Swan Lake
13 O Som do Silêncio
Notas iniciais
Capítulo 13: O Som do Silêncio
O sábado amanheceu trazendo aquele calor denso e característico do interior do Texas, mas, dentro do casarão da Swan Lake, a temperatura parecia consideravelmente mais fria por conta do gelo que eu vinha sustentando nas últimas vinte e quatro horas.
Eu estava no pátio principal, acompanhando o descarregamento de algumas mudas de jasmins e oliveiras que Garrett havia encomendado para o entorno dos chalés. Rosalie estava ao meu lado, checando as dimensões dos canteiros na prancheta eletrônica, quando ouvi o som de passos firmes na terra batida. Não precisei olhar para trás; o aroma amadeirado, misturado com o cheiro suave de couro e o calor sutil que emanava dele, denunciaram o veterinário no mesmo segundo.
Edward parou a pouco mais de dois passos de mim. Ele usava um jeans surrado, botas com as fivelas de prata e uma camiseta branca que marcava perfeitamente o peito e os braços definidos. O chapéu de cowboy sombreava seus olhos verdes, mas o maxilar ainda estava rígido, embora a sua postura estivesse visivelmente menos agressiva do que no dia anterior.
— Bom dia, patroa — ele disse, a voz saindo naquele tom grave, tentando parecer o mais casual possível. — O Charlie mandou avisar que o lote de vacinas dos cavalos novos chegou. Eu... preciso da sua assinatura na guia de recebimento no escritório.
Virei-me devagar, escorando os braços na prancheta de alumínio e sustentando um olhar perfeitamente calmo, frio e profissional.
— Bom dia, Cullen. Deixe a guia em cima da minha mesa. Assino assim que terminar de alinhar o projeto de paisagismo com o Garrett — respondi com a voz mansa, voltando-me imediatamente para Rosalie. — Rose, você acha que as oliveiras vão precisar de sustentação de tutoramento nas primeiras semanas?
Edward travou. Senti os olhos verdes dele queimarem a lateral do meu rosto. Ele pigarreou alto, claramente incomodado com a indiferença e com a menção ao nome do arquiteto.
— Bella... — ele chamou de novo, a voz descendo uma oitava, perdendo a marra e ganhando uma nota quase suplicante. — A guia precisa ser assinada agora. O entregador está esperando.
— Então peça para o Jasper assinar, Cullen. Ele também tem autoridade para isso — rebati, sem dar a mínima atenção a ele, dando um passo para o lado junto com Rosalie.
— Minha nossa, o mormaço hoje está de rachar o solo — Rose comentou em voz alta, abanando o rosto com a planta do terreno, soltando uma risada abafada enquanto me acompanhava. — Vamos ali na sombra, Bells.
Deixamos Edward parado sozinho perto do caminhão de mudas. Olhei de soslaio e vi o cowboy chutar uma pedrinha na terra, cruzando os braços e bufando de puro arrependimento e frustração. Ele estava testando o tamanho do meu gênio, e eu não facilitaria nem um único milímetro.
Ao entardecer, o clima de tensão deu lugar à preparação de uma tradição que toda a fazenda amava. Sábado à noite era dia de fogueira na Swan Lake. Os funcionários da lida pesada, os operários da obra e todos os membros das famílias Swan e Cullen se reuniram no grande pátio de terra batida que ficava atrás dos estábulos, longe do canteiro de obras do resort.
Uma pira monumental de troncos de carvalho foi montada no centro, e as chamas lamberam o céu escuro do Texas, espalhando uma luz dourada, quente e acolhedora por todo o espaço. Havia mesas longas cobertas com toalhas xadrezes repletas de costelas ao molho barbecue, milho assado na brasa, pães caseiros e muito, muito álcool. Caixas térmicas cheias de cerveja gelada dividiam espaço com os garrafões do vinho tinto da fazenda e garrafas de uísque que circulavam livremente entre os presentes.
Decidi que era a noite perfeita para ativar o meu lado influenciadora digital. Peguei o celular, ajustei a iluminação e comecei a gravar os bastidores daquela noite rústica e autêntica. Filmou o Charlie rindo alto com o Carlisle perto da mesa de comidas; gravou a Esme e a Sue organizando os pratos com um carinho que transbordava na tela; e tirou fotos sorridentes com os operários e os peões, mostrando para os meus milhões de seguidores a verdadeira alma da Swan Lake. O engajamento nas redes estava disparando em tempo real, com milhares de comentários elogiando o clima acolhedor da fazenda.
Enquanto circulava com o celular, notei que a noite estava sendo excelente para o nascimento de novas faíscas no condado.
