Sutilmente

16 Quando eles saem juntos


Yaoyorozu nunca se sentiu tão perdida em toda a sua vida como estava naquele momento com Todoroki.

Eles se encontravam em um pequeno e aconchegante restaurante um pouco afastado da escola. Ela não conhecia aquele lado da cidade e muito menos o restaurante, mas Todoroki parecia bem familiarizado com tudo, ainda mais depois de um garçom cumprimentá-lo discretamente com um sorriso e o garoto retribuir com um pequeno movimento de cabeça, como se já fosse um cliente conhecido dali.

Mas não era só pelo fato dela estar ali, sozinha com garoto que – agora sabia – estava apaixonada. Desde que Momo o abraçou quando ele retornara ferido de seu estágio (um ato puramente irracional e impulsivo da parte dela, é claro), ela foi notando como o comportamento dele foi aos poucos mudando.

Para começar com o abraço que ele lhe deu no dia seguinte enquanto Momo lavava a louça. Só de relembrar aquilo, seu coração se acelerava, afinal Todoroki não era o tipo de garoto que demonstrava daquela forma como se sentia – aliás, ele não costumava demonstrar de forma nenhuma.

Mas então, depois disso, quando o irmão de Shouto os visitou no colégio mais cedo naquele dia, Yaoyorozu pode identificar como o Todoroki mais novo pareceu incomodado com Natsuo conversando tão casualmente com ela.

E embora tudo isso a tenha deixado confusa e sem saber o que pensar, nada se comparava a quando Natsuo havia perguntado para Shouto se ele gostava de Momo.

A resposta simples e direta dele a deixou surpresa por alguns longos segundos, pensando se aquilo era mesmo real ou não. Quando todos começaram a rir, Yaoyorozu conseguiu colocar sua cabeça no lugar e acalmar seu coração, dizendo para si mesma que não era nada demais, que certamente Todoroki não quis dizer que gostava dela daquele jeito.

No entanto, lá estavam eles agora. Somente os dois jantando em um restaurante, em um pedido feito pelo próprio Todoroki.

— Yaoyorozu, você parece distante, algum problema? — Ele perguntou, tirando-a de seus pensamentos. — Não gostou da comida?

Os pratos já tinham sido servidos, dois zaru soba, visto que Momo decidiu seguir o gosto e sugestão de Todoroki. E o problema estava longe de ser a comida, que por sinal, estava perfeita.

— Oh, não, eu adorei! Está tudo delicioso, Todoroki-san! — Ela sorriu, mas logo seu sorriso enfraqueceu um pouco e Yaoyorozu suspirou, tomando coragem para continuar a falar.

Todoroki esperou, olhando-a curioso.

— É que… Eu não entendo, por que me chamou para vir aqui só nós dois de repente? — Não era exatamente a pergunta que rondava em sua mente, mas não deixava de ser uma das coisas que Momo gostaria de esclarecer.

Embora o que ela mais se indagava era se aquilo deveria ser considerado ou não um encontro.

Seu coração desejava que sim, apesar de sua mente dizer claramente que não, visto que eles eram só amigos afinal de contas.

— Eu… — Ele começou e então parou, olhando para o seu prato, pensativo.

Assim como Shouto esperou com que ela falasse, Momo também ficou quieta, aguardando curiosa.

— A primeira vez que vim aqui foi com minha mãe, — Todoroki continuou, e ela teve a ligeira impressão de que aquelas palavras não eram exatamente o que ele pretendia dizer a princípio, mas não comentou nada, deixando que o garoto continuasse. — depois que ela foi internada, eu e meus irmãos continuamos a frequentar esse restaurante. Ele é relativamente perto de casa, mas é um lugar que meu pai não conhece e nunca pisou… acho que é por isso que eu gosto tanto daqui.

Yaoyorozu nunca tinha visto Todoroki falar tanto assim sobre sua família e talvez por isso mesmo que ficou surpresa por um momento. Ainda que ele não tivesse respondido exatamente sua pergunta, ela não se importou.

É verdade que ainda não sabia muito sobre a história de Todoroki – e até poucos instantes antes nem sabia que a mãe do garoto estava internada –, mas naquele momento Momo percebeu algo importante.

Aquele lugar era especial para Todoroki. E ele quis dividir com ela. Ele quis levá-la para um local que se sentia bem e seguro, ainda que Momo desconhecesse as causas da irritação de Shouto pelo pai. Mas ela não se importava em não saber tudo, tinha certeza que no momento certo ele contaria e não planejava pressioná-lo com isso.

Ao invés disso, ela estava agradecida.

Ele não precisava responder por que tinha a levado até ali de repente. E ela não precisava saber se aquilo era ou não um encontro.

Os dois estavam juntos em um lugar precioso para Todoroki e aquilo bastava para Yaoyorozu estar genuinamente feliz e com o coração aquecido.

Era um simples gesto que dizia que ela era importante para ele.

— Obrigada por me trazer aqui, Todoroki-san — Foi o que Momo disse então, sorrindo e sentindo o rosto levemente enrubescido com isso.

Ele esboçou um curto sorriso em resposta e os dois voltaram a comer, trocando algumas conversas ocasionalmente sobre assuntos aleatórios, geralmente voltados para a matéria que estudavam em sala de aula ou alguma tática de herói que aprenderam.

Foi quando estavam voltando para o dormitório, não muito tarde da noite, que algo diferente aconteceu.

Momo estava leve, rindo e andando despreocupadamente, todos os seus questionamentos e inseguranças em relação a Todoroki e como agir perto dele momentaneamente esquecidos enquanto caminhavam.

Eles estavam quase cruzando o portão principal do colégio quando ela percebeu que Todoroki parou de andar de repente.

Ela também parou, se virando para ele, confusa.

— Todoroki-san, algum problema?

— Eu… preciso te dizer uma coisa. — Ele falou e embora seu tom de voz fosse neutro e seu rosto inexpressivo, Yaoyorozu podia jurar que tinha sentido que o garoto estava um pouco encabulado… ou pelo menos nervoso com o que estava prestes a falar.

Aquilo só a deixou ainda mais curiosa (e também ligeiramente preocupada, afinal nunca tinha visto Todoroki agir assim).

— Pode me dizer qualquer coisa, o que aconteceu?

— Eu gosto de você, Yaoyorozu.