Svyazi

10 Capítulo X - Forasteiro


Notas iniciais
Apenas o capítulo mais longo da fic até o momento e nem coloquei tudo o que eu queria. Ai ai :v Para Theoria, que além de ser um amor de pessoa me inspirou com “Big Nose Child” ♥ e para Akemi outra vez, que tem uma paciência de aço.

Após tê-lo rendido tão bruscamente, o americano envolveu os ombros de Adam mais uma vez. John o fez recobrar a consciência e a firmeza em suas pernas, incapaz de ocultar seu sorriso a cada protesto que o mais novo fazia. Julgava que sua inexperiência era adorável.

Adam era alguém divertido de se provocar, e ter um dos braços sobre os ombros do pequeno russo tornou-se, para John, um hábito tão comum e necessário quanto respirar. Embora de muito bom grado aceitasse o ato, Adam não imaginava ao certo quais seriam suas razões. Por muitas vezes, buscava silenciosamente por justificativas coerentes para tal, e não muito demorava a interromper o próprio pensar. Em seu íntimo, conseguia concluir que John abraçava seus ombros, apenas e somente, por vê-lo como seu mais novo irmão. Não desejava aceitar somente isto como motivo.

Tendo John em tão curta distância, o mais novo era capaz de aproveitar de sua proximidade e de seu calor. Sentia-se acolhido, protegido e cuidado. Estranhamente, John parecia marcar um território quando dessa forma o resguardava, ou estar declarando-o como sua propriedade; mas todas essas coisas poderiam não passar de suas impressões. Ou, ao menos, era isso que Adam concluía.

E John o irritava. Não por seus empurrões, por suas exageradas imposições de força, por suas eventuais faltas de tato ou por sua negligência. O irritava, justamente, por não ser capaz de aborrecê-lo por nenhuma dessas razões. Gostava do jeito de seu jeito de ser, da forma que por ele era tratado, de sua brutalidade até mesmo quanto possuía a intenção de ser amável.

Adam não reconhecia quais sentimentos tinha por ele, mas não mais os temia. Não mais a eles resistia. Poderia ser um erro, mas por ora ele não se importava.

— Está nervoso? — John perguntou de súbito, interrompendo seus devaneios. Parecia tê-lo aproximado ainda mais ao próprio corpo.

Seu rosto por inteiro se aqueceu. Seus pensamentos não poderiam estar assim tão óbvios. Não deviam.

— É claro que não — Rebateu quase grosseiramente e sem muito pensar, buscando ocultar seus sentimentos. — Por que eu estaria?

— Talvez porque dará seu primeiro tiro daqui a 10 minutos. — olhou-o duramente, não compreendendo a reação explosiva.

— Ah... Sim. — conteve-se com um alívio, sentindo o sangue voltar a circular. — Estou, sim. Um pouco.

— Não fique, cowboy. — deixou um tapa em seu ombro mais distante, com a mão que lá estava. — Você está aqui para aprender, dificilmente vai acertar sem ter visto nada antes.

Adam mordiscou o interior da bochecha, feito um tique.

— O que me preocupa são as pessoas que vão estar me vendo.

— Ei. Boss disse que você vai nos impressionar, e nunca vi uma intuição dela falhar.

— Ela deve estar enganada agora. — suspirou, pesaroso. — Para tudo existe uma primeira vez, não é?

— Pare de ser tão negativo — John o sacudiu ligeiramente. — Ou quer que eu renda você outra vez para te fazer cair na real?

Cócegas mornas invadiram o estômago do russo. Ter sido segurado daquela maneira não havia sido de todo ruim, afinal.

— Certo. Já parei. — respondeu rapidamente, tentando conter seu sorriso.

John o acompanhou numa breve e contagiosa risada. Adam mordeu o lábio inferior, muito discretamente, sem abandonar o sutil sorriso que fazia. Se detivesse de um pouco mais de coragem, apenas mais um pouco, teria envolvido John num forte abraço.

Desejava abraçá-lo. Muito, talvez até demais. Desejava sentir melhor o seu calor, sentir seu cheiro. O abraçaria por todo um dia se fosse permitido. Não estava mais tão confuso acerca disso.

Seu olhar, quase involuntariamente, voltou-se para o grupo de Eli ao longe. Foi forçado a desviar-se completamente de seu descontraído momento. O mais novo dos Snakes, de um momento a outro, era dificilmente encontrado: Adam o via somente durante as aulas, ao deitar-se e ao despertar. No entanto, desta vez, lá estava o rapaz, observando-o mortalmente pelo canto dos olhos. Sua raiva parecia ter diminuído sensivelmente, ou Eli apenas não considerava que aquele fosse um momento adequado para demonstrá-la.

O russo por ele lamentava. Não seria capaz de abandonar seus amigos apenas por um capricho de Eli, embora ansiasse por qualquer oportunidade que lhe proporcionasse alguma paz. Eli poderia não possuir seu sangue, mas Adam era capaz de sentir perfeitamente a dor de ser a razão do ódio de um irmão. Tudo parecia mais doloroso ao reconhecer todos os pontos de vista.

* * *

O grande relógio da instituição indicava 10 da manhã. Do alto dos prédios Utilitário e D, os atiradores mais habilidosos utilizavam complexos e pesados rifles de precisão. Entre eles estavam as jovens snipers Wolf e Quiet, mirando em alvos que simulavam soldados inimigos postos no topo dos dormitórios localizados exatamente do lado oposto ao que estavam no campus. Tal distância em nada parecia atrapalhá-las no acerto de pontos vitais.

A cada disparo dos rifles, um estouro ecoava. O agonizante barulho dos disparos fazia Adam encolher-se em todas as vezes onde os ouvia. Junto ao seu grupo, Adam estava exatamente no centro da instituição, e os projéteis dos rifles sobrevoavam nos ares a muitos metros acima. Torcia internamente para que os jovens atiradores soubessem exatamente o que estavam fazendo e para que houvesse algum instrutor junto a eles nos telhados.

Reiniciavam-se as sensações terríveis por seu estômago. Podia sentir o suor que se formava no interior de suas luvas e muito cogitava tirá-las para que suas mãos cálidas pudessem respirar. Havia reservado sua boina junto aos seus demais pertences, como um nobre gesto de desapego, e Adam arrependia-se por decidir abandoná-la justamente nesta ocasião. Era capaz de sentir o topo de sua cabeça queimar fortemente com o calor do sol.

