Estava nua no quarto. Edward ressonava baixinho ao seu lado. Um braço estava sobre a barriga, onde entrelaçou a mão na minha. A chuva terminara de cair, transformando-se em algumas gotas. Interrompi a carícia nos cabelos dele para levantar. Quase sentada, ouvi a voz dele.

— Fica aqui comigo. Não sai agora, não. – manteve os olhos fechados.

— Não se preocupe. Só vou beber água.

Apanhei a blusa e a calcinha no chão antes de sair. Deixei a porta encostada. Ao chegar na sala vesti as peças antes de me encolher no sofá para tentar entender os últimos fatos.

Meu cérebro não conseguia encontrar a razão do porque recebi a visita dele. Agora, mais calma, pensava com mais clareza, porém não significava que chegue a alguma conclusão. Edward foi indiferente a mim por anos. Não demonstrou nenhum tipo de interesse para com a minha pessoa. Subitamente, a voz de Rosalie surgiu em minha consciência:

— Bella, como não percebeu? Ele não tirou os olhos de você nessa tarde.

Minha amiga me confidenciou ao fim da festa de Alice, já de noite. Eu não notei. Estava ocupada demais o ignorando, preocupada demais em transmitir uma postura segura o bastante para evitar que notasse meus verdadeiros sentimentos. Nada poderia me denunciar, exceto, é claro, eu não ter comido nada – tomei água, dois copos pequenos de refrigerante e um pedaço pequeno de doce.

Naquele dia acordou bem cedo para comprar o presente da baixinha. Voltou pra casa e foi correndo se arrumar para não chegar atrasada. Recebeu a mensagem dela quando saía, avisando que Edward estava lá. Na mesma hora enviou uma mensagem pra Jacob explicando a situação. Ele já sabia da história, só não o conhecia ainda. Como o amigo estava por lá, Bella pediu para ficar ao seu lado, pois não sabia qual seria a reação ao se deparar com o ex.. Por fim, Jake não saiu do seu lado uma vez sequer. A puxava para bater foto, dançava com ela, contava piadas... Foi ele quem a recebeu no portão. Entraram abraçados na casa de Alice.

Logo na primeira hora Alice pediu para Isabella colocar pétalas de rosas numa mesa em especial. Rapidamente Bella notou que não era uma boa ideia. Havia alimentos na mesa quadrada e, pelas pétalas serem pequenas, teve medo de derrubar algum doce ou de cair sobre outra coisa, já que as mãos estavam trêmulas devido ao emocional.

Com medo de causar algum acidente, pediu a Black, quem tomava refrigerante ao seu lado:

— Cara, me ajuda aqui?

A encarou como se não tivesse entendido.

— Estou com medo de derrubar alguma coisa aqui porque estou tremendo pra cacete.

— Como assim?

Ergueu a mão na altura do rosto. Ao ver o quanto tremia, arregalou os olhos enquanto deixava o copo na primeira mobília encontrada.

— Ok, relaxa. Você segura o plástico enquanto eu espalho as flores, tá?

Quando terminaram, entregou o plástico pra Alice. Bella suspirou com pesar. Logo foi puxada para um abraço pelo amigo.

— Estou aqui contigo para o que precisar, tá? – avisou sem desgrudar os olhos dela.

— Valeu.

Para mim havia somente duas possibilidades para aquela manhã. Primeira, ele surtou de última hora, admitindo gostar de mim – praticamente impossível. Segunda, queria uma buceta amiga – menos provável ainda porque não fazia o estilo dele.

Senti o sofá cedendo levemente devido ao peso extra. Não precisei olhar para o lado para ver quem era.

— Por que não voltou? – sussurrou, aninhando-se em seu peito.

— Por que está aqui? – não me surpreendi ao vê-lo sem roupa.

— Porque passei praticamente três anos longe de você por burrice de minha parte...

— É sempre bom admitir. – o interrompi – Só faltou a parte do burro e retardado.

— Burrice e imbecilidade de minha parte. – o sorriso no rosto não era feliz – Quero reparar o meu erro. Não deveria ter terminado contigo sem antes tentar resolver os problemas primeiro.

