Sweet Like Cake.
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Notas iniciais

Lá estava eu, Kurt Elizabeth Hummel, fitando meu rosto pálido e meus olhos azuis claros no espelho. Meu cabelo castanho claro estava arrumado em um topete levemente curvo, fazendo algumas pontas soltas do meu cabelo darem um visual mais moderno. Minha boca vermelha agora se contorcia em nervosismo e eu tentava ao máximo disfarçar minhas olheiras com corretivos e bases.
Passei a noite me revirando na cama, rezando para um Deus inexistente um pouco de tranquilidade. Era meu primeiro dia no colegial, e depois de um inferno que não parecia ter fim chamado "Ensino Fundamental" no qual eu era ridicularizado e intimidado praticamente todos os dias, eu não poderia esperar algo pior do Ensino Médio. E meu cérebro, para piorar ainda mais as coisas, ainda me fez sonhar com dias piores atravessando os corredores do William McKinley High School. A única coisa que eu poderia fazer era torcer (e não rezar) para que as mesmas coisas não acontecessem no novo colégio. Mas de qualquer jeito eu seria notado, talvez não pelas minhas roupas de grife, mas sim pelo fato de ser um calouro novato que entrou no colégio depois de três semanas de aula.
Eu e meu pai, Burt Hummel, nos mudamos de uma cidade cujas raças predominantes eram "preconceituosos", "fofoqueiras" e "oferecidas" para morarmos em Lima, Ohio, torcendo para que levássemos uma vida diferente. Meu pai sabia das constantes intimidações que eu tinha no colégio, mas apesar disso o motivo principal de nossa mudança foram dois infartos que ele tivera. Lima parecia uma cidade mais calma para se morar, então era a opção perfeita.
Assim que passei pelos portões levemente enferrujados do McKinley, não pude deixar de sentir um arrepio percorrer meu corpo quando percebi o time de futebol inteiro me devorar com os olhos. Apressei o passo, antes que algum deles se manifestasse a fazer algo. E, para meu alívio, consegui. Atravessei os corredores do colégio um pouco ofegante, procurando o meu armário para guardar algumas coisas no mesmo. E assim que o abri, notei a figura de um garoto alto, com um estúpido charme no rosto, cabelos levemente arrepiados e um sorriso de maioral nos lábios. Desci o olhar até reparar que o mesmo usava uma jaqueta do time de futebol, e nesse exato segundo me virei para o armário torcendo para que o mesmo não tivesse notado a minha existência.
"Conhece o Finn?" – Ouvi uma voz levemente irritante falar. Virei para os lados, procurando a dona da voz, e só quando abaixei um pouco a cabeça pude reparar uma garota com um nariz estranho e lábios carnudos sorrir simpaticamente para mim.
"Ah, não, eu me mudei para Ohio faz alguns dias". – Respondi a garota, que pareceu surpresa com o meu tom de voz. Tentei disfarçar o meu incômodo sobre isso.
"Ah, eu sou Rachel Berry. A maior estrela desse colégio e futura lenda viva da Broadway. Saiba que Barbra Streisand terá orgulho de mim". – Ela sorriu. E assim que ouvi a palavra "Broadway" não pude deixar de me surpreender. Então quer dizer que uma pessoa em Lima sabia o que era Broadway e ainda era fã de Barbra Streisand?
"Eu sou Kurt Hummel, futuro estilista famoso e também futura lenda viva da Broadway. Irei surpreender todos lá com minha voz potente." – Sorri para Rachel, que seguia Finn com o olhar.
"Ah, me desculpe. Eu pensei que você e Finn eram amigos, assim você poderia nos apresentar".
"Acho muito difícil eu ser amigo de alguém do time de futebol. Provavelmente eles se preocupariam mais em me humilhar e estragar minhas roupas caras do que serem meus amigos". – Dei de ombros. E logo após isso não enxerguei mais nada. Senti a sensação de algo extremamente gelado se chocar contra meu rosto e meus olhos arderem como loucos. Tentei tirar o excesso de gelo dos meus olhos e observei uma garota morena com o cabelo amarrado em um rabo de cavalo e vestindo um uniforme de cheerios apontando um copo vazio de slushie para mim.
"Opa! Desculpe. Achei que esse era o melhor jeito de fazer vocês pararem de falar, suas vozes são irritantes." – Ela disse, jogando o copo plástico no chão e continuando seu caminho. Olhei para Rachel com os olhos entreabertos e notei que ela também havia levado uma slushie no rosto.
"Espero que essa mancha horrível saia quando eu levar essa echarpe de tecido chinês na lavanderia do meu bairro." – Falei com os lábios trêmulos, devido ao frio.
"Você vai ter que se acostumar com isso, seja forte." – Ela disse, indo em direção ao banheiro. Segui-a sem enxergar muito bem o caminho. E quando entrei no banheiro e escutei gritos agudos, tive certeza de que havia entrado no banheiro errado.
Assim que a primeira aula terminou, rapidamente os corredores do McKinley se tornaram populosos novamente. Eu estava usando apenas uma camiseta branca de mangas compridas, calças pretas e um pouco justas, e uma bota australiana amarela. E eu estaria com minha echarpe azul clara também, se a pobre não tivesse sido atingida por uma slushie, assim como eu.