Perto do balcão de bebidas, Emmett estava escorado na madeira, segurando um copo de uísque e usando todo o seu repertório de piadas brutas para tentar impressionar Rosalie. Rose usava um vestido de algodão branco curto e botas de cano alto. Ela fingia desdém, revirando os olhos azuis a cada dois minutos, mas a risada alta e genuína que escapava dos seus lábios toda vez que Emmett gesticulava entregava que a engenheira de elite estava completamente rendida ao charme do brutamontes do Texas.
Mais afastados, perto de um dos jipes, o cenário era ainda mais interessante. Garrett Parker estava tentando manter a pose urbana de Jacksonville, mas usava um copo de caubói cheio de uísque puro. Ao lado dele, Leah Clearwater, vestindo uma camisa jeans de botões e os cabelos pretos soltos ao vento, o provocava sem a menor piedade.
— Vamos lá, Parker — Leah desafiou, aproximando o corpo do dele com aquela audácia selvagem que só ela tinha. — Bebe tudo de uma vez. Quero ver se o arquiteto da cidade aguenta o uísque do meu pai ou se vai pedir um copo de água com açúcar em dois minutos.
— Você está me subestimando, Clearwater — Garrett deu aquele sorriso canalha, os olhos castanhos brilhando com o desafio enquanto fixava o olhar na boca de Leah. Ele virou o copo de uma vez, engolindo o líquido forte sem piscar, embora o pomo de adão tenha subido e descido com força. Ele limpou os lábios com as costas da mão, inclinando-se na direção dela. — E agora? O que eu ganho por provar que aguento o tranco do Texas?
Leah soltou uma risada abafada, os braços definidos cruzados sobre o peito, mas os olhos dela brilharam com um interesse pesado e nítido. A tensão sexual entre os dois estava estalando no ar, uma mistura de gato e rato que eu conhecia muito bem.
Afastando-me com o celular na mão, caminhei até a borda do círculo de luz da fogueira para pegar mais um pouco de vinho. Foi quando o som de um acorde de violão sendo dedilhado ecoou pelo pátio, fazendo o falatório e as risadas das quase cinquenta pessoas diminuírem gradativamente até virar um silêncio absoluto.
Edward havia se sentado em um banco de madeira rústica, perto do fogo. As chamas douradas iluminavam o perfil perfeito do seu rosto, destacando a camiseta branca e o jeans justo. Ele posicionou o violão no colo, ajustou o microfone que estava acoplado em uma caixa de som pequena e, lentamente, ergueu o rosto. Seus olhos verdes cortaram a escuridão do pátio, ignorando todo o público, e travaram diretamente em mim, que estava do outro lado, segurando a minha taça de vinho.
Ele respirou fundo, os dedos longos e calejados tocando os primeiros acordes de "Do I" , do Luke Bryan.
"Baby, what are we becoming
It feels just like we're always running
Rollin' through the motions every day
I could lean in to hold you
Or act like I don't even know you
Seems like you could care less either way
What happened to that girl I used to know
I just want us back to the way we were before"
A melodia suave e melancólica começou a preencher a noite texana, e a voz de Edward ecoou pelo microfone, uma voz que não era apenas afinada, mas absurdamente rouca, profunda, carregada de uma emoção tão nítida que fez o meu estômago despencar.
"Do I turn you on at all when I kiss you, baby
Does the sight of me wanting you drive you crazy
Do I have your love, am I still enough
Tell me don't I, or tell me do I, baby
Give you everything that you ever wanted
Would you rather just turn away and leave me lonely
Do I just need to give up and get on with my life
Baby, do I?"
Mordi o meu lábio inferior, sentindo o meu coração rachar dentro do peito. Ele estava cantando para mim na frente de toda a fazenda.
A letra da música era a sua carta de confissão, a sua forma de desarmar o orgulho que quase nos separou no celeiro.
"Remember when we didn't have nothin'
But a perfect, simple kind of lovin'
Baby, those sure were the days
There was a time our love ran wild and free
Now I'm second guessing everything I see
Do I turn you on at all when I kiss you, baby
Does the sight of me wanting you drive you crazy
Do I have your love, am I still enough
Tell me don't I, or tell me do I, baby"
Edward continuava com os olhos fixos nos meus, a intensidade do seu olhar verde brilhando sob o reflexo do fogo de uma forma tão avassaladora que eu esqueci como se respirava.
Senti os pelos do meu corpo se arrepiarem enquanto a voz dele subia no refrão, suplicando silenciosamente por uma trégua, implorando para saber se o amor e o desejo que sentíamos um pelo outro ainda eram capazes de vencer aquela teimosia.
Tentei manter a minha pose de difícil, cruzei os braços e fingi olhar para as chamas, mas a verdade é que as minhas pernas estavam tremendo. Eu estava completamente desarmada. Ninguém naquela fazenda piscava; Alice estava com as mãos juntas no peito, emocionada, e até o Charlie olhava para o Edward com um respeito renovado.
