Sweet Like Cake.
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Notas iniciais

Não demorou muito para nos arrumarmos e nos dirigirmos ao Scandals, a principal (e talvez única) boate de Lima. Charlie era a que parecia mais animada, o que me fez perguntar se ela já estava bêbada. A loira usava um vestido preto e curto, com uma meia-calça rasgada e coturnos. Santana vinha logo atrás, resmungando algo sobre Arthur com Kenny, que a acompanhava de mãos dadas com Sophie. A latina vestia uma regata escura com um colete jeans, shorts jeans e botas com cadarços desamarrados. Sophie contentou-se com um top e uma saia branca de cintura alta, com chamativos scarpins cor-de-rosa. Kenny usava uma camiseta branca com gola V, calça jeans escura e tênis vermelhos. E lá estava eu, Kurt Hummel, o atual isolado da Fortinity. Desde quando Kenny havia entrado na nossa panelinha e eu fiquei de fora? Eu não sabia muito bem o que deveria vestir para ir a uma balada – já que nunca fui a uma antes –, então optei por uma camiseta jeans, calça jeans preta apertada (como todas as outras que eu tenho no meu guarda-roupa), e botas marrons.
— Que animação é essa, Porcelana? Nem parece que vai beber hoje. – Fabray falou, passando o braço pela minha cintura e começando a caminhar ao meu lado. Beijei o topo de sua cabeça e sorri, tentando fingir um pouco de empolgação. Deixei mesmo de assistir Fashion Police para isso?
— Mal vi o Zach hoje.
— Não se preocupe! No Scandals tem muitos gatinhos. Você pode flertar com eles e não sentir culpa depois, já que vocês não fizeram nada de errado. – Ela deu uma risada e começou a olhar para o céu. Franzi o cenho a olhando e então a loira balançou a cabeça. – Estou brincando. Kurt, estamos aqui para nos divertirmos! Viemos todos juntos por isso. A noite vai passar logo, você nem vai perceber.
E, com um suspiro breve, assenti com a cabeça.
— Tudo bem.
— As moças vão ficar conversando aí ou vão entrar? – Santana perguntou, ao passar pelos seguranças após pagar sua entrada. Charlie e eu fomos logo em seguida. Eu, com um frio na barriga. Charlie, provavelmente, com fogo entre as pernas.
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Depois de atravessarmos um corredor decorado com luzes neon no qual várias pessoas tentavam devorar umas as outras em beijos lascivos repletos de mão bobas, descemos uma pequena escadaria e logo chegamos a um salão extenso preenchido com uma música eletrônica ensurdecedora, adolescentes entupidos de hormônios e bebidas, e luzes coloridas que giravam e tornavam aquilo tudo muito mais psicodélico. Charlie se jogou na multidão com um grito animado, enquanto eu fui em direção aos sofás na esperança de que algum estivesse vazio. Senti uma mão apertar meu ombro, e, quando me virei, me deparei com Chelsey. A garota estava usando um vestido tomara-que-caia vermelho, com botinhas pretas que iam até seus tornozelos.
— Eu reconheceria essa bunda em qualquer lugar. Está perdido?
Dei uma risada forçada (só por educação) e neguei com a cabeça. Chelsey e sua mania de frequentar os mesmos lugares que eu na mesma hora que eu. Talvez Lima realmente não tenha muitas opções.
— Charlie me arrastou para cá. Onde está o Finn? – Perguntei, encarando-a através da cortina de luzes coloridas que brilhavam em seu cabelo. Chelsey olhou para os lados.
— Foi buscar mais bebida, mas... Acho que ele se perdeu. – Deu de ombros. – As meninas vieram com você? Cadê o Zach?
A música estava em um volume tão alto que eu mal podia ouvir meus pensamentos. Chelsey começou a dançar no ritmo e eu a acompanhei, para não parecer um pato plantado no meio da pista de dança.
— Ele voltou cansado do treino de futebol, achei melhor deixá-lo descansando. – Respondi em voz alta. No segundo seguinte, Finn se aproximou segurando duas taças com um líquido esverdeado em seu interior.
— Parece que seu príncipe encantado chegou. – Falei com uma risada baixa após acenar para Finn. O maior deu sua taça para Chelsey e ofereceu a sua para mim, mas eu neguei com a cabeça. Ainda não estava pronto para ficar bêbado, sabe-se lá que coisas obscuras eu guardo no meu subconsciente. Era melhor não arriscar. – Vou procurar as meninas, até mais!
