Svyazi

5 Capítulo V - 06 de Junho, 58


Crianças e jovens, em ambos os dormitórios, reviravam-se nas camas preguiçosamente ao toque de despertar. À chegada da fraca luz do alvorecer, o sinal do instituto caiu pesadamente sobre os corredores para acordar a todos de súbito.

De tão cedo, o quarto de Adam mal era iluminado, mesmo com as persianas abertas. Alguns dos garotos nos outros beliches resmungavam e apertavam os travesseiros sobre a cabeça para abafar o som ensurdecedor das sirenes.

Havia sido a melhor e mais completa noite de sono de Adamska. O colchão em que se deitava estava quente e aconchegante. Desejava levantar-se e começar os afazeres da manhã, mas a cama o abraçava e segurava pelo o cobertor macio. Ter acordado de forma tão abrupta o incomodou, mas de forma alguma era um problema.

Adam sentou-se na cama e começou a dobrar o cobertor, imitando a maneira como os outros rapazes do quarto faziam. Era trabalhoso, entretanto não complicado. Enquanto o fazia, Adam ouviu uma agitação na cama superior.

Eli também dobrou o cobertor e desceu as escadas. Não houve qualquer troca palavras ou mesmo de olhares entre os dois, agindo reciprocamente como se o outro não existisse, e o loiro americano se foi.

Adam pegou a bolsa sob a cama e levantou-se num ritmo lento e preguiçoso. Coçou os olhos na tentativa de conseguir abri-los definitivamente. Caminhou em passos cansados para fora do quarto, com a barra da calça do pijama folgado arrastando no chão.

Após pegar no armário seu uniforme e utensílios de banho, o russo viu Ahab ao fim da escada para o térreo. Por ambos serem do mesmo ano do fundamental final, eram vizinhos de andar. Adam começou a descer as escadas distraidamente.

— Dia, cowboy! — John surgiu repentinamente ao lado de Adam, batendo no ombro do mais novo de modo que pôde ser ouvido um estalo com o impacto.

Adam arregalou os olhos, rapidamente desperto. Se não estivesse apoiando-se no corrimão, teria rolado escada abaixo com o susto.

— Seu... — cerrou os dentes.

— Você estava lento demais, agradeça pela ajuda. — John juntou-se a ele, descendo as escadas, também trajando pijamas. — Mais um ótimo dia começando, cowboy. Onde está sua disposição?

— Com o tempo você se acostuma com a animação matinal dele. — Kaz descia as escadas logo atrás dos dois, com David e Hal ao lado. Já usava os óculos de sol. — É irritante, mas não insuportável.

— Ou não. — disse David, grogue. Segurava a bandana azul em uma das mãos. — Vivo com ele há 15 anos e ainda não acostumei.

Assim que o grupo chegou ao banheiro, Eli estava retirando-se, uniformizado e de cabelos úmidos, com a bolsa pendurada nos ombros.

— Eli. — John cumprimentou, olhando-o nos olhos com afeto.

— John. — retribuiu com um olhar impassível, saindo pela porta sem olhar nem cumprimentar ninguém a mais.

O jovem russo notou que David olhava os passos do irmão mais novo com tristeza e afeição, mesmo após por ele ignorado. John suspirou. Todos seguiram para os chuveiros como se nada houvesse ocorrido, deixando Adam confuso. Concluiu que aquela cena havia se repetido muitas vezes antes de sua chegada ao instituto.

Os rapazes escovaram os dentes e usaram os chuveiros lado a lado. Todos eles mantiveram-se em silêncio durante todo o tempo, até mesmo John, cujo ânimo da manhã havia desaparecido. Adam pensava, com muito cuidado, se deveria ou não perguntar sobre Eli, sobre como perguntaria e em que momento. Pelo que David havia dito no refeitório, Eli afastou-se dos irmãos e passou a ter um grupo desordeiro como círculo de amizades. Aparentemente, David não pôs sobre o mais novo aquele olhar apenas por afinidade fraternal. Havia, também, remorsos.

Algo que Adam custou a perceber, enquanto sentia a água morna do chuveiro sobre si, era que estava à vontade em banhar-se sem privacidade. A parede divisória era alta o bastante para esconder o necessário. O banheiro estava cheio de alunos àquela ocasião, e ele realmente não se importava. Não olhava para ninguém e ninguém o olhava, o que era suficiente para deixar de lado a timidez.

