que a enfeitava ainda mais, eu lhe havia dado todos os meus vestidos, exceto os pretos e o que minha mãe tinha me feito quando fui trazida para Asgard. Seu espirito alegre e cheio de vida tranquilizava um pouco meu coração perturbado.
Ela não se demorou em inaugurar um dos vestidos, o longo vestido rosa repleto de pedrarias valiosas fora o escolhido da noite, um dos últimos presentes de Loki. Mira era uma boa e doce garota, agora mais do que nunca eu necessitava de alguém de confiança ao meu lado, afinal nem eu mesma confiava mais em mim. Tentar acabar com a minha vida tinha sido uma atitude deveras radical. Para a minha segurança e a da criança eu teria de estar sendo vigiada constantemente.
O fato ainda permanecia secreto, apenas Loki e eu sabíamos disto, mas o sexto sentido de Guren lhe dizia que havia algo de muito errado comigo. Ela corria atrás de mim e Mira, com uma expressão nada amigável. Apesar de seus inúmeros esforços para me impedir, eu tinha me vestido de preto, usava uma longa trança de lado, assim como minhas vestes todas as minhas joias eram negras. Porém tudo isto era um nada equiparado ao que mais azucrinava minha velha serva, o véu negro sob a minha cabeça. Qualquer um que me visse constataria que eu era uma viúva. Era exatamente o que eu desejava, deixar claro para todos que eu estava de luto.
As grandes portas do salão principal foram abertas, ao som de cornetas, o ar festivo praticamente evaporou quando todos voltaram o olhar para a sua Khaleesi, diria que no mínimo havia deixado os asgardianos espantados. Aqueles que não me conheciam provavelmente pensariam que Mira era a princesa de Asgard, estava tão mais deslumbrante e feliz do que eu. Porém a maioria dos presentes tinha consciência de que eu era a Khaleesi. Passei a caminhar, com um olhar indiferente e frio, eu não estava nem um pouco de acordo com o que eles esperavam de mim, por mais que tentassem disfarçar ao me reverenciarem eu sabia que por detrás daqueles falsos sorrisos estavam todos chocados. Eu estava extremamente satisfeita. Há poucos metros de distância estava Odin me encarando irado, sentado em seu trono, se eles queriam guerra era exatamente o que iriam ter. Frigga diferente do marido não me pareceu irritada, ela desceu os degraus e veio até mim com um sorriso gentil nos lábios.
— Você está linda, querida. — elogiou ela, segurando minhas mãos e guiando-me até o assento ao lado do seu. Ao passar por Odin nossos olhares se cruzaram, guerreávamos sem palavras, apenas com um olhar sabíamos que uma longa batalha entre nós se iniciava.
— Fico feliz em ver que decidiu comparecer, Srta. Targaryen. — comentou Odin, com sua falsa cortesia, apenas para agradar a esposa. Ao sentar-me não pude deixar de observar que Loki estava ausente.
— Com licença, Sra. Frigga, mas onde está meu marido? — indaguei, vagueando os olhos pelo salão, certificando-me de que ele realmente não estava presente. Ela apertou os lábios em uma linha fina e franziu o cenho, me deixando ainda mais preocupada.
— Ele não estava se sentindo muito bem, por isso preferiu não comparecer ao baile esta noite. — explicou ela rapidamente, em seguida levantou-se e voltou a cumprimentar seus convidados.
Tudo aquilo estava estranho demais. Loki era um deus, com certeza ele era imune a qualquer tipo de doença. Remorso era algo inexistente em sua consciência, sendo assim não havia como ele estar indisposto. Isto deveria ser mais um de seus planos imundos, ele sabia perfeitamente de meu desprazer com este baile e sabendo que seu pai me obrigaria a ir fez questão de me deixar sozinha.