E então me afastei do casal, antes que Zach me fizesse mais falta ainda. Era uma missão impossível conseguir atravessar a pista de dança. Se houvesse pelo menos um centímetro de espaço entre os corpos dançantes e suados, eu ainda acharia muito. No Scandals havia pessoas de todo jeito; baixas, altas, gordas, magras, morenas, loiras, carecas, negros, deficientes e, mesmo sendo difícil enxergar, consegui ver um anão com o rosto enfiado na saia de uma garota. Aquilo me provocou náuseas, mas eu não quis estender meu sofrimento e então me afastei dali.
Enxerguei Sophie sentada em uma das banquetas do bar. O barman, sem camisa e com direito à gravata borboleta, parecia tentar animá-la com cantadas de pedreiro e drinks cor-de-rosa “por conta da casa”, que por acaso seria cobrado pela próxima pessoa conhecida que fosse sentar com ela. Fui lá, torcendo para que Charlie ou Santana viessem em seguida.
— Parece que você também preferiria estar em casa de pijamas. – Comentei, ao me sentar ao lado dela. Com um sorriso fraco, ela olhou para mim e voltou seu olhar para onde observava anteriormente. Curioso, segui seu olhar e balancei a cabeça com o que vi. A uns três metros de distância, Santana e Kenny dançavam juntos com bebidas na mão. Eles riam e davam socos nos braços um dos outros, como dois amigos héteros fazem quando estavam bêbados.
— Preferia estar morta. – Ela resmungou, balançando sua taça e fazendo com que sua bebida girasse em círculos como um pequeno redemoinho cor-de-rosa.
— Vá com calma, Lana Del Rey. Por que não vai dançar com eles? – Perguntei franzindo o cenho. – Kenny é o seu namorado, não o da Santana.
— Não vou dançar com eles porque não sei se eu aguentaria um soco da Santana. – A loira revirou os olhos. – Deixe eles se divertirem. Só vim mesmo para garantir que nada saia do controle.
— Sophie, estamos em uma balada. Me surpreende o fato de eles não estarem seminus no meio da pista de dança. – Dei uma risada baixa. De repente, um copo com uma bebida azulada deslizou para o meu lado. Virei-me para ver de onde surgira e o barman sorriu e assentiu com a cabeça.
— Se você não gostar, eu deixo por minha conta.
— Sei que vou pagar de qualquer jeito. – Sorri irônico e dei um gole na bebida. Seu gosto me surpreendeu tanto quanto quando Beyoncé anunciou que estava grávida em rede internacional após uma apresentação que deixava no chinelo até as que não possuíam um bebê em seus úteros. Era uma mistura de algo amargo com doce, com uma pitada azeda que fez com que minha cabeça doesse por alguns segundos enquanto minha garganta queimava. O barman conteve uma risada, e então manteve seu sorriso.
— Se eu soubesse que não estava acostumado, eu teria oferecido algo mais fraco.
— Você poderia usar sua boca para algo mais útil do que tentar me ganhar com esses cavalheirismos clichês do século XIX na intenção de me fazer pagar mais drinks. Algo útil como ficar calado. – Bufei e, em um movimento involuntário, dei mais um gole na bebida. Me esforcei ao máximo para não fazer a conhecida cara azeda de quem chupou limão, mas foi inevitável. O barman revirou os olhos e dirigiu-se para o outro lado do bar.
— Tudo isso é falta de sexo? – Sophie perguntou com um sorriso malicioso.
— Olha só quem fala. – Resmunguei, e então dei uma risada maldosa. A loira riu também e deu um tapa no meu braço. – Onde está Charlie?
— Transando com a Emily no banheiro. Pediu para que eu dissesse que ela só foi retocar a maquiagem, mas como você faz parte da nossa panelinha de vadias mal amadas, acho que não tem problema. – Ela falou com um sorriso que pareceu mais animado do que os anteriores.
