Sonho toda vez com você...
Mas, a cada vez que aproximo-me de ti, toco seu lábios, acordo...
Acordo num mundo monocromático e sem vida...
Onde atos rudes são melhores que palavras elaboradas...

...

Estarei eu sonhando que estou num mundo sem vida?
Ou estou sem vida, sonhando que estou num mundo cheio dela, com você ao meu lado?
------- Mariadne, "Pétalas de Riverdia"

ACORDOU COM O CHEIRO DELA ainda impregnado em suas vestes, o calor suave de seu corpo ainda se mantinha preso nas fronhas bagunçadas e no edredon enrolado em um pequeno monte ao seu lado. Seu bíceps ainda estava dormente pelo peso que sua cabeça fazia ao dormir sobre ela, não importava o fato de existir um travesseiro fofo para ela, ela só sentia-se bem, a ponto de relaxar o estresse do dia-a-dia da pequena clínica, em seu braço. Levantou seu dorso devagar, sua coluna estalara devagar, estalos secos de falta de exercícios. Franziu a testa ao sentir aquela velha pontada de dor na têmpora esquerda, fazer massagem ali apenas aliviava a dor, mas ela nunca desaparecia. Continuava lá sempre como uma fantasma a atormentá-lo. Passou a língua sobre o lábio ressecado, ela já reclamara que dormia "feito um boquiaberta", mas nunca conseguira deixar de respirar pela boca enquanto dormia. Sentiu o gosto dos lábios dela sobre os seus, o gosto de um beijo recente, talvez dado enquanto dormia. Respirou fundo, muito fundo, absorvendo todo o cheio mesclado de umidade, de madeira, de suor e calor humano. Cheiro deles dois. Sorriu, lá fora uma chuva pesada caia trazendo consigo uma expeça neblina.

Moravam os dois numa cabana de madeira ao norte de uma pequena cidade de 500 habitantes, no início de uma pequena colina. Cercados por árvores e plantas silvestres exóticas, algumas trazidas para lá por ele mesmo, entre uma ou outra de suas viagens com ela pelo mundo. A água no telhado de madeira fazia sons ecoarem lentamente, lentos e profundos, ritmados numa mesma freqüência de notas pelo quarto, como se houvessem construído aquela cabana ao lado de uma cachoeira. Levantou-se devagar, mancando caminhou até sua escrivaninha. Estava toda bagunçada, papéis que um dia foram brancos e limpos estavam amontoados numa pilha amassada após serem rabiscados, rasurados, redigidos e re-redigidos após uma fúria de criatividade por sua parte. Havia tempo desde que lançara seu ultimo livro Pétalas de Riverdia, e mesmo este não sendo um best-seller como seus últimos dois livros, era seu favorito. Pelo menos era o mais profundo na escolha das palavras e na forma de construção das metáforas. Os lápis sem ponta estavam caídos sobre o chão, pedaços de borracha amontoados num pequeno ninho de rato ao lado da lamparina de querosene. Abriu uma das cortinas na janela que ficava logo acima da escrivaninha, ficou ali olhando os pinheiros sendo abraçados por aquela massa esbranquiçada, que aos poucos iam consumindo-os de sua visão, como um câncer que em metátese espalha sua chaga pelo corpo, até sumirem totalmente. A água batia no vidro em estalos forte e graves igual ao som de pequenas pedras quando tacadas na janela noturna, conforme os ventos fortes mudavam completamente de rumo.