Aumentando ainda mais meu constrangimento com esta celebração. Os olhares indignados eram voltados a mim o tempo todo, muitos ali talvez pensassem que eu estava sendo uma excêntrica, outros que eu só teria engravidado unicamente para assegurar meu lugar como Khaleesi e com certeza a maioria achava que meu plano havia ido por água a baixo, afinal meu marido não estava ali. Era uma prova mais que suficiente de que eu era mal amada.
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Sem dúvida eu era a que mais sentia pela ausência de Loki. Quando ele estava ao meu lado eu nem sequer notava a presença dos outros, ele sempre me distraia ou me irritava. Ao seu lado eu me sentia uma verdadeira princesa, mas sem ele eu era tão invisível, solitária, triste. Eu nunca havia me dado conta do quão apegada a ele eu tinha me tornado. Meu coração chorava de saudades dele, queria tanto poder vê-lo. Mas eu não posso, não devo... Não depois do que ele fez a Daario, tudo isso é loucura. Até quando eu vou tentar enganar meu coração?
Eu o amo mais do que tudo. Eu preciso dele. Frigga insistia para que eu a acompanhasse em sua recepção para com os convidados, mas imediatamente inventei uma desculpa de que estava indisposta e me retirei do salão, tomando precauções para que nem Guren ou Mira me acompanhassem, eu precisava encontrá-lo e tinha de fazer isto sozinha. Como naquela noite inesquecível, há alguns meses atrás, os corredores estavam vazios e como antes eu seguia a procura de Loki. Retirei o véu sob minha cabeça e desmanchei minha trança, eu não queria mais lhe evidenciar minha tristeza.
Eu passei por corredores e mais corredores, até finalmente avistá-lo no jardim que ele havia feito especialmente para mim. Dei um passo a frente, tencionando ir até ele, mas me refreei no exato momento em que vi que ele não estava só.... Raya ainda vivia e era com ela que ele estava, exatamente como antes, em seus braços a beijando. Levei a mão até o peito e tentei engolir o choro, tomando certa distância do casal, me escorei sobre uma coluna e perdi por completo o equilíbrio caindo no chão, destruída.
Eu queria amaldiçoa-lo, culpar ele por me trair e ela por se insinuar. Eu desejava mais do que tudo continuar a fazer o meu papel de vítima, mas eu não podia mais. Durante estes últimos dias ele veio até mim, sinceramente arrependido, eu não pensei duas vezes em destrata-lo ou humilha-lo. Na verdade desde que nos beijamos pela primeira vez eu havia ganhado o seu coração, ele sempre me amou e eu o desprezei. Por mais que eu a odiasse, eu sabia, Raya o merecia mais do que eu. As lembranças da época em que vivemos em paz, seu sarcasmo, mal humor, nossa primeira dança, seu perfume, beijo, abraço, toque, seus olhos, a primeira vez em que fui sua. Tudo isto seguia firmemente em minha memória. As lágrimas incessantes me sufocavam, eu sentia como se meu coração estivesse prestes a parar de bater, ele era a minha força, minha vida, meu folego e eu o estava perdendo.
Meu coração estava vazio.... Eu mesma o havia partido.
— Daenerys. — abri meus olhos, me deparando com sua íris verde me encarando preocupada. Passei a mão por meu rosto, secando as lágrimas — Você está bem? Por acaso passou mal? — indagou ele, colocando a mão sobre meu rosto. Só de senti-lo meu coração acelerou. Coloquei minha mão sobre a dele e o olhei, sentindo meus olhos marejarem. Eu estraguei tudo.
— Eu... estou bem. — murmurei com a voz falha, só de olhá-lo eu sabia que ele me amava. Por que me concentrei tanto em seus erros? Ele me ama, e eu ignorei isto desde o início. Já estava na hora de parar de fazê-lo sofrer. Apoiei as mãos em seus ombros e me levantei, ele imediatamente se levantou, ficando frente a frente comigo — Loki, se eu lhe pedisse algo você faria por mim?
— Sim, é claro. — assentiu ele. Provavelmente ele sabia que eu o havia visto e esperava algum escândalo de minha parte, mas desta vez eu não o faria.
