Sussurros Sob o Véu

3 Mais sakê, por favor!


Notas iniciais
Capítulo não betado. Boa leitura! PS.: Apreciem com moderação! kkkkk

Capítulo I: Mais sakê, por favor!

“Na vida, não existe algo como ‘Eu não tive escolha’. Até mesmo não fazer nada é uma escolha. E, às vezes, esta pode ser a pior de todas”.

— O celular dela está tocando. Será que ela não está escutando? Por Kami-sama, será que ela morreu?!

O barman, que observava tudo atrás de um balcão de mármore preto, encarou zangado o filho, dando um peteleco na boca do adolescente, o que o fez soltar uma exclamação de dor e levar a mão aos lábios.

— Não diga uma coisa dessas, baka. O pai dela nos mataria se isso acontecesse. – A maneira séria como disse aquilo fez o jovem engolir em seco.

O homem pigarreou, colocando o copo que secava na prateleira atrás dele, e ordenou.

— Certo. Vai lá dar uma cutucada nela. – Com um empurrão, obrigou o filho a ir à mesa onde uma jovem mulher mantinha a cabeça deitada sobre os braços, alheia ao barulho de conversas e arrotos ao seu redor.

O filho do barman se aproximou lentamente, passo ante passo, o braço estendido, e subitamente se instalou o silêncio; todos no bar passaram a observá-lo com atenção. Ele sentiu uma gota de suor escorrer pela testa. Pra começo de tudo, ele nem queria estar ali. Nem deveria. E agora... E se ela realmente já estivesse morta, ele tocaria um cadáver? Porque, pelo jeito como ela se atracou nas garrafas de sakê – o que denotava que ela: 1) Era uma novata em bebedeiras, ou 2) Estava muito desesperada -, não seria de se surpreender...

O rapaz balançou a cabeça. Só o pai para lhe causar um trauma daqueles.

Estava a poucos centímetros de tocar o braço da mulher quando, subitamente, ela ergueu a cabeça e soltou uma gargalhada.

O jovem gritou e deu um passo em falso, o coração aos pulos. Os outros homens começaram a rir e seu pai, atrás do balcão, meneou a cabeça com uma careta, desgostoso.

A mulher olhava para o rapaz, mas ele não sabia ao certo se ela conseguia vê-lo – seus olhos acinzentados pareciam desfocados devido ao excesso de bebida alcoólica que ingerira nas últimas duas horas.

— Uuuau. – ela exclamou, groguemente. — Eu me sinto tããão bêbada! – Outra risada, interrompida por um soluço. Então apontou o dedo indicador para o rapaz. — Você... já se sentiu assim?

— Ahm... N-não...

Que situação, ele pensou. Começava a se sentir muito constrangido.

— Eu também não! – ela sorriu; parecia feliz em encontrar alguém como ela. Voltou sua atenção para o copo em cima da mesa. Pegou-o, quase o deixando cair, e então fez beiço quando o virou para baixo e só algumas gotas caíram.

— Mais sakê, por favor!

O jovem olhou para o pai, que lhe fez com irritação um sinal com a mão para que se aproximasse da mulher e se livrasse dela o quanto antes.

Hesitante, o jovem se aproximou mais um pouco e falou alto.

— Com licença, tem alguém para vir buscar você?

Ela inclinou um pouco a cabeça para o lado, confusa com a pergunta, então soltou um muxoxo.

— Eu tenho alguém? Nããão... – e despencou outra vez a cabeça sobre a mesa.

Ai, caramba, pensou o rapaz, como eu odeio esse lugar.

Ele deu um cutucão no ombro dela.

— Ei... Ei! Você não pode dormir aqui.

— Mas eu estou tãão cansada...

— Você precisa ir pra casa!

Naquele momento, a porta foi aberta e um grupo de três mulheres e dois homens entrou no bar. Eles estavam animados, falando alto e rindo, e se dirigiram ao balcão para pedir bebidas sem nem notar o clima que se instalara no estabelecimento. O único que notou as tentativas do filho do barman de tirar uma mulher bêbada dali foi o que fechou a porta depois que todos entraram.

Assim que pousou os olhos azuis na mulher, sua expressão se transformou de sorridente para perplexa.

— Hinata? – ele chamou, se aproximando da mesa e afastando o rapaz para o lado, que cambaleou para longe agradecendo por alguém ter aparecido para salvá-lo daquela situação.

O homem loiro se agachou perto da mesa para ficar diante da mulher, que ainda tinha os olhos fechados, e sacudiu de leve o braço que estava esticado diante dele.

