Sweet Cookies
1 Capítulo 1
— Três horas da manhã. – Levantou mal-humorado, passando a mão nos cabelos esbranquiçados. – Droga – reclamou em um muxoxo.
Calçou as chinelas de algodão e ajeitou o cordão da calça, ela cismava em cair. Não era uma hora muito usual para se ter fome. Principalmente, uma fome que vêm se repetindo todas as noites dos últimos cinco dias.
Colocou seus óculos e começou a se arrastar pela casa, sempre se apoiando nas paredes. Estava inconformado com sua barriga que não parava de reclamar. Passou a mão sobre ela e foi em direção à cozinha. Olhou a geladeira tomando coragem para abri-la. Havia esquecido de colocar a camisa e faria um frio absurdo sobre sua pele embalada pelo sono. Respirou fundo e a abriu. Estava vazia.
-Droga, de novo! – Suspirou. Cruzou um dos braços pelo seu corpo, encaixando sua mão estrategicamente abaixo do outro braço. Arrastou-se um pouco mais para a direita, e com um esforço sobre-humano abriu a dispensa. Biscoitinhos de manteiga. T.O.P odiava biscoitinhos de manteiga mais do que o fato de estar com fome as três da madrugada.
Xingou baixinho, e voltou se arrastando até o quarto. Iria dormir com fome ou não. Tirou os chinelos, colocou seus óculos na mesinha e deitou. Virou para um lado, virou para o outro. Escolheu-se em posição fetal. Massageou a barriga, conversou com ela, tentou sufocar aquela barulheira que ela quando se virou para baixo, mas nada... Nada dava certo.
Agora, completamente alterado, T.O.P voltou a se levantar. Vestiu alguma coisa e saiu. O frio intenso no Japão parecia querer trucidá-lo, mas ele era forte. Sobreviveria. Distanciou-se do hotel procurando alguma daquelas máquinas que salvam a vida de qualquer cidadão esfomeado às três da manhã.
Duas quadras depois T.O.P, finalmente, conseguiu encontrá-la. Sorriu e viu sua respiração ganhar forma no ar. Correu com um pouco de dificuldade até finalmente alcançá-la. Era uma daquelas máquinas variadas, havia de tudo lá: desde uma boa toalha de banho até calcinhas. E pra sua sorte, biscoitinhos de ervas finas e T.O.P amava biscoitinho de ervas finas. Tirou as mãos enluvadas dos bolsos do casaco e procurou por sua carteira no bolso traseiro de sua calça.
-Oh droga! – Lembrou que havia trocado de calça naquela manhã e colocara sua carteira na outra. Então, ficou lá, parado, olhando a maldita máquina, com sua barriga reclamando, e com uma vontade enorme de pegar aqueles biscoitinhos a força. Olhou para os botões e de relance, seus olhos alcançaram uma placa que parecia ter voado. “EM MANUTENÇÃO” dizia. Olhou da placa para a máquina e notou que estava apagada. Ele estava prestes a dar um soco de frustração na velharia quando um risinho o desconcentrou de seus planos maquiavélicos e T.O.P olhou para trás. Uma mulher, de óculos e trancinhas, trajando um sobretudo preto e botas de couro, estava sorrindo para ele. Ela deu um passo, deu dois, deu três e lhe estendeu a mão.
-Toma! – Na ponta de seus dedos havia uma nota de 1000 ienes.
-Não precisa, ela está quebrada. – Disse, mas ela sorriu mais ainda e balançou a mão como se reforçasse a oferta. Ele a olhou meio abobalhado, incerto, e tomou o dinheiro ainda impressionado com a beleza da menina. A única certeza que tinha é que não era japonesa ou tinha qualquer descendência asiática.
Quando seus dedos tocaram o pedaço de papel, um vento forte bateu. A neve foi levantada e T.O.P a perdeu no meio da poeira branca que voava a sua frente. A nota também voou de sua mão e a máquina fez um barulho extremamente alto. Mas assim como veio, a ventania se foi.
Quando T.O.P conseguiu abrir os olhos novamente, a menina havia sumido e a tempestade passageira apagara seu rastro. Olhou para a máquina. As luzes estavam descontroladas e ela não parava de tremer. T.O.P deu um passo para trás, assustado. Houve uma pequena explosão, outra, uma fumaça saiu e de lá surgiu o seu lindo e maravilhoso biscoitinho de ervas finas.
Ainda assustado, tomou o pacotinho em mãos e nele, estava grudado a nota de 500 iens que havia escapado de suas mãos na hora da ventania. Analisou-a bem e jurou ter ouvido novamente aquele risinho.
Um vento gelado beijou-lhe a face e ele estremeceu.
-Droga, três e meia da manhã! – Abriu seu pacotinho e voltou para o hotel.
T.O.P, com certeza, adorava biscoitinhos de ervas finas.
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