Sutilmente
13 Quando tem soba frio
Enfrentar um Nomu era mais difícil do que parecia. Todoroki agora sabia muito bem disso, visto que tinha se passado um dia e ele ainda não estava completamente recuperado de seus ferimentos que a luta tinha causado. Devido a isso, seu pai e Recovery Girl foram firmes em dizer que Shouto precisava ficar pelo menos um dia em repouso para descansar seu corpo e poder voltar ao estágio totalmente bem no próximo dia.
Apesar de não gostar de ficar de fora – ele já estava atrasado por conta de sua licença provisória ter saído mais tarde do que de sua turma –, Todoroki não discutiu dessa vez, participando somente das aulas teóricas do colégio e voltando para o seu quarto no dormitório logo depois.
Era até bom tirar um momento para si mesmo, para colocar seus pensamentos em ordem, porque não somente sua luta no dia anterior havia sido uma surpresa, mas também os eventos que ocorreram depois foram além do esperado para ele, principalmente vendo como havia se sentido com tudo isso.
Todoroki estava deitado em sua cama, com os braços erguidos para o alto, olhando enquanto sua mente viajava para o momento em que tinha chegado ao dormitório na noite anterior.
O abraço de Yaoyorozu foi algo que sem dúvida ele não estava esperando. E embora a princípio tenha ficado surpreso, ele sentiu o rosto dela molhado em contato com seu corpo descoberto e rodeado de faixas pelo ferimento. E então soube que ela estava chorando. Estava preocupada com ele e por isso estava chorando.
Depois que Jirou esclareceu ainda mais a situação, Todoroki se sentiu culpado por fazer Momo se preocupar daquele jeito.
Mas apesar de se sentir culpado, ele não pode deixar de também sentir algo diferente.
O garoto fechou os olhos, abaixando uma das mãos e cobrindo o seu rosto com ela ao pensar nas sensações que sentiu com aquele abraço.
“Era quente…” foi a primeira palavra que encontrou para descrever, embora não fosse quente como sua peculiaridade ou algo do tipo.
Foi mais do que isso. Foi bom.
Ele se lembrou de quando sua mãe o abraçava quando criança e o cobria de beijos carinhosos pelo rosto. Era uma sensação gostosa a de se sentir querido, mas nem de longe tão quente – sem falar de confusa – quanto essa que Momo o fez sentir com um simples abraço.
Todoroki suspirou, sem saber exatamente como interpretar aquilo que se passava dentro dele.
Talvez fosse melhor não pensar nisso por hora e depois, quem sabe, ver se Iida ou Midoriya pudessem lhe ajudar de alguma forma a entender o que estava acontecendo.
Depois de um tempo, vendo que não conseguiria tirar o abraço de Yaoyorozu de sua cabeça, Todoroki decidiu se levantar e sair do seu quarto. Precisava se distrair.
Assim desceu para a sala compartilhada, ele percebeu como o dormitório estava silencioso e isso não o surpreendeu, apesar da noite já ter caído. Ainda não era muito tarde e a maioria dos alunos estava em estágio naquele momento, enquanto os que chegavam iam direto para os respectivos quartos, provavelmente cansados demais para qualquer outra coisa.
Era engraçado pensar em como a turma havia adquirido um hábito de chegar dos estágios, descansar e mais tarde se reunirem na sala de estar para passarem um tempo juntos, enquanto os outros preparavam o jantar, para então todos trocarem experiências de como foi o dia de cada um e o que aprenderam com os diferentes heróis profissionais.
Mas Todoroki não estava disposto a participar disso dessa vez, o seu corpo ainda estava um pouco dolorido da luta do dia anterior, então tudo o que ele desejava era pegar algo para comer na cozinha e ir direto para a cama depois, uma boa noite de sono o ajudaria a se recuperar completamente para voltar ao estágio no dia seguinte.
No entanto, foi só chegar à cozinha que o garoto parou, olhando para um bilhete na porta da geladeira.
“Todoroki-san, sei que deve estar cansado e provavelmente com fome, portanto me encarreguei de preparar seu prato preferido, ele está na geladeira. Espero que goste!
— Yaoyorozu”.
— Prato preferido? — Shouto perguntou para si mesmo, como se não pudesse acreditar que Yaoyorozu realmente tinha se dado ao trabalho de fazer aquilo só para ele.
Todoroki abriu a geladeira, não demorando a encontrar uma embalagem e abrindo, revelando aquele macarrão que ele tanto conhecia e amava. Ela realmente tinha feito soba para ele.
Ele se lembrou então de quando tinham ido ao supermercado e de como ele insistiu em comprar os ingredientes para fazer soba, embora depois disso nunca tivesse encontrado tempo para de fato preparar o prato.
Pelo visto Yaoyorozu também não tinha esquecido.
Todoroki pegou o macarrão da geladeira, junto com o caldo que estava em um recipiente separado. Não era preciso esquentar, visto que ele gostava do prato justamente frio.
Depois de ajeitar tudo, ele se sentou sozinho na mesa de jantar e começou a comer.