Colocou os chinelos de crochê que Mônica havia feito para ele de amigo secreto, que embora adorassem brincar disso todo fim de ano, só os dois, costumavam chamavam a brincadeira de amigo secreto pelo fato de ser sempre um presente que surpreendia. Ano após ano, a sensação de que nunca aquela relação iria se desgastar permanecia forte, pelo menos na parte dele. Foi até o espelho devagar, ainda sonolento segurava a coxa esquerda a cada passo que dava. Mas não pensava na dor da coxa acidentada quatro anos atrás, e sim pensava nela... e no seu novo livro. Era engraçado, passara quase um ano sem escrever nada, nem um conto, poema nem nada. Se dedicara totalmente a cuidar do jardim de casa e ajudar nos trabalhos e pesquisas de Mônica. E ontem após terem tido um jantar romântico à luz de velas, ou como ela disse "tiveram O jantar", a velha máquina dos sonhos voltara a funcionar a todo vapor. Olhou para o espelho e viu escrito

" EU TE AMO minha delícia gelada."

com um batom rubro e uma marca de seu lábio inclinado num beijo sobre a superfície prateada, sua caligrafia era leve e bem delicada, assim como sua personalidade.

Hal deixou um risinho escapar e imaginou-a escrevendo aquilo e beijando o espelho, não pode conter uma certa excitação fluir abundante do centro da bexiga, fazer seus colhões enrijecerem e aquele bem-estar percorrer o corpo como uma onda suave. Escovou os dentes e saiu do quarto apoiando-se na palma da mão esquerda nas paredes do corredor ao caminhar coxeando. Nas paredes estavam pendurados pequenos quadros com fotografias em preto-e-branco tirados por Mônica. Fotos de paisagens e de momentos especiais quando jovens, quando tomados por aquele instinto de descobrir seu verdadeiro eu. De quando saíram em peregrinação pela Europa, Ásia e oeste da América. Os dois como uma matilha pessoal, um macho alpha e uma fêmea alpha, donos do próprio destino naquela aventura perigosa em busca de uma realização pessoal e há quem possa lhe dizer, espiritual. Ele, um jovem professor de Filosofia com sérios problemas burocráticos e de saco cheio de dar aulas para, o que dizia sempre ser, seres ignóbeis sem recuperação e ela, uma jovem médica precisando de férias urgentes e a ponto de um surto psicótico. Dois jovens espíritos livres em busca de seu nirvana, que por sinal se instalava ali naquela pequena cabana no meio do nada.

Ela estava sentada ao lado da porta, numa cadeira de balanço e cobrindo seu corpo com um xale de lã, feito pela dona Heatherway, a costureira da cidade como agradecimento por ter ajudado-a a tratar seu reumatismo. Caminhou devagar e acocorou-se com dificuldade ao seu lado, olhou para seu rosto e sentiu um desapontamento perfurar-lhe o peito como uma lança áspera. Seus olhos estavam inexpressivos, distantes e as bochechas estavam um pouco brilhantes. Achou que... não, tinha certeza que estava chorando até agora pouco, talvez ouvira seus passos ecoarem pelo assoalho de madeira e tentara-os limpar rapidamente, mas de qualquer forma sentia sua tormenta, aqueles olhos não enganavam-no jamais.

— Sentes falta da cidade grande, não é querida? — disse Hal devagar, olhando fixo para seu rosto. Mônica olhou para ele com uma certa surpresa que estava bem habituada, mas mesmo assim lhe causava um pouco de espanto toda vez que acertava no que pensava. Nunca conversaram a fundo sobre isso, mas Hal tinha essa habilidade de adivinhar o que os outros pensavam, apenas de olhar para suas expressões. Um sexto sentido empático para essas coisas.

— Ié... As vezes, dá um aperto no coração de lembrar da correria do dia-a-dia. Aqui é muito calmo, as pessoas muito gentis, prestativas. Perfeitas até demais, Hal — Mônica olhou em seus olhos castanhos e sentiu a profundidade dos sentimentos daqueles olhos que tanto a amavam. — Sinto um pouco de falta da intolerância alheia e do egoísmo da cidade grande.

— Você estava chorando.

— Mas só um pouco querido. — suspirou devagar e olhou para lá fora, para a chuva que caia intensamente sobre a terra e as plantas. — Estava pensando agora que se não fosse por nossa loucura de viajar por ai a fora, sem se importar com dinheiro, roupas e outras coisas a mais, viver por ai como peregrinos a moda antiga e como você sempre fala, "absorver as culturas e nos fundirmos a elas". Acreditava que ainda estaria naquela vida desgraçada de sempre, fazendo plantões de mais de doze horas e me dopando de psicotrópicos para agüentar a pressão.

