Sweet Diary
1 Dois à Quatro anos.
Sexta-feira, 21 de Julho de 1981.
Me deram um caderno de presente por ser a primeira criança daqui a saber ler bem e escrever com a mesma facilidade, nem sei bem o que escrever, mas me pareceu muito útil.
Meu nome é L Lawliet. Sim, meu primeiro nome é L, moro num lugar estranho chamado Wammy's House, onde há muitas crianças iguais à mim. Ou talvez não tão iguais à mim.
Estamos na Inglaterra, em Winchester, aqui faz muito frio mas eu não me incomodo com isso e não acho que esse seja um motivo que me faça começar a usar meias. Detesto meias!
Não sei quem é minha mãe, muito menos meu pai, seria legal se eu tivesse pai e mãe, mas eu gosto da minha vida como ela é. Acho que pais e mães são irritantes algumas vezes, toda aquela coisa de querer te obrigar a vestir blusa, ou cortar o cabelo da maneira que lhe convém. Deve ser chato...
Havia uma senhora que cuidava de mim aqui no orfanato, o nome dela era Lizzie, eu gostava dela, ela tinha os cabelos prateados como os enfeites da árvore de natal e cheiro de sabão e doce de amendoim e eu gosto de doce de amendoim. Ela me trazia vários quitutes que ela fazia, ela dizia que gostava de mim por eu ser quieto e inteligente, ela dizia que eu era único, especial. Não sei se ela tem razão, mas gostava quando ela dizia isso. Há algumas semanas ela estava com uma tosse forte, devia ser resfriado e logo depois ela sumiu, provavelmente deve ter ido tirar férias no Canadá, parece que eu ouvi alguma das mulheres que trabalham aqui dizer que ela foi para o paraíso e pelas fotos que eu vi do Canadá é uma boa imagem do paraíso, talvez ela tenha ido pra lá.
Uma coisa que abomino são o toque das crianças, me acham estranho muitas vezes por ficar encolhido no meu canto, mas eu gosto de ficar sozinho e não gosto de me envolver com os outros, eles choram, gritam e fazem bagunça e eu não gosto disso. Nem um pouco.
Ahh! Sentia falta de Lizzie, fazia tempo que ela não me trazia mais doces, se eu pudesse iria para o Canadá atrás dela sem pestanejar, foi a única pessoa daqui que gostei realmente. Seus olhinhos enrugados pareciam cascas de árvores, mas eu achava adorável, era tão diferente... E eu gostava de coisas diferentes.
— Lawliet? — madame Charlotte me chamara, eu detestava ela e sabia que ela também me detestava.
— Sim? — resmunguei, largando meu caderno um pouco de lado.
— Está na hora do almoço — ela disse ríspida. Eca com certeza seria repolho novamente.
— Já estou indo.
Peguei meu novo caderno e o coloquei embaixo do braço, seria legal escrever um pouco na hora do almoço.
Percorri meus olhos pelo refeitório, como era de costume e novamente não vi Lizzie em lugar algum. Ela geralmente ficava no balcão, servindo nossos pratos. Por que Lizzie iria para o Canadá sem se despedir?
— Sente-se direito! — Charlotte cutucou-me nas costas, eu era magro demais e qualquer pontada atingia minhas costelas. Mais uma coisa que eu odiava nela. Ela me dizer como eu devia me sentar.
Comi a papa visguenta de cor estranha em silêncio, não era lá uma coisa muito agradável de se comer, e eu soube ouvindo a conversa de um de meus parceiros de quarto que eles escondiam na despensa a comida boa, que era trazida pelo próprio dono da instituição, doutor Wammy, e nos davam essa coisa nojenta.
— Atenção crianças! — Charlotte bateu palmas à nossa frente no refeitório, e assim todos olharam pra ela. Menos eu.
— Hoje teremos uma visita extremamente nobre. Senhor Wammy.
Não pude deixar de me concentrar nos murmúrios que vieram em seguida "Oh! Senhor Wammy!" "Ele deve ser um super-herói. Será que usa capa?".
— Shhhh! Quietas crianças! Por isso, tratem de arrumar seus aposentos e roupas pra que assim, fiquem apresentáveis quando senhor Wammy chegar até aqui.
Uma coisa era fato. Todos nós éramos especiais e se não, éramos ensinados pra que fôssemos. Acho que esse tal de Wamy era um cientista maluco à fim de nos usar como algum tipo de cobaia. Não confiava muito nele.
Fomos em fileira pra nossos quartos, eu ia andando e escrevendo ao mesmo tempo, as vezes atrasando a fila, o que me rendia alguns puxões de orelhas. O que só alimentava minha raiva de Charlotte, ela não tinha o direito de tocar em mim...
Arrumei meus aposentos, coloquei meu moletom e vesti uma camiseta branca, nada mais confortável que isso. Peguei meu caderno e caneta e os coloquei debaixo do braço.
Charlotte me olhou torto por eu estar descalço. Mas era tarde pra ela me puxar as orelhas. A campainha já tinha tocado assim que ela vinha em minha direção e então ela desenhou um sorriso no rosto indo atender a porta com a maior falsidade possível.
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