Sussurros do Submundo
3 O trio das lamentações
Casa de Capricórnio.
Shura estava na entrada de sua casa observando o relógio de fogo. Também estava se perguntando qual assunto urgente aqueles cavaleiros teriam a tratar com Athena. Em seu interior, algo lhe dizia que sabia, pelo menos em parte, o motivo. Shura sente o cosmo de Camus se aproximar pela saída da casa de Capricórnio, indo a seu encontro.
– Shura, tenho uma pergunta a lhe fazer... por acaso você sentiu alguma presença estranha próxima ao santuário, cerca de uma semana atrás? – Camus pergunta em seu tom frio habitual, mas era visível sua preocupação, pois o mesmo não tem o hábito de iniciar uma conversa sem ao menos cumprimentar a pessoa em questão.
O Cavaleiro de Capricórnio se volta rapidamente para a direção em que Camus se encontra, deixando de olhar para o relógio, a princípio com uma expressão assustada, suspirando posteriormente.
– Sim eu senti por uma fração de segundo, mas estava junto de Aioria e de outros cavaleiros de prata, inclusive da Marim, na arena de treinamento. Ninguém ali sentiu, apenas eu, portanto imaginei que havia de ser impressão minha. – Disse o capricorniano, recompondo sua postura habitual.
– O mesmo se passou comigo, estava junto de Milo quando, por uma fração de segundo,como você mesmo disse, eu senti um cosmo estranho nas proximidades. Milo não havia sentido, chegou a perguntar se queria investigar isso, mas depois não senti absolutamente nada e, como Milo não havia sentido, passei a achar que foi impressão.
– Ceus, então não foi impressão mesmo. Mas como você suspeitou de que talvez eu tenha sentido algo também? – Shura pergunta um tanto curioso.
– A suspeita veio apenas hoje, ao ver Shaka e pouco depois, os cavaleiros de bronze passarem pela minha casa. Há cerca de um ano eles não apareciam pelo santuário e, repentinamente me aparecem as seis e meia da manhã em minha casa, Shun com sua alegria de sempre, mas Ikki aparentemente mais sério que o normal. E me recordei que Máscara da Morte passou por minha casa indo para o salão do Grande Mestre e, cerca de duas horas depois desceu com Afrodite, que estava carregando sua armadura e conversando sobre a Itália. A principio pensei que seria uma viajem comum, mas agora estou com uma certa dúvida...
– Entendi aonde você quer chegar. Se for isso de fato, certamente Saga e o Grande Mestre também sentiram esse cosmo, melhor conversarmos junto com o Saga. – Shura comenta voltando a encarar o relógio, focando seu olhar na insígnia de Gêmeos e Camus concorda fazendo um gesto com a cabeça.
Ambos descem as escadarias das doze casas. Como se fosse um acaso do destino o caminho até a casa de Gêmeos estava vazio, mesmo que todos os cavaleiros que estão no Santuário estejam próximos as doze casas, é extremamente raro varias delas ficarem vazias.
A casa de Sagitário estava vazia, pois a deusa Atena não consegue trazer de volta as almas que conseguiram o descanso no Campos Elísios, mesmo sabendo que o lugar não existe mais, que foi destruído com a queda de Hades, isso ainda continua impossível para a deusa da sabedoria. A casa de Escorpião a menos de dez minutos estava vazia, já que Milo havia saido para treinar um pouco. Dohko foi monitorar algumas crianças junto com Aldebaran, Shaka estava no salão do Grande Mestre, Aioria está treinando junto com Milo e Mascara da Morte está na Itália.
...
Casa de Gêmeos.
Depois que os irmãos Amamiya saíram, Saga e Kanon ficaram um tanto curioso sobre qual assunto aqueles meninos teriam a tratar tão cedo com o Grande Mestre e como assim, alguma coisa relacionada ao submundo? Ambos haviam acabado de acordar, portanto se dirigiram ao quarto a fim de se trocarem e logo em seguida, foram a cozinha para o desjejum.
– Pode ser um pouco de cisma minha, mas eu sinto que isso tem alguma coisa relacionada com a presença que eu senti há uma semana...- Diz Saga um tanto pensativo, sentando-se a mesa após se servir com uma salada de frutas regada com mel e granola.
– Mas Saga, porque apenas você sentiu e eu não? Eu juro que procurei por esse cosmo, mas nem você não o encontrou depois, perguntamos até mesmo para o Aldebaran e o Mu e eles também não sentiram nada. – Kanon fala para o irmão, colocando um cesto de frutas na mesa e pegando um belo cacho uva logo em seguida.
– Não sei, é apenas um pressentimento...
Saga e Kanon sentem os cosmos de Shura e Camus descendo as escadas.
– Sei que estamos em tempos de paz, mas mesmo assim acho absurdo deixar apenas nós e o Shaka responsáveis pelas doze casas. — Kanon comenta.