Adam usava o chuveiro logo ao lado do qual John usava. Embora a meia parede fosse suficientemente alta, lembrou-se que John possuía uma altura consideravelmente maior que da maioria dos amigos. Uma curiosidade em olhar para o lado, apenas para checar se a meia parede também servia para o mais velho, assolou o russo enquanto passava as mãos nuas pelos cabelos sob a água. Moveu os olhos para o lado lenta e discretamente...

Sim, a parede servia. Ficaria visível se, e apenas se, se inclinasse para o lado o bastante para conseguir ver.

Adam percebeu os olhos de John se movendo, e olhou para frente outra vez instintivamente, bem a tempo. Seu sangue estava gélido. Continuava lavando os cabelos, procurando agir naturalmente. Não havia tido qualquer má intenção ao olhar para John, mas ser pego dessa forma seria demasiadamente suspeito.

O rosto de Adam queimava. John ainda olhava para ele. Para as mãos marcadas passeando pelos loiros cabelos curtos. Ele havia notado.

O menino olhou para baixo, envergonhado. Ao captar o desconforto por ele causado, o americano desviou seu olhar. Prosseguiram em silêncio.

* * *

O enorme laboratório subterrâneo estava imerso em frio, mas Joy não o sentia. As máquinas apitavam e faziam pequenos sons característicos, mas Joy não os ouvia. Seus olhos mantinham foco, unicamente, no grande monitor que comprovava laços sanguíneos entre ela e seu mais recente protegido. O resultado positivo do teste de DNA.

A semelhança entre ela e Adamska deixava muitos pontos entregues. As opulentas maçãs do rosto e a suave concavidade nas bochechas que compartilhavam... Os lábios, que possuíam o mesmo formato, sendo os dele ligeiramente mais belos, brilhantes e fartos; uma vantagem herdada do pai. Boss, inconscientemente, esboçou um meio sorriso ao pensar neste curioso detalhe. Os olhos de Adam, muito azuis, um tanto acinzentados, foram por ela herdados. Os cabelos loiros, tão mais claros que os dela, que o pai também proporcionou.

A veracidade do fato de Adamska ser seu filho tomado não era uma tão grandiosa surpresa. Como mãe, Joy já sentia isso em seu sangue, em seus ossos, em seus instintos naturais.

Mas, da mesma forma, ter tal comprovação a fazia sentir coisas indefiníveis. Uma mistura intensa de sensações boas e más.

Joy podia sentir mais uma vez a agitação em seu coração no momento em que desembarcou na costa da Normandia em 44. Naquele dia, carregava em seu ventre tudo aquilo que havia restado de seu amor. O que tinha em mente quando decidiu participar daquele sangrento embate, carregando dentro de si o maior tesouro que possuía?

Estava cega pela devoção ao dever, ao país... Uma devoção que jamais mudou e jamais mudaria.

Em Junho do ano de 1944, a Segunda Guerra era como uma bomba em seu ápice que explodia sem previsão de término. Joy era uma bomba relógio que poderia explodir a qualquer instante. Estava no nono mês de gestação, e foi à luta no Dia dos Dias. Participou da batalha ao lado de seus maiores companheiros: Pain, End, Fear, Fury... Sorrow.

Sorrow havia morrido muito antes do Dia D. O confidente de Boss e seu melhor amigo. Aquele a quem ela havia entregado seu amor. O pai de seu único filho. Um homem morto, por suas próprias mãos, graças a uma missão a ela entregue.

Sorrow, em vida um médium, auxiliou na batalha como podia também em sua forma espectral. Ele podia comunicar-se com os soldados mortos e estar em todos os lugares. Podia ver o posicionamento inimigo. Porém, apenas Joy podia vê-lo e ouvi-lo. O temor nos olhos vermelhos de seu espírito, sob aqueles óculos com uma das lentes em pedaços... Sorrow pressentia o que estava por vir.

Sempre devota aos seus deveres. Sempre.

A dor lacerante. O projétil que a atingiu, tão próximo do filho que carregava. O desespero de seus companheiros. A lágrima de sangue no olho de Sorrow, a dor que compartilhavam. Boss não se importava com a dor ou com a morte; desejava, apenas, ter seu filho a salvo.

