Sussurros de além

1 Como tudo começou


Olhava para um lado, depois para o outro e não conseguia achar escapatória. O mesmo que usava uma touca e uma jaqueta velha, não parava de me encarar enquanto a boca de sua arma estava a menos de um palmo de distância da minha cabeça.

Como vim parar ali? talvez o destino me trouxera para caçoar e dizer que nada é do jeito que a gente quer. Eu queria poder falar, queria poder impedi-lo de estragar a minha vida, mas não cabia a mim essa decisão, apenas respirei enquanto toda minha vida se passava diante dos meus olhos. Lembrei de cada alma boa que já conheci, lembrei desde a infância, e todo o trajeto que tinha feito até ali. Lembrei também dos sorrisos, das lágrimas, e todo o resto que já passei, mas lembrar não adiantava.

O tiro foi dado. Depois disso, só me recordo de ver meu corpo estirado no chão e uma poça de sangue, enquanto as sirenes da ambulância e da polícia vinham aumentando. Não adiantava. Eu não estava mais entre eles.

Não estava triste, nem feliz. Pensei que aquela hora era perfeita para descobrir se o céu e o inferno realmente existiam. Não tinha mais noção do tempo, não conseguia mais sentir o vento, muito menos escutar os batimentos do meu coração. Eu era neutra. Fiquei parada próxima ao meu corpo, esperando que me levassem para um lugar bem longe, não tinha mais o que fazer, não tinha mais ninguém.

Comecei a caminhar pela cidade "esbarrando" nas pessoas, que atravessavam o meu corpo, foi então que percebi o quanto era ruim não ser visto por ninguém. Eu queria visitar minha família para saber como eles iriam reagir a notícia de que a graciosa filha deles não estaria mais presente, mas ao mesmo tempo não queria, parecia doloroso demais. Pensei então nos meus amigos, que provavelmente perceberiam que eu tinha parado de ir para a escola, e só então descobrir.

Me perguntava se eu tinha virado um fantasma ou algo do tipo e se poderia ter algum poder especial, se eu tinha, com certeza não descobri. A sensação era normal, mas havia uma bagunça de sentimentos. Eu não sentiria frio, mas também não sentiria calor. Talvez não sentiria a solidão, mas também não o amor. Era tudo relativo. O pior de tudo, é que eu não sabia quando isso iria acabar, ou quanto tempo eu iria ficar ali, pensei que a verdade fosse descoberta depois da morte. E se depois dela, tudo continuasse o mesmo? Pessoas vagando por aí, sem rumo... Talvez aquele alguém que você tenha visto na rua seja só mais uma das milhares de almas que estão presas aqui. Ninguém tinha respostas, até por quê, era impossível fazer perguntas.