Sutilmente

23 Quando tem um elefante na sala


Yaoyorozu estava com um sério e enorme problema.

E ela soube disso a partir do momento em que concordou com o pedido de Todoroki de assistirem juntos à mais um clássico da Disney.

O filme escolhido da vez era Frozen, e apesar de Momo amar assistir Disney ao lado do namorado, comentando e analisando cada passagem da história, dessa vez ela sentia que seria diferente.

Para começar, eles estavam a sós na sala de estar, o que era algo incomum e em outra ocasião seria muito bem vindo.

Mas não dessa vez.

Momo sabia exatamente o motivo de tudo estar diferente, a cena do beijo compartilhado entre eles na partida de basquete se repetindo constantemente em sua mente.

Eles ainda não haviam conversado sobre isso. E talvez Todoroki nem estivesse realmente incomodado com o assunto, mas ela estava, pois desde que aquilo acontecera, a garota sentia a necessidade de falar para ele que estava tudo bem e que, talvez, eles pudessem repetir no futuro, se ele quisesse, é claro…

Mas pensar naquilo a deixava tão nervosa, com um medo enorme de incomodar Todoroki. E certamente a última coisa que Yaoyorozu queria era deixá-lo desconfortável de alguma maneira.

Então ela se calou por todo esse tempo, tentando ignorar a situação não falada e se concentrando em várias outras coisas que não fossem os lábios de seu namorado bem ali constantemente ao seu lado.

Tal tarefa se provava mais e mais difícil com o passar do tempo, aliás.

Yaoyorozu sentiu o braço de Todoroki lhe rodear o corpo, um convite para ela se encostar sobre ele e a garota assim o fez timidamente, enquanto ele acariciava seu ombro gentilmente, com a atenção voltada para o filme que passava na televisão logo à frente.

Yaoyorozu suspirou, percebendo que já havia perdido metade do filme, nem se lembrando de fazer seus fiéis comentários sobre o momento em que Elsa fugia, utilizando seus poderes pela primeira vez depois de muito tempo.

Mas ver Elsa agindo assim lembrava a Momo tanto em relação a Todoroki, sobre como ele, assim como Elsa, tentou suprimir sua peculiaridade dentro de si, não se permitindo utilizar por completo graças a desentendimentos do passado que certamente envolveram seus pais.

Tanto Elsa quanto Todoroki haviam aprendido a lição, no entanto, de que não precisava esconder seu poder para ser feliz, que o mais importante era se aceitar por completo, superando os problemas e sempre disposto a corrigir os erros.

Momo sorriu com o pensamento, erguendo a cabeça, olhando para Shouto.

Ela se surpreendeu ao perceber que o namorado também a encarava, parecendo ter o pensamento distante, ficando igualmente surpreso por ter sido pego não prestando atenção no filme.

Yaoyorozu se endireitou no sofá, sem se distanciar de Shouto e sem tirar os olhos dele também. E então abriu a boca, pronta para perguntar o por quê dele estar encarando-a, mas logo fechou, percebendo que os olhos de Shouto se desviaram dos seus naquele breve instante e focaram em sua boca.

Ela podia jurar que mal era capaz de respirar naquele momento, seu coração começando a se acelerar ao imaginar que ele poderia estar desejando a mesma coisa que ela.

Seus olhos agora descendo para o boca do garoto e então voltando a observar os olhos heterocromáticos dele, que brilhavam como sempre costumavam brilhar quando estavam perto de Momo.

E por mais que tenha entrado em devaneios sobre o filme momentos antes, Frozen foi completamente esquecido pelos dois, enquanto Yaoyorozu voltava a pensar sobre o beijo que compartilharam enquanto estavam sentados na arquibancada daquele estádio lotado.

Ela queria mais do que tudo repetir aquilo. Repetir aquela sensação da sua boca pressionada contra a de Shouto, e o modo como seu corpo todo se arrepiou com aquele contato, ainda que tenha durado apenas uma fração de segundos.

Foi então que Yaoyorozu percebeu o quão próxima ela estava de Todoroki naquele presente momento. Ela até mesmo sentia a respiração dele sobre seu rosto e podia jurar que o garoto se aproximava lentamente dela, os lábios de ambos estando apenas a centímetros de distância um do outro.

E então, diante de tudo isso, Momo só soube fazer uma coisa.

Ela fechou os olhos, tentando ignorar o nervosismo dentro de si, e simplesmente se deixar levar pelo que estava prestes a acontecer.

Exceto que não aconteceu.

Ao menos não o que ela imaginava, pois sentiu de repente a movimentação de Todoroki a sua frente e, abrindo os olhos um pouco aturdida, viu que o namorado tinha se afastado um pouco dela.

Momo abriu a boca, prestes a falar, embora não soubesse exatamente o que, mas então Shouto foi mais rápido.

— Yaoyorozu, eu… — começou e logo parou, parecendo ponderar o que iria dizer.

Yaoyorozu também se afastou um pouco dele com isso, sentindo o rosto enrubescer, mas tentando disfarçar, olhando-o ainda confusa.

— A-algum problema?

Ele a encarou por alguns segundos, colocando então sua mão sobre a dela, voltando a falar de forma mais decidida agora.

— Yaoyorozu, eu posso te beijar?

E então ela piscou. Uma. Duas. Três vezes, antes de finalmente reagir.

Seu rosto, antes levemente enrubescido, adquirindo agora um forte tom avermelhado.

— O que?

Certo que eles estavam prestes a se beijar, mas o fato dele ter interrompido o momento para perguntar aquilo de forma tão direta havia pegado Momo completamente desprevenida. Era como se sua mente tivesse ficado totalmente em branco, sem saber como proceder naquela situação.

Todoroki não pareceu ter pressa em ter sua resposta, apenas esperando a namorada assimilar tudo. Para ele, aquilo era completamente natural e certo a se fazer.

Momo respirou profundamente, voltando a olhá-lo.

Ela então entendeu porque ele tinha perguntado aquilo. Todoroki era gentil demais para fazer algum movimento sem ter certeza de que era o que ela queria, ele a respeitava demais para tentar forçá-la a algo que não se sentisse à vontade, além do mais, sabia que Yaoyorozu tinha o costume de se esforçar para agradar as pessoas.

Mas com ele era diferente, e ela precisava fazê-lo entender aquilo.

Porque ela confiava nele e sabia que Todoroki jamais faria nada para desrespeitá-la ou, pior ainda, machucá-la.

E ainda que já tivessem se beijado antes, ter perguntado agora, em que estavam em um momento a sós e muito mais íntimo do que da primeira vez, deixou ainda mais claro que o pedido não estava sendo feito por pressão de terceiros ou qualquer coisa do tipo.

Era porque ele queria beijá-la naquele momento, simples assim.

Então, diante de tudo isso, Yaoyorozu só conseguiu olhá-lo nos olhos e murmurar um pequeno sim, ela mesma tomando a iniciativa de se aproximar dele agora.

E quando suas bocas se encontravam, ela podia jurar que sentiu os lábios de Todoroki, pressionados contra os seus, se abrirem em um pequeno sorriso, enquanto os braços dele que a rodeavam, a puxavam mais para perto de si, firmando o beijo que aos poucos ia de desajeitado para algo mais firme e apaixonado.

§

— Yaoyorozu, eu posso te beijar de novo?

— Todoroki-san, você não precisa pedir mais… a resposta sempre será sim.