— Sei... — Hal levantou-se cambaleando um pouco quando a perna esquerda fisgara de dor, para dar um beijo na testa de Mônica, mas ao chegar perto, ela tirou o braço de debaixo do xale e pôs o dedo indicador em sua boca.

— Agora não Hal, agora não. — por um momento Hal teve que conter sua vontade de morder aquele dedo, como um felino que odeia quando o dono aponta-lhe o dedo. Respirou fundo e ficou em pé. Olhando para a parede, para o papel de parede de tonalidade cremosa e tentando imaginar o mundo daquela forma. — Tem chá na mesa, preparei para nós. Mas cuidado está muito quente, não sabia que hora você ia acordar.

— Uhum. — Hal mancou até a cozinha, que era o maior aposento da cabana, passou pela batente arrastando consigo as correntes de miçangas que estavam penduradas do topo até quase perto do chão, no lugar de uma porta. Colocou o chá em duas pequenas xícaras, uma delas estava a estampa de um homem velho com sua bengala e uma das mão na coxa e os dizeres "Meu Futuro" escrito logo embaixo. Mônica odiava aquela caneca, mas Hal adorava o humor negro que existia naquela imagem, quase como uma forte piada interna. Uma piada ácida e irônica de seu futuro pós-acidente. Voltou devagar com cuidado para não derrubar o chá ao dar seus passos desajeitados, colocou entregou uma das xícaras nas mãos de Mônica e tentou sentar-se ao lado dela apoiando as costas na parede, a pequena textura do papel de parede rangera como papel sendo amassado ao friccionar sua coluna nela.

— Coloquei duas colheres de açúcar no chá cinza para não tirar o gosto característico dele. Tudo bem?

— E você colocou as cinco colheres de açúcar de sempre no seu, não é Hal? — disse Mônica enquanto começava a assoprar seu chá e girar o líquido com a pequena colherzinha de prata. Hal não percebera que seu rosto ficara absurdamente avermelhado. Vergonha, sentia vergonha de Mô, às vezes ela era tão sagaz em suas respostas que o deixava sem o ímpeto de poder sequer dar uma desculpa. Ficou ali meio torto tentando sentar-se e esticar a perna esquerda repousando-a inteira no chão, enquanto o joelho da outra perna serviria de apoio ao pires da xícara.

Ele na verdade odiava o chá cinza que Mônica forçava-o tomar todo santo dia. Alegava sempre que cinco colheres de açúcar eram o que podia chamar-se forma de adoçar o amargo da vida. Descobriram aquele chá quando passaram a noite na casa de uma velha russa. O gosto amargo e a ligeira sensação de formigamento após engolir o líquido eram as marcas mais fortes daquele chá de aparência acinzentada, tomaram ele para tentar pelo menos suportar aquele frio desgraçado menos trinta graus Celsius que estavam no dia, já que a pobre velhinha não possuía vodca em seu pequeno estabelecimento. Desde então tomavam aquele chá como um ritual matinal, ela porque adorava o gosto, ele porque era arrastado a isso no final das contas.

Hal olhou para ela, sua boca fazia um pequeno biquinho, o lábio superior sobre o inferior exalando o ar para baixo num pequeno assobio. Os olhos distantes, desinteressados olhando a chuva que caia sem parar lá fora. Sem perceber levara a xícara a boca, distraído. Ah! A sensação de ardência viera como uma faca, a língua gritara e se contraíra ao chá quente tocar suas papilas. Hal dera um grito e xingou o chá, balançou a xícara que estava no seu joelho e derramou um pouco no chão, suficiente para deixá-lo emputificado. Mordeu a língua e fizera uma careta franzindo a testa e entortando um pouco a boca para direita. Mônica olhou para ele assustada com o grito que quebrara seu fluxo de pensamentos e rira da cara de "estou puto com a vida" de Hal, Hal não era o homem mais exuberante que existia na face da terra, mas ela tinha que admitir, quando acordava sua face era uma das mais bonitas, achava seu estilo de desleixado quando acordava uma das coisas que lhe mais lhe atraía nele, e lógico, suas caretas eram simplesmente fantásticas. Naquele momento estava vendo a mais perfeita personificação de um cartoon.