Junto aos companheiros, aguardava pelo treinamento no amplo campo pavimentado, localizado no coração de Cobra Unit. Uma larga e densa parede de tijolos, sobre fortes rodas de aço, foi posta a frente dos que ali estavam. Um muro móvel, resistente, cravejado por balas de muitos treinos durante décadas antecedentes, que ali era posto para apartar os projéteis.

Alunos e alunas, de todos os tipos e de várias séries acima do oitavo ano do fundamental, conversavam em seus grupos no aguardo pelo início da aula. Adam, entre todos, parecia ser o único a suar copiosamente, tanto por nervosismo quanto pelo calor que o afetava mais que a qualquer um. Seu coração tinha batimentos ligeiros e desordenados, e sua ansiedade deixava-o incapaz de compreender as conversas que o rodeavam.

John tinha um momento para conversar apenas com Kaz, e isso em nada o incomodava. Adam não possuía qualquer vontade de conversar naquele instante, e seria bom para John se tivesse alguém com quem distrair-se durante esse período. A aflição que sentia durante toda a manhã atingia-o feito uma montanha-russa, cheia de loops, idas e voltas. Isso era enlouquecedor.

Ahab observava Stefanie esbanjar sua experiência com rifles a partir de um binóculo, totalmente encantado. Adam apreciava a bela e pura relação entre os dois, e presenciar este momento lhe proporcionava alguma calma. Meryl conversava com Tatyana alegremente a alguma distância, e David ignorava completamente a presença da garota que antes foi alvo de seus interesses.

Hal, absolutamente, merecia isso depois de tudo. Adamska gostaria que o rapaz de óculos estivesse ali para presenciar isto, mas ele naquele instante participava das lições de engenharia conduzidas por Strangelove.

— Adam. — ouviu abruptamente da voz de Joy, enquanto sentia sua mão sobre seu ombro. Seu toque protetor havia sido o bastante para fazê-lo retornar à realidade. — Hora de uma grande decisão. Você sabe... Seu primeiro disparo precisa ser especial.

Militares traziam para perto dos aprendizes duas medianas caçambas sobre rodas: uma abarrotada de armas de fogo leves; outra, de balas e silenciadores. Todos os aprendizes que ali estavam, inclusive os companheiros de Adam, dirigiam-se aos reservatórios de armas em euforia para selecionar quais utilizariam antes que outros conseguissem as melhores antes deles. Somente Adam permanecia ali, estático, observando os dois diferentes revólveres que Joy trazia consigo.

A mentora os segurava pela terminação dos canos, tendo um em cada uma de suas mãos, e as diferenças entre os dois eram mais que notáveis: um era simples e de aço escuro, com empunhadura feita em madeira, muito semelhante ao revólver que John lhe havia recomendado enquanto secretamente visitavam o arsenal. O outro era repleto de bem feitas e tentadoras gravuras bem padronizadas sobre o aço desgastado.

— É seu primeiro dia como um atirador, então é bom que se divirta. — Joy, com um sorriso em seu rosto, aproximou os revólveres ainda mais. Suas feições soavam sempre duras, mesmo ao sorrir. — Escolha um deles. Não seja tímido.

Adam, prontamente, estendeu a mão para o revólver fosco e sem gravuras. Segurou-o pelo cabo com firmeza, adaptando-se ao seu peso e sentindo sua temperatura. Possuía segurança e orgulho de si, com a certeza de que havia feito uma escolha correta.

— Me deixe adivinhar... — a mentora riu rapidamente. Seus olhos desta vez voltados para uma direção que a Adam não pertencia. — Snake te disse coisas demais.

— Gravuras não oferecem vantagem tática. — John juntou-se a eles. Trazia uma pistola com silenciador numa de suas mãos, e nela inseria um cartucho de cargas. — Bem pensado, Adam.

— Está bem, intrometido. — Joy guardava o revólver decorado no coldre em seus quadris. — Te encarrego de explicar coisas a ele fora dos treinos. Será bom para ajudá-lo a recuperar o tempo perdido, já percebi o quanto são amigos.

— Sem problemas. — bateu no ombro do russo, descontraído e com um sorriso. Em seguida, encarou a arma em suas mãos. — Posso ver?

Adam ofereceu uma última olhada ao seu revólver antes de entregá-lo com relutância. O americano fez à arma uma breve e objetiva inspeção, revirando-a nas mãos para uma dinâmica observação em seus detalhes.

— Uma Colt Peacemaker. — John observou-a por uma última vez antes de devolvê-la ao mais novo. — Revólver tradicional de ação única, tempo de recarga lento, capacidade de apenas seis balas...

— É mais que o necessário para atingir qualquer coisa que se move. — interrompeu-o, recuperando o revólver com um sorriso provocativo, pondo-se a girá-lo elegantemente em seu indicador.

Por um momento, olharam-se nos olhos. Adam mantinha seu sorriso ao girar a arma, mediante o sorriso indecifrável que John lhe oferecia. Inúmeros eram os desejos de demonstrações de afeto e, novamente, estavam num ambiente onde havia pessoas demais.

— Cuidado — Joy segurou seu pulso de Adam com firmeza, impedindo o rodopio. — Está carregada. Pode acabar tirando o olho de alguém.

— Desculpe — mostrou-lhe um sorriso constrangido, voltando o cano da arma para baixo. — Foi mais forte do que eu.

Joy reteve uma risada. Desejava demonstrar que o perdoava completamente. Conteve sua vontade de abraçá-lo, para mostrar-lhe que a censura foi feita somente por uma ilógica preocupação. Era óbvio o quanto ele devia saber bem mais sobre revólveres do que ela mesma, apesar de sua idade. Seu comentário desnecessário a tornava tão tola...

Bruscamente, Joy foi castigada com a sensação de uma lâmina atravessando seu peito. Retornava-lhe o lacerante ardor em sua vasta cicatriz; sem avisos, sem razões. Afastou-se de seus dois protegidos, com pesar, buscando manter sua postura, causando-lhes milhares de dúvidas em conjunto por sua retirada súbita.

