Sussurros do Submundo
1 O cão negro
Notas iniciais
– Onde estou? Ikki, cadê você?
Nada se via. A cada passo sentia como se andasse sobre poças d’água. A escuridão era total como se estivesse no fundo de um abismo. Shun estava ficando desesperado, não importava para onde corria, onde olhasse ou tentasse tatear alguma parede, nada se fazia presente. Nem ao menos sabia dizer se estava com os olhos abertos ou fechados.
Seu coração palpitava loucamente, suava frio. Sentiu suas lágrimas quentes molharem seu rosto gelado, em meio ao seu desespero parou sua corrida desnecessária e se ajoelhou tentando se acalmar. “Onde estou” pensou novamente e novamente não tinha ideia de onde pudesse estar.
Como se fosse o estrondo de um trovão cortando aquele inquietante silêncio o cavaleiro de Andrômeda ouviu um forte latido seguido pelo sons delicados de pegadas macias sobre as poças d'água. Shun tentou localizar de onde estava vindo o som, sem sucesso, pois o mesmo vinha de todos os lados. Outra vez se fez ouvir o latido, mais forte que o primeiro, ecoando pela escuridão. Imediatamente após o segundo latido, duas tênues luminosidades vermelhas, similares a dois rubis incandescentes se forma a frente do cavaleiro, onde o brilho de seus olhos foi o suficiente para revelar naquele breu a silhueta de um enorme cão.
Shun desperta de sobressalto, ofegante, senta-se na cama colocando uma de suas mãos no rosto, limpando o suor encarando fixamente, apavorado, seu próprio lençol. Estava no Japão, na mansão da família Kido, em seu quarto iluminado fracamente pelas luzes da cidade, sentado em sua cama.
Era apenas um sonho.
Finalmente conseguiu se acalmar, relaxar um pouco seu corpo tenso e levantar os olhos, que até então encarava incrédulo seu lençol coberto delicadamente pela sombra noturna, arrependendo se no mesmo instante deste simples movimento de erguer a cabeça ao constatar a figura de um imenso cão negro deitado aos pés de sua cama.
–AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHH!
Foi realmente apenas por um instante, num piscar de olhos o grande cão negro desapareceu, como se jamais estivera por ali.
– Deve ter sido impressão... — Shun tenta se convencer disso, ainda encarando estarrecido o local da estranha visão — São senti nada, nenhuma presença ou cosmo...
Poucos segundos após seu grito, Shun pode ouvir pesados passos, direcionados a seu quarto.
Tudo bem Shun? Aconteceu algo? – Ikki abre a porta violentamente e entra desesperado.
Ikki se depara com o irmão sentado em sua cama, olhando na direção de onde o cachorro estaria. A única coisa que restava era seu lençol amassado, ao seu lado uma pilha de mangá que deixara no chão devido a preguiça de guardá-los na noite anterior. Observando seu irmão na penumbra, Fênix percebeu que aparentemente seu irmão estava bem, tranquilizando se, passando a tatear a parede em busca do interruptor, próximo ao batente da porta.
Ao acender a luz, Ikki ficou atônito ao ver que nos cabelos de seu irmão menor havia a presença de alguns fios avermelhados, misturados nas delicadas mechas verdes.
– Tudo bem Ikki? – perguntou um tanto desconfiado ao ver a espressão do irmão olhando fixamente o seu rosto, tirando o cavaleiro de Andrômeda de seu semi transe, levando instintivamente a levantar as mãos na cabeça e no rosto, e deslizando-as como se quisesse tatear algo de estranho em sua face e cabelo.
– Shun, o que aconteceu? – Disse Ikki olhando preocupado para o irmão.
– Foi apenas um sonho meu irmão, nada mais. Eu estava em um lugar escuro onde nada se via, e um cachorro negro foi ao meu encontro. No sonho senti como se aquele cachorro quisesse me dizer algo, mas despertei logo em seguida... Ikki, tem alguma coisa no meu rosto? Você está me assutando! — Ao terminar de dizer, Shun se levanta e vai em direção a sua escrivaninha, em busca de algum espelho.
– Não se preocupe Shun, fiquei preocupado pois acordei com um grito seu e o encontrei muito pálido e com uma feição péssima, mas parece que já está melhorando. — Fenix mentiu, ao constatar que as mechas avermelhadas estavam desaparecendo gradativamente distraindo seu irmão, que desistiu de procurar por um espelho na escrivaninha, se dirigindo ao banheiro para se ver no espelho.
– Caso você não se importe dormirei com você essa noite, pelo menos quando você era menor e tinha um pesadelo sempre corria para minha cama. – Disse Ikki sorrindo para o irmão, tentando esconder sua preocupação.
...
O cavaleiro de Fenix passaria a noite inteira acordado se fosse preciso. Sabia muito bem o que era aquelas marcas vermelhas no cabelo do irmão. Apenas Seiya e ele haviam vistos os cabelos de seu irmão vermelho, não apenas fios esparsos como os de agora, mas sim todo o seu cabelo. E quando isso aconteceu, ele já não era mais seu irmão.
Shun não demorou para adormecer, se sentia um pouco fraco, mas acreditava que era pelo susto do pesadelo e Ikki permaneceu ao seu lado por uma hora aproximadamente depois que se rendeu ao sono.