Iida apareceu em determinado momento, acabando de chegar de seu estágio, cumprimentando Todoroki brevemente e falando que logo se reuniria à ele, apenas precisava tomar um banho antes. Todoroki disse para ele não se importar e que deveria descansar também, em seguida voltando a comer em silêncio.
E foi só quando tinha voltado para a cozinha, já colocando o prato sujo dentro da pia, que ele ouviu novamente passos e logo uma voz familiar ecoou no ambiente.
— Oh, Todoroki-san, você já comeu? — Yaoyorozu se aproximou dele, com roupas casuais e seu cabelo solto caindo em seus ombros.
— Sim, estava muito bom — Ele elogiou, o que fez Momo corar de leve, se aproximando.
— Fico feliz que tenha gostado! — Ela sorriu — Na verdade, eu preparei isso antes de ir para o estágio hoje mais cedo.
— Por que não me chamou antes então? Eu poderia ter ajudado.
— Oh, não se preocupe com isso — Yaoyorozu falou, erguendo as mãos e prendendo os cabelos no costumeiro rabo-de-cavalo, para então ficar ao lado de Todoroki na pia, preparando para lavar a louça que tinha se acumulado ali desde cedo.
Todoroki se afastou um pouco para dar espaço para a garota trabalhar, enquanto ela continuava a explicar.
— Eu não queria te acordar, você precisava descansar — Ela deu de ombros — além disso, estava tudo sob controle, só espero que ter ficado na geladeira não tenha estragado tanto o sabor…
Todoroki sorriu de leve, olhando para as costas dela enquanto Yaoyorozu lavava.
— Eu gosto de soba frio, estava ótimo.
— Oh? Perfeito então!
Ele podia sentir seu sorriso aumentar ligeiramente ao ouvi-la falar daquele jeito, ainda que não estivesse vendo o rosto dela no momento.
— Na verdade, Bakugou-san e Satou-san me ajudaram a preparar tudo... — Momo comentou, ainda sem olhar para ele, focada em lavar a louça que estava na pia.
E então, conforme ela falava, Todoroki não pode deixar de se lembrar novamente do abraço que Yaoyorozu lhe deu na noite anterior. Eles não tinham comentado nada sobre aquilo e nenhum dos amigos pareceram dar grande importância, visto o que acontecera com o garoto mais cedo, mas então… Por que ele sentia que aquele abraço tinha sido mais importante do que parecia?
Por que ele não conseguia tirar aquilo da cabeça nem quando estava tentando se distrair?
E por que ele estava, ainda que de forma quase inconsciente, se aproximando de Yaoyorozu cada vez mais enquanto ela falava?
— Bakugou-san não parecia muito contente, mas você sabe como ele é, no fim acabou me ajudando e...!
Momo interrompeu sua fala em meio à surpresa ao sentir os braços de Todoroki envolvendo sua cintura devagar em um abraço.
Ele podia sentir o corpo da garota enrijecendo de surpresa e ouviu o som dela colocando dentro da pia o copo que segurava antes.
Todoroki não sabia exatamente o motivo de fazer aquilo, mas toda vez que se lembrava do abraço que Yaoyorozu tinha lhe dado no outro dia, a vontade relembrar aquele contato somente crescia dentro de si cada vez mais.
E vê-la ali, falando calmamente sobre como se dedicou a fazer o prato preferido dele para o jantar, pedindo até mesmo a ajuda dos colegas mais inusitados para isso… Fez com que Todoroki não conseguisse resistir mais à vontade.
— Todoroki-san, mas… você vai se molhar por minha causa... — Ela murmurou, aparentemente com muito custo, ainda sem se virar para ele, deixando-o continuar abraçando suas costas.
— Eu não ligo — Ele respondeu em voz baixa.
Segundos depois ele ouviu o som da torneira sendo fechada e a água parando de cair dentro da pia. Em seguida Yaoyorozu se virou devagar para ele, de modo que Todoroki não soltasse os braços de sua cintura, apenas se afastasse o suficiente para ficarem frente à frente agora.
Ele voltou a apertar o abraço, encaixando o rosto no ombro dela, sentindo Momo mover seus braços também, envolvendo-o e correspondendo o ato.
Ela colocou uma das mãos em seus cabelos, afagando de leve, ainda sem saber muito bem o que dizer ou fazer, surpresa demais e com o coração muito agitado para proferir qualquer palavra agora.
Mas não era preciso, não nesse momento.
— Obrigado — Todoroki murmurou entre seu ombro, sem se mover.
Aquela simples palavra significava mais para ele do que era capaz de transparecer. Ele não só era grato por Yaoyorozu ter feito aquele jantar, era grato por tê-la ao seu lado não só naquele momento, mas sempre.
Desde que a amizade deles foi se aprofundando, Todoroki se via cada vez mais necessitado de estar ao lado dela, de simplesmente vê-la bem e feliz.
Talvez ele não pudesse dar nome ao que aquilo significava ainda, então tudo o que podia dizer era dizer aquele simples “obrigado”, carregado de um sentimento mais poderoso do que imaginava.
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