Quando o último acorde do violão silenciou, o pátio explodiu em aplausos e gritos dos peões e operários. Edward não sorriu. Ele apenas deixou o violão de lado no banco, levantou-se e caminhou a passos lentos e decididos na minha direção, ignorando os tapinhas nas costas que Emmett tentava dar nele.
Antes que ele chegasse até mim, dei meia-volta e caminhei em direção à escuridão que ficava atrás dos grandes carvalhos, perto da cerca lateral da propriedade, longe dos olhos curiosos da festa. Ouvi o som das botas dele me seguindo na grama.
Parei sob a sombra de uma árvore frondosa, onde a luz da fogueira chegava apenas como um reflexo dourado e fraco. Virei-me de frente para ele, cruzando os braços sobre o peito e erguendo o queixo.
Edward parou a um passo de distância. O peito dele subia e descendo com pressa, o olhar verde implorando por mim na penumbra.
— Bella... por favor — ele começou, a voz arranhada de emoção, dando um passo à frente e tentando segurar a minha mão.
Recuei um milímetro, mantendo a expressão firme.
— Você não vai se livrar disso cantando uma música linda, Edward. Você foi infantil, possessivo e bruto no celeiro. Se você quer que isso dê certo, você sabe exatamente o que precisa fazer — forcei o tom de autoridade, segurando a firmeza de diretora. — Eu quero ouvir.
Edward fechou os olhos por um segundo, o orgulho de cowboy lutando contra a necessidade avassaladora de me ter de volta. Ele abriu os olhos, o maxilar tremendo de leve, e deu o passo definitivo, segurando a minha cintura com as duas mãos, trazendo meu corpo para perto.
— Tá... tá bom, Bella... — ele gaguejou de leve, as bochechas corando na penumbra. — Me des... olha, me de... de... — ele travou na palavra, bufando de frustração, até que soltou os ombros. — Ah, que se foda o meu orgulho! Me desculpa, meu amor... Me desculpa por ter sido um idiota chucro ontem. Eu fiquei cego de ciúme ao ver aquele cara perto de você. Me perdoa.
Um sorriso vitorioso e intensamente doce brotou nos meus lábios. Segurei o rosto dele com as duas mãos, aproximando as nossas bocas.
— Doeu, meu amor? — perguntei em um sussurro provocativo, roçando os meus lábios nos dele.
— Sim, doeu... — Edward resmungou, dando um sorriso torto e rendido enquanto fechava os olhos para sentir o meu toque. — Eu odeio admitir que errei. É um castigo para o meu ego. Mas eu odeio ainda mais ficar sem falar com você.
— Ótimo. Que bom que você aprendeu a lição — murmurei.
E então, eu o beijei.
Foi um beijo completamente diferente do beijo do celeiro; não havia raiva ou tentativa de submissão, apenas uma doçura profunda, uma entrega romântica, lenta e absurdamente apaixonada. A língua dele envolveu a minha com um carinho que fez o meu coração derreter. O amasso começou a esquentar sob a sombra do carvalho, as mãos de Edward descendo para apertar a minha lombar com firmeza, colando nossos quadris, enquanto eu enroscava meus dedos nos seus cabelos bronzeados. Era uma reconciliação perfeita, super fofa e cheia de amor.
Ficamos ali por longos minutos, trocando carinhos, selinhos e promessas sussurradas entre os lábios, curtindo a calmaria de estarmos juntos e certos novamente.
Perto do final da madrugada, quando a fogueira já estava reduzida a brasas quentes e os funcionários começavam a se recolher, eu me sentei nos degraus da varanda principal do casarão. Edward estava sentado logo abaixo de mim, escorando as costas nas minhas pernas enquanto eu passava os dedos pelos seus cabelos bronzeados, acariciando o seu couro cabeludo de forma carinhosa.
Peguei o celular no bolso para atualizar as redes sociais da fazenda antes de dormir. Selecionei um carrossel de fotos incríveis da noite: a fogueira monumental, o Charlie rindo com o Carlisle, os operários comendo e a Rose e o Emmett dividindo uma risada de fundo.
Mas guardei a última tela para algo especial. Olhei para o Edward e puxei o rosto dele levemente para trás.
— Olha para cá, cowboy — pedi, erguendo o celular.
Edward olhou para a câmera e deu aquele sorriso torto, lindo, sincero e imensamente feliz, enquanto um de seus braços subia para envolver a minha perna com carinho. Eu olhei para a lente com um sorriso radiante de quem estava completamente apaixonada. O flash disparou, eternizando o momento perfeito.
