Sutilmente

29 Quando eles são Shouto e Momo


Yaoyorozu sempre tinha costume de responder rápido as mensagens de Todoroki, exceto quando estava muito concentrada em seus estudos ou em seu estágio, mas ele sabia que aquele momento não se aplicava a nenhum dos dois casos.

Era noite e ela estava em seu quarto, mas o horário de estudo já tinha acabado e Shouto não pode deixar de ficar levemente preocupado. Será que Yaoyorozu estava bem?

Ele tinha mandado uma mensagem chamando-a para verem algum filme no primeiro andar, mas já fazia um bom tempo e a garota nem ao menos tinha lido ainda.

E foi com isso em mente que Shouto se viu pegando o elevador e indo para o último andar do dormitório feminino.

O quarto de Yaoyorozu era no final do corredor e quando chegou em frente a ele, Todoroki parou, pronto para chamá-la.

— Ah, mas vocês já namoram há alguns meses, precisam se acostumar com isso! — A voz de Hagakure, no entanto, foi o que o impediu de bater na porta do quarto.

Então era por isso que Yaoyorozu não tinha o respondido mais cedo, ela estava reunida com as outras colegas.

E, por mais que Todoroki não fosse o tipo curioso, a frase da garota invisível o deixou confuso e parado ainda no mesmo lugar.

Estavam falando dele?

— Eu também acho, Yaomomo! — Ashido comentava do outro lado da porta, com um ar de quem tinha experiência em seja lá qual fosse o assunto — Já passou da hora de vocês se chamarem pelo primeiro nome.

Ah.

— Bem, eu não sei... — Todoroki se viu se aproximando um pouco mais da porta ao ouvir a voz tímida de Yaoyorozu enquanto ela falava — Não acho que ele se sinta confortável em ser informal comigo... e não quero deixá-lo desconfortável fazendo isso também.

Então era isso?

Shouto conteve o suspiro, pensativo.

Ele nunca parou para pensar em chamar a namorada pelo primeiro nome. Porque, bem, ela sempre foi Yaoyorozu para ele e não via motivos para mudar isso. Mas agora, parando para refletir sobre o assunto, talvez fosse um pouco formal demais, levando em conta como o relacionamento deles não era mais o mesmo de quando primeiro se conheceram.

— O que você está fazendo? — Uma voz muito perto dele fez Todoroki dar um leve pulo para o lado, murmurando um pequeno “oh”, sem conter a surpresa por ter sido pego daquela maneira.

Kyouka Jirou, a dona da voz, o olhava agora, aparentemente dividida entre debochar da reação do garoto ou chamar sua atenção por estar ali claramente espionando as amigas.

— Tsc… não é nada — Mas Todoroki não esperou para ver o que ela faria, se recompondo rápido e suspirando, se afastando da porta — Apenas diga a Yaoyorozu que estarei no primeiro andar até mais tarde, caso ela queira fazer alguma coisa.

Ele passou pela colega, andando até o elevador no fim do corredor.

— … Você está andando demais com Kaminari e Mineta para ficar espiando assim a vida dos outros — Foi tudo o que Jirou falou antes que ele se afastasse demais.

Todoroki não respondeu, percebendo que aquele tipo de coisa era mesmo algo que os amigos faziam. Embora Mineta fizesse coisa muito pior do que só espiar, mas isso ele não precisava comentar.

§

No dia seguinte, Todoroki não sabia se era a aula que estava chata ou ele que estava distraído demais naquele dia para conseguir prestar atenção no que Aizawa falava na frente da sala.

Ele conteve a vontade de fechar os olhos e dormir ali mesmo e, com a cabeça apoiada em seu caderno sobre a mesa, Shouto se virou na direção de Yaoyorozu, não se surpreendendo em nada ao vê-la completamente compenetrada na aula, anotando cada palavra que Aizawa dizia.

Ela era a primeira de sua turma, afinal de contas.