— Ótimo, então vamos aproveitar a nossa noite também. Não é justo estarmos aqui e ficarmos de bobeira. – Falei e, após terminar de beber o drink azul, puxei Sophie pelo pulso para a pista de dança. Nos metemos no meio do emaranhado de pessoas que dançavam e começamos a dançar aleatoriamente. Olhando pelo lado bom, a balada não era o ritual satânico todo que eu imaginei que fosse. Havia muitos caras bonitos, e a maioria deles estava sem camisa enquanto dançavam. Você poderia se pegar com alguém ou fazer sexo em qualquer lugar que quisesse que não seria preso ou denunciado por ultraje público ao pudor. Uma versão remixada de “Problem” estrondava das caixas de som espalhadas pelo local, e eu sabia que estava comprometendo as minhas chances de não ter nenhum problema auditivo até os 40 anos. As luzes piscantes estavam começando a me dar dor de cabeça, mas eu não iria interromper o meu momento de diversão com Sophie para reclamar como uma velha. Enxerguei Arthur dançando com duas garotas ao longe, e aquilo me fez imaginar o que aconteceria se Santana tivesse a mesma visão. Era bom saber o motivo no qual Arthur não aparecia em casa. Muito bom.
Alguns minutos depois, a Unholy Fortinity (e o Kenny e Emily) estava reunida em um sofá, que Santana conseguiu após ameaçar explodir uma bomba escondida de dentro da boate caso as pessoas que estavam nele não fossem embora. Charlie e Emily estavam descabeladas e com seus batons borrados, e eu ficava tonto só de imaginar o que fizeram naquele banheiro. Santana ria como uma retardada, balançando seu copo de bebida e fazendo algumas gotas pingarem na camiseta de Kenny. Sophie estava deitada no colo do mesmo, suada e ofegante após dançar e beber. Kurt, o avulso da história, estava checando seus e-mails e verificando se seu copo de bebida não iria cair do braço do sofá. Quando ergui o olhar, observei uma figura familiar se aproximando. Era um rapaz alto, com cabelos castanhos e intensos olhos azuis. Seus músculos eram evidentes por debaixo da camiseta cinza, e este estava sorrindo com simpatia. Eu sorriria de volta para Zach, se ele não estivesse de mãos dadas com uma garota.
— Oi pessoal. – Ele falou empolgado, cumprimentando todos de um por um até chegar a mim. Tentou me beijar, mas virei o rosto. – Kal El, obrigado por me chamar pra sair com vocês.
— Achei que você estava cansado. Mas, olha, você tinha energia suficiente até pra fazer novas amigas! – Falei erguendo os braços, e acabei derrubando minha bebida no chão sem querer. Revirei os olhos e afundei mais ainda no sofá.
— Ah, é mesmo. Gente, essa aqui é a Anjo. – Ele falou, indicando a garota ao seu lado com um sorriso simpático. O encarei boquiaberto e com os olhos arregalados, enquanto Santana caía na gargalhada. Sophie me olhou com preocupação.
— Kurt, acho que você tem um problema. – A latina disse enquanto levava seu copo de bebida à boca.
— Não sou anjo, Zach! – A garota protestou dando uma risada. – Sou Lucy. Me mudei faz poucos dias e o Arthur me apresentou o Zach hoje. Vocês conhecem o Arthur, certo? Ele disse que vai me mostrar o colégio amanhã.
Santana amassou seu copo descartável e o jogou no chão, o sorriso desaparecendo de seu rosto subitamente. Permaneceu calada. Lucy possuía longos cabelos castanhos escuros e ondulados, com um rosto redondo e bochechas coradas. Seus olhos eram castanhos e seus cílios cobertos de rímel deixavam-na parecendo uma boneca.
— Vou embora. – Falei, me levantando do sofá. Santana roubou a bebida de Charlie e levou-a para mim. A loira nem percebeu, estava ocupada demais beijando Emily em seu colo. – Eu não quero beber.
— Não perguntei se você quer. – Ela arqueou a sobrancelha, com um olhar que dizia “beba ou vou fazer você beber por outro orifício”. Tomei o copo de suas mãos e então dei um gole longo, que desceu rasgando em minha garganta.
— Kal El, você não devia estar...
— Cala a boca.
Com passos firmes e fortes, sumi no meio da multidão.
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Cheguei em casa eram três da manhã. Não havia nada de interessante passando na TV, apenas aqueles pornôs fuleiros no qual os gemidos das atrizes lhe dão agonia, então tomei um banho gelado e me joguei na cama em seguida, usando apenas uma camiseta cinza e uma cueca boxer. O pior de tudo era que eu sempre me acostumei a dormir sozinho, mas naquele momento eu começara a estranhar não ter o corpo de Zach ao meu lado, com seus braços ao redor de mim enquanto eu sentia sua respiração quente em meu cabelo. Bom, não importava. Ele estava ocupado demais com aquele projeto de Aria Montgomery para se lembrar de passar ao menos dez minutos junto do namorado antes do dia terminar.