Por vezes, esquecia-se que não devia abrir brechas para Adam nela criar apego. Esquecia-se que ela, em si, não devia apegar-se, embora para ela pudesse ser tarde demais. O tempo que lhe restava estava próximo do fim, cada vez mais próximo, e não havia nada a ser feito.

Adam se deu conta que os sons de disparo dos rifles não mais existiam. Todos os atiradores no topo dos prédios, sem exceção, sentavam-se nas beiradas com as armas postas sobre as pernas, aguardando por assistir ao que ocorreria abaixo. O russo olhou brevemente para Sniper Wolf, e daquela distância observava o quanto a beleza da garota assemelhava-se a de Tatyana. Seus cabelos loiros, presos num ponto alto, sacudiam delicadamente conforme a brisa. Sua franja lateral bem feita e seu colar de couro negro, feito uma coleira ao redor de seu pescoço, concediam-lhe detalhes marcantes.

Dez alvos, semelhantes a silhuetas de homens, repletos de números e círculos em padrões cada vez menores no interior uns dos outros, foram postos de pé simetricamente frente a imensa muralha. Joy dirigiu-se à frente dos alvos e impôs-se numa postura severa, com ambas as mãos voltadas para trás. Todos os jovens, sem exceções, silenciaram-se respeitosamente diante de sua imponência.

— Onde está Eli? — Joy perguntou, olhando por última vez para todos os rostos.

— Aqui — o loiro por quem a diretora procurava respondeu velozmente, um tanto ofegante por sua corrida. Encaminhava-se diretamente aos reservatórios, na busca por uma arma que houvesse restado.

Adam enervou-se mediante sua chegada. Não por temor, mas por não estar esperando que Eli também desta aula participasse. Joy suspirou enquanto sacudia a cabeça em decepção, não surpresa por mais um de seus atrasos. Optou por aliviá-lo desta vez, tornando à postura saudosa, pronta para envolver os discípulos em seu intensivo monólogo.

— Hoje — proclamou com firmeza em seu timbre e olhar — Teremos algo mais leve, porque temos um novo aprendiz entre nós. Portanto, terão o tempo de hoje para pôr em prática o que já sabem e para que o recém-chegado utilize uma arma a qual já está habituado. Sintam-se livres para esclarecer dúvidas e para analisar, pela primeira vez, armas de seus interesses.

Pôs-se a caminhar lentamente e sem direção, não deslocando-se demais de seu lugar original, apenas para obter a certeza de que todos os olhos moviam-se junto a ela, devidamente atentos.

— No próximo sábado, voltaremos à programação normal. Praticaremos desmontagem e remontagem para reconhecimento de rifles de assalto. — sorriu de canto com doçura, como uma tentativa de apaziguamento da tensão formada. Parou onde estava, e os aprendizes instantaneamente sentiram-se mais seguros em respirar. — Façam filas indianas de frente para cada alvo, atrás da maior marcação. Quem já passou do sétimo nível, vá para as filas dos alvos à esquerda. Vão.

Adamska petrificou-se, perdido. Todos à sua volta afastavam-se e moviam-se para alinharem-se em filas atrás de uma extensa linha gravada no solo, a muitos metros de distância do grande muro e dos alvos. Adam era o único a permanecer estático em seu lugar original. David, Ahab e Kaz afastavam-se para as filas à esquerda, deixando claro para Adam que estaria mais solitário do que o planejado. Insegurança subia-lhe dolorosamente pelo estômago, sufocando-o em seus próprios medos.

— Venha, cowboy — o americano segurou-o pelo braço bruscamente, pondo-se a conduzir seus passos tortuosos até as filas da direita. Adam jamais esteve tão grato por John tê-lo assustado. — Lembre-se do que eu disse minutos atrás. Dificilmente podemos acertar na primeira vez. Mantenha a calma e esteja atento às instruções de Boss. Tudo vai dar certo, eu acredito em você.

O russo sentiu um alívio surpreendente, junto a um calor por suas bochechas. Sussurrou um “obrigado”, numa entonação tão baixa que mal ele mesmo pôde compreender. Desconhecia de que forma seria capaz de lidar com seus medos nesta nova vida se não tivesse John ao seu lado. Seu ritmo cardíaco desvencilhava.

Então, se deu conta de onde o mais velho o havia posto.

Adam era o primeiro de uma fila que ainda não havia se formado, e outros alunos começaram a alinhar-se atrás dele muito rapidamente. Assistiu, pasmo, John afastar-se dele e também encaminhar-se junto aos demais às filas da esquerda. Adam entreabriu os lábios nervosamente, seus sentimentos irreconhecíveis, uma gota de suor descendo pela lateral de seu rosto pálido, seu sufoco temeroso retornando como um soco no estômago.

Desejava, acima de qualquer outra coisa, xingar John com todos os palavrões russos que conhecia a pronúncia e desconhecia o significado.

— Adam, ei — um sussurro de Tatyana, a primeira na fila ao lado, captou sua atenção. Quase dois metros de distância os separavam. — Boa sorte. Gostaria de saber usar uma Colt Single Action também. Sabe, sou muito nova com as armas.

Adamska olhou-a nos olhos, atônito, enquanto recebia seu sorriso sereno. Meryl era a segunda na fila onde ela estava, e observava-o constrangida e sorridente. Seus cabelos ruivos e volumosos, de corte peculiar terminando acima de seus ombros, absolutamente imóveis.

Adam não sentia qualquer raiva de Tatyana, por incrível que pudesse lhe parecer. Não sentia nenhuma apreensão em sua presença, e não considerava que suas palavras eram falsas. Enxergava nela uma imensa simpatia, que antes por completo ignorava. Não gostava quando ela estava próxima de John, doía-lhe o peito ao lembrar-se que John havia sido por ela quase beijado diante de seus olhos e um incômodo lhe subia ao corpo ao lembrar-se que, longe de sua vista e antes de sua chegada, ela havia beijado John de fato. Mas não a detestava.

John esteve certo durante a conversa que Adam espionou em sua primeira vez nos chuveiros. Tatyana era uma boa garota, e julgá-la parecia altamente inadequado.

— Obrigado. — o russo buscou também sorrir. — Boa sorte para você também.