O corte improvisado, sujo, irregular, atravessando-a do peito ao fim do ventre. Seu filho, coberto por sangue cuja origem não distinguia, chorava e gritava a plenos pulmões nos braços de End. Tão lindo... Tão cheio de vida...

Escuridão. Pensava que a morte a havia levado naquele instante, e se foi com a alma leve por ter seu filho a salvo. Acordou no dia seguinte com uma grande cicatriz em forma de cobra em seu tronco, cheia de pontos, rubra, recente. Tamanha era a dor, mas implorava por seu filho. Estava tão devota a sua cria quanto devota a suas responsabilidades. Soube que a batalha havia sido ganha. Vitória dos Aliados, e essa informação não a ela era relevante. Comemoraria com seu filho em seu seio.

Então, os Philosophers...

Uma condição foi recebida: assistir à morte de seu doce bebê, ou entregá-lo. Ela nem mesmo teve tempo de escolher um nome, e o viu partir. Desconhecia os propósitos que seriam dados a seu filho, mas se esta era a condição para que permanecesse vivo...

Nenhuma dor antes sentida superava a desta perda. Nenhuma.

“Em 06 de Junho de 44, Adam havia nascido. Após 14 anos, neste mesmo dia, Adam retornou para mim.” Joy pensava, de olhos marejados. Sentia sua cicatriz arder como fogo. “Deus... Ele nem mesmo sabe o dia de seu aniversário.”

— Joy? — a cientista, de curtos cabelos platinados e óculos escuros, exibia preocupação. Passava a mão sobre o ombro da superior carinhosamente. — Você está bem? Digo... Precisa se sentar? De uma água, ou de...

— Strangelove... — Joy saiu brevemente de seus devaneios, com um novo objetivo em mente. Sorria para a outra mulher, afetuosa. — Não se preocupe, estou bem. Obrigada por fazer o teste para mim.

— Sempre a seu dispor. — retribuiu com um sorriso de similar ternura. — Prometo que sairei um pouco do laboratório para ver seu filho. Em algum momento.

— Faz muito bem... Você trabalha demais. — olhou para a porta de saída, vagueando por seus pensamentos. — Vejo você em breve, preciso fazer uma importante encomenda agora.

Joy não poderia preencher todo o tempo perdido com gestos. Mas, enquanto houvesse tempo suficiente pra levar felicidade ao seu filho, o faria.

* * *

Adam, junto a seu mais novo grupo, saía do grande galpão após seu primeiro café da manhã no instituto. Havia enlouquecido com as peculiares frutinhas azuis, cujo nome descobriu por ser blueberrys, que foram postas junto aos cereais. Eram bem azedas e docinhas ao mesmo tempo. Mais uma novidade americana que apreciou.

O sinal indicava o término do tempo livre da manhã e a chegada das 9:30h, onde as aulas do dia teriam início. Durante o tempo antes e após a primeira refeição do dia, Adam esteve sentado sob uma árvore com os companheiros, escutando os assuntos aleatórios e as brincadeiras bem humoradas. Desejou participar das conversas, pois se sentia bem com aquelas pessoas, mas não o fez.

O russo sentia perdurarem os olhares de John. Não sabia se era ele quem estava sendo observado, ou somente suas mãos cobertas pelas luvas rubras. O mais velho também esteve pouco comunicativo, e era notável o sentimento de incômodo em suas feições. John tinha curiosidade em saber a razão das queimaduras, Adam reconhecia.

Não teria problemas em explicar a origem daquelas marcas. Apenas, mediante a horrível condição que as queimaduras deixaram suas mãos, Adam não desejava que mais ninguém as visse por tempo demais.

O grupo e outros muitos jovens e crianças seguiam rumo, de várias partes do campus, para os blocos A, B e C, num aglomerado confuso de alunos. Hal, David, Kaz e John despediram-se de Adam, tomando rumo ao C, o bloco do Ensino Médio. Restaria apenas Ahab para acompanhar Adam ao B, mas ele havia desaparecido desde os chuveiros.

— Snake! — Adam ouviu à distância uma voz fina e infantil, enquanto aproximava-se das escadas marmóreas da entrada de seu prédio. Transparecia inocência e pureza.

