Notas iniciais
One-shot baseada na música "Terezinha" do Chico Buarque e narrada sob o ponto de vista de Emma. Boa leitura!

1951

Eu nasci e cresci perto da zona portuária de uma pequena cidade norte-americana e, no ano que atingi a maioridade, os Estados Unidos entraram na Guerra da Coréia. Desde então, homens de Storybrooke estão sendo recrutados para combater no conflito, deixando mães sem filhos, esposas sem maridos e crianças órfãs de pais.

Menos de um ano antes, eu fazia parte de uma boa família da região e estava de casamento marcado com Killian Jones, um jovem político promissor e único herdeiro de Davy Jones, dono de uma frota de navios pesqueiros e um dos homens mais ricos da cidade.

Às vésperas do meu casamento com Killian, percebi que não queria para mim o mesmo destino da minha mãe: casar com um homem rico e ter uma vida monótona, cercada de filhos, na qual eu seria apenas um troféu a ser exibido durante os bailes da alta sociedade de Storybrooke. Esperava muito mais do que a vida parecia me destinar. Queria, ao menos, poder escolher.

Então, fugi para o único lugar onde sabia que minha família não tentaria me buscar de volta. Fui para o prostíbulo da cidade, o Rabbit Hole. A dona do lugar me abrigou. Disse-me que eu poderia ficar ali, mas precisaria trabalhar ou ajudar de alguma forma com as despesas da casa.

Na minha primeira noite, não senti medo, não fiquei nervosa, muito menos excitada. Deixei que o sujeito me mostrasse o que queria e me abandonei aos seus toques rudes e impacientes. Felizmente, não demorou muito e, no final, sentia apenas desconforto.

O leilão da minha virgindade rendeu grande lucro à casa, fazendo com que eu me tornasse a menina dos olhos da Sra. Lucas, a dona do bordel. Isso me deu algumas regalias, por assim dizer. Ocupo o melhor quarto do lugar e posso rejeitar encontros com clientes que não me agradam.

Mas claro que não pretendo ficar aqui para sempre. Economizo parte do dinheiro que ganho, porque tenho planos de ir embora assim que conseguir juntar o suficiente para, quem sabe, ir viver em um lugar distante. Storybrooke sempre foi pequena demais para mim.

Pego minha taça sobre o balcão e olho ao redor, sorvendo um pouco do drinque vermelho. A noite no bordel promete ser agitada. Vejo clientes habituais sentados nas mesas, mas há alguns rostos desconhecidos também. Uns jogam pôquer, outros apenas bebem, em meio a conversas sobre a guerra e brindes de despedidas, pois parte deles logo embarcarão rumo à Coréia do Sul.

Abandono a taça meio vazia sobre o balcão quando Neal Cassidy pisca o olho para mim. Esse é o sinal para que eu vá esperá-lo no quarto. Neal é filho de Gold Cassidy, dono da loja de penhor da cidade. Ele também é um exímio jogador de pôquer, em algumas noites consegue ganhar pequenas fortunas usando sua habilidade com as cartas.

Boa parte desses ganhos, ele gasta comigo, paparicando-me com mimos e presentes. Sem sombra de dúvidas, ele é o meu cliente mais generoso.

Cruzo o corredor dos quartos, onde algumas portas já estão fechadas. Os gemidos e sussurros que escapam pelas frestas me acompanham até minha própria alcova.

Entro no dormitório e ando até a cama de ferro. Um pequeno abajur mal ilumina o quarto. Sento e olho para a janela que deixei aberta, enquanto o vento frio faz a cortina de seda farfalhar levemente.

♪ O primeiro me chegou

como quem vem do florista...♪

Neal entra no quarto sem bater e anda devagar, chegando perto da cama. Ele me conta sobre sua última viagem a Boston, e me mostra o presente que me trouxe: um delicado camafeu.

Neal sempre me trata com muita gentileza. Costuma dizer que um dia ainda se casará comigo e me dará uma vida de rainha.

Apenas sorrio quando ele me faz essas promessas, porque não tenho interesse e porque sei que são vazias. Neal não é do tipo que se casa. Ele é demasiado aventureiro e libertino para se prender a uma mulher e filhos. Nesse ponto, nós dois somos parecidos.