— Eu disse que estava quente Hal, não sabia que você iria acordar tão ced... -

— Uqui fô-qui fiz agóra? — perguntou Hal ainda fazendo aquela careta, a ponta de sua língua agora começava a se sentir entorpecida e sem paladar, seus olhos encheram-se de lágrimas, o que deixavam-no com uma cara de cachorro pidão.

— Nada... — Mônica rompera em um acesso de riso mais forte ainda, uma risada que mais poderia ser confundida com uma gargalhada insana. — Só a sua cara. Ahahaha! — Hal sentira uma satisfação quase que imediata ao ver Mônica sorrir, geralmente tinha vergonha de seus aparelhos dentários, dizia sempre que não combinava com seu rosto, mas para ele aquele sorriso era perfeito, com ou sem Os Malditos Ferros como ela costumava dizer sempre que falava do seu sorriso. Riram juntos e Mônica percebera que ele estava muito fixo em seu sorriso, encabulada tentou disfarçar, mas não era mais possível, meio ocultadas pelas pequenas sardas, as maçãs do rosto já estavam completamente avermelhadas. O relacionamento dos dois era sempre assim, não importava o tanto de tempo que passaram juntos, sempre seria semelhante ao relacionamento entre dois adolescentes. Engraçado, mesmo quando não tem graça alguma.

— E a perna darling, como está hoje? — perguntou Mônica após passarem algum tempo se encarando e ao desviar o olhar um pouco, perceber que a mão esquerda de Hal massageava lentamente a coxa, num movimento de vai e vem.

— Dói pra diabo nos dias frios Mô. Mas tudo bem, já me acostumei. — respondeu Hal torcendo a boca ao sentir a perna dar mais algumas de suas benditas pontadas lacerantes. — Espero eu...

Ficaram quietos por um tempo, ela balançando na cadeira de balanço que rangia e estalava como galhos secos, absorta em seus profundos pensamentos, ele sorvendo devagar o que sobrara do chá e ouvindo atento ao barulho da chuva mesclando-se com o som do relógio-cuco no corredor, tique-taqueando como um metrônomo dentro d'água. Era sempre assim quando tocavam no assunto do estado de sua perna, a culpa foi exclusivamente dele, mas parte dela se sentia também responsável por ter levado-o para perto daquela ribanceira. Ele, como sempre feliz, pedira para que tirasse umas chapas com sua câmera Laica. No começo achara que era uma bobagem tirar uma foto naquele local, mas Hal insistira tanto que acabara cedendo a sua vontade. Hal se aproximara da ribanceira e fizeram um comentário engraçado e ela rira, e então ele perdera o equilíbrio ao curvar as costas para trás, caíra rolando ladeira abaixo e sua perna chocara-se contra uma rocha, que havia lá no final, onde o terreno nivelava-se. Fraturara o fêmur e seu reto femoral fora comprometido devido a demora ao atendimento chegar e os primeiros socorros fossem feitos. Mas isso eram apenas más memórias que Hal tentava evitar de lembrar.

O dia estava tão calmo, ele sabia de uma coisa que lembrava muito aquela situação, porém no momento não lembrava de jeito nenhum. "Mas o que era mesmo? Brisa suíça? Suína? Lacuna suíça? Ah, inferno." Hal suspirou alto e coçou a cabeça enquanto sussurrava algo, desde o acidente sua memória havia sido de certo modo afetada, sua memória recente não era mais a mesma no começo, agora depois que essas dores de cabeça começaram a aparecer, lembrava-se de coisas como num relâmpago maligno. Mas essa dor era a mais forte que já sentira, era como se uma fenda magmática se rompesse dentro de seu crânio e dela fluíssem memórias, rojando e ejaculando palavras sonorizadas e imagem fragmentadas. Levou a mão direita ao olho e sentira o tremor forte tomando conta de seu ser. Essa era uma memória forte demais.

