Sussurros do Destino

2 O Jogo das Emoções


Aiko passou a noite quase sem dormir.

A mensagem ecoava-lhe na mente como um sussurro insistente, impossível de silenciar.

Nem tudo o que acalma o coração é o que o faz bater.

As palavras de Riku tinham-se cravado nela com uma precisão desconfortável, como se ele tivesse visto algo que ela própria se recusava a admitir.

Na manhã seguinte, tentou convencer-se de que estava a exagerar. Riku era apenas intenso. Provocador. Um estranho que surgira por acaso. Haruto, por outro lado, era real. Presente. Seguro.

Era isso que devia importar.

Quando entrou no café, o sino tilintou como sempre, mas a atmosfera parecia diferente. Mais densa. Haruto estava atrás do balcão, concentrado, mas ergueu o olhar no exacto momento em que ela entrou. O sorriso surgiu de imediato quente, familiar.

— Bom dia — disse ele. — Dormiste bem?

Aiko hesitou.

— Mais ou menos.

Haruto inclinou a cabeça, atento.

— Aconteceu alguma coisa?

Ela abriu a boca para responder e sentiu-o antes de o ver.

Riku estava sentado ao fundo, sozinho, o casaco escuro pendurado na cadeira, uma chávena de café intocada à frente. Observava-os. Não disfarçava. Não desviava o olhar.

Aiko engoliu em seco.

— Nada — mentiu. — Só cansaço.

Haruto assentiu, mas não pareceu convencido.

— Hoje saio mais cedo — disse ele, servindo-lhe café. — Pensei que podíamos dar um passeio. Está a ficar frio, mas a cidade fica bonita ao entardecer.

O coração de Aiko aqueceu.

— Gostava — respondeu, sincera.

Do fundo da sala, ouviu-se o som seco de uma chávena pousada com força.

Riku levantou-se.

— Haruto — disse, aproximando-se lentamente. — O chefe pediu-te para verificares o stock.

Haruto franziu o sobrolho.

— Hum… Tens a certeza? — cruzando os braços pensativo. — Não me lembro de ele ter dito nada. Acho que…

— Ele disse-me a mim — interrompeu Riku, com o olhar afiado. — Ou preferes ir confirmar pessoalmente?

O silêncio caiu pesado.

— Já volto — murmurou Haruto para Aiko, lançando-lhe um sorriso rápido antes de seguir Riku.

Ela observou-os afastar-se, sentindo um aperto estranho no peito. Havia algo na postura de Riku, na forma como caminhava à frente, que parecia… calculada.

Minutos depois, Riku regressou sozinho.

— Ele está ocupado, de momento — disse simplesmente. — Posso sentar-me?

— Não precisas de pedir permissão — respondeu Aiko, tentando soar indiferente.

Riku sentou-se à sua frente.

— Aceitaste o convite dele muito depressa.

— E qual é o problema? — perguntou ela, defensiva. — Haruto é meu amigo.

— Claro que é. — respondeu Riku, pousando os cotovelos na mesa. — Como se os amigos segurassem a mão assim.

O rosto de Aiko aqueceu.

— Estás a exagerar.

Riku inclinou-se mais perto.

— Ou talvez sejas tu que não queres ver.

— Porque te importas? — disparou ela, de repente. — Não tens nada a ver com a minha vida.

O olhar dele endureceu por um segundo.

— Sim, tens razão. — disse, afastando-se ligeiramente. — Por enquanto ainda não.

A palavra ficou suspensa entre eles. Aiko levantou-se bruscamente.

— Tenho de ir trabalhar.

— Então até logo. — respondeu ele, com uma calma inquietante.

Ela parou.

— Como sabes?

Riku sorriu de lado.

— Porque ainda não terminámos esta conversa.

Nessa tarde, Haruto estava diferente. Mais calado. Mais tenso. Quando finalmente saíram do café juntos, o céu já se tingia de tons alaranjados e violetas.

— Desculpa — disse ele, enquanto caminhavam. — O Riku por vezes pode ser irritante.

— Vocês conhecem-se há muito tempo? — perguntou Aiko.

Haruto respirou fundo.

— Há demasiado.

Pararam junto ao rio. As luzes reflectiam-se na água, tremeluzentes.

— Aiko — começou ele, virando-se para ela. — Eu sei que isto pode parecer repentino, mas… eu gosto de ti. Não quero que penses que és apenas alguém que passa.

Ela sentiu o coração acelerar.

— Haruto…

Antes que pudesse responder, ouviu-se uma voz atrás deles.

— Belo sítio para fazer confissões.

Riku estava ali.

— Seguiste-nos? — perguntou Haruto, com a voz carregada de raiva contida.

— Por acaso não, — respondeu Riku. — estava de passagem pelo mesmo local.

Aiko sentiu-se dividida, presa entre dois olhares tão diferentes que pareciam puxá-la em direcções opostas.

— Já disseste o que tinhas a dizer? — provocou Riku, olhando Haruto. — Ou queres que eu fique para ouvir o resto?

— Afastar-te! — disse Haruto, cerrando os punhos.

— Não! — respondeu Riku, aproximando-se de Aiko. — Quero saber o que ela vai escolher.

Aiko sentiu o ar a faltar-lhe.

— Eu ainda não escolhi nada — disse, a voz trémula.

Riku inclinou-se, tão perto que ela sentiu o calor do corpo dele.

— Tu vais escolher — murmurou. — Mais cedo ou mais tarde.

O silêncio que se seguiu foi interrompido apenas pelo som da água.

— Aiko… — disse Haruto, num tom mais suave. — Vem comigo.

Necesse momento Riku estendeu a mão.

— Ou vem comigo.

O mundo pareceu encolher.

Aiko deu um passo atrás sem saber bem para quem. E, naquele instante, o telemóvel de Haruto vibrou. Ele olhou para o ecrã. O rosto empalideceu.

— Riku o que é que fizeste? — Fazendo uma pausa — É sobre ti — disse, encarando Aiko.

Riku sorriu, lento, perigoso.

— Nada… — respondeu. — Ainda.

Aiko sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. E percebeu que aquele jogo acabara de se tornar muito mais cruel.