Edward não levantou outros temas – a não aceitação dos amigos, o posicionamento de Tânia, rejeição de Esme e o abuso sofrido. Esses eram assuntos para serem tratados outro dia. Não ali. As horas seguintes eram para serem aproveitadas para matarem a saudade do outro, para se permitirem sentir mais uma vez o sentimento de amor mútuo, há muito negado por um e negado pelo outro. Precisavam se reconectar.

Mais tarde, deitados em suas respectivas camas, notaram que foi como se não tivessem terminado há tanto tempo.

Antes de ir à casa de Isabella, Edward foi conversar com James. Leah, como esperava, estava lá.

Colocaram as cadeiras no quintal, onde podiam aproveitara brisa fresca.

— Sabem o que eu não entendo? Por que não contou nada pra mim.

— Querido, acredite, quando a futura sogra está no jogo, é complicado. – a garota retorquiu – Não dá pra simplesmente falar “amor, eu o amo, mas a sua mãe é uma cobra sebosa”.

— Desculpe, mas não creio que a minha mae a tratava mal.

— Se eu tivesse em minha posse provas concretas que confirmassem as minhas palavras, o que me daria em troca?

James desviou o olhar por ínfimos segundos enquanto um sorrisinho se formava. Conhecia Leah bem demais para saber que não falaria aquilo a toa.

— Sei lá. – deu de ombros – Deixou por sua escolha.

— Já volto.

Retornou em três minutos, segurando o laptop nas mãos. Puxou a cadeira para o lado, falando convicta:

— Ao contrário de você, meu amor, sempre estou um passo a frente. Sou uma mulher precavida. – ajeitou o aparelho no colo – Leia, Ed.

Impressionou-se com o conteúdo das imagens. A amiga printou várias conversas com Bella no Whatsapp e jogou para o laptop. Ali mostrava a forma como a mãe tratava a ex-namorada na época quando estavam juntos, inclusive o episódio do aniversário.

— Ok, deixe ver se entendi direito. – nervoso, afastou os cabelos da testa – Ela contou isso pra vocês. Alice sabia que tinha coisa errada, Rosalie... O mundo inteiro sabia, menos eu? Por que me deixou fora disso, droga?! – não escondeu a frustração.

— Simples. – James interpôs – Não queria contar pra você porque envolvia sua família e seus amigos da infância. Era nova naquele ambiente. Conversei com ela na época, mas a garota não queria lhe causar problemas.

— Assim... Não é exatamente legal relatar pro namorado que a ideia da festa surpresa foi da namorada, não da sogra, já que a sogra megera distorceu a história num discurso, como se a ideia tivesse sido dela, né?Isso sem mencionar que a mulher jogou no lixo os doces preparados pela Isabella numa madrugada praticamente inteira. – completou Leah após ligeira pausa numa careta de desgosto – Na boa, peguei uma raiva dana disso. Desculpa, Ed, sei que é sua mãe, mas foi maldade, cara. Eu, James e o resto do pessoal economizamos dinheiro para Isabella comprar as melhores marcar para as paradas e Esme simplesmente descarta como se fosse lixo? É foda.

— Claro, sem mencionou a vez que praticamente a humilhou. – completou James – Pega leve, gata.

— Por acaso estou mentindo? Economizamos ou não grana pra compra do material?

— Poderia ser um pouquinho mais delicada na escolha de palavras, né? – indagou o namorado.

— Sou sincera demais pra isso.

— Então isso significa que ela fingia estar à vontade quando, na verdade, se sentia excluída? – não pôde esconder a indignação.

— Exato.

— Eu deveria ter sido mais maleável... – resmungou completamente frustrado consigo mesmo.

— Só você acha isso? – retrucou a jovem, zangada – Tem noção de quantas vezes quis dar na sua cara pelo tamanho da merda que fez?

— Pois é. Cansei de segurar a mão dela porque, no calor do momento, levantava a mão pra partir pra cima de você. Literalmente. – explicou o namorado.

— Eu tenho personalidade forte. O que queriam? Que eu visse tudo sem esboçar reação? Nem fodendo! – colocou o laptop na mesa em frente – Antes que eu esqueça, agiu como um babaca durante esses dias.