— Hinata Hyuuga?

Com dificuldade, Hinata Hyuuga abriu os olhos. Ela demorou alguns segundos para reconhecer o rosto que a observava com tanta aflição, mas quando reconheceu, ergueu a cabeça e a apoiou na mão, um sorriso se formando nos lábios.

— Naruto-kuun... Você vem sempre aqui? – murmurou ela bobamente.

Naruto Uzumaki meneou a cabeça.

— Hinata. O que você está fazendo aqui? E desse jeito? – Ele finalmente percebeu as cinco garrafas vazias de sakê que estavam amontoadas na outra ponta da mesa. — Por que bebeu tanto?!

Ela franziu o cenho, e erguendo a outra mão, afastou um pouco o polegar e o indicador, mostrando a quantidade que supostamente bebera.

— Eu sóóó bebi um pouquiiinho. Nadinha, nadinha.

— Naruto! Cara, sério que você vai ficar dando bola para ela? Ela ‘tá um porre! Vem cá!

Naruto olhou zangado para o amigo que falara aquilo.

— Eu já vou, Kiba!

Quando voltou sua atenção outra vez para a Hyuuga, viu que ela o observava com os olhos semicerrados, como se estivesse ponderando alguma coisa.

— Hinata? – perguntou lentamente, sentindo-se de repente nervoso com a forma como ela o encarava.

Incrível. Nunca antes lhe passou pela cabeça que ele pudesse ficar nervoso por causa de Hinata Hyuuga.

— Hum... Naruto Uuuzumaki... Naruto Uzumaki! Por que eu não pensei nisso? – Ela de súbito bateu na própria testa, rindo de si mesma. Então, recuperando-se do ataque de riso, falou com o tom de voz mais sério que ela conseguiria estando daquele jeito. — Naruto-kun.

— O-o quê?

Hinata se ajeitou na cadeira, tentando ficar sentada ereta, embora cambaleasse consideravelmente para os lados, e juntou as mãos uma na outra, como se rezasse. Sorriu novamente, numa tentativa falha de parecer sedutora.

— Naruto-kun. Case-se comigo.

— Ah!

Mesmo Hinata já estando corada por causa da bebida, Naruto percebeu as bochechas da Hyuuga ficarem ainda mais vermelhas, e quando compreendeu, finalmente, o significado daquelas palavras (por Kami-sama, ela estava propondo para ele!), ele também sentiu o rosto quente.

Atrás de si, ouviu seus amigos cochichando e rindo, provavelmente tendo escutado a proposta da Hyuuga, e sentiu-se, além de envergonhado, muito aborrecido. Conhecia Hinata Hyuuga desde criança, e podia jurar com os pés juntos que ela jamais teria dito tais palavras, tão descaradamente, estando sóbria. Mas, principalmente, ela jamais beberia tanto a menos que tivesse com algo realmente ruim incomodando-a.

O silêncio prolongado do loiro fez Hinata morder o lábio.

— Você... não quer?

— Eu... Hinata... Não é tão simples assim.

— Po-por que... não? — Os olhos dela começaram a se encher de água, e Naruto pensou “Baka! Baka! Baka!” enquanto tentava resolver uma situação tão embaraçosa quanto aquela. – P-por favor, Naruto-kun! Você precisa me aj-judar... Eu s-só tenho você.

Naruto sentia todos os olhares sobre os dois, e detestou olhar para o rosto de Hinata Hyuuga e ver a expressão magoada que o encarava.

E detestava ainda mais não ser capaz de correspondê-la – por mais que a situação não pudesse ser considerada ao todo séria. Hinata Hyuuga era uma mulher jovem, linda e companheira, e em todas as vezes que por acaso se encontraram, ela sempre o apoiava e ria das bobagens que ele dizia. Ela nunca o julgava pelos erros que cometia, nunca nem ao menos parecia se preocupar com algo assim.

Mas, mesmo se Hinata o tivesse pedido em casamento em qualquer outro momento ou lugar que não esse, Naruto também duvidava ser capaz de aceitá-la. Porque seu coração sempre pertenceu à mãe do filho de seu melhor amigo.