— Delícia? O que houve meu bem? Hal?! — Mônica deixou a xícara quase terminada no chão e ficou de joelhos ao lado de Hal, suas mãos repousaram em seu ombro e antebraço. Sua face havia se tornado séria, como a máscara profissional que veste enquanto está como doutora Schwing, na pequena clínica. — Hal, me responda...

Svi-kvnah...

— Hã? O que você disse? O que você está sentindo Hal? -

— Era isso Mô... -

— Isso o quê? -

— Foi mais um daqueles meus lapsos de memória reversos. — ele gostava de chamar aqueles ataques de lapsos reversos, porque era assim que ele sentia-se, como um velho sofrendo de ahlzeimer regenerativo que ao invés de embaralhar e fragmentar as memórias, juntava-as e colocava um sentido no grande quebra-cabeça. — Mas esse foi forte demais, parecia que minha cabeça ia rachar em quarentas cabeças Halianas. Mas estou bem, não se preocupe.

— Tem certeza, querido? Está tudo oks mesmo? — Mônica sentiu um certo alívio ao ver o sorriso irônico desabrochar como uma flor preguiçosa no rosto de Hal. "Ié, ele está normal, mas mesmo assim... Mesmo assim"— Não me dê outro susto como esse de novo! Eu te proíbo garotão! — disse dando uma risada nervosa e abraçando um de seus antebraços, não se importou com o chão molhado de chá, nem com o fato de estar apenas de blusa moletom, calcinha rendada e uma meia de cada cor.

— Whoof! — respondeu Hal enquanto passava o braço pela cintura de Mônica e puxando-a para mais perto de si. Ela deu um risinho e apoiou a cabeça sobre seu peito, era uma das piadas mais antigas que os dois mantinham, ele o lupino bobo e ela a felina esperta. Perceberam o certo movimento engraçado da neblina entre as árvores, rodopiavam-nas devagar em sentido horário, depois abriam-se fendas que pareciam engolir como um ritual mágico, e ressurgir como uma forma espectral que toma densidade e se materializa em plano terreno. O temporal tinha um ritmo em larga escala, mantendo o sons proporcionalmente distribuídos pelo local ao bater e ecoar na madeira, no solo e nas árvores. — Svi-kvnah, eles chamam isso de Svi-kvnah.

— Como?

— Lembra de nossa viagem para o Oeste americano? Caminhando pelas montanhas rochosas?

— Uhum, quando nos encontramos com o resquício do que um dia foi aquela tribo Cherokee?

— Exatamente. Os Cherokees chamavam esse tipo de clima de Svi-kvnah.

— Sério? Você nunca me disse nada sobre isso Hal. Nem eles para falar a verdade. — disse Mônica torcendo um pouco a boca. Hal coçou a cabeça devagar, seus olhos pareciam procurar algo no ar, sua têmpora pareciam alguém batendo de leve numa bigorna com seu Mjolnir. Ele começou a falar devagar, seus olhos tomaram uma tonalidade diferente devido ao brilho intenso que parecia fluir de suas íris. Era assim quando começava suas tempestades cerebrais de criatividade, principalmente quando começava a contar uma de suas histórias. Mônica adorava quando ele contava suas histórias, quando jovem era uma máquina de histórias, principalmente quando contava suas histórias de paranóia adolescentes e repletas de terror. Já conversaram sobre isso algumas vezes, mas nunca tivera coragem de dizer que ele era um verdadeiro cagão quando mais novo, porém depois do acidente sua criatividade começou a enguiçar como um motor velho e só agora, depois de um bom tempo, via a face dele alegrar-se tanto por lembrar algo. Aninhou-se um pouco mais em seu braço e prestou bastante atenção em cada palavra que ele falava.