— Hã?

— Conversando com Isabella descobri que você foi naquele projeto.

— Por sorte apostei com Leah que você seria o retrato perfeito de um filho da puta nato antes dela abrir a boca pra apostar. Ganhei a coleção de Game of Thrones por causa disso. – havia orgulho vitorioso na vez de James.

— Valeu, hein?

— Perdi um dinheiro legal por sua culpa, cabeçudo! – esbofeteou de leve o topo da cabeça do amigo.

— Foi uma aposta justa. Não há porque reclamar.

— Ainda mantêm contato com Bella? – Edward franziu o cenho.

— É claro. – o casal respondeu em uníssono.

— Só porque você fez merda, querido, não quer dizer que a gente iria cortar laço com a garota. – a mulher prendeu os cabelos num coque mal feito, deixando mexas caídas no rosto.

— Verdade. Quase não temos oportunidade de nos vermos, mas, quando achamos espaço na agenda, marcamos alguma coisa.

— Ultimamente tem sido difícil. Quando Bella não tem ensaio extra, precisa substituir algum professor ou precisa usar o fim de semana para ensaiar uma das turmas dela, ou então tem apresentação.

— Turmas dela? – repetiu Edward, confuso.

— Definitivamente esteve muito tempo por fora. – a amiga balançou a cabeça – Sim, turmas dela. Agora é coreógrafa e professora de flamenco, sapateado, jazz e contemporâneo. Trabalha em dois estúdios diferentes. Conseguiu o emprego logo depois do término, né? – indagou em dúvida – Não sou boa com datas.

— Sim. – confirmou o namorado.

No decorrer da conversa Leah observou Edward. Lembrou de como o amigo se comportava até aquela tarde em particular. O homem não tomava bebida alcoólica antes de terminar com Bella. Também quase não ia para boates. Todos se surpreenderam quando um dia simplesmente apareceu sem a garota. De início perguntaram se ela estava doente, porém, ao dizer que não namoravam mais, ninguém gostou da notícia. Em pouco tempo Bella se tornou querida pelo grupo – vários membros sentiam falta da presença dela nas reuniões onde Edward estava, apesar de negarem na frente do amigo.

Foi naquela tarde a primeira vez que tomou cerveja. Leah e James trocaram um olhar desconfiado. Afinal de contas, o cara apareceu por lá feliz menos de quatro dias do fim do primeiro relacionamento amoroso, despreocupado e tomou álcool. O comportamento era, no mínimo, intrigante. Era óbvio o quanto amava a garota, mas agia como se o sentimento tivesse sumido da noite para o dia, como se a tivesse superado rápido. Rápido até demais. Não tardou para se embebedar nos lugares. Não se contentava apenas com a cerveja. Foi questão de tempo para provar vodka, uísque, conhaque, absinto... Tudo servia – desde que fosse forte o bastante para ficar bêbado, já que cerveja não produzia esse efeito nele. Numa noite Leah e o namorado precisaram ir de madrugada numa boate, de onde trouxeram Edward inconsciente devido ao alto nível de álcool no organismo. O levaram para a casa de James e, nos segundos que conseguiu manter-se acordado, respondeu, após a mulher perguntar a James, em voz triste, o motivo do amigo agir daquela forma.

— Porque assim eu não penso nela.

Saindo do devaneio, uma ideia lhe passou. Levantou indo pra dentro da casa. Parou logo atrás de Edward, num ângulo onde apenas o namorado poderia vê-la.

— Gente, vou ver o que temos para lanchar. Quer que eu traga cerveja, Ed? Aqui não tem, mas, a loja do outro lado da rua vende. Posso passar rapidinho lá pra trazer uma garrafa pra você.

Recebendo um olhar zangado do namorado, colocou o dedo indicador nos lábios pedindo silencio quando o mesmo deu indícios de se manifestar.

— Não, relaxa. Aceito Coca ou algo do tipo, mesmo.

A resposta não seria essa alguns dias atrás.

Satisfeita, pediu:

— Anda, me acompanhem, meninos. Ou ficarão sem comer nada.