— Kal El? – Eu o ouvi chamar, após escutar o clique do interruptor de luz e sentir meus olhos arderem com tanta luminosidade. Me cobri até a cabeça e virei meu corpo para o lado, para longe da claridade. Para longe de Zach.
— Vá embora.
— Você tá bem? Voltou sozinho pra casa, e bebeu... Eu fiquei preocupado. – Ele se aproximou e sentou-se na cama. Mordi o lábio firmemente, tentando contar até dez para manter a minha calma. Eu só precisava de um tempo sozinho. Precisava digerir a informação de que havia uma nova garota na cidade, uma nova estudante no meu colégio e uma nova destruidora de lares que eu precisaria eliminar antes que se multiplicasse por aí e fizesse novas vítimas.
— Me deixa em paz. – Falei, ríspido e seco, na esperança de que Zach entendesse que eu estava falando sério.
— O que aconteceu, Kurt? Por que você tá assim?
— Por que eu estou assim?! Por que, Zach? Tudo o que eu mais queria hoje era passar um pouco do tempo com meu namorado, e quando eu acho que não vai dar porque ele está cansado ou ocupado demais, ele aparece com bastante tempo livre e com uma acompanhante ainda por cima! – Explodi de raiva, já sentindo as lágrimas quentes escorrerem pelo meu rosto. – Eu não quero dormir com você hoje, eu quero ficar sozinho! Por favor, Zach.
Ele me encarou nos olhos por alguns segundos e então se levantou, apagou a luz e saiu, sem dizer uma única palavra. Me enrolei nas cobertas novamente e afundei o rosto no travesseiro, tentando esquecer aquela garota. Tentando esquecer Zach chamando ela de Anjo na minha frente. Tentando esquecer Zach ter me chamado de Kurt pela primeira vez.
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Acordei bem cedo naquele domingo. Não tive paciência alguma de preparar algo para o café da manhã, então fui ao Lima Bean para tomar alguma coisa. Minha cabeça doía mais do que eu conseguiria suportar, achei que ela fosse explodir a qualquer momento. Não me lembrava de ter bebido tanto, e isso era até algo bom. Tinham muitas coisas de que eu não queria me lembrar.
Sentada em um canto mais afastado, lendo um livro enquanto um grande copo de cappuccino estava posto ao seu lado, Victoria transpassava tranquilidade e calmaria. Tudo o que eu mais queria no momento, por sinal. Depois de raciocinar por alguns segundos, lembrei-me de que ela havia ido embora. E agora estava ali, na minha frente, como se tivesse saído apenas para fazer as compras do jantar e voltar logo em seguida. Me sentei à sua frente com o cenho franzido. Vic ergueu seu olhar para mim e revirou os olhos, respirando fundo logo depois.
— Ah não, você não. – Ela disse, as olheiras profundas me encarando com irritação.
— Am... É bom ver você de novo também, Vic. Eu acho. – Murmurei com uma leve ironia no meu tom de voz. A garota fechou seu livro com violência e deu um gole em seu café.
— O que você quer? – Perguntou, rápida e direta. E quando fui abrir a boca para responder, ela me interrompeu. – Kurt, entenda que eu não sou aquela garota que você conheceu. Você roubou meu namorado, acho que agora eu tenho o direito de te tratar como todos deveriam ser tratados.
— Eu não roubei seu namorado! Aliás, não quero falar sobre ele.
— Alguma vadia está tentando roubá-lo de você? Ela também oferece bolos de chocolate pra ele? – Ela perguntou, arqueando a sobrancelha e com um sorriso extremamente maldoso.
— Só sei a primeira parte. Se ela dá bolos a ele ou não, eu não faço a mínima ideia. – Bufei e então recostei as costas na cadeira. – Para onde você foi? Nós ficamos preocupados.
— Não é da sua conta, Porcelana.
— É sim. Eu guardei seu segredo, mal amada. A culpa não foi minha se te acharam drogada no apartamento. – Cruzei os braços e observei a garota revirar os olhos enquanto respirava fundo pela terceira vez aquele dia.
— Acha mesmo que posso confiar em você? Você faz muito o tipo daqueles gays fofoqueiros que fazem blogs para postar os segredos dos outros e nem se preocupam em manter anonimato, pois sabem que morrerão espancados uma hora ou outra.
