Sweet Lollipops
1 Sweet Lollipops
Notas iniciais
Estacionei o carro na garagem, peguei o pacote no banco do carona e saí ainda irritado. A lua brilhava sobre minha cabeça, quase rindo da minha cara. Eram duas da manhã e eu havia acabado de voltar do supermercado vinte e quatro horas com um estúpido pacote nas mãos. Pacote de pirulitos. Há cerca de quarenta minutos Maya notou que seu querido pote de pirulitos estava vazio e me acordou pra pedir que eu comprasse mais. Ignorando completamente o fato de que ninguém em sã consciência estaria vendendo pirulitos no meio da madrugada, claro. E não importava quantas vezes eu lhe dissesse isso, ele continuava insistindo. E como eu poderia negar? Com raiva de mim mesmo por ceder tão facilmente saí de casa morrendo de sono pra procurar pirulitos. Às duas da manhã. Tive que vasculhar a cidade inteira pra achar algum lugar aberto há essa hora, mas enfim encontrei e agora só queria entrar em casa, entregar os benditos pirulitos àquele vocalista viciado e voltar a dormir.
Destranquei a porta da frente e girei a maçaneta, enfim entrando e deixando minha carteira sobre a cômoda enquanto era recebido por um loiro inquieto no sofá.
- Trouxe meus pirulitos?
- Oi pra você também, Maya.
- Ah, oi Ai-chan. Pirulitos?
E no momento que fitei aqueles olhos brilhantes eu soube porque cedi tão facilmente à sua vontade, e soube também que continuaria cedendo pro resto da vida. O brilho que residia ali era simplesmente impossível de ignorar. Lindo demais pra ignorar. Derrotado, entreguei o pacote a ele e vi o imenso sorriso que surgiu em sua face. E lá estava mais um motivo pelo qual eu nunca conseguia negar alguma coisa a ele. Aquele simples repuxar de lábios valia qualquer sacrifício que eu tivesse que fazer. E eu quase ri de mim mesmo por estar tão parecido com uma garotinha apaixonada.
- OBRIGADO, AI-CHAN! – ele pulou no meu pescoço quase me derrubando enquanto seu perfume invadia minhas narinas de uma maneira que me deixava tonto. Tão doce, tão... Maya. E tudo que eu queria era prendê-lo em meus braços e permanecer assim até o amanhecer. Dormir abraçado a ele, embalado por esse mesmo perfume que me encantava.
Mas, claro, Maya nunca respeitava minhas vontades.
O loiro começou a distribuir beijos carinhosos pelo meu rosto num ato que no início achei absurdamente fofo, mas logo as carícias passaram para o pescoço e se intensificaram numa velocidade incrível. Antes que eu percebesse suas mãos estavam adentrando por minha camiseta enquanto seus dentes arranhavam de leve meu maxilar. E eu não consegui conter um gemido de escapar por minha boca. Ah, droga.
Afastei-o, tentando por os pensamentos no lugar. Eu estava tão cansado. Havia sido um dia estressante na gravadora, tive de resolver milhões de problemas e quando cheguei em casa fui logo dormir. Mas Maya me acordou no meio da noite pra buscar os benditos pirulitos, o que só me deixou ainda mais cansado e irritado. Não é que eu não queria fazer amor com ele, longe disso, mas eu estava tão exausto que não conseguiria dar a ele o prazer que queria. E amanhã eu estaria morto no trabalho. Era melhor pará-lo por aqui antes que houvesse más conseqüências para nós dois.
O vocalista ignorou minha tentativa de afastá-lo e continuou beijando meu pescoço, fazendo-me tirá-lo dali um pouco mais rudemente.
- Aiji~ — ele disse quase gemendo, a voz pingando desejo. Merda.
- Desculpe Maya, hoje não.
- Mas...
- Por favor. Eu estou tão cansado, e amanhã vamos acabar nos atrasando pro trabalho. Depois te recompenso, prometo. Desculpe. – disse, selando seus lábios com um beijo singelo. Não ousei fitar seus olhos. Sei que não resistiria se fitasse.
Antes de me virar só pude ver a expressão extremamente emburrada na face do loiro, que agora abria o pacote de pirulitos e colocava um doce na boca.
