Svyazi
1 Capítulo I - Comitê de Boas Vindas
Notas iniciais
Prólogo
Seu fim. Havia vivido apenas 14 anos de sua vida, e é assim que termina.
O olho prejudicado, inchado devido ao primeiro golpe recebido, permitia que o jovem russo enxergasse ainda menos do que lhe seria permitido. Cercado por pernas fardadas, recebia pontapés de todos os lados, acompanhados de risadas que juntas geravam uma melodia cruel.
O sabor metálico e o odor de sangue em sua boca eram repugnantes. Deitado e submisso, Adamska virou-se para o solo áspero e gélido e, em posição fetal, cobriu-se com seus braços trêmulos, ainda que não lhe restasse qualquer esperança de proteger-se da dor. Não mais sabia se seu uniforme militar estava encharcado com seu sangue ou com a chuva que caía violentamente do céu cinzento.
O corpo de Adamska doía tanto que não mais sabia se podia de fato senti-lo. Um dos golpes recebidos certamente havia quebrado uma de suas costelas; ele pôde ouvir o estalo doloroso no momento do ocorrido, e foi o que fez seu corpo ceder.
A respiração do rapaz tornou-se instável. Enfraquecida. Expeliu uma pequena quantidade de sangue que o sufocava. Podia sentir sua vida escapando lentamente, e não havia qualquer força para lutar contra isso.
Seu fim. Havia vivido apenas 14 anos de sua vida, e é assim que termina. Seu sangue havia tornado rubro os seus cabelos loiros claros. Deitou seu peito no pavimento úmido e semicerrou seus olhos, sua cabeça deitada de lado, aguardando pela morte com uma surpreendente ansiedade em seu coração.
Enquanto seus olhos fechavam-se, em meio às risadas terríveis e à chuva colidindo com o solo, Adamska ouviu passos ligeiros se aproximando e o baque de um corpo contra o chão molhado. Os pontapés que recebia cessaram, e seu corpo cedeu à fraqueza. Nada mais via, ouvia ou sentia.
* * *
Capítulo I
Adamska não fazia ideia do porquê de receber olhares que inspiravam carinho da célebre The Boss.
No momento em que Adamska pisou em solo americano pela primeira vez, The Boss estava lá, ao lado de alguns importantes soldados de sua unidade. O rapaz havia passado toda a sua vida em território soviético, junto de outras crianças de sua idade, cumprindo trabalho escravo na fabricação de armamentos.
Dormia num porão escuro e frio, sobre um cobertor fino, sem qualquer travesseiro para apoiar sua cabeça. Tinha direito a duas refeições por dia, apenas porque seus donos precisavam dele saudável suficiente para produzir. E, assim, tornou-se um rapaz franzino, com quase nenhuma força física.
Aqueles que comandavam a fábrica eram claros em suas exigências: sem conversas, sem perguntas, somente produção. Os meninos acordavam cedo, trabalhavam durante todo o dia com pausas para se alimentar e, à noite, iam para o porão, em fila indiana, para dormir.
Vez ou outra, quando não havia vigias por perto durante o dia, as crianças olhavam através de uma pequena janela num dos cantos da fábrica, para espiar o mundo desconhecido do lado de fora. Ao cair da noite, quando as crianças eram trancadas no porão, contavam histórias de como achavam que seria lá fora, sussurrando para não serem descobertas.
Todas aquelas crianças viviam na fábrica desde pouco depois do nascimento, e jamais haviam experimentado o ar puro do exterior. Tomavam banhos de três em três dias, ou quando o odor que exalavam começava a incomodar os vigilantes. Faziam os mesmos movimentos com as mãos durante 15 horas, todos os dias, e qualquer erro ou sinal de cansaço era passível de punição. Eram todos magros, com olhares mortos e infâncias roubadas.
Nas paredes da fábrica, havia diversos cartazes “motivacionais”. Foram ensinados a ler de forma dura e impaciente, apenas para que pudessem saber o que estava escrito neles. “Honrado é aquele que contribui para o seu país”, assim dizia o maior de todos, com a grande pintura da face do Senhor das Mãos de Ferro. Outros, diziam que as crianças estavam sempre sendo observadas. No mais agressivo dos cartazes, estava escrito uma das muitas regras rígidas do lugar: “Produzir é sua missão, e descumprir sua missão é desonrar sua pátria. Aquele que desonra sua pátria, terá suas mãos marcadas, para jamais se esquecer de sua traição”.
