Sussurros do Destino

4 Momentos que Aproximam


Aiko passou a manhã inteira a evitar o telemóvel.

Cada vibração fazia-lhe o coração saltar, como se estivesse sempre à espera de mais uma pergunta impossível, de mais uma escolha que ainda não sabia fazer. O beijo com Riku não lhe saía da mente não pelo acto em si, mas pelo que despertara nela. Não fora ternura. Fora intensidade. Um choque. Algo cru, inquietante.

Quando finalmente chegou ao café, Haruto já lá estava. Esperava-a. Não atrás do balcão, como de costume, mas junto à janela, de braços cruzados, o olhar fixo na porta. Assim que a viu, endireitou-se. Não sorriu.

— Precisamos de falar — disse ele, sem rodeios.

Aiko assentiu, o estômago apertado.

Sentaram-se. O silêncio entre ambos parecia mais pesado do que qualquer discussão.

— Ontem à noite…— começou Haruto. — vi-te.

Ela sentiu o sangue gelar.

— Onde?

— No miradouro. — A voz dele falhou ligeiramente. — Estavas com ele.

Aiko baixou o olhar.

— Haruto, eu posso explicar—

— Beijaste-o? — perguntou ele, directo, sem lhe dar espaço para fugir.

O mundo pareceu parar.

— Sim — respondeu ela, num fio de voz. — Mas… — Tentando explicar-se.

Haruto fechou os olhos por um instante. Quando voltou a abri-los, havia dor ali. Não raiva. Apenas dor.

— Fui eu que fiz algo de errado?

A pergunta atingiu-a com mais força do que qualquer acusação.

— Não — disse de imediato. — Tu foste sempre bom para mim. Sempre.

— Então porque é que dói tanto olhar para ti agora? — perguntou ele.

Aiko sentiu as lágrimas acumularem-se.

— Porque eu estou confusa. Porque, quando estou contigo, sinto-me segura… mas quando estou com ele, sinto-me viva. E isso assusta-me.

Haruto respirou fundo, tentando manter a compostura.

— Eu não quero ser apenas a opção segura — disse.

— Eu sei — respondeu ela. — Mas escolher agora parece… injusto.

— Para quem? — perguntou ele. — Para ti… ou para ele?

Antes que pudesse responder, a porta do café abriu-se. Riku entrou. O ar mudou de imediato.

— Não sabia que estava a interromper outra confissão — disse ele, olhando de Haruto para Aiko.

— Sai!!! — disse Haruto, levantando-se. — Agora!!!

Riku inclinou ligeiramente a cabeça.

— Não!!! Esta conversa também me diz respeito.

— Não tens esse direito — respondeu Haruto, com a voz carregada de tensão.

— Tenho se ela me deu — replicou Riku, olhando directamente para Aiko.

O silêncio tornou-se insuportável.

— Chega!!! — disse ela, levantando-se. — Não aqui. Não assim.

Saiu primeiro, sem saber para onde ia. Apenas sabia que precisava de ar. Os passos atrás dela denunciaram quem a seguia.

— Aiko!!! — chamou Haruto.

— Deixa-a. — disse Riku. — Ela precisa de espaço.

— Não fales como se a conhecesses melhor do que eu. — retorquiu Haruto.

Aiko parou e virou-se, com os olhos brilhantes.

— Nenhum de vocês me conhece por completo. — disse. — E talvez esse seja esse o problema.

Sem esperar resposta, afastou-se. Horas depois, já o sol se punha, alguém bateu à porta do seu apartamento.

Aiko abriu. Riku estava ali.

— Vieste discutir mais um pouco? — perguntou ela, cansada.

— Vim pedir desculpa — respondeu ele.

Ela ficou surpreendida.

— Por ontem — continuou. — Não devia ter-te beijado naquele momento.

— Mas quiseste — disse ela.

Riku assentiu.

— Quis. Ainda quero. Mas não quero que escolhas por pressão.

Ela afastou-se, deixando-o entrar.

— Nunca falas de ti — disse ela, enquanto se sentavam no sofá. — Haruto conhece-me. Sabe os meus medos. E tu… és sempre um mistério.

Riku apoiou os cotovelos nos joelhos.

— Porque, se te contar quem sou, vais afastar-te.

— Ou não, — respondeu ela. — talvez me aproxime.

Ele olhou-a longamente.

— Cresci a aprender que amar é perder — disse por fim. — Que, quando damos tudo, ficamos sem nada. Por isso afasto as pessoas antes que o façam comigo.

Aiko sentiu o peito apertar.

— Não tens de fazer isso comigo.

Riku riu-se, sem humor.

— Já estou a fazê-lo. Mesmo quando fica….

O silêncio que se seguiu não foi incómodo. Foi íntimo. Ela aproximou-se, encostando a cabeça ao ombro dele. Riku ficou tenso… mas não se afastou.

— Quando estou contigo — murmurou ela — sinto que nada é simples. Mas sinto que sou eu.

Ele fechou os olhos.

— Isso é perigoso.

— Talvez — respondeu ela. — Mas também é verdadeiro.

Nesse momento, o telemóvel de Aiko vibrou.

Mensagem de Haruto.

“Se ainda quiseres lutar por nós, diz-me. Estou à espera.”

Ela sentiu-se a partir em dois. Riku viu o ecrã iluminar-se.

— É ele, não é? — perguntou.

Aiko assentiu.

— Não tens de responder agora — disse Riku, levantando-se. — Mas lembra-te… cada silêncio também é uma resposta.

Quando ele saiu, Aiko ficou sozinha, sentada no chão, entre dois mundos. O telemóvel vibrou novamente.

Número desconhecido.

“Não brinques com os dois. Alguém vai sair magoado.”

Aiko franziu o sobrolho.

— Quem és tu…? — murmurou.

Segunda mensagem.

“Estou mais perto do que pensas.”

Ela levantou-se de repente, o coração aos pulos.Do outro lado da rua, através da janela, viu uma silhueta afastar-se lentamente. E percebeu, com um arrepio, que o jogo deixara de ser apenas entre três corações.