Mesmo a um preço alto, eu gosto da liberdade que conquistei. Gosto de saber que fugi de um casamento infeliz e que o futuro por vir é incerto.

Depois do sexo, Neal permanece deitado na cama, até que confidencia quase em um sussurro que foi convocado para a guerra e que sonhou que não voltaria mais.

Calo, sem saber o que dizer para confortá-lo. Recentemente,o filho de Marco Geppetto, August, seu melhor amigo, desapareceu em combate e, muito provavelmente, morreu ou, pior, foi feito refém pelas tropas inimigas. A cidade inteira ficou de luto pelo desaparecimento do rapaz.

Olho para o meu companheiro de cama e seus olhos tristes apenas me dão a certeza que talvez esse seja o nosso adeus. Depois que ele sai, sento-me na penteadeira para esperar o próximo cliente.

♪ O segundo me chegou

como quem chega do bar… ♪

A porta é escancarada de repente e vejo Killian parado segurando a maçaneta, visivelmente bêbado. Ele traz uma garrafa de Rum em uma das mãos, enquanto me encara com uma raiva mal disfarçada.

Desde o nosso rompimento, não o tinha visto mais. Soube que ficou noivo de uma garota chamada Ariel, mas sei que ele jamais me perdoou por tê-lo abandonado na véspera do nosso casamento.

— Então esse é o covil da maior puta da cidade? — desafia-me com voz embriagada e mordaz, batendo a porta com força — Como pôde preferir ser puta a ser minha esposa? — Quase grita avançando em minha direção.

Ergo-me da cadeira para encará-lo de frente.

— Prefiro ser puta a me casar por convenção — respondo calmamente, sem me abalar por sua expressão encolerizada.

Ele sorri de forma cínica e tenta me agarrar, no entanto, está tão bêbado que mal se sustenta nas próprias pernas e apenas um pequeno empurrão é suficiente para derrubá-lo sobre o tapete aos pés da cama.

— Vagabunda!— Xinga-me em meio ao choro. A garrafa de Rum cai sobre o tapete, o que abafa a queda, mas o líquido dourado escorre no tecido felpudo.

Não deveria, mas sinto pena ao vê-lo assim. Killian é mimado, imaturo, alguém que não foi acostumado a ouvir nãos ou lidar com perdas e fracassos.

— É melhor você voltar pelo mesmo caminho que veio — digo, enquanto ele tenta se levantar — Não há nada pra você aqui. Nunca houve.

Seu olhar magoado encontra mais uma vez o meu.

— Não quero ter que chamar Graham e Will para lhe tirarem daqui. Eles não costumam ser gentis com clientes indesejados. Acredito que você não precisa de mais uma humilhação pública, principalmente agora que está prestes a se casar novamente. — pontuo de maneira fria e ele parece se dar conta do vexame que será ser escorraçado dali pelos dois seguranças.

Em silêncio, levanta-se e sai batendo a porta da mesma maneira que chegou.

Suspiro audivelmente e vou para trás do biombo me trocar. Não demora muito até ouvir a porta abrindo novamente. Respiro fundo e rezo para que não seja o miserável do Killian voltando, mas se for, eu mesma o arrastarei para fora daqui.

♪ O terceiro me chegou

como quem chega do nada...♪

Quando olho para a porta já trancada, encontro uma pessoa parada na frente, está de capa preta e com o capuz puxado sobre a cabeça, ocultando o rosto.

Olhando com mais cuidado, percebo sua forma delicada que a camuflagem falhou em esconder. Não é a primeira vez que recebo uma mulher em meus aposentos, mas ainda acho estranha a situação.

Pelo menos, ela parece sóbria, o que já é mais do que posso dizer da maioria dos meus outros clientes.

— Se quiser pode deitar na cama — sugiro quando entendo que ela continuará muda e parada no mesmo lugar se eu não agir.

Ela vai até a cama e senta-se na borda, entrelaçando as mãos sobre as pernas.

— Prefere se despir sozinha? — sondo ao perceber sua quietude.

— Não — sua voz é rouca, bem marcante e ela levanta o rosto ainda coberto pelo capuz, olhando na minha direção — Quero que você fique nua para mim. — Não consigo distinguir seus traços por causa da penumbra que toma o quarto.

