Notas iniciais
Quem costuma ler meus textos sabe que eu gosto de enfatizar sonhos confusos/malucos! Então...

Não abro os olhos ainda. Agora mais porque tenho medo de que tudo isso seja real. Cansada demais acabo dormindo de verdade em um sono profundo e turbulento. Pensei que dormir seria a solução, mal sabia eu que estava enganada.

***

A sensação é a mesma de estar dentro de uma piscina muito funda. Eu nado em direção a borda em busca de ar mas não consigo por mais que tente alcançá-la. Sei que não vou conseguir prender a respiração por mais tempo e então, apesar de saber que entrar em pânico é o pior nesses casos, começo a me debater freneticamente.

Até que não tem para onde correr e eu preciso de ar. Acabo engolindo água e sentindo como se toda a piscina invadisse meus pulmões de uma vez só. Me sinto pesada e de repente tudo está escuro. Tão escuro que eu não consigo ver nada, apenas ouvir alguns urros estridentes e animalescos.

Então uma áurea é acesa e eu consigo ver a imagem de um anjo e uma garota de cabelos pretos... vou me aproximando gradativamente e percebo que apesar de agora — sob a luz — conseguir vê-los muito bem, estes sequer notam minha presença. Chego mais perto e a cada passo consigo perceber algo assustador. Aquele anjo é o anjo Raziel e a garota que sorri bem próxima a ele é... sou eu. Ou no mínimo é muito parecida comigo: os cabelos pretos e lisos até a cintura, os olhos azuis beirando a violeta, a pele pálida, a altura um pouco a cima da média... tudo nesta garota lembra a mim mesma. E bem, isso é assustador e nem um pouco legal de se ver.

E o pior, a proximidade com o anjo acaba sendo um tanto sugestiva demais. É como se entre eles estivesse acontecendo algo que eu não consigo perceber muito bem. Ela — ou eu — sorri de algo que o anjo fala e então no ato joga a cabeça para trás — tomara que seja tão sexy assim quando eu faço isso — e no instante seguinte, é surpreendente.

O anjo a segura pela cintura e posiciona a outra mão em sua nuca, então suas asas são libertas com êxito e uma áurea celeste começa a cercá-los. Em uma questão de minutos, segundos talvez, eles estão levitando e se elevando cada vez mais alto. Eu assisto com assombro, é claro, e então os urros e gemidos assustadores aumentam e o escuro volta.

Mas eu queria voltar e ver mais daquele casal! Eu... eu precisava, de uma forma estranha sentia como se precisasse muito disso. Percebo então que estou ofegando e molhada, aquela sensação de paz e de calor sumira, e eu voltei a agonizar desesperada. Quando alguma luz retorna estou em uma sala e um homem com um terno muito elegante e bonito sorri para mim. Ele é lindo e eu acabo sorrindo de volta.

Seus olhos claros, os cabelos castanhos bem cortados, a barba recém feita, o terno sob medida, os sapatos bem engraxados, a maneira como se move em minha direção, os ângulos perfeitos... tudo nele é perfeito. A cada passo que ele dá eu me sinto um pouco melhor e a luz que ele trás consigo me mostra que estou em uma caverna. Por algum motivo eu sei que tem algo errado. Quando ele chega bem perto, ao ponto de eu ser capaz de tocá-lo sinto ele gemer baixinho e então ao meu lado surge uma garota, aliás eu surjo ao meu próprio lado como se fosse uma cópia minha. Nós somos tão idênticas como a garota passada! Ela corre e encosta sua mão no peito dele.

"Venha comigo."

É tudo que eu consigo ouvir dos sussurros que ele solta no canto de seu ouvido, a vejo assenti com a cabeça e então é numa fração de segundo. Quando ele gira rapidamente virando de costas para nós e a luz crepitante da caverna reverbera posso ver uma cauda saindo por trás de suas costas, como um rabo. É pontudo e azul e eu sei exatamente quem ele é! No exato momento a garota percebe e a sensação de ser afogada volta com tudo.

"Você não vem, querida?" ele pergunta com um sorriso torto que não me afeta mais

"Eu sei quem você é" digo em uníssono com a garota.

Os gemidos continuam altos e a escuridão retorna com eles. Em seguida a voz de um demônio soa na minha cabeça — e eu sei que é um demônio a partir de sua primeira palavra pronunciada.

"Ora, ora... Srta. Sweet. Assustada?"

"O que você quer demônio? Não pense que entrar nos sonhos de um caçador das sombras seja algo sensato a se fazer. Tampouco com uma Sweet."

"Você não me assusta querida. Mas eu vim apenas para dizer que a maldição será mais uma vez concluída e..."

O interrompo, eu realmente tenho uma mania compulsiva de atrapalhar os discursos alheios.

"Que maldição seu verme? Se eu descobrir seu nome irei atrás de você seu infeliz sonhar com demônios me faz acordar de mal humor."

"Cale-se caçadora. E fico feliz em saber disso. Mas eu quero fazer uma proposta, eu já sei dos planos dos céus em relação aos caçadores das sombras..."

"Como assim sabe "dos planos dos céus"? Que acha que sabe?"

"Sobre o novo plano para o mundo dos caçadores das sombras. A sua missão está conhecido como a Purificação."

A raiva toma conta de mim. Mas fingo que isso não era um segredo.

"E como soube? Só eu, o anjo — que duvido muito que tenha dito e os irmãos do Sil..."

Oh droga!

"Exatamente caçadora. Seu povo é mas infiel do que pensa. E acho que concordo que os filhos do neplim precisam de uma purificação. Mas não essa do tipo que planeja. Uma nova raça, Sweet. Uma raça de caçadores das sombras contra as injustiças e não contra as origens. Pense em um mundo novo equilibrando bem e o mal. A única coisa que precisa saber, e que sei que a fará mudar de ideia é que..."

"Hou hou hou! O único problema seu escroto é que a luz é pura demais para se confundir com as trevas. E trevas, nada mais é apenas que ausência de luz. Ou seja, não venha para cima de mim com esse discursinho de viadinho de merda. Você e sua raça são como bactérias, dê uma pequena brecha e então se multiplicam como vermes, tais como são. E eu sei o que é o bem e o que é o mal, sei o que é equilíbrio e sei que, acabar com a luz que existe será um erro — erro este que eu não cometerei. Sabe de outra coisa? Quando eu era ainda uma garotinha costuma ter sonhos estranhos com criaturas estranhas até que um dia meu pai me ensinou como acabar com eles. Apenas um beliscão. Então, reze para que esse seja o nosso até nunca."

Disse e dando um beliscão com força na minha própria coxa senti a escuridão me envolver e acabei soltando um grito com a sensação de queda súbita.

Notas finais
O que acharam? Gostaram? Espero que não tenha ficado muito longo - só agora que vi o quanto é enorme - e chato. Mas enfim é a partir daqui que a missão dela - talvez - tome um rumo diferente! Beijos no coração!