— Eu tenho mais o que fazer, e cuidar da vida alheia não está incluso.
— Então deixe a minha fora disso.
— E se eu espalhar para todos que você não foi embora?
Vic arqueou a sobrancelha e sua boca curvou-se em um meio sorriso.
— Meu Deus, Kurt. Aquelas meninas estão estragando você. – Ela deu uma risada baixa e então bebeu mais um pouco do seu café. – Eu gosto disso. Pensei que você começaria a chorar em dois segundos, estou surpresa.
— Ah Vic, vamos, não mude de assunto. Tenho poucos neurônios funcionando para continuar criando ameaças inteligentes e elegantes. E, aliás, ainda são oito da manhã. Só vou começar a raciocinar direito depois do meio-dia.
Ela riu novamente e assentiu com a cabeça.
— Sabe que eu sou da pesada, então você não se arriscaria em contar algum segredo meu. – Vic falou com a sobrancelha arqueada, e eu assenti com a cabeça. – Bom... Eu fui à Los Angeles, visitar o Jack. Ele foi o meu primeiro namorado e eu não poderia ter uma escolha pior. Ele era envolvido com drogas quando o conheci, mas... – Ela passou a enrolar suas madeixas cacheadas nos dedos, olhando a capa de seu livro sobre a mesa enquanto falava. – Eu me apaixonei por ele mesmo assim. Era tudo tão perigoso, tão arriscado. Tão... Provocante. Foi por causa do Jack que eu comecei a usar drogas. Foi por causa dele também que eu me mudei para Lima, meu pai queria nos afastar.
Eu ouvia a tudo atentamente, torcendo para que meus neurônios restantes não acabassem retorcendo a história na minha cabeça.
— Jack morreu semana passada, de overdose. Quando eu disse que iria me mudar, foi para ver o enterro e dar o último adeus. – Ela deu um sorriso fraco, e então eu entendi a razão das tais olheiras tão vermelhas e profundas em seus olhos. – Eu também quis sumir um pouco, por um tempo. Percebi que o Zach não gostava de mim de verdade.
— Só porque ele não quis transar com você? – Perguntei com o cenho franzido, quase falando em um tom de ofensa. A garota arqueou as sobrancelhas.
— Ele contou pra você?! Que maldito! – Ela bufou. Vic deu mais alguns goles em seu café e então se recostou novamente no banco. – Pode manter segredo sobre eu estar aqui? Eu estou cansada de problemas. Não quero mais dar satisfações a ninguém, Kurt.
— Está tudo bem. Como você disse, não quero acabar sendo traficado em troca de um quilo de cocaína. – Fiz um biquinho e então Vic deu uma risada. Com um aceno de cabeça, ela sorriu.
— Gosto assim. Quer falar da vadia que está tentando roubar o seu homem?
— Só quero tomar um café e ir embora.
Vic arqueou a sobrancelha e deu uma risada, apertando minha mão por cima da mesa.
— Você falou exatamente como eu, Victoria Memberg, falaria.
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Não respondi as mensagens de Zach. Não abri a porta do quarto quando ele batia nela diversas vezes ameaçando derrubá-la com a sua superforça. Não fiz o almoço, nem o jantar. Não comprei bolo. Não assisti Project Runway. Fiquei a tarde inteira de domingo deitado com a minha coleção inteira da Vogue Magazine espalhada pela cama, ouvindo a trilha sonora de Wicked e Les Miserábles no meu notebook com um pote de sorvete de chocolate no colo. A voz de Kristin Chenoweth foi abruptamente interrompida no meio de Popular quando Lady Gaga começou a cantar Manicure e o nome de Santana piscou no display do meu celular.
— Alô?
— Interrompi sua sessão monótona e depressiva de ler matérias desinteressantes sobre a moda de 1992? – A latina perguntou, e então fiz uma careta ao encarar a capa da Vogue que eu estava lendo. Claudia Schiffer sorria como se sua fama não fosse acabar na década seguinte. Não perguntei como ela havia deduzido tudo com tanta certeza, afinal, ela era de Lima Heights. Quando menos informação, melhor.
— Não... Não interrompeu.
— Como estão as coisas com o Zach?
— Como estão as coisas com o Arthur? – Retruquei, revirando os olhos com impaciência. Pude imaginar Santana revirar os olhos do mesmo modo, e então a ouvi reclamar com alguém. Kenny. — Kenny está aí?