Quando James passou por ela, respondeu confidente, beijando o pescoço feminino:

— Garota esperta.

De madrugada Leah dormia em sono profundo na cama, ao lado do namorado. Naquela noite saiu extremamente tarde do escritório onde trabalhava como secretária devido a uma reunião importante de última hora. Preocupado por ela morar longe do prédio onde trabalha, buscou a namorada e foram para a casa dele.

Planejava acordar horas mais tarde, quando o Sol já tivesse nascido, ouvindo o som do bacon sendo preparado na frigideira. Tomaria um banho quente e vestiria o moletom masculino cinza dele. A peça era bem confortável. Entraria silenciosamente na cozinha, beijaria os ombros masculinos enquanto o abraçava, beberia um copo de suco de laranja... Seria recebida pela voz grave do namorado... Seria ótimo.

Não foi o que aconteceu.

Despertou com a vibração do celular. O colocou debaixo do travesseiro, já programado para despertar as nove da manhã. Ao acordar, viu o quarto ainda envolto completamente pela escuridão. Bocejando, o pegou. A foto de Edward apareceu na tela e xingou o amigo por acordá-la naquele horário, quatro e vinte da manhã.

— Sabe que horas são, cacete? – resmungou de mau-humor, fechando os olhos.

— Moça, eu preciso da sua ajuda.

James despertou durante a conversa da namorada. Realmente não queria acordar. Não tinha motivos para ela estar conversando com alguém de madrugada.

— Amor, acorda. James. Levanta. – a garota o chamava carinhosa lhe alisando os cabelos.

— Amor, deita. É tarde. – murmurou.

Vestindo a calça jeans que deixara lá e a camisa preta social usada para trabalhar, elucidou:

— Não dá. Ed está com problemas.

— Me dê um bom motivo para levantar o rabo daqui.

Já abrindo o armário para pegar roupas para ele, Leah respondeu:

— Edward arranjou confusão numa boate, está bêbado e desmaiado.

— De novo? Sou dar na cara dele. – reclamando, afastou as cobertas para levantar.

Pegaram táxi em quinze minutos – o carro de James estava com problemas no motor. Não demoraram a chegar à boate.

— Amor, me faz um favor. – pediu ao ver o destino logo a frente – Não saia daqui sem mim.

— Por quê? Acha que não posso cuidar de mim mesma sozinha?

— Não, apenas que pode dar merda e não quero você metida em problemas.

Quando o carro parou, pediu ao motorista:

— Amigo, nós vamos entrar rapidinho pra resolver um lance. Não iremos demorar. Pode nos esperar aqui?

— Pode ser.

Só então viu que não tinha ninguém ao seu lado. Leah saíra e deixara a porta aberta.

— Por que ela nunca me ouve? – reclamou ainda de sair.

Desejava entrar o mais rápido possível. Não queria deixar Leah sozinha lá dentro pela garota não conhecer o ambiente.

Passou direto pela enorme fila, indo falar com os três seguranças de terno.

— Preciso entrar. Ligaram-me daqui falando que meu amigo...

— Nome. – exigiu o de corte militar.

— Sou James. Meu amigo se chama Edward Cullen. Quem me ligou foi o Reverendo.

Imediatamente os três liberaram a passagem para ele, quem se apressou para entrar.

O som da música o fez sentir dor de cabeça de imediato. Há vários anos não entrava num lugar como aquele e não sentia falta. Frenético, procurava pela namorada. Ia pegar o celular para lugar para ela, porém, num canto, imprensada contra a parede, lutava para se afastar do homem quem tentava beijá-la a força. As luzes proporcionavam um efeito perturbador na visão ao mostrá-la assim.

Em questão de segundos conseguiu alcançá-los. O segurou sem aviso pela parte detrás do pescoço e chocou o rosto do desconhecido contra a parede. O virou, pressionando forte contra a parede fria e lhe socou o rosto.

— Escuta bem o que vou lhe dizer por que não vou repetir. Se tocar nela de novo eu o mato, filho da puta. Ficou claro? Agora cai fora.

Quando se afastou cambaleando, Leah abraçou James pelas costas.