Indo em direção ao meu armário, notei que um garoto se aproximava. Toquei levemente um spray de pimenta que havia dentro do meu armário. Eu não deveria ter trazido o mesmo, mas depois de incontáveis vezes em que neguei o pedido do meu pai de treinar artes marciais pra me defender, ele insistiu de que ao menos eu levasse um spray de pimenta comigo para onde quer que eu fosse. E, como era meu primeiro dia em um colégio diferente, não quis arriscar.
"Você provavelmente é o novato, Kurt, certo?" – O garoto me perguntou. Eu estava receoso de que se respondesse sim, levaria um soco na cara.
"Por que, o Kurt fez alguma coisa de ruim?"
"Não, eu só queria dar as boas-vindas". – Ele respondeu, seguido de uma risada. Suspirei, derrotado.
"Sim, sou eu." – Puxei alguns livros de dentro do armário e o fechei logo em seguida.
"Bem-vindo ao McKinley, eu sou o Arthur." – Ele disse, estendendo sua mão. Apertei-a com pouca força, tentando parecer simpático. "Uma dica que sempre dou aos novatos: Seja o maioral se não quiser ser a comida do maioral. Entendeu?"
E quando eu ia responder "não", o sinal tocou.
"Até mais, nos vemos por aí". – E então Arthur seguiu seu caminho pelo corredor. Então além de jogarem slushies nas presas indefesas eles também eram canibais?
Entrei na sala que eu teria aula de Biologia e me sentei em uma das cadeiras mais próximas da porta, caso eu precisasse fugir dali imediatamente. Por mais confiante que eu estivesse não podia deixar de ter medo. Eu era um garoto que "aproveitou" sua juventude sendo ameaçado e intimidado por uma coisa de que eu não tinha certeza ainda, que no caso seria minha sexualidade. Então era normal eu me sentir com medo em um lugar totalmente diferente, com pessoas diferentes e que provavelmente não iriam agir diferente do que eu já estava acostumado.
Eu tentava permanecer concentrado na aula, embora estivesse mais preocupado com o que iria acontecer. Eu já havia conhecido três pessoas, e dentre elas uma havia me atacado com uma slushie sabor uva no meu rosto. Além de eu odiar uva, ela manchou minha echarpe. E tinha sido uma garota! Ia ser difícil passar o resto do dia sem ter, pelo menos, um hematoma ou pior: uma roupa rasgada.
O sinal do recreio anunciava a libertação dos escravos que correram da sala como se estivessem distribuindo dinheiro nos corredores. Peguei meu caderno e meus livros, me levantando quando percebi outra pessoa se aproximar.
"Ah, olá! Sou Zachary, mas pode me chamar de Zach. Ou de Super Z." – O garoto tinha olhos azuis, seus cabelos eram castanhos escuros e estavam um pouco bagunçados. Seus lábios eram carnudos e agora sorriam com simpatia para mim. – "Seja bem-vindo ao McKinley, suas roupas são Super".
"Ah, obrigado..." – Falei um pouco inseguro, não sabia se estava sendo sincero ou estava apenas zoando da minha cara. "E eu sou Kurt Elizabeth Hummel. Q-Quer dizer, Kurt Hummel, mas pode me chamar só de Kurt". – Falei rapidamente. Não sei por que, mas estava nervoso. Estendi minha mão para cumprimentá-lo tentando disfarçar.
"Elizabeth é um nome de mulher. Acho que vou colocar esse nome na minha filha, é um nome muito bonito. Lois Elizabeth Cooper, o que acha?" – Ele apertou minha mão. – "Nossa, que mão macia. Parece bumbum de bebê".
E então não consegui controlar e ri baixinho.
"Obrigado Zach, até agora você foi a primeira pessoa que notou isso." – Sorri com mais simpatia dessa vez. "E o nome ficou bonito, não esperava que alguém achasse normal eu ter um sobrenome de mulher... Quer dizer, de mulher já basta minha voz. E talvez minhas roupas também..."
"Sua voz é bonita, diferente. E tudo que é diferente, é Super." – Ele riu. – "Agora vou precisar ir, Kal El. Nos encontramos depois?"
"Acho que sim. É fácil me encontrar, é só procurar por alguém com botas amarelas e que parece que já foi atingido por uma slushie." – Ri, tentando de alguma forma entender aquele novo apelido. Era legal, parecia diferente de algum xingamento que camuflavam como apelidos carinhosos. Foi assim comigo no colégio anterior, e eu era inocente demais pra me tocar disso.
O dia passou arrastadamente. As outras aulas eram desinteressantes, e por sorte não fui atingido por outra slushie ou até por coisa pior. Cheguei em casa, exausto, tomei um banho demorado e logo depois desci as escadas com meu pijama habitual, que não se passava de um enorme moletom de lã com um pequeno short azul de algodão que praticamente sumia por debaixo dele.
Meu pai assistia a um jogo de futebol qualquer na tevê, enquanto eu preparava o jantar. Aquele cheiro da carne sendo assada apenas me puxava de volta aos tempos de quando eu observava minha mãe cozinhar, na esperança de ser tão bom quanto ela. E agora, infelizmente, as maiores lembranças que tenho dela foram apagadas pelo tempo. Ainda me odeio muito por não lembrar a quão magnífica a voz dela era.
Depois de jantarmos e eu ter pensando em tudo o que aconteceu no dia, entrei no meu quarto e pulei na minha cama, abraçando com força um urso de pelúcia que comprei dando a desculpa de que era para uma namorada. Mas parece que meu pai nunca se importou muito com isso. Me cobri com um cobertor que imitava as listras de um tigre e dormi, finalmente, em paz.
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