— Quando nosso filho nascer... — balbuciei, enquanto algumas lágrimas escapavam de meus olhos, suspirei — Você poderá se casar com Raya e cria-lo como um príncipe ao lado dela.
— O que? Como assim? E quanto a você? — ele passou a mão pelos cabelos, perplexo com minha repentina proposta.
— Naquela noite você me disse que se eu admitisse não sentir absolutamente nada por você, eu estaria livre e poderia partir e nenhum humano seria ferido. — respirei fundo, unindo todas as minhas forças, estava prestes a cometer o maior erro da minha vida, mas era necessário — Antes eu não tive coragem para admitir, mas agora as coisas estão completamente diferentes, eu não o amo mais. Eu quero voltar para Midgard, por favor, deixe-me partir. — ele desviou o olhar do meu, visivelmente transtornado. Ele deu alguns passos, se distanciando de mim, eu desejava ir até ele. Porém os gritos histéricos de Mira me impediram.
— Minha senhora, precisamos ir, é urgente. Uma tragédia está acontecendo. — gritou ela, ofegante. Eu não fazia a menor ideia do que estava acontecendo. Loki, porém, a olhou como se tivesse plena consciência do que ela estava falando — O garotinho, Rhaegan, está à beira da morte.
— O que? Não pode ser. — levei a mão a boca, sentindo um aperto no coração. Eu havia perdido Daario e Loki, não poderia perder Rhaegan também — Eu preciso vê-lo.
— Daenerys, você não deveria ir. Assistir a morte de uma criança não é nada fácil. — aconselhou ele, voltando a olhar para mim. Estava claro que ele sofria por dentro, mas ainda assim lutava para não deixar transparecer.
— Mas eu preciso vê-lo, ele é meu sobrinho. Eu tenho que me despedir. — abaixei a cabeça, sofrendo com o pensamento de perde-lo. Ele era jovem demais, isto não estava certo. De repente, senti as mãos de Loki em meu rosto e seus lábios em minha testa, lhe dando um reconfortante e amoroso beijo.
— Então vá, por mais que sofra agora, sei que será capaz de superar tudo isto. Não há ninguém mais forte do que você. — dizendo isto ele se afastou. Ao vê-lo cada vez mais distante e sem fazer objeção alguma ao meu pedido eu entendi claramente o que acontecera. O amor entre mim e Loki chegara ao fim.
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O observei tristemente, ele estava deitado na cama aparentemente no mais tranquilo dos sonos. Eu segurava sua pequena mão, ele estava quente demais, apesar das inúmeras compressas feitas pelas servas sua febre só aumentava. Eu não compreendia como alguém tão jovem pudesse ter uma doença tão agressiva como aquela. Eu queria poder ajuda-lo, encontrar uma maneira de salvá-lo. Mandei que trouxessem a rainha, mas Odin a proibira de sair do castelo. Tudo o que eu podia fazer era continuar ali, sentada ao seu lado velando por seu sono.
Guren, estava inquieta, movendo-se em sua velha cadeira de balanço, ela não conseguia disfarçar sua afetação. Ela era uma avó prestes a perder seu único netinho, Mira estava ao seu lado tentando tranquiliza-la. Eu até tentaria acalmá-la, se não estivesse tão aflita, a última coisa que eu desejava era perder aquele menino, sem que me desse conta ele passou a ocupar um grande espaço em meu coração. Aos poucos percebi suas pupilas se movendo e em seguida seus grandes olhos azuis abriram-se.
— Dany, você veio me ver! — sua voz estava fraquíssima, mesmo assim ele não deixou de deixar claro sua felicidade em me ver — Está tão linda.
— Obrigada, querido. — sorri, acariciando seus cabelos loiros que se desgrenhavam conforme ele se movia para me ver.
