Swan Lake
4 Pedaços de Infância
Notas iniciais
Capítulo 4: Pedaços de Infância
Acordei na manhã seguinte com os músculos do corpo protestando levemente, um preço justo a se pagar pela cavalgada com o Silver Star e pelo batismo forçado, e completamente hilário, na cachoeira. Ao esticar o braço para pegar o celular no criado-mudo, quase deixei o aparelho cair com o susto: o volume de notificações no meu Instagram havia explodido. Os vídeos estéticos que gravei com o Jasper na vinícola e a foto rústica com o meu pai nos campos tinham viralizado entre os meus seguidores. "Uma verdadeira herdeira do Texas", dizia um dos comentários com milhares de curtidas. Sorri, sentindo uma satisfação nova e calorosa no peito.
O aroma de café fresco e dos bolinhos de chuva polvilhados com canela da Sue Clearwater me guiaram escada abaixo até a cozinha. Charlie estava sentado à mesa, com os óculos na ponta do nariz, concentrado em alguns relatórios da fazenda.
— Bom dia, pai — comentei, servindo-me de uma caneca de café preto.
— Bom dia, Bells — ele respondeu, baixando os papéis. Seus olhos castanhos me avaliaram por um segundo, e um sorriso tímido, quase de desculpa, surgiu em suas linhas de expressão. — Sabe... eu estava caminhando perto do antigo carvalho nos fundos do quintal hoje cedo. Passei pela velha casa da árvore. Aquela que construí para você quando você completou sete anos.
Deixei a caneca na mesa, a nostalgia me atingindo em cheio.
— Ela ainda está de pé? — perguntei, surpresa.
— Bem, de pé ela está. Mas a madeira está cinzenta, a tinta descascou toda e algumas tábuas estão frouxas — Charlie coçou a nuca, com aquele jeito meio sem jeito que eu conhecia tão bem. — Pensei que... bem, a lida da fazenda está calma hoje. O que acha de tirarmos o dia para reformá-la? Juntos. Como no passado.
Meu coração amoleceu instantaneamente. Olhei para o homem forte à minha frente, que passou quinze anos guardando um chapéu velho e mantendo viva uma estrutura de madeira só porque ela representava a infância da filha que estava longe.
— Eu vou amar, pai. Só me dá dez minutos para trocar de roupa.
Esqueça os blazers de alfaiataria e as botas de grife. Para esse dia, adotei o uniforme oficial do trabalho braçal: um shorts jeans antigo e desfiado, uma camiseta branca e folgada que eu usava para dormir e o cabelo castanho firmemente preso no topo da cabeça em um coque totalmente desajeitado, com alguns fios soltos na nuca. Desci descalça e pronta para a ação.
Passamos o resto da manhã imersos em um universo de lixas, martelos e latas de tinta branca e azul-clara. Charlie, reclamando de forma cômica de suas juntas e das costas, fixou as tábuas soltas com pregos novos, enquanto eu me encarreguei de lixar a madeira antiga para receber a nova cor. A dinâmica fluiu com uma leveza inédita. Conversamos sobre as travessuras de quando eu era criança, rimos das histórias dos tombos que o Emmett costumava levar no rio e, aos poucos, a barreira dos anos de distância foi se dissolvendo como açúcar no café.
Em um determinado momento, enquanto Charlie estava concentrado ajustando o corrimão da escada de corda, aproximei-me por trás com o pincel encharcado de tinta branca e, com cuidado, dei uma leve pincelada na ponta do nariz dele.
— Bells! — ele exclamou, fingindo indignação enquanto limpava o nariz com as costas da mão calejada, revelando um brilho travesso nos olhos.
— Ficou ótimo, combinou com o seu bigode! — brinquei, soltando uma gargalhada limpa.
Charlie não deixou barato. Mergulhou o dedo na lata de tinta azul e tentou passar na minha bochecha. Começamos uma pequena e caótica guerra de tinta no meio do quintal, rindo alto como se eu ainda tivesse sete anos e ele fosse o jovem fazendeiro cheio de energia. Meu rosto, minhas pernas e a minha camiseta ganharam respingos coloridos, e a minha alma parecia mais limpa do que nunca.
— Muito bem, mocinha, trégua! — Charlie pediu, rindo e limpando as mãos em um pano velho. — Tenho o toque final para o nosso projeto.
Ele caminhou até o galpão de ferramentas e voltou arrastando um pneu antigo de trator, perfeitamente lavado e polido, junto com uma corda grossa de sisal. Com a destreza de quem passou a vida no campo, Charlie jogou a corda sobre o galho mais robusto e seguro do carvalho, amarrando o pneu em um nó de marinheiro impecável.