— Obrigada, amor. Senti tanto medo.

Ignorou a leve dor no punho e se virou para abraçá-la.

— Por que não me deu ouvidos, hein? Era disso que eu queria protegê-la quando pedi para entrar comigo.

— Eu não sabia. Não pensei que fosse passar por isso. – ofegante, o apertou, aliviada.

— Promete que vai me ouvir hoje?

Balançou a cabeça em afirmativa, separando-se dele e segurando a mão. Chegaram ao escritório do dono da boate, no terceiro andar. Foram cumprimentados por um homem gordo de pele flácida e dentes brancos como papel.

— Sou Laurent. Eu falei contigo, certo? – indagou se referindo a Leah.

— Sim. Cadê Edward?

Acenou com o queixo para o sofá vermelho, onde Edward estava desacordado. Havia se passado seis meses do término com Bella e seu aspecto não melhorou em nada. Podia até considerar ter piorado. Perdeu alguns quilos naquele período, as roupas ficando largas nele. Conseguia ver o cinto novo comprado para segurar a calça no lugar. Definitivamente era de extrema urgência passar num salão – ou, no mínimo, usar o barbeador com mais frequência. Os cabelos estavam maiores que o normal e, levando em conta o tamanho da barba, lhe dava uma aparência de maltrapilho. O olho direito tinha uma coloração roxa nem um pouco atraente e começava a inchar. Havia um corte na sobrancelha, de onde saía um fino filete de sangue.

Ambos correram até ele. Não o tinham visto muito desde a tarde que revelou sobre o término, então se surpreenderam com a aparência tão maltratada. Leah se abaixou para afastar as mechas da testa.

— O que aconteceu?

James fez uma careta ao sentir o forte cheiro de álcool.

— Não sei bem. – Laurent permanecia no mesmo lugar, as mãos guardadas nos bolsos da calça – Meus seguranças disseram que ele estava arranjando briga. Bateram nele – não os meus homens, é claro. Como não acordou, pedi para o trazerem para cá. Encontrei o seu número no celular dele. – foi até a mesa, apanhando o aparelho – Tentamos ligar para os outros números, mas ninguém atendia. Já estava perdendo as esperanças quando você atendeu. – estendeu-o para James, quem o guardou no bolso traseiro.

— Obrigado. Vamos levá-lo para casa.

O ombro de James queimava de dor ao acomodar o amigo no sofá da sala.

— Isso está errado. – murmurou Leah, séria – Ele não é assim. Por que faz isso consigo mesmo?

— Porque é a única maneira de não pensar nela – a resposta veio de Edward.

No dia seguinte ele não se lembraria da resposta.

Seis meses depois da inesperada visita, estava no apartamento de Edward. Somente Alice e Rosalie sabiam a minha localização. Pedi para a pequena me acobertar, então Charlie e Renée achavam que eu estava na casa de minha amiga.

As coisas caminhavam relativamente bem. Edward deixou claro seu desejo de voltar comigo – desejo esse que me deixou pensativa. Àquela altura já descobrira tudo o que aconteceu e tomou as devidas providencias – não tinha contato com Tânia como antes, surrou Eleazar e diminuiu a proximidade com as pessoas que me esnobavam.

Era meio-dia. Terminava de preparar a salada de legumes pro almoço. O homem saiu para comprar o material da sobremesa, a torta de limão que tanto gostava. Eu usava uma calcinha, top e o moletom de Edward cuidava do resto, parando na metade das minhas coxas. Constantemente erguia as mangas por ficar tão grande em mim. Descalça, cozinhava usando fones de ouvido. O celular com as músicas estava preso na alça do top, por isso não ouvi quando a porta foi aberta.

Alguém retirou de modo rude os fones.

— Posso saber o que faz aqui?

Esme estava em pé ao meu lado. Pela expressão ficaria mais feliz se eu fosse um inseto que pudesse esmagar facilmente usando o salto da sandália.

— Olá. Quanto tempo. A sua presença é sempre revigorante. – a ironia denunciava o contrário.

— Anda. Que faz aqui?