Segui para o quarto já meio arrependido. Provavelmente Maya dormiria na sala hoje, só por birra. Será que eu tinha feito a coisa certa? Ele só queria um pouco de atenção... Ah, mas eu continuo com tanto sono... Mereço descansar também, não é? Não sou como aquele viciado que tira energia não sei de onde às duas da manhã. E foi com esses pensamentos que adormeci, tentando não remoer muito o assunto.
~ # ~ # ~
Acordei bem no outro dia, satisfeito pela boa noite de sono. Segui para a cozinha e fiquei surpreso com a recepção que recebi.
- Bom dia, Ai-chan! – me disse um sorridente Maya sentado a mesa. À sua frente todo o café da manhã pronto, com minhas torradas favoritas e suco de laranja. Aquilo não era normal.
- Bom dia, Maya. – respondi desconfiado enquanto ele continuava sorrindo em minha direção. E havia algo diferente naquele sorriso que eu ainda não conseguia identificar.
Sentei à mesa e comecei a comer as torradas, que por sinal estavam deliciosas. Maya parecia tranqüilo em sua felicidade habitual. Talvez já tivesse até esquecido do acontecido de ontem. Afinal, às vezes essas coisas acontecem... ele me entenderia. Com toda a sua doçura, com certeza me entenderia.
Após comer levantei-me, deixei um beijo estalado em sua bochecha e segui me aprontar para o trabalho. Poucos minutos depois estava pronto e já ia chamar Maya para irmos quando notei que não estava com minha carteira. Eu a tinha deixado na cômoda, não tinha...?
- Maya, você viu minha carteira?
O loiro apareceu na porta da cozinha parecendo segurar o riso.
- Não seeeeei... – respondeu, mirando o teto enquanto um sorriso travesso enfeitava seus lábios.
Ah. Agora entendi o “algo diferente” no sorriso que ele me dirigia no café.
- Maya, por favor. Onde está minha carteira? Preciso dela pra sair de casa.
- Já disse que não sei, Ai-chan.
- Maya... – eu já estava ficando irritado. – Nem tente mentir pra mim. Você pegou minha carteira e eu sei disso, só me diga onde está.
- Escondida. Você tem que achar. É a vingança por causa de ontem. – e o bendito sorriso arteiro continuava zombando de mim enquanto ele pegava um pirulito e colocava na boca.
Então era isso. Claro. Eu fora incrivelmente ingênuo por pensar que não haveria nenhum tipo de troco. Maya jamais perderia uma oportunidade de aprontar comigo. De jeito nenhum.
Bufei, começando a procurar pela sala. Não importa o que eu fizesse, o loiro não diria onde a carteira estava. Poderia pedir, implorar e até ameaçar, tenho certeza que ele não falaria uma palavra. E eu tinha que achar aquela coisa rápido, já estávamos com os minutos contados para chegar no estúdio.
Abri as gavetas da cômoda e da estante, revirando os milhões de papéis dentro delas. Nada. Procurei embaixo das almofadas, dentro do vaso de plantas e arrastei o sofá e os demais móveis. Nem sinal. Fui para a cozinha, abrindo os armários, enfiando as mãos nos vãos, destampando os potes e checando dentro da geladeira. Depois fui para os quartos, primeiro o nosso e depois o de visitas. Olhei embaixo das camas, dentro dos travesseiros, nos guarda-roupas, revirei as vestes e as cobertas. Nem uma mísera pista. Dei uma rápida olhada pelo nosso quintal – que nem ao menos tem esconderijos para qualquer coisa – e segui para o banheiro, o ultimo cômodo da casa. Procurei dentro da banheira, do armário, até dentro da privada. E mais uma vez, nada.
- Maya, me diz onde está a porcaria da carteira, por favor. – falei pausadamente. – Meu dinheiro e documentos estão lá, não posso sair de casa nem dirigir sem ela.
- Vai ter que procurar melhor, Ai-chan. — ele parecia se divertir com tudo isso.
- Nós estamos atrasados para o trabalho!
- A culpa é sua por não procurar direito! – e era incrível a despreocupação que ele demonstrava em relação aos nossos compromissos.
Bufei audivelmente, me controlando para não elevar o tom de voz ou fazer coisa pior. Peguei o celular e disquei os números tão conhecidos do nosso produtor.