Adamska parou onde estava e olhou em volta, buscando pela origem daquela voz repleta de doçura. Uma menininha bem pequena corria desengonçadamente pelo pátio, de encontro a John, com os braços abertos e carregando um sorriso amável no rosto. Ela, provavelmente, era aluna do primeiro ano do fundamental inicial a julgar pela aparência e altura. Possuía loiros cabelos medianos, ondulados e volumosos. Suas feições eram delicadas, de uma beleza inigualável, e tão fofa que merecia carinhosos e apertados abraços.

John, ao perceber a aproximação da menina, sorriu e a aguardou também de braços abertos. Abraçou-a protetoramente em sua chegada, erguendo-a facilmente do chão, feito uma boneca de pano. A menina era dona uma risada graciosa, que contagiava.

— Bom dia, Paz — John pôs a criança de pé no chão outra vez, e bagunçou seus cabelos.

— Segui seu conselho, Snake — sorria sem parar, dando alguns pulinhos involuntários. — Fiz um amigo, o nome dele é Chico, ele... — olhou para o prédio A, notando a aglomeração crianças do Fundamental Inicial se dissipar. — Vou me atrasar...

— Então, corra. — John sugeriu, passando uma das mãos no cabelo da menina novamente, desta vez para arrumá-los. — Depois você me conta, tudo bem? Estou orgulhoso de você.

Os acentuados olhos azuis de Paz brilharam. Abraçou John ternamente pela última vez e correu de volta para a entrada do A, a bolsa transversal abarrotada de materiais sacudindo em seu corpo pelo caminho.

Adam sorriu, comovido com a situação num todo, e tornou a seguir seu rumo.

Em seu estômago, Adam sentia embrulhos e cócegas de ansiedade enquanto caminhava pelo interior do B. Salas de aula para todos os lados, algumas repletas de alunos e outras cujos alunos ainda estavam por vir. Não sabia exatamente como seriam as aulas das tão variadas matérias do cronograma, ou o que nelas aprenderia. Temia ser advertido por suas letras terríveis, grandes e tortuosas.

Olhava para o verso do mapa da instituição entregue por Joy a todo o momento, subindo largos lances de escada que pareciam não ter fim. Todos teriam aulas numa mesma sala durante todo o ano, para não ser necessária uma grande movimentação pelo prédio a cada troca de tempo e para evitar desordens generalizadas pelos corredores.

No terceiro andar, ofegante por subir tantos degraus, Adam enfim havia encontrado a sala correta. Sala 911, do último ano do Fundamental Final. Adentrou-a, trêmulo, seguido de outros jovens que iam diretamente para seus devidos lugares. Buscava agir naturalmente, para não demonstrar a insegurança sentida, e escolheu uma das carteiras escoradas na parede onde ficavam as janelas. Tais janelas, semiabertas, enviavam uma fresca brisa em seu rosto, amenizando o calor.

Adam notou meninos e meninas que utilizavam boina as removendo e as guardando sob a mesa no momento em que se sentavam, e repetiu o gesto. Poderia ser mais uma regra ética de Cobra Unit, e decidiu não arriscar. Batia levemente os dedos enluvados na lateral da cadeira, tenso. Olhou ao redor sutilmente para analisar os detalhes da sala.

Havia cerca de quarenta carteiras ao todo, completamente de madeira envernizada e organizadas em fileiras simétricas. O local onde o professor, na ocasião ausente, se sentaria à escrivaninha de ébano ficava acima de uma baixa plataforma de madeira clara, com um palmo e meio de altura. Um imenso quadro negro, inteiramente limpo, aguardava por ser preenchido com ensinamentos. Alguns dos alunos, principalmente as meninas, conversavam discretamente, sentados em carteiras próximas.

Adam sentia-se solitário. Nenhum de seus amigos poderia acompanhá-lo na classe. Nem mesmo Ahab, que era de sua mesma série, pois teriam aulas em salas diferentes. Apoiou o cotovelo sobre a mesa e repousou o rosto sobre a palma mão, para olhar pela janela. As folhas das árvores do campus e da floresta fora das grandes cercas moviam-se ao vento, harmoniosas. Graciosos pássaros voavam pelo céu muito azul e sem nuvens. O fino couro da luva confortava sua bochecha.

— Não basta tentar roubar minha cama — Eli o segurou bruscamente pela manga da camisa. — Também tenta roubar os meus irmãos. E, agora, a minha carteira.

Adam sentiu sua tranquilidade e paciência indo pros ares. Removeu a mão de Eli de seu ombro com cuidado e inspirou profundamente para manter a calma que lhe restava.