Mas vê-la ali o fez pensar em como o fim da noite e aquela manhã tinham sido completamente normais entre os dois. Talvez Jirou não tivesse comentado com a amiga sobre ter encontrado Shouto com o rosto colado na porta de seu quarto, não que ele tivesse pedido segredo de qualquer forma, mas não pode deixar de agradecer mentalmente à garota por não ter dito nada.

A verdade é que ele ainda estava pensando no que Ashido e Tooru tinham falado para Yaoyorozu e na resposta que ela tinha dado também.

Ele até mesmo perguntou para Midoriya naquela manhã, enquanto se arrumavam, se o amigo concordava com as meninas, se namorados deveriam mesmo se tratar apenas pelo primeiro nome. Midoriya, apesar de um pouco tímido, disse que elas estavam certas, embora Shouto não devesse se sentir obrigado a agir assim só por esse motivo. Ele tinha que chamar Yaoyorozu pelo primeiro nome apenas quando sentisse vontade, quando os dois estivessem confortáveis o suficiente para isso.

Mas eles já não estavam?

Quer dizer, eles andavam com as mãos entrelaçadas todo o tempo e trocavam beijos sempre que tinham a oportunidade e já tinham perdido o desconforto em relação a esse tipo de coisa. A intimidade já estava ali.

Então por que não tentar mais uma coisa também?

Talvez no começo pudesse ser difícil, mas não seria algo impossível. E nem ao menos ruim.

Todoroki se imaginou falando o nome de Momo. Não Yaoyorozu ou nem mesmo Yaomomo.

Apenas Momo.

Não parecia nada ruim em sua cabeça.

Momo.

Momo.

— Momo — Ele pronunciou baixinho em sua mesa, ainda olhando a namorada escrevendo e não pode deixar de notar como a mão dela pareceu congelar no lugar, o lápis parado em cima do caderno.

— Todoroki — Mas não era ela que o chamava.

E agora foi a vez de Shouto de se sentir congelado. E ele sabia que não era por conta de sua peculiaridade, afinal, mesmo que tentasse usá-la, os olhos vermelhos e furiosos de Aizawa sobre si não o deixariam de qualquer forma.

— Encontrou o que achava na mesa da Yaoyorozu?

Todoroki levantou a cabeça, ajeitando sua postura na cadeira e controlando a vontade de girar os olhos para o professor à sua frente.

— Ele encontrou o amor — Kaminari não conteve o comentário, rindo.

— Bro, isso foi tão másculo! — Kirishima riu da fala do amigo e somente assim a atenção de Aizawa foi retirada de Shouto, o professor mandando todos ficarem em silêncio.

Depois disso a aula transcorreu sem mais nenhuma interrupção, embora Todoroki pudesse jurar que Yaoyorozu parecia mais desconcentrada, distraída até, não fazendo tantas anotações da matéria em seu caderno como fazia antes.

E quando a aula finalmente terminou (e Aizawa voltou para seu saco de dormir), enquanto os alunos iam aos poucos saindo da sala, Shouto voltou a olhar de relance para a namorada.

Ele se levantou, virando-se para ela em seguida.

— Você quer passar na biblioteca… Momo? — Arriscou a dizer, tentando soar o mais natural possível, como se a chamasse sempre daquela forma.

Ele tinha percebido o quanto Yaoyorozu estava preocupada em incomodá-lo se o chamasse pelo primeiro nome, então talvez tentar agir naturalmente fosse o melhor caminho.

Até porque aquilo não era algo ruim de se fazer, pelo contrário.

E o nome dela soava tão melhor em seus lábios do que simplesmente “Yaoyorozu”, ele não pode deixar de notar.

Momo, que obviamente ficou surpresa com sua fala, o encarou, notando o pequeno sorriso em seu rosto enquanto a observava, esperando pacientemente uma resposta para a pergunta.

Ela suspirou, como se estivesse reunindo coragem, desviando os olhos dele enquanto pegava sua mochila e voltando a encará-lo, para então finalmente dizer timidamente:

— Claro… Shouto.

§

— Ei… Kyouka?

— O que foi, Jamming Whey?

— Ei, me chama de Denki!

— Certo, o que foi, Denki Jamming Whey?

— Ah… Deixa pra lá.