"Ele estava sentado sobre uma pequena pedra lascada e polida o bastante para tomar a forma de um pequeno banco, sentar-se nela não tão era ruim pelo fato de estar coberta pela pele de um Bisão. Uma pequena fogueira em brasa recente queimava e iluminava a pequena gruta, em suas paredes haviam desenhos rústicos de pessoas e animais místicos vivendo em harmonia, mas para ele aquelas sombras que se mexiam como se tivessem vida própria espreitavam-no, esperando o descuido para mergulharem em cima de sua presa. O chefe da tribo estava acocorado na frente da fogueira de costas para a saída da pequena caverna, lá forma o clima estava frio demais e uma densa neblina começava a engolir o centro da montanha onde eles encontravam-se abrigados. Do outro lado sentado sobre um amontoado de sacos de sementes e raízes estava "We-Lah-Tsui", o grande cão vagante, ou Frank como, ele e Mônica, haviam conhecido um dia num bar de estrada. Frank era o típico motoqueiro rebelde com orgulho de ser descendente de uma tribo indígena, usava seus cabelos longos e lisos presos num rabo de cavalo por um elástico tão negro quanto seus fios. Seu rosto possuía a tonalidade moreno-avermelhada de sol e as linhas de expressão de sua face eram fortes e passavam a impressão de saúde inabalável. Hal olhou para trás tentando imaginar o que Mõnica fazia aquele momento numa outra parte da caverna com as mulheres da tribo.

— Não se preocupe jovem, ela está bem nesse momento. Está conversando e recebendo dos conhecimento de nossas mulheres daqui. — disse o chefe da tribo levantando um pequeno cachimbo artesanal feito com um galho seco e molhado em seiva de árvore para impedir que apodrecesse com o tempo. Puxou fundo o ar dentro do cachimbo e uma pequena brasa incendiara a semente que havia na outra extremidade, o cheiro que exalava era suave e de certo modo agradável. — Fazia muito tempo desde que um branco não cruzava as fronteiras imaginárias e nos dizia que queria aprender nossa cultura. Na verdade nem me recordo mais quando fora a ultima vez que isso ocorrera, nem ao menos posso lhe dizer que isso já aconteceu antes.

— Sim, imagino que não há muitos como nós para largar tudo e buscar conhecimento. — A pasta de raiz vermelha que passaram nas maçãs do seu rosto queimavam naquele instante, mas trouxera grande alívio contra a insolação que tomara após caminhar tanto sobre aquele sol escaldante, as montanhas podiam ser cobertas de neve, mas era secas como um terreno semi-árido. Muito mais ainda, pois deixara todo o protetor solar nas mãos de Mônica. Era mais importante ela usar o que ainda restava dele, se ele estava sofrendo tendo a pele um pouco mais escura que a dela, imagina ela que era branca como leite.

— Na verdade há algumas pessoas ainda, mas poucas delas continuam após as primeiras dificuldades. Isso eu admiro em vocês, tão jovens e tão decididos. — o chefe da tribo sorriu e as duas tranças que tinha em seu cabelo, presos por fitas com penas azuis, caiam sobre seus ombros.

— Na verdade todos pensam só porque nós tivemos grandes conflitos com os homens brancos que seremos inimigos para o resto da vida. Alguns chegam até a dizer que comemos criancinhas e estupramos mulheres, oras, somos vistos pelos outros como comunistas na guerra fria. — Frank riu alto e Hal acompanhara-o — Mas a questão é, não somos monstros, por isso que lhes trouxe para essa reserva que nasci Hal. Sinto em vocês a mesma força que possuía quando tinha a sua idade, esse anseio de conhecer e elevar seu espírito acima da maioria, por isso lhes trouxe para cá.