– Isso eu concordo com você, mas conhecendo esses dois, duvido muito que eles tenham em mente sair das doze casas...- Saga comenta com uma ponta de curiosidade.
Shura e Camus entram pelos fundos da casa de Gêmeos e vão em direção dos cosmos dos irmãos. Shura bate na porta da cozinha, ouvindo um “entre” como resposta.
– Tudo bem rapazes? — Kanon pergunta um tanto curioso.
– Sentem-se rapazes, sirvam-se. – diz Saga tranquilamente. – Bem, o que vocês fazem aqui tão cedo?
Shura e Camus entreolham-se.
– Saga, temos uma coisa para conversar com você. Imagino que você também tenha sentido um cosmo muito estranho há uma semana. – Shura pergunta sem rodeios, puxando uma cadeira e sentando-se, junto com Camus.
Desta vez foram Saga e Kanon que se entreolharam.
Camus explica sua teoria de que apenas os cavaleiros de ouro que aceitaram se tornar espectro de Hades tenham sentido tal cosmo.
– E como o castelo de Hades que fica na Alemanha está sob vigia e a catedral que ficava na Itália[1] não, imagino que tenha sido por esse motivo que Máscara da Morte e Afrodite foram para lá. – Kanon afirma mais para si mesmo do que para os demais.
– Mas porque eles foram mandados para a Itália e nós não fomos sequer comunicados? E o Shaka teria sentido por ser iluminado? – Shura pergunta curioso.
– Quanto a isso, tenho uma teoria. Como é apenas uma investigação e apenas o Máscara da Morte reportou o ocorrido, acredito que o Mestre Shion não queira nos alarmar sobre isso antes do tempo, sem contar que como cavaleiros de ouro, nós nos apegamos muito ao sétimo sentido, muitas vezes dependendo quase exclusivamente dele, como agora, quando vocês estavam se dirigindo a cozinha deixaram bem claro através de seus cosmos que estavam se aproximando e passamos a não usarmos o sexto sentido por completo, que também é um sentido ampliado pelo desenvolvimento, e não totalmente nato, apenas em raríssimos casos a pessoa já nasce com o sexto sentido totalmente desenvolvido . – Saga explica aos demais.
– E como Shaka é o homem mais próximo de Deus e Máscara da Morte tem seu poder vinculado com o mundo dos mortos, ambos teriam sentido com mais clareza esse cosmo, é isso mesmo que está sugerindo Saga? – Camus comenta
– Basicamente isso. Enquanto Ares estava em posse do salão do Grande Mestre e de Star Hills, teve contato com alguns documentos referente a conexão com o mundo dos mortos. Para os vivos, a única opção seria a passagem existente no castelo de Hades ou então por portais criados através de técnicas como “ondas do inferno” e/ou técnicas equivalentes, claro, após ter seu oitavo sentido desperto. Mas para os mortos existe uma espécie de sub-plano, mesclando o mundo dos mortos com os dos viventes, cheio de uma névoa rasteira, e vai depender de seus apegos em vida para ver se você ficará mais propenso a ficar vagando nessa linha entre os vivos e os mortos, conhecida como umbral, aparecendo ora ou outra como uma assombração ou se irá seguir essa nevoa rasteira até chegar ao que eles chamam de véu ou umbra, uma densa barreira de névoa que leva ao Hades a beira do Estiges ou aos Campos Elíseos. Certamente, se este cosmo for do submundo, ele não desapareceu, e sim pode estar vagando no umbral.
Era visível o desconforto de Saga ao falar de seu passado conturbado. Shura, Kanon e Camus prestam muita atenção, se prendendo aos mínimos detalhes da história contada pelo geminiano.
– Então você está dizendo que se tivermos o sexto sentido em um nível mais elevado poderemos vislumbrar algumas coisas do umbral? – Shura pergunta incrédulo.
– Não digo que é fácil sair de um patamar que se fixa no pressentimento e chegar ao ponto de ter contato fixo com o mundo dos mortos, pois uma vez desperto não é possível voltar atrás. A partir do momento que se vê a umbra, torna-se impossível fazer qualquer distinção entre os vivos e os mortos. Passaríamos a ver e sentir as pessoas pela sua essência e não apenas pelo seu físico, da mesma forma que o Máscara da Morte vê o mundo e que o Shaka, ao anular seu sentido da visão, passou a senti-lo.
– Mas mesmo não tendo o sexto sentido bem desenvolvido, vocês, que tiveram contato com o Hades, conseguiram sentir um cosmo que ninguém mais sentiu, além do Shaka, provavelmente por ser um tipo de cosmo familiar e por vocês, mesmo que não se lembrem, terem passado pelo umbral. – Kanon afirma pensativo. – Isso certamente está me cheirando à encrenca.
– Agora é esperar o resultado da investigação do Máscara da Morte e do Afrodite.
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