— Diga algo, Meryl. — Tatyana exigiu, virando o rosto para trás sutilmente. — Será o primeiro tiro dele.

— Oh, desculpe. — a ruiva se redimiu. — Boa sorte, Adam.

— Também é nova nisso? — Adam perguntou, como tentativa de jogar conversa fora. Era óbvio que ela também era nova.

— Nem pensar. — Meryl pôs orgulhosamente uma mão em seu quadril. — Tenho baixo nível por aqui apenas por ter entrado nesta aula recentemente, já pratiquei muitos disparos com meu tio e meu pai. Não sou uma novata.

— Entendo. — o rapaz respondeu em desinteresse, voltando-se para frente outra vez.

Arrependia-se por perguntar. Não imaginava que uma simples pergunta fosse ferir o ego da garota.

— Sabe, Adam, você tem um pouco do sotaque russo. — Tatyana acrescentou amavelmente. — Bem sutil, mas está aí. É um sotaque bonito, pode fazer sucesso com as garotas. Se usar no momento certo. — piscou para ele, sacudindo levemente os cabelos presos com o movimentar de sua cabeça.

— Uh... — coçou a nuca, encabulado. Definitivamente, não sabia o melhor a se responder neste caso. — Obrigado. Eu acho.

Boss já não mais estava frente aos alvos à distância. Passeava por entre as fileiras, imponente, observando a atitude de cada um deles antes de comandar o início dos disparos. Eli era o primeiro de uma das cinco filas do lado avançado, e particularmente a mais distante o possível de seus irmãos. Adam notou o quanto os mais velhos Snakes e Eli optavam por ignorar-se mutuamente naquela ocasião, como uma condição de disciplina.

— Liquid — ao estabelecer-se ao lado de Eli, Joy captou sua atenção com seriedade. — Que tal compensar seu atraso e iniciar com estilo a sua chegada ao oitavo nível?

O rapaz emburrou-se ao ouvir seu antigo codinome, e seu aborrecimento não foi por Joy despercebido. Ao menos, pelo respeito nela imposto, Eli sequer cogitou confrontá-la.

Os alvos de alto nível diferenciavam-se dos feitos para iniciantes: os da direita tratavam-se somente de silhuetas escuras de um homem de pé, e os da esquerda eram como silhuetas de um criminoso armado rendendo um refém num de seus braços. Eli obedeceu à ordem de Joy, pondo-se em posição correta para disparar. Segurava sua arma com firmeza, utilizando das duas mãos para obtenção de um tiro preciso. A arma escolhida às pressas era semelhante à de John, porém não fazia uso de um silenciador.

— Procure acertar na cabeça. — a diretora instruiu pacientemente. — E tenha cuidado com o refém.

Sem mais dizeres, Eli assentiu silenciosamente. Ajeitou-se uma última vez, rapidamente, e puxou o gatilho com certa brutalidade. Adam sentiu adrenalina correr por suas veias com o estrondo do disparo.

Eli havia acertado, erroneamente, num dos ombros do refém.

Uniu os braços às laterais de seu corpo, resmungando em alto tom.

— Não se aborreça tão cedo. — Joy aconselhou. — Tente outra vez.

— Não vou conseguir desse jeito. — o loiro pôs seus olhos cruéis no fã de western. — A luz do sol no nariz dele está refletindo nos meus olhos.

Adam, em confusão, tocou desesperadamente o nariz. Não encontrava problemas nele, jamais havia encontrado. Passou os dedos enluvados por sua extensão, buscando compreender o que se passava. O quê havia de errado?

Ouviu risadas discretas vindas de várias direções. O rosto de Adam queimava como se repleto de feridas em carne viva. Joy sentiu seu sangue ferver e acumular-se duramente em seus punhos.

— Saia da fila, Eli. Agora — impôs uma ordem ríspida. — E vá à minha sala após treinos. Sinto que apenas advertências não são o suficiente para você.

Eli encarou o russo friamente, por segundos que mais pareciam milênios, antes de cumprir o que lhe foi ordenado. Adam olhou para John, desconcertado, buscando algum consolo ou solução. Dele, recebeu um olhar brando, qual lhe pedia para manter-se paciente e inabalável. Boss estaria responsável por situações como esta.

Enquanto Eli encaminhava-se ao novo posto, o jovem russo sentia ter seu rosto discretamente por todos observado, inclusive por seus companheiros. Exceto, é claro, por John. Kaz tentava disfarçar a direção de seu olhar sob os óculos de sol, mas sua tentativa não era boa o bastante para enganá-lo. Sentia-se terrível.

— Continuem. — Boss captou todas as atenções novamente. — Os da esquerda primeiro. Demonstrem o que sabem aos que estão começando.

Se possível, o russo enterraria a si mesmo ali onde estava. As risadas ainda ecoavam dolorosamente por sua cabeça, mesmo que há muito houvessem cessado. Ansiava, angustiado, por um espelho onde pudesse analisar seus defeitos, mas não poderia esquecer-se de sua necessidade de concentração.

Um a um entre os mais experientes, sem pestanejar, puseram-se a atirar em constância. Os primeiros de cada fila, em uníssono, disparavam sem qualquer sincronia, até que houvessem acertado num ponto satisfatório. Joy dava instruções àqueles que não acertavam pontos estratégicos ou atingiam os reféns, e Adam ensaiava mentalmente as posições adequadas para evitar constrangimentos quando chegasse sua vez.

Conforme os jovens completavam sua rodada, saíam das filas e prostravam-se ao redor para observar o restante do processo. Em questão de tempo, era chegada a vez de seus companheiros demonstrarem o que sabiam. Eram alguns dos poucos que Joy não parecia necessitada em auxiliar: Ahab era virtuoso e preciso, assim como Kaz se empenhava suficientemente bem e poderia se dizer que era tão bom quanto. Adam admirou-se com o pulso firme e a segurança que David tinha para atirar, o que tirou dos menos hábeis alguns sussurros admirados com os amigos mais próximos.

Assim que havia chegado a vez de John, Tatyana pôs-se a cochichar com sua amiga de cabelos ruivos. Adam foi incapaz de evitar um rolar de seus olhos, esperançoso de que ninguém houvesse notado sua atitude. Agora compreendia o quão irritantes eram os bajuladores dos quais John se queixava; no entanto, também relevava que as pessoas possuíam razões mais que aceitáveis para o bajular.