— Agradeço muito pela sua gentileza Frank. E sua hospitalidade de seu povo chefe Wa-ya Nv-no-hi. — O chefe da tribo se sentou e seu sorriso branco era uma das coisas mais verdadeira que havia visto, diferente de quase todos os sorrisos que o pessoal da cidade fazia, aquele sorriso era o sorriso de extrema satisfação e um sorriso de alguém que tem o coração aberto. — Obrigado por dar abrigo a nós forasteiros e abrir suas portas para seu conhecimento.

— Espero que esses meses que passaram aqui tenham lhe iluminado seu caminho mais ainda jovem guerreiro. Saiba que mesmo sendo forasteiro seu coração é também cherokee a partir de hoje. — O chefe pegou um pó de seus bolso numa concha e jogara nas chamas. Numa combustão imediata as chamas se levantaram, rodopiaram e se tornaram verdes e azuladas, chiaram como uma águia ao descer no rasante e como o som de uma baleia ao saltar e cair novamente no mar. Os olhos de Hal encontravam-se quase hipnotizados pela beleza das chamas, lá fora uma chuva forte caia e seu som ecoava como o choro de um animal.

— Svi-kvnah. Coisa rara. — murmurou Frank olhando para o que deveria ser o fraco brilho do luar que batia sobre parte da superfície rochosa da parede externa da caverna, atravessando a espessa camada de neblina que os cercavam. — Acho que a vinda de vocês está sendo uma coisa já dita pelos Tsuni-gayvli-i-yusta-nv. Nossos ancestrais. — Continuou Frank olhando fixo nos olhos de Wa-ya Nv-no-hi, o velho homem meneou a cabeça devagar e começou a cantarolar uma pequena música típica xamãnica da tribo. E Hal pode compreender uma ou duas daquelas palavras, mas uma frase em comum pode compreender, Mônica vivia-lhe dizendo que uma das grande virtudes dele era ser auto-didata em quase tudo, seja em línguas ou em elétrica, ele aprendia muito fácil. O velho falava um trecho da declaração dos direitos universais do homem, trecho que há muito tempo vinha trazendo consigo como filosofia, o que fez abrir um enorme sorriso no rosto.

Nigada aniyvwi nigeguda'lvna ale unihloyi unadehna duyukdv gesv'i. Gejinela unadanvtehdi ale unohlisdi ale sagwu gesv junilvwisdanedi anahldinvdlv adanvdo gvhdi.

"Todos seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direito. Eles são providos de razão e consciência e deve agir uns em relação aos outros num espírito de fraternidade."

Levantou-se e caminhou devagar até Hal, sua coluna estava levemente encurvada para frente e seu rosto enrugado pelo tempo era apenas uma sombra disforme pela localização da luz da fogueira. Agachou-se em frente a Hal e levantou um pequeno cantil de couro preso a sua cintura por um laço e, esticando o braço em sua direção, ofereceu-lhe um gole. Hal agradecera e levara a boca do cantil antigo ao lábios. O líquido escorrera lentamente por entre sua boca e garganta, quente, fervente, parecia-lhe queimar tudo que havia por dentro e deixar apenas a sensação de vazio, de que nada havia mais lá. Depois subia aquele gosto suave e açucarado dos chás que costumava tomar, uma refrescância na barriga que fez-lhe soltar um pequeno peido e relaxar os músculos.

O entorpecimento veio logo depois, sua cabeça ficara amolecida e sua visão parecia borrar-se aos poucos, as chamas da fogueira agora pareciam mais vívidas e mais coloridas, quase podia sentir o gosto quente do vermelho e o amargo do amarelo. Sua pulsação refletia em sua visão feito manchas negras em formato de veias, os sons ficavam mais lentos e mais elaborados como um orquestra a tocar dentro de seus tímpanos, sua alma parecia se esvaziar e escapar por cada orifício, cada poro de seu corpo, uma corrente de calor humano frio vaporizando-se. Tinha quase a certeza que conseguia ouvir as paredes falar com ele e o choro de alívio, um choro lupino seguido de seu uivo agudo que mudava de escala a cada segundo.