— Não quero magoar Joy por sua causa outra vez, Eli. — muito se esforçava, mas não conseguia conter a irritação em seu semblante. — E sei que as carteiras não tem dono específico. Se assim fosse, Joy teria avisado.

— Então você quer roubar a Boss, também? E o que mais? — falava exaltado. Socou a mesa de Adam, exasperando sua ira. — Quer roubar minha identidade?

— Jesus Cristo... — Adam apertou a ponte do nariz entre os dedos, de olhos cerrados. O nervosismo aquecia seu sangue. — Eli...

— Saia da minha mesa. Afaste-se dos meus irmãos. Fique longe da Boss.

Em seu cúmulo, Adam entreabriu os lábios prestes a iniciar uma ríspida discussão. Foi interrompido ao mesmo tempo em que todas as atenções da sala se voltaram para The Fear, que adentrou o recinto feito uma aranha pela janela próxima à mesa de professor. Cravou os pés com um baque oco no patamar de madeira e caminhou com o mesmo barulho ecoando pela sala, silenciosa desde sua chegada, a cada passo. A longa língua réptil de Fear esteve exposta por alguns segundos antes de ser retida novamente em sua boca, causando expressões de repulsa nas meninas.

Por mais estranho e assustador que Fear parecesse, Adam achou tais habilidades espetaculares — ou, melhor dizendo, assombrosas. Fear descansou sua besta sobre a escrivaninha e tirou um giz de seu bolso, pondo-se a escrever no quadro negro sem rodeios e sem cumprimentos à turma. Um excêntrico professor de Ciências Biológicas e Sobrevivência em Ambiente Selvagem.

— Eli, vá se sentar. — Fear exigiu, sem mesmo precisar olhar para trás.

— Há alguém ocupando meu lugar. — Eli cruzou os braços, ainda que Fear não estivesse o olhando. — Estive sentado no mesmo lugar desde o início do ano, não é justo alguém que chegou a menos de um dia o tirar de mim.

— Isso não é da minha conta. — olhou de soslaio para Eli, sem parar de escrever um segundo sequer. — Procure outro lugar, Cachinhos Dourados.

Alguns jovens na sala riram discretamente e em baixo tom. Eli ajeitou a bolsa com brutalidade em seu ombro e rumou para outra cadeira qualquer, aceitando forçadamente a condição. O russo reencontrou sua paz interior. Prosseguiu todas as demais aulas em silêncio, transcrevendo tudo o que era passado para as folhas do caderno cuidadosamente, buscando por uma letra que julgasse adequada.

* * *

Não podia ser medida a satisfação que Adam sentia após suas primeiras aulas. Estava empolgado com os ensinamentos a ele passados, sedento por mais variações de conhecimento. The Fear mostrou-se, surpreendentemente, um ótimo professor: claro e direto em suas explicações, com o talento de manter todos atentos e curiosos ao que dizia.

Adam notou que nenhum dos professores vistos pela manhã foi interrompido ou incomodado durante as aulas. Silêncio e respeito aos profissionais em sala fazia parte do código de conduta de Cobra Unit.

A aula de Fear teve como tema “Frutas, Raízes e Animais Venenosos – O que não se pode consumir em casos extremos”. Inebriante era o aroma de conservação do livro didático consultado, passado de mão em mão por muitas outras turmas em anos anteriores, cheio de páginas com várias figuras.

As seguintes aulas, nos seguintes tempos, foram ‘História da Humanidade’ e ‘Conhecimentos Geográficos’, lecionadas por professoras nada peculiares. A professora de História parecia perfeita para ensinar tal matéria: tão velhinha e pálida que poderia ter sido exposta num museu de cera.

Adam saiu faminto da sala de aula ao toque do intervalo. Podia sentir o aroma da comida vindo do refeitório não muito distante, embora não o pudesse identificar. Ao ter passado pela porta, Eli propositalmente chocou-se contra ele, quase lhe tirando o equilíbrio. Adam buscou ignorá-lo, esfregando o ombro para aliviar a dor.

Considerava o loiro americano mais como um incômodo que como uma razão a se temer. Seria realmente irritante se fosse perturbado por ele todos os dias, ainda mais o tendo como colega de quarto e de classe.