E graças a essa regra que, pela primeira vez, Adamska havia experimentado a dor intensa. Ou, ao menos, física.
Na noite anterior a esse dia, o menino em seus 8 anos de idade havia gastado, desperto, várias horas de seu tempo de sono, imaginando como era o mundo lá fora. Sonhava acordado com o dia em que sua missão terminaria, e poderia viver como as pessoas comuns. Sonhava com o dia em que dormiria em camas de verdade, numa casa, e comeria do bom e do melhor, quantas vezes quisesse. Quando pegou no sono, faltavam apenas três horas para despertar e continuar seu serviço.
Adamska acordou exausto, mas precisava cumprir seu dever. Caminhou em fila até seu posto, aos bocejos. Trabalhava na seção de montagem de revólveres, e gostava daquelas armas. Eram compactas, e algumas possuíam enfeites talhados em madeira ou no próprio metal. Talvez, quando sua missão terminasse, poderia pegar de recordação dois dos que produziu e usá-los elegantemente nos quadris, como no livro de faroeste que encontrou nos fundos do porão e leu e releu até decorar todas as frases. As pessoas perguntariam sobre a história de seus revólveres, e ele com orgulho responderia: “Eu mesmo os montei, enquanto servia meu país.”
Neste dia, cometeu um delito de que se arrepende amargamente: Adamska caiu no sono durante o trabalho, sobre peças e mais peças da linha de montagem. Nenhuma das crianças o denunciou, apenas mantiveram-se em seu silêncio rotineiro, e torceram internamente para que o rapaz não fosse descoberto. Todas sabiam o destino de pausas no trabalho nas horas não permitidas.
Um dos comandantes da fábrica se aproximou dele. Segurou o jovem pela gola da camisa desgastada que usava e o lançou ao chão, a metros de distância, despertando-o. Depois disso, o agarrou pelo pulso com força para feri-lo e o guiou pela escada até o andar superior, conduzindo-o à sala do chefe da fábrica. Adamska chorava silenciosamente, sabendo que se implorasse por piedade, sofreria consequências ainda mais severas, que sequer podia imaginar.
O chefe da fábrica levantou-se de sua poltrona, caminhou até a lareira acesa de seus aposentos e ali pôs uma pequena foice e um martelo, por tempo suficiente para que o ferro ficasse em tom escarlate, fervente e moldável, mas não o suficiente para que derretesse por completo. Foi posta uma mesa à frente do menino, imóvel devido a uma arma apontada para sua cabeça pelo observador que o levou até lá. A foice esbraseada foi posta sobre a mesa, e o homem desalmado segurava o martelo, com sua mão protegida por luvas especiais para que não queimasse a si mesmo. A voz dele era dura, sádica, e retumbou em seus pesadelos durante várias noites.
— Coloque suas mãos sobre a foice, com as palmas viradas para baixo. – assim disse o homem. – Se tentar tirar suas mãos, o jogarei na lareira até que fique tão vermelho quanto o fogo. Se fechar seus olhos, eu os queimarei também. Quero que olhe, e que diga aos outros o que acontece com quem perde o foco de seu dever.
Adamska obedeceu. Chorava e gritava, tão alto como podia. O martelo foi cuidadosamente pressionado várias e várias vezes sobre o dorso de suas mãos, até queimá-los por inteiro, enquanto as palmas eram prensadas na foice para que também queimassem e cortassem. O cheiro da própria carne queimada o deixava nauseado, e o homem parecia divertir-se com seu sofrimento.
Adamska foi obrigado a voltar ao trabalho imediatamente, com palma das mãos e dedos estrategicamente menos queimados que o dorso, para que ainda pudesse operar as pequenas peças de revólver. Embora merecedor de punição, não podiam perder um peão importante na linha de montagem. A dor torturante durou mais de um mês, porque nenhum remédio foi dado a ele para apartar as queimaduras.