Assim como David, John acertava somente em pontos estratégicos, como a testa e o pescoço do alvo. No entanto, em proporção ou comparação, John parecia possuir certa maestria superior. Ou este sentimento acerca dele poderia ser causado, apenas, por sua postura e aparência. Naked Snake assemelhava-se a uma figura lendária, ou a sombra de uma. O melhor entre os aprendizes de uma das maiores lendas existentes.

Adam sentia todo ar disponível em seu entorno tornar-se rarefeito. Seu respirar falhava, e seu ventre tornava-se frio. Seus poucos e quase transparentes pelos por seus braços eriçavam-se sem autorização sob as mangas, e os cantos de seus lábios torciam-se involuntariamente. John era bom.

Muito bom. E jamais confessaria isso em voz alta. Ao menos, não em sua presença.

Adquiria uma confiança crescente. Os jovens de sétimo nível em diante estavam dispersos pelo ambiente, em maioria sentados sobre o chão, e faltavam poucos para que a vez de Adam e dos outros estreantes chegasse. Havia absorvido conforto a partir das demonstrações alheias e, juntamente, adquiriu tranquilidade ao constatar que mesmo os mais hábeis poderiam cometer erros.

Franziu os lábios com expectativas. Se conhecesse Joy o suficiente, poderia jurar que seria convidado por ela a ser o primeiro de sua unidade a demonstrar o que sabia.

— Adamska. — o tom autoritário ao chamá-lo confirmava sua intuição.

Adam quase riu consigo mesmo com o quão previsível aquilo tinha sido. Estava pronto, suas mãos não tremiam mais, e questionava-se sobre o porquê de ter estado tão nervoso anteriormente. Inspirava pela boca para manter dentro de si o lapso de autoafirmação, meio segundo antes de apontar sua Colt para o alvo que lhe correspondia. Esforçava-se para reproduzir com seu corpo a posição exata que havia decorado somente ao observar.

Engatilhou o cão da arma com o polegar enluvado, assistindo ao pesado girar do cilindro. Seus olhos translúcidos estavam fixos na massa de mira, todas as atenções nele postas a partir de vários pares de olhos descrentes. Voltou seu olhar para Joy, sem mover sua cabeça sequer um centímetro, e a viu assentir silenciosamente para conceder-lhe permissão.

Seu dedo ajustava-se perfeitamente ao gatilho, feito uma conexão. Firmava o revólver mais e mais sob o couro de suas luvas, garantindo que não teria surpresas com o recuo. Poderia errar, mas faria todo o necessário para criar, teatralmente, um tiro perfeito. Pela primeira vez, apreciava ser o centro das atenções.

Então, compreendeu que não mais possuía conforto em errar. Queria criar um bom espetáculo, queria deslumbrar seus colegas de treino, queria impressioná-los. Assim como Joy havia dito que faria. Queria ser bom.

Queria ser tão bom quanto John.

Ansiava por isso. Almejava, estimava, desejava. Queria impressionar John, e nada mais em sua mente parecia tão claro quanto isso naquele instante. Queria ser bom como ele, queria ter sua atenção, queria ter seu olhar aprovador logo em seu primeiro tiro em toda uma vida. Não importaria como o fizesse, desde que o fizesse com perfeição, e era nesta parte onde o problema morava.

Refletiu brevemente. Temor o invadia, junto ao receio por demorar-se demais.

— Relaxe seus músculos. — Joy aconselhou num tom tranquilizador. — Não tema o erro. Pode não ser capaz de enxergar seu potencial, mas eu o vejo claramente.

O coração de Adam inflou-se. Impressionaria Joy também. A deixaria orgulhosa, redimiria a decepção a ela causada na biblioteca com Eli, a deixaria contente por ser sua mentora. Não a faria se arrepender de tê-lo resgatado. Precisava de uma ideia.

Subitamente, um calafrio o percorreu dos pés a cabeça. Toda a sua excitação desaparecia. Sentia finas camadas de gelo no interior de seus ossos. A presença fantasmagórica mostrava-se a ele outra vez.

Mantinha o revólver direcionado ao alvo. Entretanto, desconcentrava-se completamente de tudo ao seu redor. Seu olhar vagou para o soldado espectro à alguma distância, encapuzado e pálido, flutuando suavemente a quatro palmos do chão. Suas íris cinzentas, quase alvas, mantinham-se fixas em Adam sob os óculos retangulares. O sorriso sereno e de lábios unidos que o fantasma a Adam direcionava novamente ainda soava confortador.

Novamente, o fantasma surgia quando Adam necessitava de ajuda e não havia mais ninguém a quem pudesse recorrer.

A figura espectral segurava uma imensa folha de papel em suas mãos. Nela estava desenhada uma seta em tinta escura, que apontava para a placa metálica informativa amarrada a uma imensa árvore à sua direita. Adam impôs no espectro a sua confiança, e mirou seu revólver no local indicado.

Puxou o gatilho, sem temer ou hesitar, e o som do disparo agitou-o por completo, derretendo totalmente o gelo em seus ossos. A bala atingiu o metal com um estrondo oco e ricocheteou num percurso frenético para o tronco denso de uma árvore próxima. Direcionou-se a galho de outra a metros de distância, para outra placa de metal, para a baixa cerca de ferro ao redor de altos arbustos, correndo pelo ar longamente antes de reter-se num último golpe cortante.

A bala havia atravessado a silhueta de madeira a qual Adam se alinhava. Pausou, em seguida, no grande muro cravejado, e sua envoltura dourada e gasta caiu ao chão, saltitando algumas vezes num tilintar agudo.

Havia atingido o alvo na testa. Exatamente no centro, e nenhum milímetro a mais. Uma linha fina de fumaça esvoaçava pelo furo que ali havia se instalado, e os aprendizes recuavam alguns passos em perplexidade.

— Como fez isso?! — Tatyana mirou nele seus imensos olhos aturdidos.