Pelo corredor, Adam enfim avistou Ahab. Saía de uma sala a certa distância, seguido por uma garota de cabelos castanhos bem presos num rabo de cavalo, com uma franja lateral sobre a testa. Ahab fez alguns gestos com as mãos para a garota, que respondeu gesticulando similarmente, numa comunicação única que Adam não compreendia.

Olhavam-se com evidente ternura. Ela sorriu ao fim da conversa manual, encabulada, e entregou a bolsa em seu ombro para que o rapaz segurasse a de ambos. Uniram as mãos e, juntos, desceram as escadas. Se pudesse, Ahab a carregaria também.

Adam repôs a boina, dando por falta de usá-la. Foi cercado pelo frescor dos ares da tarde ao descer os degraus para o exterior do prédio. Um tanto ao longe, avistou um chamativo brilho solar nos óculos escuros de Kaz. O recente grupo de amigos de Adam reunia-se a caminho do refeitório, e o russo começou a segui-los em passos largos, segurando a boina para que não voasse de sua cabeça.

Próximo o suficiente, Adam desacelerou seus passos. Havia tido uma genial ideia de vingança, com um sorriso triunfal estampado no rosto. Aproximou-se mais de John, discretamente, e deixou um forte tapa em seu ombro, gerando um estalo.

No segundo seguinte, John virou-se bruscamente para ele e agiu tão rapidamente que Adam mal pôde acompanhar os movimentos. Teve o braço seguro e puxado pelo mais velho e sentiu-se chutado na panturrilha, de modo a ter o equilíbrio roubado, e viu-se dolorosamente de costas para o chão com um baque. Os músculos de todo o corpo latejavam. Contorcia-se abraçando a si próprio, estirado sobre o solo pavimentado, buscando conter a dor da colisão. Estava incapacitado de manter os olhos abertos perante a agonia.

— Mas que droga é essa, Snake? — Kaz questionou, combinando repreensão e surpresa. Aproximava-se de Adam para tentar ajudá-lo a reerguer-se.

— Tentar atacar uma serpente não é uma ideia muito boa, Adamska — zombou David, também se aproximando para ajudar. — Mesmo sendo uma serpente desprevenida.

— Vou me lembrar disso da próxima vez. — pôs-se de pé com o auxílio. Enxergava estrelas em torno de sua cabeça.

— Isto foi uma pequena demonstração de CQC, para você que tinha curiosidade. — John possuía um grande sorriso, que não demonstrava qualquer culpa.

— Muito obrigado pela demonstração, John. — espalmava o corpo, ajeitando as roupas, ainda estonteado e dolorido. — Precisava mesmo disso?

— Desculpe, cowboy... Foi o instinto. — pôs-se ao lado do jovem russo e cobriu-lhe os ombros com o braço esquerdo. — E precisava, sim. Eu teria feito a mesma coisa se tivesse visto que era você.

Adam cruzou os braços, aborrecido. Posteriormente, o sentimento dissipou-se, e sentiu pontadas no rosto. Lembrava-se de John ter visto suas mãos marcadas e de quase ter sido pego o olhando nos chuveiros, ainda que inocentemente. Voltou o olhar para uma direção qualquer, questionando-se mentalmente se John perguntaria sobre as queimaduras ou se consideraria como um detalhe do qual ele se incomodava em comentar.

— Chegou a ver Ahab pelo caminho, Adam? — Kazuhira perguntou. Os óculos cintilavam.

— Ele estava com alguém. — Adam retornou ao seu estado de tranquilidade. John ainda tinha um braço sobre ele. — Não quis incomodar... Pareciam felizes juntos.

— Era uma garota? — David perguntou. Um olhar levemente malicioso pairando em suas feições.

— Sim, era. Eles pareciam falar com as mãos.

— Era Stefanie. — Hal pronunciou-se. — Ela é muda. A chamam de Quiet... Por motivos óbvios, eu acho. É uma ótima atiradora, também.

— Ela só pode se comunicar por gestos? — Adam perguntou, impressionado. — Ahab parecia os conhecer bem.

— Ahab quer servir a pátria como médico um dia. — disse Kaz. — Por isso tem Comunicações Não-Verbais como uma das aulas de sábado. Será importante para ele lidar com feridos em situações extremas e incapacitados de falar, no caso de estar em meio a uma guerra.