Nos 13 anos de vida do rapaz das mãos queimadas, soldados americanos infiltrados em território soviético descobriram a fábrica e eliminaram os proprietários. Levaram consigo os armamentos produzidos que estavam em estoque. Libertaram todas as crianças, as resgatando em helicópteros para receberem um melhor destino na América.
Os amigos que ele tinha foram enviados para várias partes do país. Alguns tiveram seus pais identificados e foram a eles entregues. Adamska não teve a mesma sorte. Um dos soldados que o resgatou, ao olhar para ele, enxergou um menino russo comum, cujos pais pudessem ser opositores mortos. Outro, enxergou no rapaz a face de sua líder. Entretanto, nenhum deles de fato acreditava nisso.
Adamska foi encaminhado para Cobra Unit Military School, um internato militar fundado pela magnânima The Boss e seus aliados. The Boss, chamada apenas de Joy por seus protegidos resgatados, era conhecida como uma lenda e como mãe não-consanguínea de algumas crianças. Além de diretora da academia, era uma combatente veterana e ensinava aos jovens técnicas de combate corpo a corpo patenteadas por ela mesma.
Cobra Unit possuía desde alunos filhos de militares a crianças órfãs resgatadas em território nacional ou inimigo. Antes de um colégio interno formador de soldados, é um lar para quem até então não possuía nenhum. Jovens abandonados, destinados a uma vida de miséria, encontram na academia uma chance de modificar o próprio futuro. Não havia escravidão, somente aprendizado qualificante e um método disciplinar gerador de caráter.
Do helicóptero em que chegava, de uma visão aérea privilegiada, Adamska observava a área gigantesca que o internato ocupava. Envolto por cercas altíssimas, o lugar possuía um grande galpão e sete edifícios, que demonstravam um aspecto antigo, porém não de abandono. Um grande campo de treinos, quadras abertas, heliportos e, ao redor de toda a área, uma floresta densa, onde ao longe podiam ser vistos rios e cascatas. Havia observatórios nos quatro cantos das cercas, vazios naquele momento. Soldados armados tomavam conta do local em todas as partes, ainda que o ambiente num todo inspirasse paz.
Adamska viu crianças em fardas verde oliva, de várias idades, caminhando tranquilamente com sorrisos em seus rostos. As moças usavam saias verdes que iam até um palmo abaixo da altura de seus joelhos, num tom mais escuro que as camisas de mangas longas, e sapatilhas pretas. Os rapazes, calças com estampa camuflada e coturnos pretos, e camisas igualmente de mangas compridas. Algumas das crianças usavam boinas verdes e jaquetas, o que demonstrava que tais adereços também faziam parte do uniforme, mas eram opcionais. No peito, todas as camisas exibiam orgulhosamente o brasão da instituição.
Algumas das crianças andavam em formação impecável e marchavam, seguindo alguns professores, até o galpão de portas abertas onde Adamska imaginava ser o refeitório. O sol estava em seu zênite, quente, tornando amarelados os prédios e a vegetação ao redor. Um calor acolhedor, oposto ao clima convivido na fábrica de seus antigos senhores.
Adamska não conseguia tirar o sorriso de seu rosto, enquanto o helicóptero lentamente pousava sobre um grande H no interior do campus. Os tempos de sua missão haviam enfim terminado, e ele iniciaria uma vida nova. Não seria uma vida comum como desejava, mas seria uma nova missão. Uma que lhe proporcionaria um conforto maior. E isso já bastava.
Durante o pouso, as hélices movimentavam o ar violentamente para todos os lados, agitando as roupas que os cinco fundadores presentes usavam. Estavam em formação, aguardando sua chegada. A mulher loira, imponente, com a bandana em sua cabeça movimentando-se suavemente conforme a brisa da tarde, o observava atentamente, com apreensão e surpresa em seu olhar. Havia, também, algo em seus olhos que Adamska não conseguia identificar. Algo que o fez sentir calor em seu peito.
O piloto do helicóptero desembarcou. Auxiliou o rapaz a descer junto a ele e pôs afetuosamente uma das mãos enluvadas em seu ombro quando os pés dele tocaram o chão. Caminhou junto do gentil piloto até a diretora, e a ela prestou uma tímida continência, como a ele tinha sido instruído. Ele ainda usava suas roupas velhas e mal cheirosas, seus cabelos loiros claros mal cuidados alcançavam seus ombros, e estava diante de uma lenda viva neste estado deplorável. Ela apenas mascarou suas emoções, deu um meio sorriso afável e estendeu a mão para ele.