Um balanço de pneu novinho em folha.
— Vá em frente — ele incentivou, apontando para o balanço.
— Pai, eu tenho vinte e quatro anos! Estou velha demais para um balanço de pneu — protestei, embora os meus olhos estivessem brilhando.
— Você nunca vai ser velha demais para o meu balanço, Bells. Anda, senta aí.
Cedendo ao pedido, acomodei-me no pneu, segurando a corda de sisal com as duas mãos. Charlie se posicionou atrás de mim e, com um empurrão firme e cuidadoso, me lançou para a frente.
O vento bateu contra o meu rosto, jogando os fios soltos do meu coque para trás. Charlie me empurrou mais uma vez, mais alto, e eu soltei o corpo, fechando os olhos por um segundo e soltando uma risada gostosa, livre de qualquer preocupação com curtidas, engajamento ou as pressões de Jacksonville. Eu era apenas a menininha do Charlie Swan outra vez, flutuando sob o céu azul do Texas.
Quando o balanço começou a perder o impulso e eu abri os olhos, diminuindo a velocidade, virei o rosto levemente para a lateral do terreno.
E o meu riso diminuiu até sumir, dando lugar a um palpitar acelerado no meu peito.
Encostado na cerca de madeira rústica que dividia o quintal do piquete principal, a cerca de cinquenta metros de distância, estava Edward Cullen. Ele segurava uma cabeçada de couro nas mãos, indicando que estava a caminho dos estábulos, mas havia parado completamente o que estava fazendo.
Ele estava nos observando.
Não havia um único traço de deboche ou ironia no rosto de Edward agora. Ele testemunhava a cena em absoluto e respeitoso silêncio. Seus olhos verdes passeavam por mim, registrando os respingos de tinta no meu rosto, os meus pés descalços, as roupas simples e a minha felicidade genuína ao lado de Charlie. Era um olhar suave, pensativo e profundamente intrigado, como se ele estivesse reescrevendo na própria mente tudo o que achava que sabia sobre mim.
No segundo em que o meu olhar encontrou o dele à distância, sustentando o flagrante, Edward não tentou disfarçar ou nadar para longe como fez na cachoeira. Ele continuou me olhando nos olhos e, devagar, aquele clássico e irresistível sorriso torto surgiu em seus lábios. Mas, dessa vez, não era um sorriso de provocação. Era um sorriso terno, rendido e incrivelmente caloroso.
Ele deu um leve aceno com a cabeça na minha direção e voltou a caminhar em direção ao estábulo, deixando-me ali, flutuando no balanço com o coração batendo num ritmo completamente descompassado e a certeza de que algo muito maior estava mudando entre nós.
O calor do meu peito, provocado pelo olhar demorado de Edward, ainda reverberava quando Charlie me chamou de volta à realidade, avisando que precisávamos nos limpar. Afinal, a tarde na fazenda Swan Lake pertencia a uma devoção que corria no sangue da nossa família há gerações. Os Swan sempre foram fervorosos devotos de Santo Antônio, o santo padrinho da nossa propriedade.
Depois de um banho rápido para tirar os vestígios de tinta azul e branca da pele, rumei direto para a cozinha do casarão principal. O ambiente já havia sido transformado em uma verdadeira linha de produção festiva. O aroma doce de baunilha, canela e açúcar mascavo flutuava no ar. Sue Clearwater comandava o fogão com a maestria de sempre, enquanto Leah, com uma expressão concentrada e os cabelos presos num rabo de cavalo alto, abria massas e organizava as assadeiras.
— Com licença... — pedi, parando na porta, vestindo uma roupa limpa e mais apresentável, embora simples. — Meu pai disse que vocês precisavam de braços para o lanche da festividade. Posso ajudar?
Leah ergueu os olhos afiados na minha direção, medindo-me por um segundo. Esperava encontrar aquela faísca defensiva da noite anterior, mas o que vi foi apenas um cansaço resignado que logo deu lugar a um suspiro leve.
— Se souber bater clara em neve sem quebrar a batedeira de porcelana da minha mãe, já é de grande ajuda, Bella — Leah comentou, mas o tom era quase amigável, um claro sinal de trégua depois do nosso dia na cachoeira.
— Deixe a menina entrar, Leah! — Sue ralhou com carinho, abrindo um sorriso radiante para mim. — Venha, Bells. Você chegou no momento mais crucial. Estamos preparando os tradicionais Bolos de Santo Antônio. Seu pai me garantiu que, mesmo morando em Jacksonville, você se lembraria da tradição das fitas.