— Sim, está. Parece que ele decidiu que não pode viver sem mim. Está aqui cuidando da minha ressaca, bebi tanto que acordei achando que tinha sido sequestrada por um casal de chineses pervertidos e ricos. Aí percebi que estava no quarto dos meus pais.
— Vocês estão tão próximos, não é? – Inseri uma pitada de ciúmes na minha voz para que Santana se tocasse do que eu estava falando.
— Algo contra, Lady Lips? Kenny é meu melhor amigo. Aproximação é algo obrigatório para que nossa relação tenha sentido.
Fiquei em silêncio por alguns segundos.
— Como é?
— Não me leve a mal. Você é a minha melhor amiga! – Ela se corrigiu rapidamente e ouvi Kenny dar uma gargalhada.
— Eu não sou uma garota, Santana.
— Não? Mas está agindo como uma, trancafiado em um quarto lendo revistas de moda e tomando sorvete. A única diferença é que está ouvindo músicas velhas, e não Justin Bieber.
— Tchau, Santana. – Desliguei com um sonoro suspiro. Eu não queria aceitar que ela tinha razão, tanto quanto não queria aceitar que peguei o lugar de Charlie enquanto Kenny havia roubado o meu.
Fui ao banheiro e lavei o rosto. Meus cabelos castanhos estavam bagunçados em um topete mal feito com fios rebeldes, e meus olhos azuis estavam cercados por leves olheiras avermelhadas. Meu pijama estava amassado, visto que passei as últimas cinco horas com ele, sem descanso — ou seria descanso demais? Destranquei a porta do meu quarto e desci as escadas em direção à cozinha, quando me deparei com Zach na sala. Nos encaramos por alguns segundos, e ele se levantou do sofá ignorando o jogo de rugby que passava na televisão.
— Precisamos conversar.
— Não precisamos não. – Falei indo até a cozinha. Zach me segurou pelo braço.
— Kal El, é sério! Você... Você tá tão distante, tão diferente! – Ele falou, os olhos azuis brilhando em preocupação. Mordi o lábio fortemente. – Você tá me deixando preocupado.
Era horrível aquela sensação. Eu queria continuar com raiva dele, queria bater nele e botar tudo para fora. Mas era impossível. Eu não estava mais com raiva. Estava triste, chateado. Tinha aquela sensação de insuficiência pesando em meus ombros, e com o olhar dele sobre mim só fazia pesar ainda mais. Balancei a cabeça e respirei fundo lentamente.
— Eu só quero ficar sozinho um pouco, tudo bem? Vou comer alguma coisa e descansar, porque temos aula amanhã e eu ainda não estou pronto psicologicamente – Para nada. – para as aulas intermináveis de química. Eu... Eu odeio química. – Assenti com a cabeça.
— Vai me evitar pra sempre?
— Não estou te evitando. – Respondi, sem conseguir olhá-lo nos olhos. Zach colocou as mãos nos meus ombros.
— Então me beija.
— Peça pra a Anjo. Aposto que ela não veria problema nenhum. – Sorri levemente e então tirei as mãos dele dos meus ombros com calma. – Quer comer alguma coisa?
Zach mordeu o lábio fortemente e então negou com a cabeça. Vi que seus olhos estavam marejados e, antes que eu pudesse dizer alguma coisa, Zach subiu até seu quarto. Visto que eu estava sozinho, eu não precisei segurar mais tudo o que estava preso em minha garganta.
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Vesti o uniforme das Cheerios, peguei minha pasta e saí porta afora em direção ao meu carro. Percebi que era o último a sair de casa, já que acordei vinte minutos depois do que supostamente meu despertador deveria tocar. Maldita tecnologia. Cinco minutos depois e eu já estava atravessando os portões do William McKinley High School, dando passos apressados até o meu armário. Eu ainda tinha dez minutos para ir até a sala de biologia, onde eu poderia dormir tranquilamente sem que a professora de 130kg percebesse – afinal, ela mal conseguia mover seu pescoço. Seria difícil me ver atrás de Finn, com seus quase dois metros de altura.
Com seus impecáveis cabelos castanhos e ondulados, observei Lucy retirar alguns cadernos de seu armário. Era a dois armários de distância do meu, que maravilha!
— Bom dia, Kurt. – Ela falou com um sorriso simpático, arrumando uma madeixa de seu cabelo para detrás da orelha. Assim como Vic fazia. – Sinto muito por ontem, não quis lhe causar problemas.