Burburinhos altos e intensivos invadiram o local, em cada parte e em desmedida confusão. Entretanto, certamente, nenhum dos jovens soldados encontrava-se tão em choque quanto o próprio atirador. Adam fazia o possível para manter a seriedade e conter-se enquanto invadido por implosões eufóricas. Se Joy não o tivesse advertido anteriormente sobre rodopiar armas carregadas, teria feito um maneio com o revólver e soprado a terminação, ainda que nenhuma fumaça dela saísse. Pura teatralidade. Como Johnny Mason faria.

— Parece que Mason vive — a voz de John, mesmo um tanto distante, lhe aqueceu os ouvidos deleitosamente. O ritmo cardíaco de Adam alterava-se mais que o considerado como possível. — Cowboy... Isso foi muito bom.

O sorriso de Adam intensificou-se. Aquilo estava acontecendo. Não conseguia acreditar, mas estava acontecendo. Olhou em volta, buscando pelo fantasma, desejando demonstrar imediatamente sua gratidão, mas ele não mais estava presente.

Engoliu em seco enquanto lentamente voltava a focar seus olhos em Joy. Esqueceu-se de toda a alegria para ser tomado por imensa culpa: ele poderia ter acertado alguém. Ferido alguém. Havia acertado o alvo por pura sorte e por puro auxílio do fantasma guardião. O que antes pensava que fosse trazer orgulho a Joy poderia trazer sua ruína. Sua respiração falhava.

Mas a mentora sorria para ele. Nenhum sinal de reprovação por suas feições. Nenhuma decepção ou irritação. Possuía em seu rosto, apenas, uma estranha expressão que parecia demonstrar ter conhecimento de que Adam não iria fracassar em sua tentativa ousada.

Joy soava contente. Ou, até mesmo, satisfeita. Por mais que muito tentasse encontrar, Adam não conseguia ver expressões de surpresa em seus traços.

Ele precisava praticar mais. Fazer mais disparos como esse, por muito mais vezes. Tinha alguma experiência com números, as aulas de Física poderiam lhe ajudar.

Seu cérebro crepitava. Apertou tensamente a empunhadura da Colt, com a sensação de um aperto em sua garganta. Sentia uma necessidade desconexa em girar seu revólver, sem motivo algum. Talvez o universo dos livros que lia estivesse o afetando demais.

* * *

E, como todo espetáculo, sua apreciação havia sido momentânea. Estabeleceu-se uma pausa para o momento de glória do protagonista, e era chegado o segundo ato. Provavelmente, o mais doloroso entre todos.

Os joelhos de Adam doíam. Seus dedos dos pés, mesmo que protegidos pelos coturnos, apertavam-se e aqueciam. Após muito esforço, voltado para baixo e na horizontal, Adam enfim conseguia erguer-se do chão a partir das pontas dos pés e dos braços alongados, que tremiam junto ao restante de seu corpo. O calor do solo sob suas mãos abertas não era absolutamente nada comparado a suas experiências anteriores, e as luvas o auxiliavam para que ainda menos o sentisse.

Seus olhos claros sondaram ao redor. Os outros aprendizes do treino tático faziam as flexões de aquecimento com muito maior destreza, e era fácil identificar quem participava deste treino há tempos de quem acabara de começar. Johnny, que havia tido pouco sucesso durante os tiros na unidade iniciante, tinha ainda menos com as flexões; mas, ao menos, se saía bem melhor que o jovem russo. Isso era inegável.

John buscava dar algum tempo a Adam, para que pudesse se acostumar com a posição.

— Consegue se abaixar? — propôs, olhando-o com cautela.

Tinha a mesma postura ao lado do mais novo. Estático, com seu corpo ereto, apoiava-se perfeitamente em seus braços e em seus pés calçados, e não tremia em nenhuma das fibras de seu corpo. Adam silenciosamente o invejava. Com seu rosto emburrado, atrapalhava-se em seu próprio respirar.

Em seu grupo, mais uma vez, Hal não estava presente, assim como Kaz também havia desaparecido. Adam julgou, pelo quanto sabia sobre estes amigos, que suas preferências de aprendizagem relacionavam-se mais a atividades cerebrais. Poucas eram as garotas que participavam desta aula; Tatyana, inclusive, não era uma delas. Adam indagava-se duramente sobre o porquê de ter escolhido um modo de treino tão pesado quanto este, e perguntava-se se realmente estava disposto a passar por isso somente para vingar a derrubada e a rendição que John havia lhe feito.

O sol ainda queimava por entre seus cabelos, e a pele alva de seu rosto possuía uma cor ligeiramente avermelhada após tanto tempo escaldado pelo sol. Era como se estivesse derretendo vagarosamente.

— Eu não sei. — Adam respondeu com franqueza. Inspirou profundamente. Uma gota de suor escorria por seu rosto, até alcançar seus lábios, deixando um sabor salgado.

— Tente — o americano dobrou seus braços, fazendo seu corpo descer, sem desfazer por um segundo sequer de sua posição retilínea. — Dessa forma, sem pressa.

Adam franziu as sobrancelhas, profundamente irritado, ainda que não soubesse exatamente por quais razões.

— John — o olhou com o canto dos olhos, tentando demonstrar segurança para esconder quão instável estava seu corpo. — Pode fazer seus exercícios, não se incomode comigo.

— Eu e Boss criamos o CQC. Esqueceu? — sorria para ele. — Não preciso aquecer com flexões. Costumo ajudá-la durante essa aula ultimamente. E... — apoiou-se com um só braço por um breve instante, mantendo um equilíbrio perfeito, apenas para cutucar a ponta do nariz de Adam com o indicador. — Estou encarregado de te ajudar em algumas coisas, caso tenha esquecido também.

O mais novo moveu os olhos para baixo outra vez. De pálpebras unidas, suspirou. Sua inexperiência era humilhante. Ao menos... John não parecia ver defeitos em seu nariz.

— Posso pedir para que Boss te ajude, se achar melhor. — com uma sutil pontada de desapontamento em sua voz, John se levantou.

A impressão por ele tida era que sua insistência em auxiliar Adam o tempo inteiro poderia o saturar. Um sentimento de culpa apossou-se do jovem russo.

— Não — chamou-o de volta, instintivamente. — Fique. Eu... — franziu os lábios, reflexivo sobre quais palavras usar. — Quero que fique.