Levantou-se com dificuldade, a fraqueza tomava conta de seu corpo e transformando suas pernas em varas verdes, sua perna ainda não tinha sofrido o acidente, mas mesmo assim caminhou com dificuldade segurando-se nas bordas rochosas da caverna. Se assustando com a textura lisa e macia das pedras, embora sua aparência fosse horrenda sobre aquele iluminação bizarra da fogueira, que agora assobiava e dançava em círculos, rodopiando e formando em forma de imagém-postuma em sua ponta, uma espiral desvairada. Quando chegou a saída da caverna, sentou-se no chão maravilhado com a cena que presenciava. A neblina havia tomado uma forma densa e física, lembrava-o uma enorme massa de algodão que se moldava numa forma de uma cabeça de lobo subindo aos céus uivando diretamente para lua. Seu focinho quase podia tocá-la e suas orelhas para trás pareciam duas asas de uma águia a descer de seu vôo. As gotas d'água pareciam cair em câmera lenta, a luz do luar refletia sobre a sua superfície, dividindo a em vários feixes de cores avulsas, eram como se as estrelas caíssem na terra feito pedaços do arco-iris em prismas aquosos. Ouvia o farfalhar das gotas ao tocar o solo terreno e pedregoso, como pequenas caixas de papelão e embalagens de presente sendo abertas pelas mãos sedentas de uma criança ansiosa pelo presente. Sentiu lágrimas escorrerem de seus olhos, lágrimas livres de qualquer tristeza, lágrimas de sublimação.

— Gaia é a nossa mãe, os totens nossos guardiões. São eles que nos protegem e nos seguem a cada dia. Porém Gaia é como nós, tem sentimentos e também sofre, mas também fica feliz. E em momentos como esses — disse Wa-ya Nv-no-hi — chora. Mas seu choro é lindo, um choro de alegria e satisfação. E como você pode ver, é uma chuva forte densa e maravilhosa.

— As montanhas rochosas são conhecidas pela sua baixa densidade pluvial, chove muito pouco durante os anos, e são muito raras que uma tempestade dessas ocorra. Um fenômeno raro e muito lindo. — disse Frank se acocorando ao lado de Hal.

— Chamamos isso de Svi-kvnah, ou o Pranto do Lobo. — continuou o chefe da tribo — Nossos ancestrais viviam dizendo que Gaia ao se reunir com os totens, pediu para que cada um deles tivessem sua função. A tartaruga ficou para cuidar da longevidade, o gato de cuidar para que tenham curiosidade para evoluir, o urso coragem para que continuem desbravando suas conquistas e o lobo se encarregou de cuidar das trilhas individuais de cada ser. Svi-kvnah é quando o lobo uiva para a lua, ao notar que seu caminho está sendo trilhado corretamente por mais um e sua satisfação faz-o chorar.

Hal meneara a cabeça e notara que da terra pequenas sementes multicoloridas brotavam do chão e germinavam em um campo de flores de lótus, brancas como o luar naquela noite. E ficou ali sentado, maravilhado pelo espetáculo até a chuva passar, a neblina se dispersar e os primeiros raios de sol romperem a camada de escuridão..."

— Que lindo Hal — disse Mônica — Você nunca me contara sobre isso antes. -

— Não sei, havia me esquecido. Mas aqui sentado do seu lado, lembrei-me, engraçado não é? -

— É... Muito engraçado... — disse ela com um tom meio irônico, ainda pensando no que Hal contara-lhe.

— Te amo, honey. — disse Hal olhando para o rosto dela aninhado em seu braço.

— Eu também te amo, minha delícia gelada. — disse Mônica dando-lhe um beijo em sua boca. O relógio marcou nove horas e o cuco começou a piar, ela sorriu, e voltando a olhar para lá fora, suspirou. Hal relaxou sua coluna e os dois ficaram lá, no chão, encostados à parede, olhando a Svi-Kvnah a chorar e refletindo sobre os momentos que passaram juntos.

Artie --- 09/2016

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