— Eu me lembro vagamente de quando era bem pequena — confessei, aproximando-me da grande mesa de madeira onde duas bases de bolos enormes e perfeitamente assadas repousavam.
Leah puxou uma caixa organizadora de plástico e a colocou entre nós. Dentro dela, havia rolos de fitas de cetim coloridas e dezenas de pequenos amuletos reluzentes.
— A regra é simples — Leah explicou, pegando uma fita vermelha e passando por dentro do elo de uma minúscula aliança dourada. — Nós higienizamos tudo e envolvemos os pingentes na massa e os colocamos estrategicamente entre as camadas de recheio. Cada fita fica pendurada para fora do bolo, como dá para ver na foto que a Alice usou de referência para a decoração da mesa principal. Quando as moças solteiras da região puxarem a fita durante a quermesse, o destino delas é revelado.
— Deixe-me adivinhar os significados para ver se minha memória não falhou — brinquei, pegando um rolo de fita azul e me sentando ao lado de Leah para ajudá-la na montagem. — Se a moça puxar e sair terço...
— Significa que vai ser freira, ou que vai ficar para titia por um bom tempo — Leah completou com um risinho irônico.
— E se sair um bebezinho de plástico? — perguntei.
— Um filho vindo por aí no próximo ano. Família aumentando — Sue respondeu do fogão, mexendo um doce de leite caseiro que cheirava a puro paraíso.
— Se sair a imagem de ferro do próprio Santo Antônio, um santinho menor escondido nos pedaços... — continuei, olhando para o pequeno pingente metálico na minha mão.
— Significa que o santo está dizendo que ela precisa ter paciência e rezar mais um ano — Leah disse, balançando a minúscula imagem de ferro de Santo Antônio que tínhamos ali. — Santo Antônio não faz milagre sem fé, Bella.
— E o prêmio principal? — sorri, olhando para as pequenas alianças.
— A aliança — Sue disse, aproximando-se da mesa com a panela de recheio quente. — Quem tirar a aliança, casa-se até o próximo dia de Santo Antônio. É batata. Não falha nunca nesta fazenda.
Passamos a hora seguinte trabalhando juntas. Eu cortava as fitas nos tamanhos exatos, enquanto Leah amarrava os amuletos e os empurrava delicadamente para dentro da massa fofinha. Sue vinha logo atrás, cobrindo tudo com o recheio generoso e uma camada impecável de pasta americana branca, decorada com pequenas pérolas de açúcar e o tradicional minioratório de Santo Antônio no topo.
No início, o silêncio entre mim e Leah era palpável, mas conforme o trabalho avançava e os nossos dedos se esbarravam na caixa de fitas, a tensão derreteu. Começamos a conversar sobre as expectativas da cidade para a quermesse, e Leah acabou confessando o quanto era difícil gerenciar as finanças dos Clearwater e manter os pés no chão enquanto o irmão mais novo, Seth, só pensava em cavalos. Senti uma empatia profunda por ela; por trás daquela armadura de garota durona do interior, Leah era apenas uma jovem protegendo quem amava.
— Sabe, Bells... — Leah começou, a voz mais baixa, enquanto ajeitava uma fita amarela que escondia justamente um dos pingentes do Santo. — Eu achei que você viria para cá agindo como se fosse dona do mundo, olhando para nós como se fôssemos caipiras antiquados. Mas ver você hoje, coberta de tinta com o Charlie, e agora aqui, com as mãos na massa... bem, você é menos "Jacksonville" do que eu imaginava.
Sorri, sentindo que aquele era o maior elogio que eu poderia receber dela.
— Eu passei muito tempo longe, Leah. Mas acho que o sangue da terra dos Swan não sai tão fácil assim com a água do mar.
Sue olhou para nós duas sobre os óculos, com um olhar materno e orgulhoso, abençoando aquela nova amizade que nascia entre a cozinha e a devoção.
Quando terminamos, o bolo estava uma obra-prima. As dezenas de fitas coloridas pendiam pelas laterais prateadas do suporte, prontas para brincar com o destino de quem quer que ousasse puxá-las. Olhei para o resultado final e, por um breve segundo, meus pensamentos voaram involuntariamente para o par de olhos verdes que havia me flagrado no balanço de pneu.
Pensei na aliança escondida na massa e senti minhas bochechas arderem. Se eu puxasse uma daquelas fitas na quermesse, o que Santo Antônio reservaria para o meu futuro na Swan Lake?
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