- Alô, Takahiro-san? Sim, é o Aiji. Hn, eu queria avisar que nós vamos nos atrasar um pouco hoje... Sim, eu sei que temos muita coisa pra fazer... Sei disso também. É que eu perdi a minha carteira e não posso sair enquanto não encontrar, por causa dos documentos... Sim, a culpa é toda minha, me desculpe por isso. Vou continuar procurando e assim que encontrar nós vamos para o estúdio. Obrigado por compreender. Tchau.
E mesmo com tudo isso eu tinha livrado Maya mais uma vez. Depois quem teria que ouvir o sermão de Takahiro-san era eu, e só eu. Não sei por que fiz isso. Se eu falasse que era culpa do Maya provavelmente o produtor falaria com ele e o faria devolver minha carteira. Mas, pra variar, eu o protegi. Não consigo deixar de protegê-lo.
Acho que o loiro percebeu isso e se sentiu culpado, pois acabou se manifestando.
- Hmmm, vou te dar uma dica, Ai-chan. A carteira está junto do que é seu.
- Hn? O que é meu? Quer dizer minhas coisas? – segui de volta para o nosso quarto com ele em meu encalço, de modo que parou apenas para jogar no lixo o cabo do pirulito já terminado.
Mais uma vez revirei minhas roupas, perfumes, acessórios, cobertas, livros, mangás, CDs e qualquer coisa minha que encontrava pela frente. Mesmo assim, nada. Sentei na cama derrotado e coloquei a cabeça entre as mãos, os olhos fechados. Se não fosse Maya ali eu já teria perdido a paciência há muito tempo. Acho extremamente encantador esse jeito infantil dele, mas não numa hora tão crítica como essa.
Não sei o que aquele vocalista hiperativo viu em mim, mas acho que algo na minha atual situação o comoveu. Ele fez uma careta e por um segundo demonstrou um olhar quase arrependido, até que suspirou e finalmente disse o que eu queria ouvir.
- Ok, eu desisto. A carteira está no meu bolso, Aiji.
- No seu bolso...? Mas você não disse que estava nas minhas coisas?
- Eu sou seu, Ai-chan. Sempre serei. Ela esteve comigo o tempo todo.
E num passe de mágica toda a raiva e frustração que eu sentia sumiu. Só pude ficar parado na cama, fitando aquela face ligeiramente corada e aqueles olhos que insistiam em fugir dos meus. Como alguém podia ser tão... doce? Antes que eu percebesse meus lábios já tinham capturado os dele num beijo apaixonado, querendo transmitir tudo que eu sentia por aquele homem único. Jamais encontraria alguém tão lindo, travesso e ao mesmo tempo infantilmente doce como Maya. Meu Maya. Para sempre.
Continuei beijando sua boca com avidez, aumentando a intensidade aos poucos. Logo uma de minhas mãos se enroscava em seus fios loiros enquanto a outra passeava por baixo de sua camiseta, alcançando um de seus mamilos e fazendo-o soltar um gemido contido em meio ao beijo. Não tardei em tirar essa peça de seu corpo e beijar seu pescoço com vontade. Suas mãos passaram a passear pelo meu peito e braços, tornando-se ansiosas muito rapidamente.
- A-Aiji... – ele tentou dizer normalmente mas sua voz soou quase como um gemido.
- Lembra da promessa que te fiz ontem? – subi até seu ouvido, mordiscando-o. — Eu sou um homem de palavra, Maya. Pretendo cumpri-la. – eu disse, sussurrando provocante enquanto passava a mão levemente sobre sua ereção já desperta, apreciando o gemido delicioso que escapou de seus lábios.
- M-Mas... O Takahiro-san vai...
- Ele não precisa saber que eu já encontrei minha carteira. – lhe sorri malicioso, observando o brilho que transbordava desejo em seus olhos e o sorriso cúmplice que se formou em sua boca.
Voltei a beijar sua boca com uma paixão voraz, o guiando para a cama ao mesmo tempo em que seus braços se fechavam em volta do meu pescoço, nos aproximando ainda mais. Aquele sabor tão doce era realmente único. Muito mais doce que os pirulitos da madrugada anterior que causaram tudo isso. Era simplesmente... Maya. O melhor sabor do mundo. E era exclusivamente meu.
Fim.
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