Eu desfaço o nó do penhoar e deixo ele escorregar pelo meu corpo, caindo aos pés. Ato contínuo, empurro as alças da camisola que segue o mesmo destino do penhoar, indo ao chão.

Fico exposta à ela, como uma estátua pálida, fria e inerte guardada em um corredor escuro de um antigo mausoléu.

— Você é muito bonita! — O elogio repentino me surpreende. Muitos homens já me disseram as mesmas palavras tantas vezes, mas acho que é a primeira vez que eu realmente escuto-as.

— Obrigada! — agradeço sinceramente, esperando que ela me diga o que fazer a seguir.

— Você pode se aproximar — pede parecendo mais segura.

Faço o que me pede e busco seu olhar. Surpreendo-me ao ver seu rosto. A estranha misteriosa é uma mulher bonita. O que me deixa ainda mais intrigada. O que ela está fazendo aqui? Por que veio procurar uma prostituta? Será que não encontraria outra mulher igual a ela no meio por onde anda?

— Você está pensando muito alto! — Diz, interrompendo meus pensamentos. Olho-a sem jeito.

— Só não entendo porque você está aqui. — Tomo coragem para verbalizar o que estava pensando.

Ela fica em silêncio de novo e me fita sem expressão.

— Só quero saber como é!

— Como é o quê?

— Estar com outra pessoa.

"Então ela é virgem?"

— E você prefere fazer isso com uma mulher, é isso?

— Sim — responde sucinta.

Olho-a ainda intrigada.

— Você quer me tocar? — Pergunto baixinho.

Ela morde o lábio e desvia os olhos para meus seios nus.

— Sim — sua voz soa mais rouca.

Pego uma de suas mãos e a guio,colocando-a espalmada em meu seio direito. Sua pele parece queimar e sinto-a tremer, nervosa, mesmo assim, ela aperta devagar, parecendo com medo de me machucar. Seu toque, apesar de desajeitado é suave e gentil.

Sua outra mão cobre meu seio esquerdo e ela parece fascinada ao ver como reajo às suas carícias.

— Qual o seu nome? — Pergunto, enquanto deixo-a arrastar as mãos pela minha cintura até os quadris, disposta a explorar todo o meu corpo.

Ninguém. — Fala, meio ofegante inclinando o rosto para engolir um dos meus mamilos.

Meu corpo é empurrado sobre a cama à medida que ela chupa o mamilo desajeitadamente e com força. Está tão desesperada por contato que parece não perceber que agora suas carícias me machucam.

— Você pode ir mais devagar — tento orientá-la.

Não é raro eu ser machucada quando me deito acompanhada nessa cama. Não são todos os clientes que estão interessados em me fazer sentir bem, e nessas situações costumo ficar calada e apenas rezar para que acabe logo. Mas por um momento achei que ela gostaria de aprender a tocar uma mulher de forma a despertar em seu corpo as melhores sensações. Não esperei que parasse no mesmo instante me encarando assustada.

— Sinto muito! Fiz algo errado? — Recua, voltando a se sentar e deixando as mãos distantes do meu corpo.

— Não — também me sento, refreando o impulso de puxar o capuz de sua cabeça para ver melhor seu rosto — Só não precisa ter tanta pressa — Sorrio condescendente. — Temos o tempo que for preciso.

Seu olhar parece desolado, inseguro.

— Acho que foi um erro eu vir aqui.

Sua fala me causa apreensão.

— Por que diz isso?

Volta a me fitar e não há mais nenhuma emoção em seu rosto.

— Porque eu sou um monstro! — Afirma de repente, saindo da cama e cruzando o quarto com passos rápidos.

— Espere! — murmuro, confusa, mas a estranha misteriosa ou ninguém, foi embora, assim, do nada, da mesma forma que chegou.

Sinto uma súbita tristeza e olho para o chão, onde vejo um pedaço de tecido. Desço da cama e o pego, ele parece uma pequena etiqueta. Viro-o e, do outro lado, bordado em letras escuras, leio o nome "Miss Mills".

"Deve ter caído da roupa dela!"

Não faço ideia de quem seja "Miss Mills", mas ela não parece ser um monstro para mim.

Notas finais
Terezinha: https://m.letras.mus.br/maria-bethania/47245/