— Ahab teve sorte. Encontrou uma garota que fala tanto quanto ele. — David, costumeiramente, brincou com a situação.

— Deixe Meryl saber disso. — Hal ameaçou.

— Ei, eu não quis dizer nada. — ergueu as mãos, defensivamente. — Nada contra garotas que falam demais. Não que Meryl fale... — passou a mão pela nuca, constrangido. — Você entendeu.

Hal mostrou-se emocionalmente abatido sob os óculos de lentes grossas. Em seus pensamentos, buscava por maneiras de contornar a incômoda situação em que se pôs. Desejou ter ficado em silêncio.

— Gosto quando Wolf fala. — Hal passou a ter um olhar distante. — Ela diz coisas inteligentes.

— O que você tem é queda por garotas que saibam usar uma sniper. Até fez questão de mencionar essa habilidade em Quiet. — Estalou a língua e cruzou os braços, fingindo uma decepção. — Otacon, Otacon...

— Snake — um desespero tornou-se aparente. — Eu não tenho...

— Sinto interrompê-los, crianças. — o grupo ouviu palavras advindas de Joy, e todos se voltaram a ela no mesmo instante. — Mas tenho algo do interesse de vocês.

Ninguém havia notado sua aproximação. Trazia consigo uma pequena caixa de papelão claro, e a segurava cuidadosamente.

— Boss. — disseram em uníssono os irmãos Snake, em postura de seriedade. John removeu o braço dos ombros do russo.

Adam havia dado especial atenção a este momento. A relação de respeito estabelecida pelos irmãos para com Boss era admirável. Algo a se levar em conta devido à descoberta da importância dada por eles à mentora, após anos por ela resgatados e treinados.

— Fico feliz que meus melhores protegidos tenham se tornado amigos, sem qualquer influência de minha parte. — Joy olhou para os Snakes e, depois, diretamente para Adam, sorrindo francamente. — Você não sabe o dia de seu aniversário, não é, Adamska?

— Sim... Nunca me disseram. — respondeu hesitante. Não compreendia suas intenções.

— Como você chegou ontem em Cobra Unit, o que acha de, deste dia em diante, esta ser a data de seu aniversário? — aproximou de Adam a caixa em suas mãos. — Ontem, foi 06 de Junho. Pode ser esse dia, caso queira... Como se tivesse nascido novamente ao chegar aqui. O que acha?

O momento foi tomado por silêncio sepulcral. Adam a fitou por longos segundos, os olhos claros brilhantes devido às emoções. Sem pensar ou hesitar, abraçou a mentora subitamente, de olhos bem fechados.

Joy precisou segurar a caixa com firmeza, para que não a deixasse cair com o ato inesperado. Adam abraçou-a sem nada dizer, exprimindo toda a gratidão que guardava em si. Não pela comida, pelas roupas novas, ou pela cama para dormir. A gratidão que Adam tinha era pelos gestos de carinho. Assim como outros protegidos de Joy, Adam nunca havia os tido antes de conhecê-la.

Os demais rapazes mantinham os olhares fixos em Joy, a qual permanecia estática. Lentamente, Adam notou que sua atitude não teria retorno. Desfez-se lentamente do abraço, e afastou-se em alguns passos para trás, extremamente constrangido. Ponderou se deveria desculpar-se, chegando a separar os lábios parcialmente, mas a mulher não parecia zangada.

Boss o segurou fracamente pelo ombro, numa tentativa de se redimir, e mostrou-lhe novamente o presente. Forçava um meio sorriso. Adam o segurou com as duas mãos, sentindo o peso e a temperatura fria da caixa através das luvas. O conteúdo possuía uma textura macia e úmida, e exalava um doce e suave aroma, qual fez Adam lembrar-se da fome que sentia.

— É bom que tenha feito amigos. Você não conseguiria comer tudo sozinho. — Joy girou nos calcanhares e olhou para o russo, brevemente, antes de retirar-se. — Feliz aniversário, Adamska.

A partir daquele dia, Joy teria menos de uma semana para partir, sem promessas de retorno. Naquela noite, aliviaria em lágrimas a amargura de anos. Não poderia permitir que seu filho se apegasse a ela. Não poderia agir como uma mãe.

* * *

Notas finais
Ignoro completamente a missão Date With Paz. A relação que imagino de Paz para John é a mesma relação de John para The Boss e ponto final ;-;