— Sem querer ser rude, mas esse é o tipo de pergunta que o seu filho pode responder, não eu. O problema é que ele saiu há uns minutos, então não podemos fazer nada além de aguardar a chegada dele para os dois conversarem.

— Ah, então finalmente está mostrando quem é. Isso só prova que esteve junto ao meu filho por dinheiro.

— Olha quem fala. Desculpe. Não sou você.

— Como é?

— Isso mesmo que ouviu! Acha mesmo que minha mãe não iria contar pra mim a verdade? Vocês duas eram amigas quando crianças e fingiu não conhecê-la, por Deus! Como consegue mentir assim, hein?

— Cale-se. Você não tem o direito de...

— Uma ova que não! Penei na sua mão por anos só porque eu não tinha dinheiro. Duvido que se eu fosse podre de rica não iria apoiar o meu namoro com o seu filho. Sabe o motivo de não gostar de mim? É porque a faz lembrar toda hora de quem realmente é.

Esme levantou a mão. Sem dúvida iria me esbofetear. Nunca dá muito certo quando se fala o que falei sem causar alguma consequência negativa.

Antes que a mulher pudesse me atingir, o braço dela foi segurado por uma grande mão masculina, que prendeu a dela centímetros do meu rosto.

— Toque nela e terá um grande problema comigo.

A voz de Edward era tão fria que até eu me encolhi.

— Filho... – balbuciou ao vê-lo se posicionar atrás de mim, abraçando-me.

— Não vou tolerar isso, mão. – prosseguiu.

Pela falta de reação da genitora, sem dúvida a expressão dele era tão cortante quanto as palavras.

Piscando nervosa, prosseguiu:

— Como aceitou essa garota aqui?

— Acho que a pergunta certa seria “como você pôde destratar tanto a mulher que eu amo?” Sem dúvida se encaixa melhor.

— Só quero o seu bem. Essa menina – gesticulou em minha direção como se eu fosse lixo – não é gente para você.

— Em primeiro lugar, enquanto estiver em minha presença, não tolerarei insultos direcionados à Bella, independente de onde estejamos. Em segundo, é maravilhosa.

— Ah, por favor. Pensa, meu filho. Isabella não chega em aos pés de Tânia. Tânia, sim, é pra você. É estudada, tem uma educação excelente, vem de uma boa família...

— Já deixei claro para Tânia que nunca me interessei nela. Até porque eu jamais me sentiria atraído por alguém quem aproveitou a oportunidade de derrubar a mulher que amo da escada.

Ergui a cabeça de imediato para encará-lo. Não havia lhe relatado o ocorrido.

— Um acidente sem importância.

— Porra nenhuma! Eu vi tudo! Ou acha que queria simplesmente limpar alguma coisa na blusa de Bella enquanto Isabella descia as escadas, principalmente a chamando de porca imunda?

Como, diabos, ele sabia dos detalhes?

Edward não permitiu a fala da mãe ao vê-la abrir a boca.

— Escuta, estou farto dessa discussão. Se eu vou ficar com alguém, essa pessoa será Bella. É a mulher por quem me apaixonei, você querendo ou não, mãe. Se não está satisfeita, pode sair. Sabe o caminho, então não é necessário acompanhá-la. Realmente queria que a aceitasse, mas, como não tolera o simples fato dela não ter tanto dinheiro quanto a gente, posso apenas ter paciência contigo. Agora, ouvi-la xingando a mulher quem amo ou a maltratando... Não fecharei os olhos para isso. Enquanto estiver na minha companhia e na dela, será, no mínimo, respeitosa e educada. Do contrário, sairei do ambiente, independente da ocasião ou de onde estivermos. Você é minha mãe e sou grato pelo o que fez pra mim, porém não aceitarei ser manipulado, menos ainda que decida quem é bom para estar ao meu lado ou não. Isso posso decidir por mim mesmo.

Ao ouvir a porta ser batida, me virou para si.

— Você está bem? – os olhos preocupados passavam pelo meu corpo, procurando pelo mínimo sinal de agressão.

— Sim.

Fechou os olhos por um momento em sinal de alívio antes de beijar minha testa e em seguida me abraçar.

