Sweater Weather

1 I [Capítulo Único] — "One love, two mouths" ♫


Notas iniciais
Aqui está a história, pessoal. Irei disponibilizar o link da música caso não conheçam ou queiram escutar enquanto fazem a leitura.
Espero de coração que gostem!

"One love, two mouths..."

Sua pele ainda se ouriçava com o toque dela, mesmo que toda a tensão houvesse passado.

Ou poderia ser somente o frio, mas não havia dúvidas, mesmo que não quisesse, seu coração já era dela. Mesmo que isso fosse "anos oitenta" demais. Mesmo que às seis da manhã ele tivesse que ir partir.

Deveria agir como se vê-la naqueles shorts de cintura alta não fosse motivo o suficiente para ir embora. Porém, aquela era uma questão complicada demais e ela sabia, ele também, que era melhor deixar para lá e continuar com a cabeça nas nuvens e os pés presos na areia de qualquer praia da Califórnia.

Lembrou-se quando a viu do outro lado do bar, lágrimas em um copo cheio de amores perdidos e brincos de argola, acompanhados por um cabelo estilo Audrey Hepburn. Um corpo de violão que ele de imediato já ousou sonhar tocar. Lembrou-se quando Betty o olhou com os olhos de cantos vermelhos, mas, mesmo assim, foram os olhos mais bonitos que já viu.

Ela também se lembrava, era melhor parar de pensar antes que seu delineador — agora não à prova d'água — começaria a manchar sua roupa branca e definitivamente não era o que queria. Estava bem triste pois não queria deixar ir o seu homem no melhor estilo James Dean. Seu próprio rebelde e representante de lamúrias e angústias dignas de um filme que retrata os anos 50. Ela sentia como se precisasse dele no melhor sentido da palavra, não morreria, mas chegaria ao quase e isso, com certeza, era a pior coisa.

— Porque você certamente não sentirá minha falta. Há cada garota correspondente a cada parte boa de mim, se é que há alguma parte boa, em L.A. — disse, soando bem insegura, mas, na verdade, aquele era o seu melhor tipo de consolo.

— Mesmo que você seja um clichê, você é o meu clichê, Betty. Não seja tola, não gastaria meus últimos dias com alguém que eu não fosse sentir falta.

Então se calou, percebeu o quão tolo eram. Preferiu ficar quieta, afinal estava muito frio para dizer alguma coisa.

— Vamos fazer algo.

— O que quer fazer? — perguntou Betty.

— Tudo. Qualquer coisa, na verdade, você sabe o que eu estou pensando.

Sabia mesmo, não se fingiria de tola, não agora.

Um Impala 67 e uma mente cheia de boas e más intenções, só depende do seu ponto de vista, do referencial. Só depende a intensidade com que você morde os lábios de alguém. Ele queria que ela se eternizasse ali nos seus bancos de couro e ela queria que fosse tão bom que o prendesse nela e em qualquer lugar que o pudesse levar, como um chaveiro de qualquer time de beisebol.

Sua blusa cropped estava jogada de lado e dentro daquele carro já não fazia frio algum, inclusive, já não havia espaço entre os dois. Talvez Newton estava errado ao dizer que dois corpos não poderiam ocupar o mesmo lugar. Eles podiam, sempre puderam, apenas era necessário um corpo disposto a pegar fogo com o calor do outro. Ou apenas conservavam um romance de abalar as leis da física.

Mas não eram tão importantes assim.

O deslizar dos dedos de Robert sobre a fina e delicada pele de Betty parecia ensurdecedor aos ouvidos dos dois, não havia mais ninguém ali, nas redondezas, no mundo. Isso era o bom de estar com alguém que gosta, qualquer outra pessoa, pelo menos nos momentos mais ternos, pareciam obsoletas e ultrapassadas. Era em momentos como esse que Robert percebia que talvez houvessem vantagens em parar de ser um colecionador de sutiãs de garotas de dezessete anos.

Talvez houvessem vantagens e somente ter sua garota de dezessete anos e ser feliz sendo o sonho dela.

Mas não dava mais tempo, a obrigação já batia à porta com um quê de estraga prazeres e encare isso no sentido mais literal da palavra. Mandou-a pastar e apenas continuou enquanto cada vez mais era estimulado pela garota que agora mantinha suas bochechas coradas. Adorava isso, mas era somente mais uma das coisas que todas as outras faziam, mas, na verdade, ele daria um soco em alguma delas, futuramente, somente por fazê-lo lembrar de Betty.