— Você não me causou problemas. – Franzi o cenho e sorri tentando ser simpático. – Está tudo bem.
Peguei meus cadernos e fechei meu armário, virando-me para ela.
— Já sabe o que você tem que fazer pra sobreviver nesse colégio, certo? – Perguntei para ela arqueando uma das sobrancelhas. Lucy pensou por alguns segundos e então respondeu, fechando seu armário logo em seguida.
— Arthur me disse hoje de manhã. Alguma coisa sobre... Ser comida de maioral. Não prestei muita atenção, não é como se Arthur dissesse coisas úteis. – Ela deu de ombros e riu baixinho. Me aproximei dela, abraçando meus cadernos contra o peito.
— Não, esse é o básico. A regra mesmo são só cinco palavras.
— É mesmo? – Lucy parecia empolgada, mantendo seu sorriso absolutamente irritante. – Quais são então?
— Fica. Longe. Do. Meu. Namorado.
Então dei o meu melhor sorriso maldoso e me afastei de Lucy até o próximo corredor do colégio, deixando-a ali, com uma expressão estupefata. Ah, esta era a sensação de ser uma Cheerio vadia! A sensação de estar no topo. E que, por acaso, foi substituída pela pior sensação de humilhação após eu ser atingido em cheio por uma slushie de laranja, que fez meus olhos arderem como loucos e escorreu lentamente pelo meu rosto. Várias risadas de garotos foram ouvidas.
— Isso foi por levar o Zach pro lado rosa da força. – Um jogador de futebol falou em meu ouvido e depois saiu com sua gangue, deixando-me arrepiado da cabeça aos pés.
— Mas que droga, Kurt. Não pode deixar com que façam isso com você. – Reconheci a voz de Charlie, e esta me levou até o banheiro mais próximo para me ajudar a me limpar. Por um momento me senti aliviado por Lucy não estar lá para assistir tudo. Minha pose toda de Cheerio vadia teria ido por água abaixo naquele momento.
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Nunca fiquei tão feliz quanto quando chegou a hora de irmos para o Glee Club, o último período do dia. Todos já estavam lá, incluindo Zach e Arthur – que, por sinal, usava óculos escuros. Percebi que a maioria estava olhando algo no celular e rindo, o que me deixou curioso. Será que era outra roupa de carne da Lady Gaga?
— Do que estão rindo? – Perguntei ao me sentar ao lado de Santana.
— Precisamos levar você pra balada mais vezes. – Santana falou em meio a risadas. Quando tomei o celular de sua mão, me deparei com um vídeo. Um vídeo meu, feliz da vida, conversando com uma garrafa vazia de vodka. Eu até a chamava de “eu”, e comecei a chorar quando alguém passou e a derrubou no chão, partindo-a em vários pedaços. Meu rosto inteiro cobriu-se de rubor, e eu não sabia onde enfiar a cabeça. Ou em que planeta morar.
— Onde postaram esse vídeo?! Quem postou? – Perguntei com os olhos arregalados, sentindo o ar se esvair de meus pulmões aos poucos. Achei que fosse desmaiar e acordar na minha cama, achando que tudo foi apenas um pesadelo.
— Eu. – Chelsey sorriu enquanto lixava suas unhas. – Por favor, Kurt. Você ficará famoso por minha causa.
— Você não deveria ter feito isso! – Falei, começando a respirar ofegante. – Chelsey, apaga isso.
— De que vai adiantar? Todos já viram mesmo. – Ela deu de ombros.
— Sua sorte foi que o Kenny te deixou em casa. Desenhei um mapa pra ele em um guardanapo, porque sabe-se lá onde você pararia com ele caso a gente deixasse. – Sophie deu uma risada baixa. Me esforcei para me lembrar, mas nenhuma imagem de Kenny surgiu em minha mente. E, tocando no assunto, até achei estranho parar magicamente em minha casa. Tudo foi tão rápido que mal percebi.
— “Kurt, por que você está chamando ela de eu?” “Por que ela brilha como eu.” – Charlie falou imitando a minha voz, e logo todos estavam gargalhando novamente. Cruzei os braços com uma expressão emburrada, e então Mr. Schue entrou na sala logo em seguida.
— Olá pessoal! E... Kurt, o que foi isso no seu pescoço?
Todos dirigiram seus olhares para mim e, instintivamente, cobri o chupão com a mão. Meu rosto ainda estava corado.