Com um sorriso e sem hesitar, John posicionou-se ao seu lado outra vez. A praticidade que o mais velho tinha ao lidar com a maioria das situações a Adam era um grande alívio. Seu orgulho era grande demais para admitir abertamente que precisava da ajuda de John. Mais do que isso: queria que John estivesse ali.

— Dobre seus braços. — John orientou, demonstrando com o próprio corpo. — Não deite sobre o chão quando estiver próximo. Mantenha alguma distância e depois os alongue outra vez. Em algum momento você vai conseguir encontrar o ritmo.

Por mais simples que fossem, Adam enrubescia com os movimentos que John fazia. Umedeceu os lábios antes de uma tentativa de contrair os braços, seus joelhos e cotovelos tremulando ainda mais com o esforço imposto.

Embora muito se empenhasse, pouco conseguia se mover. Via-se fraco e estúpido.

— Não dobre seu corpo. — o mais velho advertiu. — Não é assim que se faz.

— Estou tentando — resmungou, emburrando-se ainda mais. Também tentava, ao máximo, não usar de um tom de voz grosseiro apenas para ocultar sua vergonha.

John ajoelhou-se. Pôs sob Adam uma das mãos e o reergueu, segurando-o firmemente abaixo do peito. O coração do russo agitou-se violentamente, sua boca secava, e sua respiração se instabilizava mais que seu estado corporal.

— Mantenha-se assim. — a mão de John no local permanecia, mantendo-o retilíneo. — Concentre-se.

— Snake... — lamentou com a dor por cada um de seus músculos. Sentia como se estivesse prestes a morrer.

— Respire. — apoiou a mão restante sobre as costas de Adam, deixando-o estável. — Não se force. Não pare de respirar.

Mesmo relutante, Adam obedecia. De uma forma ou de outra, não lhe restavam alternativas. Selava seus olhos, recuperando a tranquilidade e a compostura.

Ele estava gostando de ser por John tocado. O calor de seus dedos e o fervor emanado pela palma de suas mãos era prazeroso, mesmo que boa parte da sensação fosse amparada por sua camisa e pelas luvas que John usava.

Lentamente, o jovem russo adquiria alguma força, tentando ignorar a confusão de boas sensações que sentia em meio a dor. Arriscava uma descida vagarosa sob o olhar tranquilo do mais velho. Sentia que a qualquer momento seu corpo iria ceder, mas ao máximo buscava ignorar a fraqueza que lhe acometia. A subida, enquanto reerguia-se a partir de seus braços trêmulos, não parecia tão difícil quanto a descida; ou, apenas, estava se adaptando ao próprio peso.

O mais velho o observava enquanto colaborava com seu apoio. Adam mantinha-se extremamente concentrado, de olhos voltados para o solo. John poderia tê-lo instruído, antes de tudo, a praticar flexões mais leves com os joelhos sobre o chão, somente depois avançando às flexões intensivas; entretanto, não pôde conter seu inexplicável desejo em ver Adam testar seus limites.

Adam possuía um aprendizado rápido. Era notável, e uma habilidade que muito poderia auxiliá-lo no campo de batalha. E John, inconscientemente, perdia-se naquele rosto absorto.

Podia sentir, claramente, cada uma das rápidas batidas que o coração de Adam fazia sob seu tato. Podia acompanhar cada um dos movimentos de seu peito sob sua respiração pesada. Sentia-se atraído por sua nuca descoberta e clara, e seus olhos passeavam pela terminação dos curtos cabelos loiros.

Queria abaixar-se sobre ele. Farejar cuidadosamente seu pescoço, tendo tudo o que pudesse de seu cheiro. Beijar sua pele sensível, lentamente, apenas para ver por quanto tempo Adam conseguiria manter o ritmo do exercício sob seus toques. Sorriu de canto com seus pensamentos improcedentes, e permitiu-se ser devorado pelas próprias invenções.

Adam o atraía. Um temor crescente lhe vinha às entranhas.

— Levantem-se. — a voz de Joy fez John desviar seu olhar para uma aleatória direção. No entanto, seus pensamentos ainda estavam envoltos na mesma névoa.

Quando o mais velho dele removeu as mãos, Adam despencou. Deitou-se no chão bruscamente, exausto, gerando um baque com o impacto de sua pele. Estava gasto, com seu cabelo parecendo ainda mais curto enquanto grudado ao suor. Suas costas subiam e desciam com a tentativa desesperada de reencontrar seu fôlego. John, ao máximo, controlava sua ânsia por risadas.

— Precisa de ajuda? — o mais velho propôs, estendendo a mão. Um inevitável sorriso em seu rosto.

Adam voltou os olhos para cima ligeiramente. Fitava, sem expressões, a mão quase convidativa que John lhe oferecia. Sua desconfiança e seu cansaço não o permitiam mover nenhum dos músculos.

— Está aprendendo. — John permanecia lhe sorrindo, com recente suavidade. — Pode confiar em mim desta vez, eu prometo. Acho que já aqueceu o suficiente.

— Fico feliz que percebeu. — zombou com suas últimas forças.

Ergueu uma das mãos, mal sendo capaz de sentir seus dedos. John o pôs de pé facilmente, se permitindo apertar um pouco sua mão fervente. Mesmo de pé, Adam ainda parecia desnorteado, sendo de John necessário muito autocontrole para não o envolver num abraço de urso.

— Ei, Dead Eye — Joy chamou subitamente.

Adam voltou-se para ela instintivamente, lento e abatido, tendo tempo apenas de ver o revólver decorado que Boss havia guardado consigo voando graciosamente em sua direção. O pegou no ar fortemente, e seu coração disparou ao pensar na possibilidade de vê-lo cair.

— Belo reflexo. — John elogiou com honestidade.

O russo sorriu imensamente. Meio segundo depois, passou a lhe encarar com um olhar duvidoso.

— O quê? — sorrindo, o mais velho cruzou os braços. — Não sou orgulhoso feito você. Você é bom, garoto.

Adam corou. Uma parte dele ofendia-se por John tê-lo quase denominado como uma criança, mas a outra parte ignorava esse detalhe. Estava internamente grato por estar naturalmente vermelho pelo sol.