— Poderia se sentar aqui comigo? Eu sonhei com a minha mãe hoje. — contou ele, empolgado com seu sonho. Eu assenti e o ajudei a se sentar, ele estava muito fraco mesmo assim, esforçou-se para se manter sentado sozinho enquanto eu me sentava atrás dele. Ele suspirou aliviado quando pode voltar a poupar suas forças ao se recostar sobre meu peito — Tia, gostaria de ter um filho ou uma filha? — não pude deixar de me surpreender ao vê-lo me chamar daquele jeito. Dei um sorriso bobo ao me dar conta do quão meigo ele era.
— Eu gostaria de ter um filho. Assim exatamente como você. — sussurrei, Mira e Guren aproximaram-se de nós, observando-nos em silencio.
— Se ele for parecido comigo, vai ser um garoto muito bonito, não é vovó? — Guren assentiu, dando um ligeiro sorriso — Eu e meu priminho seriamos grandes amigos. — ele parecia saber que não chegaria a conhecer o primo e isso só aumentava a minha dor. Ele estava morrendo e Odin não iria mover um dedo sequer para ajudar seu neto.
— Ficaria feliz se eu desse ao seu primo o nome de “Rhaegan“?— ele virou o rosto para mim, com seus olhos brilhando de alegria e abriu um largo sorriso.
— É claro. Ele seria igualzinho a mim, teria até o mesmo nome. Que engraçado! — ele gargalhou, porém logo foi afligido por uma crise de tosse, mas nem mesmo isto foi capaz de arruinar sua felicidade — A vovó poderia ensiná-lo a tocar e ele poderia alegrar aos outros com sua música. Dany, você vai cuidar da minha avó?
— Sim, eu vou cuidar muito bem dela. — prometi, vendo minha grande amiga, secando os olhos com um lenço em seu colo. Segurei suas mãos sobre as minhas e o senti menos quente, finalmente a febre estava abaixando.
— Me conte uma história. — solicitou ele, fechando seus olhos. Eu não lembrava de nenhuma história naquele momento, mas não podia deixar de lhe atender este desejo... Poderia ser o último.
— Bem, deixe-me ver. Era uma vez num reino muito distante, uma linda e doce garota, ela não era rica, mas o importante é que era muito amada por sua bondosa mãe e seus amigos, todos a queriam muito bem. Um dia andando pela praça ela viu uma caravana, com moças dançando e cavalheiros cantando alegremente, haviam vários cavalos e entre eles estava o herói da guerra.
O príncipe era um homem belo e admirável e assim como todos ele se apaixonou por aquela linda garota, no exato momento em que a viu ele sabia que ela seria o grande amor da sua vida. O rei é que não fez gosto disto, ele aprontou mil e umas peripécias para atrapalhar o casal, mas fora tudo em vão. Pois quando um amor é puro e verdadeiro nada pode arruiná-lo. Para salvar sua amada, o príncipe fugiu para uma terra encantadora, Midgard, lá eles se cassaram e deste grande amor nasceu um lindo menino doce como a mãe, corajoso como o pai e bondoso como a avó. O mais belo e amável guerreiro que Asgard já teve, Rhaegan Odinson. — terminei a história, notando que Rhaegan estava adormecido, dei um suspiro aliviada. Porém suas mãos estavam extremamente frias, levei a mão até seu peito e tudo estava no mais absoluto silêncio. Seu coração havia parado de bater.
Eu não precisei dizer uma palavra. Guren já havia sentido em seu coração. Ela se jogou aos pés da cama e começou a gritar, lamentando a morte do neto, Mira e as outras servas foram ao seu auxilio. Eu permaneci imóvel, apenas coloquei meus braços ao redor de seu pequeno corpo e beijei seus cabelos, os umedecendo com minhas lágrimas, eu chorava em silêncio. Meu pequeno anjo havia partido deste mundo, tão silenciosamente, ele sabia desde o momento em que entrei aqui que esta seria a última vez e mesmo assim nunca nos disse adeus. Agora ele estava descansando ao lado de seus pais e ele não era mais um órfão, ele voltou a ser um príncipe amado. Suspirei o apertando ainda mais.
— Descanse em paz, Rhaegan.
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