— Bem vinda, criança, à sua nova família. – The Boss aguardou que o russo saísse de sua posição de continência e apertasse sua mão.
E, assim, Adamska o fez. Retribuiu o gesto da mais velha, com a mão ligeiramente trêmula, enquanto a dela permanecia firme e impassível. The Boss demonstrou espanto quando viu a mão queimada do rapaz, e segurou-a delicadamente para poder olhar melhor.
A mulher sentiu uma pontada em seu coração, desejou abraçá-lo naquele instante, porém conteve este desejo. Não pretendia assustá-lo com suas impressões precipitadas.
— Como isso aconteceu? – a mulher perguntou com inquietude, ainda olhando para a mão ferida.
— Meu dono... Ele... – com tensão em sua voz, o jovem foi impedido de dizer palavras coerentes, e congelou no lugar.
— Você não possui mais donos. Você é um menino livre agora, e será bem tratado aqui. Eu prometo, Adamska.
Joy reprimia a todo custo os seus sentimentos. Mostrou um sorriso sereno, para conter seu desassossego, e sentiu seu coração derreter quando o menino sorriu para ela em troca. Ela desejava chorar ali mesmo, e tomá-lo em seus braços.
— Estes – Joy procurou mudar seu foco. – São, junto a mim, os fundadores de Cobra Unit. The Pain, The Fear, The End e The Fury.
Para o jovem, os homens a ele apresentados eram... Peculiares. Para não dizer estranhos ou bizarros. The Pain era gigantesco; tinha seu rosto coberto por uma máscara e alguns insetos que Adamska não conhecia voavam ao seu redor. The Fear tinha um sorriso assustador – como se suas feições por inteiro não fossem – e os cabelos tingidos em branco e preto. The End era um senhor calvo com uma vasta barba alva, que usava uma farda de folhas e que tinha um papagaio empoleirado no ombro. The Fury parecia um astronauta, com um grande e redondo capacete que lembrava um aquário de paredes sujas, e uma roupa negra totalmente isolante. O menino russo sequer podia ver seu rosto através do vidro fosco.
— Ahab. – Joy voltou-se para um rapaz de cabelos castanhos e feições finas, da idade de Adamska, que se aproximou e prestou continência a ela. – Leve-o até a enfermaria e peça que Doutora Clark corte o cabelo dele da forma como ele se sentir a vontade.
Ahab somente assentiu rapidamente com a cabeça e olhou para o russo, aguardando, sem mudar de expressão.
— Vá, Adam. – Joy acariciou seus cabelos inconscientemente, sem se importar com a sujeira que neles havia. — Os alcançarei em breve, tenho assuntos para resolver no momento.
Adamska obedeceu. Ahab caminhou para longe do heliporto, com Adamska tímido em seu encalço. Joy o via olhar para todos os lados, com uma empolgação notável. Seu sofrimento chegou ao fim.
Logo que os meninos estavam distantes, Joy desmoronou. Seus sentimentos derruíam, e seu corpo não podia suportar desta vez. The Fear e The End a seguraram ao notar que estava próxima de um desmaio. Era disso que há muito se tratava a vida de Joy desde que entregou a alma à sua pátria: carregar dores. Suportar dores. Ocultar dores.
— A semelhança entre eles é notável. – disse The Fury, a voz ligeiramente abafada devido ao capacete.
— Consiga uma amostra de sangue, Joy. – The End disse calmamente, num tom quase monótono. – Iremos verificar para você.
— Se for verdade, do que adianta agora? – Joy, esforçando-se, recuperou firmeza em suas pernas. – Partirei em breve. Todos nós partiremos. Sem previsão de retorno.
O silêncio ali se instaurou. Era verdade. Mas, ainda assim, Joy desejava saber. Precisava saber.
E, ainda que não fosse real, Adam já era seu filho no momento em que o olhou nos olhos. Seu subconsciente a fazia se sentir responsável por ele. Seu mais novo protegido.
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