Como em sua cabeça sofrer era coisa de fracotes e sofrer por antecedência era coisa de perdedores, resolveu não comentar. Apenas lhe deu um beijo na testa quando terminou e acabou por beijar sua boca e ficar com um gosto de quero mais.

— Ainda acho que você deveria vir comigo. — dizia enquanto segurava a mão da garota, que se encolhia dentro do próprio suéter.

— Eu não posso, você sabe. Não posso abandonar meu emprego no Booty's, infelizmente eu ainda preciso arcar com as despesas do meu pai. Nem depois de morrer deixam o nome do velho em paz… — Betty se explicou.

— Se eu pudesse te ajudaria. As coisas com a banda não andam bem, Carlton é um mercenário, mas ainda precisamos daquele idiota… — chutou uma pedra, bradou.

— Não há problema, Rob. Alguns de nós nascem exatamente onde devem ficar…

Cruel destino, mesmo que concordasse, era uma besteira. Ela deveria estar exatamente onde ele está. Ou vice e versa.

— Você não. Deveria estar comigo.

— Ah, se o meu dinheiro desse…

Eles riram, instantaneamente. Os olhos da menina de cabelos âmbar já pesavam, estava sonolenta, fora um dia cheio. Porém não estava bem interessada em dormir sem alguém para sentir o cheiro de seu pescoço enquanto o tocava. E ela o tocava de volta. Apenas entrelaçou suas mãos nas dele, o mais forte possível, enquanto andavam pela calçada que cada vez parecia ficar menor, assim como a sua felicidade.

— O que vai acontecer depois? — perguntou, interessada. Ele não pareceu ponderar tanto.

— Você vai voltar ao Booty's, ainda vai servir e derramar café nas pessoas, como fez comigo — nesse momento, ela sorriu — e depois ele vai se encantar por você. Vai te perseguir e vai pedir cada vez mais bebidas, mesmo que as odeie, só para te ver e acredite garota, eu beberia mil chás gelados só para ver isso aqui… — ela passou os dedos por seus lábios, sabia o quanto ela gostava do gosto — E um dia, quem sabe, você vai ceder. Vão namorar como a gente acabou de fazer, só não garanto que será tão bom… — um tapa, mais um sorriso — E sei lá, depois você já sabe. Já viu esse filme antes.

— Você vai voltar ao Booty's?

Quem sabe, já que deixarei minha garçonete bonita lá.

— Então espero sujar muitas camisas suas. Isso não foi apenas um amor de verão cheio de brigas. Isso foi…

— Intenso.

— É.

— Um amor no tempo do suéter. Não se pode esquecer disso.

Ele a olhou com ternura, o que era raro, por mais que gostasse do que sentisse por ela. Quando o carro cheio de caras como ele chegou, Robert sabia que era hora de voltar para casa. Precisou de um tempo, era a hora do castelo de cartas ruir, mas ainda sabia quem era. Robert Price, vocalista do Moths And Cigarettes. Por mais que quisesse, não choraria por uma garota que sentiria falta. Sentiria falta dela e não apenas de seu corpo.

Betty, pelo contrário, estava conformada. Depois de ler os romances mais ilusórios já escrito, ela acreditava em um reencontro. Acreditava que é possível conservar um sentimento quente mesmo que uma das partes se ausente por um tempo e talvez até fosse, só depende do tipo de pessoa que quer lembrar. Ela se pôs a sua frente, ereta, pronta para um abraço e um beijo de despedida, talvez. Tremeu mais uma vez com a brisa fria que abraçava seu corpo naquela recente manhã. Não foi possível não derramar nenhuma lágrima, mas não se prolongou muito, sabia o quanto ele odiava as garotas choronas e ela queria que a lembrasse como costumava ser, uma garota de festa.

Depois do beijo na testa, ele a abraçou, estava frio demais para Betty ali, que ficaria sozinha. Se despiu do agasalho, tal que era sua marca registrada e a cobriu nas costas, depositando um último beijo na testa da menina. Ela sorriu e acenou enquanto entrava no seu carro e deixava um amor para trás.

Enquanto partia, Rob só pensava em como queria voltar e dizer que estava muito frio ali e abrigar as mãos da garota em seus bolsos, nos buracos de seu suéter. De sua jaqueta de couro. Mas apenas ouviu o som da guitarra pesada dos Strokes e fechou os olhos, pensando.

Estava frio demais para pensar naquela jaqueta que talvez nunca mais poderia resgatar…

Notas finais
Obrigada!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!