— Sinto muito por isso. – enterrei os dedos nos cabelos macios.

— Relaxa. – a voz saiu abafada por estar com o rosto enterrado no meu ombro – Esse confronto aconteceria mais cedo ou mais tarde.

Se separou de mim sem diminuir a distancia, mantendo os braços ao meu redor.

— Posso perguntar uma coisa?

— Já até sei o que vai querer saber.

— Como sabia daquela história da escada se eu não contei nada?

— Eu estava lá.

— Mas Emmett...

— Não foi Emmett. Fui eu. Ia dar uma passada no dormitório e acabei presenciando a cena. Ao ouvir o grito de Tânia e logo depois você caindo foi o suficiente para saber o que tinha acontecido. Quando a vi sendo empurrada quase pirei. Corri para pegá-la quando chegou ao chão. Corri para a enfermaria desesperado, segurando o seu corpo inerte. A deixei sob os cuidados da tia após explicar o que houve e logo em seguida expulsei Tânia de lá. Não tem noção de como fiquei puto. Acho que ela até ficou com medo por não imaginar ser pega, muito menos que a minha reação fosse tão enérgica. Pedi para a tia lhe contar que foi Emmett quem a resgatou. Ao recobrar os sentidos, saí da sala. Se duvidar, pode perguntar para ele ou Alice.

Chegaram em casa quase meia-noite. Conseguiu disfarçar o abatimento, entretanto Bella recebeu olhares desconfiados da mãe. É bem difícil esconder algo dela por conhecer bastante a filha.

— Filha, vem cá. – na cozinha, Renée abriu a geladeira. – Que aconteceu com os doces? – retirou a garrafa de água, fechando porta.

— Ah... Isso. – murmurou desanimada, sentando na cadeira em frente a mesa.

— Boa pergunta, querida. – o pai se aproximou das duas com três copos de vidro na mão.

— Assim... A resposta não é muito animadora. – rebaixou o canto da boca.

— Mais um motivo para sabermos o que houve. – Charlie respondeu firme, depositando os copos na mesa. Renée aproveitou para enchê-los até a metade.

— Ok. Resumindo... Esme os jogou fora.

O pai praguejou e a esposa abaixou a cabeça com pesar.

— A ouvi falar isso com Tânia. Pelo o que eu descobri essa noite, ela não gosta de mim. Nenhuma das duas gostam de mim.

— Isso sem mencionar que mentiu na frente de todos sobre de quem foi a ideia da festa para levar os créditos às suas custas, né? – argumentou Charlie.

— Filha, desculpa. – Renée se manifestou, erguendo a cabeça numa expressão triste – Eu deveria tê-la alertado quando soube quem era a mãe do seu namorado.

— Alertar?

— Renée e sua mãe se conhecem desde crianças. Inclusive eram até amigas. – o pai explicou antes de tomar a água.

— Hã? – a expressão congelou numa careta de pura confusão.

— Sim. Crescemos juntas. – confirmou.

— Então por que agiram como se nunca tivessem se visto antes?

— Melhor contar a história completa. – pigarreou antes de prosseguir – Eu e Esme nos conhecemos na escola. Tínhamos só cinco anos. Assim como nós, não tem origem em família rica. O pai era professor de música e a mãe recepcionista de um consultório dentário. Quando terminamos o ensino médio os pais dela morreram num acidente de carro. Foi terrível. Esme estava com eles. Enfim... Após esse episódio, por não ter mais nenhum parente por aqui, foi morar com uma tia fora do país. Perdemos o contato nessa época. Depois de anos, quando começava a trabalhar no hospital, a encontrei. A mudança era nítida. Vestia roupas que obviamente não poderia comprar anos atrás, joias reluzentes... O cabelo mudou de castanho pra ruivo. Até a forma de se expressar e andar era outra. Carlisle a acompanhava nesse dia. Ainda não sei dizer se essa foi a razão por ter me tratado como se fosse uma completa desconhecida.