— Uma picada.
Olhei para Zach de relance e percebi que este também estava corado.
— E que picada, hein? – Charlie comentou como provocação.
— Enfim, – Mr. Schue prosseguiu, tentando parecer não constrangido com aquela situação. – quero apresentar a vocês os nossos mais novos membros do New Directions!
— Desde quando as pessoas pararam de ter medo de serem humilhadas? – Sophie perguntou com o cenho franzido. Kenny e Lucy entraram na sala conforme minha cara ia ao chão.
— Não! – Falei, atraindo todos os olhares para mim. – Digo, já temos membros o suficiente. Doze pessoas bastam para que possamos competir nas Regionais, Mr. Schuester!
— Sim, Kurt. Menos de doze pessoas não é permitido, mas não há nada contra ter mais. – Ele falou assentindo com a cabeça. Respirei fundo e concordei, voltando a recostar as costas na cadeira.
— Vocês querem apresentar alguma coisa? – Mr. Schue perguntou à Lucy e Kenny, com as mãos no bolso.
— Eu só danço. – Ele riu e então foi à cadeira ao lado de Santana, após dar um beijo rápido na testa de Sophie. O professor encarou Lucy, na esperança de obter uma resposta diferente.
— Por mim, tudo bem.
A morena se posicionou no centro da sala, entrelaçando seus dedos em frente ao corpo. Olhou para a banda e logo a música começou a tocar.
[LUCY]
When I look into your eyes
It's like watching the night sky
Or a beautiful sunrise
There's so much they hold
And just like them old stars
I see that you've come so far
To be right where you are
How old is your soul?
I won't give up on us
Even if the skies get rough
I'm giving you all my love
I'm still looking up
Preferi pensar que os olhares que Lucy direcionava para Zach eram apenas coisas da minha cabeça. Apesar de que eu ainda não tinha idade para ficar louco.
[LUCY]
And when you're needing your space
To do some navigating
I'll be here patiently waiting
To see what you find
Cause even the stars, they burn
Some even fall to the earth
We got a lot to learn
God knows we're worth it
No I won't give up
I don't wanna be someone who walks away so easily
I'm here to stay and make the difference that I can make
Our differences they do a lot to teach us how to use
The tools and gifts we've got yeah we got a lot at stake
And in the end, you're still my friend
At least we didn't intend
For us to work we didn't break, we didn't burn
We had to learn how to bend without the world caving in
I had to learn what I've got, and what I'm not
And who I am
I won't give up on us
Even if the skies get rough
I'm giving you all my love
I'm still looking up
I'm still looking up
I won't give up on us
God knows I'm tough, he knows
We got a lot to learn
God knows we're worth it
I won't give up on us
Even if the skies get rough
I'm giving you all my love
I'm still looking up
Rachel e eu estávamos boquiabertos, enquanto a sala explodia em aplausos e gritos animados. Lucy sorriu e acenou tímida, como se estivesse agradecendo.
— Lucy, – Rachel começou, tentando sorrir simpática enquanto prosseguia. – tem certeza de que quer desperdiçar todo esse talento cantando no coro do meu coral? Digo, aqui é muito improvável de que você consiga algum solo.
— E você também. Digo, o solo da competição é meu agora. – Santana sorriu provocativa para a judia, que bufou e a ignorou.
— Rachel, você sabe que toda ajuda é bem vinda. Temos aqui muitos talentos, e nem todos vão poder solar alguma vez. Você é um dos exemplos. – Mr. Schue falou, como se tivesse se deliciando com o sofrimento da garota. Revirei os olhos.
— Bom, façam bom proveito do talento da Lucy! – Falei, fingindo uma empolgação exagerada. – É realmente uma pena que o Glee Club sirva apenas para nos lembrarmos de que, não importa o quão bom você seja, você nunca será bom o suficiente.
— Kurt, isso não é verdade. – Emily falou, de mãos dadas com Charlie. – Estamos aqui para melhorarmos juntos e sermos uma equipe.
— Uma equipe? Quando todos estão indo para um lado? Só vocês não conseguem enxergar isso!
— Algum problema, Kurt? – Mr. Schue perguntou com as sobrancelhas arqueadas, falando com uma voz autoritária que eu interpretei como um pedido indireto de eu ficar calado. Afundei minhas costas na cadeira e olhei para o lado, tentando me acalmar.
— Por enquanto, não.
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