Receoso, Ikki sai do quarto temendo que algo aconteça com seu irmão enquanto estivesse fora do quarto. Rapidamente se dirigiu a uma biblioteca particular da casa de Saori Kido para fazer uma pesquisa sobre o sonho que o irmão tivera. Sabia que já tinha ouvido falar algo sobre cães negros em algum lugar, só não lembrava exatamente de onde. Ikki encontrou vários livros e enciclopédias sobre mitologias e lendas e levou-os para o quarto. Ao chegar verificou se seu irmão estava bem e, para seu alivio, o mais novo dormia tranquilamente, com seus cabelos esmeralda espalhado sobre o macio travesseiro de pena.
Começou por uma enciclopédia mitológica e sem muita demora achou lendas sobre agouros de morte associados a cães negros. Entre elas, uma pagina falando sobre uma divindade pré-helênica, chamada [1] Hécate.
– Hécate... bem que isso não me era estranho – resmungou...
...
Ikki acordou cedo naquela manha. Shun ainda estava adormecido ao seu lado e sem nenhum vestígio dos fios avermelhados. O cavaleiro de Fênix levantou-se com cuidado para não acordar o irmão menor, se arrumou rapidamente e desceu as escadas em direção a cozinha. Enquanto preparava seu café Shun entrou na cozinha.
– Bom dia Ikki. – disse o cavaleiro de Andrômeda entre um bocejo.
–Bom dia Irmãozinho. E então, sonhou mais alguma coisa? – Pergunta Ikki, tentando transparecer despreocupado, mas percebia-se uma pontinha de apreensão em sua voz .
– Nada, nenhum pesadelo pelo resto da noite. Meu irmão, desde ontem depois do meu sonho você está meio estranho, porque esse interesse pelo que eu sonhei? — Pergunta Shun desconfiado — "Se o Ikki ainda está por aqui e me chamou de irmãozinho então algo muito sério está acontecendo, espero que ninguém tenha morrido".
Ikki sabia que não adiantaria mentir para o irmão e que esconder isso dele poderia colocá-lo em risco e não apenas ele como toda a Terra. Por mais que queira protegê-lo, também sabia o quão forte seu irmão poderia ser.
– Ontem à noite, quando você acordou e eu fui ao seu quarto reparei que tinha aparecido mechas vermelhas em seu cabelo, o que me deixou um tanto preocupado. Seu cabelo ficou no mesmo tom quando você foi possuído pelo Hades, já que antes de seu cabelo ficar enegrecidos, ele havia ficado vermelho. – Ikki comenta seriamente, percebendo a apreensão surgir em seu irmão, caindo como se fosse um balde de água fria. – Não sei exatamente o que está acontecendo, mas isso é um sinal de que Hades ainda pode estar por perto.
– Mas nós vimos Hades cair... Seiya ainda está sofrendo os efeitos de seu ataque final! Como isso é possível?
– Eu não sei, Eu REALMENTE não sei... mas as coisas não param por aí. – Ikki coloca seus cotovelos na mesa e apóia seu queixo sobre as mãos, pensativo. – Você havia comentado que sonhou com um cão negro com olhos incandescentes, No submundo encontramos o Hades, o Thanatos e o Hypnos, mas até onde eu saiba, não são os únicos Deuses do panteão do submundo.
– Para ser sincero eu já havia pensado nisso. – Shun comenta afastando a cadeira da mesa, se sentando e cruzando os braços. – Ao derrotarmos Hades, o Elísio começou a ruir, afinal todo aquele “reino” foi “montado” pela vontade de Hades. Se aquilo realmente tivesse ruído, imaginei que todos os deuses do submundo deveriam ter sido tragados para o Tártaro. Mas... E as almas que ali se encontravam? Se isso realmente tivesse acontecido, as pessoas não mais morreriam, e se morressem teriam como destino o Tártaro.
– Os cavaleiros de ouro foram resgatado do Tártaro, então essa sua teoria pode estar certa, além de que no seu sonho havia um lugar escuro, a mesma coisa que os cavaleiros de ouro falaram. Uma imensidão negra.
– Mas se esses deuses realmente tivesses sido tragado para o Tártaro, será que apenas ser lançado lá sem selo algum seria o suficiente para detê-los?
– É aí que o seu sonho me preocupa. A principio pensei até mesmo no Cérberos, mas você me disse que era apenas um cão grande e não um gigante de três cabeças. Resolvi pesquisar um pouco mais sobre isso e lembrei-me de uma deusa que vive no submundo e é tida como guia na escuridão, e sempre é vista acompanhada com uma matilha de cães negros. E em nossa estadia no submundo, nós e, até onde eu saiba, nenhum cavaleiro de ouro ou a própria Athena se encontrou com a titânide Hécate.
– Mas sendo ela uma Titã, ela não estaria encerrada no Tártaro?
–Na verdade não. Hécate não foi aprisionada no Tártaro por ter ajudado aos deuses contra os Titãs. Hécate pode ser chamada até mesmo como uma senhora do Hades, segundo a mitologia é ela que guarda as chaves do submundo e vagueia pela Terra para recolher as almas perdidas. Diz- se que ela guia as almas no submundo com uma tocha nas mãos. Ela não é tida como uma deusa boa e nem uma deusa maligna, ela era totalmente neutra.
– Mas você acha que os deuses do submundo pode estar tentando usar... bem, será que é possível tentarem me manipularem novamente? – pergunta Shun apreensivo.
– Não se preocupe com isso, não deixarei nada acontecer com você irmãozinho. – Ikki levanta-se e vai à direção da porta da cozinha. –Agora não adianta nada ficarmos especulando, vamos apenas ver se temos mais algumas pistas ou não.
–Em todo caso irmão, acredito que seja melhor irmos para o santuário, acho que a senhorita Saori e o Grande Mestre deveriam saber disso.
Ikki apenas consente com a cabeça antes de sair da cozinha.
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