— Mentira?! – exclamou pasma, de os olhos arregalados – Calma, não havia motivo para ela tratá-la assim, mãe

— Resposta errada. – Charlie interviu para explicar – Carlisle era rico. Semanas mais tarde saiu no jornal a notícia do casamento deles. Ele vem de uma família extremamente abastada. Trabalha porque gosta da profissão. Os pais dele que devem ter ficado relativamente felizes, já que eram donos de uma empresa que vem sendo herdada pela família há décadas. O filho acabou se tornando neurocirurgião prestigiado. A sorte é o cara ter irmãos, então pôde optar por atuar em outra área.

— Desde criança o dinheiro sempre chamou a atenção dela. Lembro que quando brincávamos Esme sempre queria ser aquela quem se casava com um homem milionário. – Renée terminou de tomar a água num só gole – Só há uma coisa que talvez Esme goste mais do que dinheiro. O filho. Tenho sérias dúvidas se ela ama o marido.

— Se acontecer uma reviravolta e o pobre coitado perdesse a fortuna, duvido que ela permaneça ao lado dele – terminou o pai.

Bella caminhava rápido na rua. Em poucos minutos conseguia chegar à casa da amiga andando, então não via motivo para gastar dinheiro em condução. O coração batia acelerado, a respiração mais rápida que o normal, o nível de ansiedade nas alturas. Conversou com Jacob pelo trajeto, o mesmo confirmando por mensagem quem estava lá. Naquele dia acordou cedo para comprar um presente para Alice, o qual carregava embrulhado numa bela sacola na mão direita. A outra usava para enviar mensagens.

De: Bella

Para: Jake

Cheguei.

Avisou quando entrou na rua de onde acontecia a festa.

Quando parou na frente do portão, o mesmo foi aberto pelo amigo. Usava bermuda preta e camisa vinho.

— Oi. – o abraçou, grata ao sentir a amizade entre eles.

— Hey. – se surpreendeu pela pesada respiração dela – Está tudo bem? – murmurou ao começar a acariciar os cabelos soltos.

A menina balançou a cabeça em negativa, o rosto ainda encostado no peito másculo.

— Vamos, olhe pra mim.

Isabella se afastou para fitá-lo. O rosto de Bella era puro misto de medo, insegurança e tristeza.

— Estou com muito medo. – crispou os lábios, as sobrancelhas se unindo levemente – Não sei qual será minha reação, não sei o que fazer, não sei o que esperar... E se Edward quiser vir falar comigo? Não conseguirei manter uma conversa e ele pode perceber minha fragilidade...

— Calma, calma, calma. Respira. De nada vai adiantar se mantiver nesse estado. Hoje será um dia bom, como qualquer outro. Várias pessoas aqui gostam de você e já cansei de ouvir gente perguntando por que se atrasou. Independente da presença do seu ex, tudo vai correr na mais perfeita ordem. Vai se divertir, rir, dançar, comemorar o aniversário da sua melhor amiga. Afinal, veio pra isso, certo? – terminou a frase sorrindo, simpático.

— É, tem razão. Estou sofrendo por antecipação. Posso pedir uma coisa? Por precaução.

— Claro.

— Não me deixa sozinha. Não imagina o quão desesperada estou.

— Tá, minha linda, entretanto precisa me prometer outra coisa em troca.

— O que?

— Vai colocar agora um sorriso nesse rosto lindo.

Ao ver o sorriso da jovem, Black disse:

— Melhor. Você está gata. Não se preocupe. Não sairei do seu lado.

— Valeu, meu amigo.

Foram abraçados para os fundos, onde a festa acontecia.

Os rostos eram conhecidos. Cumprimentou os presentes rapidamente, menos um em especial. Entrou na casa, onde Rosalie e Emmett estavam. Conversaram animados e demonstraram felicidade pela chegada da amiga.

O tempo passado lá foi relativamente agradável. Manteve-se afastada de Edward o máximo possível. A única coisa que poderia entregar o desconforto era a falta de apetite – não tomou café, não almoçou e, tirando basicamente água, refrigerante e uma pequena fatia de torta, o estômago estava vazio – as mãos trêmulas e a forma como mordiscava o interior da bochecha frequentemente. Apenas sentiu fome quase dez da noite, quando chegou em casa.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.