Os presentes aprendizes suspiravam, alongando-se após o intensivo processo de dor. O recém-chegado dos treinos táticos encarava a arma em suas mãos, contemplando o reluzir vermelho que suas luvas faziam no aço e nas gravuras. Liberou o tambor da arma, observando a ausência de balas em seu interior, e questionou-se acerca do porquê daquele revólver sem cargas ter sido a ele entregue.

— Bem vindos de volta. — Joy tomou a dianteira dos focos. Sempre direta e respeitável. — Imagino que cada um de vocês se lembre perfeitamente do dia em que tiveram a iniciação. Ou estou enganada?

Adam olhou para cada um dos rostos desconhecidos. Suas feições de constrangimento e as mãos que passeavam nervosamente pelo pescoço de alguns eram gestos que não deixavam dúvidas. Engoliu em seco ao reencontrar em suas lembranças algo que John muito lhe havia dito sobre o combate: hematomas e experiências dolorosas.

Joy focava os olhos em Adam completamente. Se pudesse, escolheria qualquer outra aula para ele, desde que não fosse esta. Queria protegê-lo com todas as suas forças.

— Muito bem... — a mulher prosseguiu lentamente, com certo grau de receio. — Quem se habilita a demonstrar uma técnica de desarmamento ao novo pistoleiro do Oeste?

John abriu suavemente os lábios para falar, e Adam instantaneamente sentiu vontade de matá-lo. No entanto, foi interrompido por uma pronúncia ligeira, vinda de outro ponto do pátio.

— Eu me habilito.

Eli deu dois passos à frente. Seu olhar frio atravessava o rosto de Adam feito um tiro preciso.

— Eli — Joy semicerrou os olhos para ele. O rapaz parecia frágil sob seu rígido olhar. — Ambos sabemos que resolver desavenças em treinamentos nunca traz bons resultados. É bom que tanto você quanto Adam, em algum momento, me expliquem de onde vêm todo esse desafeto. Não achei que essa bobagem chegaria tão longe.

— Quero lutar com ele. — Eli persistia com coragem. — Não tem nada a ver com...

— Você irá lutar com quem eu disser que vai. — encerrou, determinada, em palavras duras.

Desta vez, após o comentário infame posterior ao seu disparo falho, Eli era o único a receber os maus olhares. Adam poderia soar egoísta por ser ele o culpado de toda a raiva de Eli naquele momento, mas sentia-se aliviado em não ser mais o centro das atenções negativas.

Sua ansiedade por encontrar um espelho permanecia.

— Jack. — Joy proclamou secamente antes de se afastar, sem olhar para ninguém em específico.

Os alunos formaram-se ao redor de Adam num vasto círculo, rapidamente. Não conseguia compreender o que estava se passando ou a quem Joy se referia, e se agarrava ao revólver para encontrar segurança. Os olhares a ele retrocediam, todos ao mesmo tempo, e sentia como se seu coração fosse se desprender de seu peito.

— Certo, cowboy. — se deu conta de que John permanecia junto a ele na parte interna do cerco humano. O mais velho recuou alguns passos para trás, em posição de ataque. Era como se estivessem no interior de uma grande arena. — Atire em mim.

O jovem russo lhe arregalou os olhos.

— É uma simulação, Adam. — Joy avisou em alto tom num dos cantos do círculo. — Não hesite. Não tema. Não há tempo para hesitar na guerra.

“Uma simulação, não é?” o pensamento ligeiro o amenizou, trazendo confiança.

Fez o revólver rodopiar momentaneamente e o apontou para John. Uma onda de choques o parecia atravessar de fora a fora, terminando na ponta dos dedos do braço que tinha a arma. Estava seguro, convicto, inabalável, até ver o sorriso desafiador que o maior lhe ofereceu. No instante seguinte, John avançava ferozmente sobre si.

Posicionou-se atrás de Adam antes mesmo que tivesse tempo de piscar, empurrando para baixo o braço que controlava a arma com uma pressão firme em seu pulso. Agarrou o ombro do mais novo com agressividade, tirando-lhe o equilíbrio, e o derrubou de costas ao chão com um forte impacto. Usou de seu momento vulnerável para erguer o braço que munia a arma entre suas pernas, de costas para ele, e roubou-lhe o revólver com um aperto em seus dedos.

Os olhos de Adam abriam-se com dificuldade, desnorteados. John afastou-se, antes deixando o revólver largado sobre o chão.

— Boss disse para não hesitar. — sorriu para ele enquanto afastava-se em alguns passos.

O russo sentiu-se tomado por uma ira fortalecedora. Era a segunda vez que John o humilhava dessa forma.

Recuperou a arma ao seu lado com rispidez. Reergueu-se e avançou sobre John com uma fúria incontrolável. Não mediu prós ou consequências, somente queria tirar aquele sorriso de seu rosto. Tentou nele acertar um golpe certeiro e de força desmedida com o revólver, tendo seu braço amparado em menos de um segundo quando John o segurou e o lançou ao chão mais uma vez com o impulso numa das pernas. O revólver escapava-lhe das mãos outra vez, e Adam sequer sabia onde estava quando colidiu contra o solo novamente.

Iria avançar sobre John de novo. Não importaria quantas vezes fossem precisas. Não iria desistir. Não iria.

Quando impulsionou-se para se levantar outra vez, se deu conta de que John estava de pé sobre ele. Apontava a arma para seu rosto e o olhava de cima, bem em seus olhos. Aquele sorriso ainda estava no rosto dele, e tudo que Adam pôde fazer foi permanecer deitado, mostrando suas feições de aborrecimento que não causariam em John nada mais do que um sorriso duplamente insuportável.

— Ainda acha que Johnny Mason venceria? — o americano perguntou retoricamente, deixando de apontar para Adam sua arma.

O mais novo bufou, deitado e indefeso. De cara amarrada, voltou os olhos para qualquer direção onde John não estivesse.

— Você é confiante, Adam. — Joy acrescentou um comentário ainda sob seus receios. — Confiança demais leva à imprudência. Não avance sobre um adversário que sabe que não pode derrotar.

Lançou um olhar sobre o mais velho de seus protegidos. Suspirou, sabendo que sua próxima ordem era inevitável.

— Tentem outra vez.

* * *

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.