Sussurros do Destino

6 Verdades Reveladas


Aiko chegou à estação demasiado tarde.

O painel luminoso anunciava a partida do comboio com uma frieza cruel, como se o tempo não tivesse qualquer consideração pelos corações que ficavam para trás. O nome da cidade de destino piscava lentamente, indiferente ao nó que lhe apertava o peito.

Haruto já não estava ali.

Aiko ficou parada, a respiração curta, os dedos fechados em punhos. Tinha corrido. Tinha ignorado o cansaço, o frio, o medo. Mas não fora suficiente.

— Devia ter escolhido mais cedo… — murmurou para si mesma.

Sentou-se num dos bancos da plataforma vazia. As lágrimas caíram sem aviso, silenciosas, carregadas de arrependimento. Pensou em Haruto a olhar para trás, talvez à espera de a ver aparecer. Pensou no sorriso contido, na forma como sempre lhe dera espaço, mesmo quando isso o magoava.

— Desculpa… — sussurrou, para ninguém.

Quando se levantou para sair, o telemóvel vibrou.

Mensagem de Riku.

“Onde estás?”

Ela hesitou antes de responder.

“Na estação.”

A resposta veio quase imediata.

“Fica aí.”

Minutos depois, Riku surgiu do outro lado da plataforma. O casaco escuro ondulava com o vento frio, o rosto sério, tenso. Ao vê-la, abrandou o passo.

— Cheguei tarde — disse Aiko, antes que ele falasse. — Ele já foi.

Riku observou-a por um instante longo, pesado.

— Lamento.

Ela ergueu o olhar, surpresa.

— Não costumas dizer isso.

— Não costumo — admitiu. — Mas isto… — fez um gesto vago em redor — não era um jogo.

Aiko assentiu, sentindo o peso das escolhas que não fizera.

— Porque me empurraste sempre para decidir? — perguntou ela, a voz cansada. — Porque não me deixaste ficar em paz?

Riku respirou fundo, como se estivesse a preparar-se para algo que evitara durante demasiado tempo.

— Porque vi-me em ti — respondeu. — E porque sabia que, se não te obrigasse a olhar de frente para o que sentias, ias acordar um dia com uma vida que não escolheste.

Ela levantou-se lentamente.

— E tu? — perguntou. — O que escondes tanto para não te deixares escolher?

Riku desviou o olhar, com o maxilar tenso.

— Não sou bom em finais felizes.

— Não te perguntei isso.

O silêncio caiu entre eles, espesso.

— Tive alguém como o Haruto na minha vida — disse Riku finalmente. — Alguém que me escolheu quando eu ainda não sabia quem era. E eu… — engoliu em seco — destruí isso.

Aiko sentiu o coração apertar.

— Como assim?

— Fugi — respondeu ele, sem rodeios. — Quando percebi que podia perder tudo, escolhi não ficar.

— E agora? — perguntou ela. — Estás a fazer o mesmo comigo?

Riku voltou-se para ela, os olhos carregados de algo que raramente mostrava.

— Não. Agora estou a dizer-te a verdade.

Caminharam juntos para fora da estação, em silêncio. A cidade parecia mais vazia àquela hora, como se também ela estivesse à espera de algo.

— Haruto não te disse tudo — disse Riku de repente.

Aiko parou.

— O que queres dizer?

— A proposta que ele aceitou… — começou Riku — …não apareceu do nada.

Ela sentiu um arrepio.

— Como assim?

— Fui eu quem o recomendei.

O mundo pareceu inclinar-se novamente.

— Tu… fizeste o quê? — perguntou ela, incrédula.

— Achei que era a única forma de o afastar de ti — confessou Riku. — E de te obrigar a escolher.

Aiko sentiu o sangue ferver.

— Não tinhas esse direito!

— Eu sei — respondeu ele, em voz baixa. — E vou carregar isso comigo. Mas precisava que soubesses.

Ela afastou-se um passo, o olhar ferido.

— Manipulaste-nos a ambos.

— Sim… — desviando o olhar de Aiko.

— Então tudo isto foi um jogo para ti?

Riku aproximou-se lentamente, olhando agora para Aiko.

— Não!!! Foi a coisa mais real que senti em anos.

Aiko virou o rosto, tentando conter as lágrimas.

— Haruto partiu a pensar que eu não o escolhi. — disse ela. — E agora tenho de viver com isso.

— Ainda podes falar com ele — disse Riku.

Ela riu-se, amarga.

— Para dizer o quê? Que cheguei tarde porque estava ocupada a sentir-me dividida?

Riku não respondeu.

— E tu? — perguntou ela, encarando-o de novo. — O que queres agora?

Ele hesitou pela primeira vez desde que o conhecia.

— Quero que escolhas sem medo — disse. — Mesmo que isso signifique não me escolheres.

As palavras surpreenderam-na.

— E se eu disser que, apesar de tudo… ainda estou aqui contigo?

Riku fechou os olhos por um instante.

— Então vou ter de aprender a ficar.

O telemóvel de Aiko vibrou novamente.

Número desconhecido.

Abriu a mensagem.

“Cheguei bem. Espero que encontres aquilo que procuras.”

O nome no ecrã fez-lhe o coração doer.

Haruto.

Antes que pudesse responder, Riku diz.

— Se responderes a ele agora, eu afasto-me.

Aiko olhou para Riku. Nesse momento ela vê dois caminhos e uma escolha que já não podia ser adiada.

O vento soprou entre eles, frio, implacável. Aiko fechou os olhos… e respirou fundo.