Abri o aplicativo, coloquei as fotos e, na legenda da publicação que seria vista por milhões de pessoas no dia seguinte, escrevi apenas duas palavras e um coração:
"Meu cowboy ♡"
Cliquei em publicar. O namoro mais comentado da Swan Lake estava oficialmente escancarado para o mundo, e eu sabia que o ritmo daquela fazenda nunca mais voltaria a ser o mesmo.
Edward olhou para a tela do celular por cima do meu ombro, vendo o post carregar até sumir na barra de envio, sacramentando a nossa imagem para quem quisesse ver. O sorriso torto dele se alargou, e ele se inclinou para trás, apoiando o peso do corpo contra os meus joelhos. Seus olhos verdes subiram para encontrar os meus na penumbra da varanda, brilhando com aquele calor romântico e íntimo que havia restado da nossa reconciliação.
— Você acabou de quebrar o coração de metade dos homens dos Estados Unidos, patroa — ele sussurrou, a voz arrastada, cheia de uma satisfação deliciosamente convencida.
— Eles que lutem, Cullen — sorri, guardando o celular no bolso do short e descendo um pouco os degraus até ficar sentada exatamente no mesmo nível que ele.
Edward não perdeu tempo. Suas mãos grandes foram direto para a minha cintura, puxando-me para o seu colo de uma vez só. Enrosquei minhas pernas ao redor do seu quadril ali mesmo, nos degraus da varanda de madeira rústica, e o recebi em um beijo lento, profundo e banhado pela calmaria do fim da madrugada. Nossas bocas se buscavam com uma doçura que parecia compensar cada minuto do gelo que tínhamos dado um no outro. O perfume amadeirado dele estava mais forte, misturado ao calor da pele sob a camiseta branca.
Trocamos muitos beijos ali, deitados contra os degraus, com as mãos dele acariciando as minhas costas por baixo da regata fina e os meus dedos perdidos nos seus cabelos bronzeados. Cada selinho demorado, cada carícia na nuca nos trazia de volta para aquele porto seguro que havíamos construído nas últimas semanas.
Afastei-me milimetricamente, as respirações sôfregas e coladas, os lábios dele vermelhos e ligeiramente inchados pelo nosso amasso. Segurei o queixo dele com carinho, sentindo o pulsar forte da veia no pescoço dele sob os meus dedos.
— Edward... eu quero te mostrar um lugar — sussurrei, sentindo um frio súbito, mas delicioso, correr pela minha espinha com a ideia que acabara de cruzar a minha mente.
Ele soltou uma risada baixa, o som vibrando direto contra o meu peito, e enterrou o rosto no meu pescoço, distribuindo selinhos molhados na minha pele antes de voltar a me encarar com aquele olhar de quem sabia tudo sobre o Texas.
— Não tem um lugar nessa fazenda que eu não conheça, meu amor — ele murmurou, a voz rouca, as mãos apertando a minha cintura para que eu não me movesse um centímetro para longe dele. — Por favor, vamos continuar aqui... Eu não aguento ficar longe da sua boca por muito tempo. Se eu sair daqui agora, sinto que vou morrer de saudade antes de chegar ao estábulo.
Inclinei o corpo um pouco para trás, deixando o meu melhor sorriso provocativo e cheio de segundas intenções iluminar o meu rosto na penumbra da varanda. Deslizei a ponta dos dedos devagar pelo lábio inferior dele, descendo pela gola da camiseta branca e parando bem em cima do seu peito.
— Esse eu tenho certeza que você não conhece, Cullen... — provoquei, sustentando o olhar verde dele que mudou de tonalidade no mesmo segundo, ficando escuro de pura expectativa. — E eu acho que você vai gostar muito mais do que aqui... Eu quero te levar pro meu quarto, Cullen. O que você acha de conhecer o meu quarto?
Edward congelou por um milésimo de segundo. A menção ao meu território mais sagrado e íntimo dentro do casarão — o lugar onde o Charlie e o resto do mundo jamais entrariam sem bater — foi como um choque de alta voltagem para o cowboy. O sorriso de deboche dele sumiu, substituído por uma urgência tão palpável que eu quase consegui ouvir a batida acelerada do coração dele contra as minhas mãos.
— O seu quarto? — ele repetiu, a voz descendo para um tom perigosamente grave, os dedos cravando-se nos meus quadris com uma força que me fez arfar de puro desejo. — Você tem certeza do que está me pedindo, Isabella? Porque se eu passar por aquela porta com você hoje, o universo pode mandar o Emmett, o Charlie ou quem quer que seja... mas ninguém me tira de lá de dentro até o sol estar no meio do céu.
— Eu nunca tive tanta certeza na minha vida, meu cowboy — sussurrei, selando nossos lábios em uma promessa definitiva antes de me levantar do colo dele, puxando-o pela mão em direção à porta do casarão.
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