— Hinata. – ele disse seu nome, se inclinando um pouco mais perto dela para que pudesse sussurrar as palavras e assim, só ela ouvir. Com delicadeza, envolveu as mãos frias da Hyuuga com as suas e as apoiou sobre o colo da moça, desse jeito tendo um pretexto para não olhá-la nos olhos. — Eu te acho uma garota incrível, e eu adoro você, você sabe disso. Mas... Talvez eu não possa ajudá-la. Não desse jeito. Não... Me casando com você. Eu... Amo outra pessoa, Hinata. Desde criança, eu amo a mesma pessoa, e por mais louco que isso seja, eu ainda não desisti dela. Não tenho mais forças para desistir.

Naruto deixou um sorriso pequeno e envergonhado crispar os lábios enquanto pensava naquela que amava durante quase sua vida inteira. Vê-lo daquele jeito fez Hinata sentir o coração virando chumbo dentro do peito. Tentou afastar as mãos do Uzumaki, subitamente enjoada e sóbria demais para aquilo, mas seu gesto só ajudou para ele apertá-las ainda mais ao redor de suas mãos e, finalmente, erguer a cabeça e fixar seus olhos azuis nos dela.

— Sei que estou sendo egoísta ao dizer isso, Hinata, mas acho que eu não poderia ser feliz... E nem você. Sinto muito mesmo.

Os dois se encararam por alguns segundos, até Hinata novamente fazer menção de se soltar do aperto de Naruto, dessa vez com mais força — tinha a impressão de que iria vomitar a qualquer momento.

Naruto não pareceu perceber. Levou uma das mãos na nuca, um gesto comum seu, e soltou uma risada – mas continuou segurando firmemente a outra mão da Hyuuga.

— E, de qualquer forma, se você não estivesse tão bêbada como agora, acredito que não teria sido capaz de me fazer esse tipo de pergunta!

Se a intenção de Naruto Uzumaki era a de fazer Hinata sorrir e, assim, amenizar o clima entre os dois, bem, não surtiu o efeito desejado. Na verdade, o comentário só ajudou para a Hyuuga se sentir irritada, muito mais irritada do que magoada pela rejeição que recebera.

Levantou-se da cadeira num pulo, assustando Naruto – o que o fez cair sentado no chão -, enquanto as palavras “Não ser capaz” pareciam ferver em seu corpo como se houvesse veneno correndo pelas veias.

Hinata notou os amigos de Naruto cochichando entre eles, lançando olhares a ela, e as três garotas, que a Hyuuga nunca havia visto, levaram as mãos à boca para abafar os risinhos debochados. Sentiu-se corar de raiva, e soube que, se Naruto não tivesse se levantado naquele exato momento e colocado as mãos sobre seus ombros, ela teria ido até eles para confrontá-los.

— Você tem como ir para casa? – ela ouviu Naruto perguntar, e com dificuldade olhou para ele. Ele sorriu, alheio à súbita frieza estampada no semblante dela. — Quer que eu a acompanhe?

Tão gentil, tão bonito, e tão distante dela, mesmo quando era capaz de sentir o toque quente dele sobre a pele.

— O-obrigada, Naruto. – murmurou apenas, as lágrimas novamente ardendo em seus olhos.

Para alguém que estava quase entrando em coma alcoólico alguns minutos antes, foi surpreendente vê-la correndo tão desesperadamente porta afora do bar.

Naruto fez menção de segui-la, mas sentiu alguém segurá-lo pelo braço.

— Fica na tua, Kiba! – gritou, afastando a mão.

— Te liga, cara. Você já destruiu o coração da coitada e ainda vai querer correr atrás dela?

— Caso não tenha percebido, seu baka, ela não está em condições de chegar sozinha e viva em casa!

Mas quando Naruto saiu do bar e a noite fria e escura o envolveu, não havia mais nenhum sinal de Hinata Hyuuga.

***

As ruas estreitas estavam vazias, impregnadas pela plenitude do silêncio à noite, que era quebrado apenas pelo som das corujas piando nas árvores e das rodas do carro triturando os cascalhos ao passar. A lua se escondera atrás de espessas nuvens logo depois de passarem pelo portão da cidade, e a única luz que iluminava o trajeto vinha dos faróis do veículo.

Mesmo que não estivesse olhando pela janela – Sasuke Uchiha decidira fingir estar cochilando, com os olhos fechados e a cabeça apoiada no encosto do banco -, ele sabia, quase como se pudesse sentir, que estava sendo observado. Sob as pálpebras, imaginava as cortinas sendo puxadas quando o carro passava pelas residências e as pessoas se afastavam das janelas, a curiosidade brilhando em olhos cheios de fúria, hostilidade e, talvez, medo.

Sentindo o peso do silêncio que se abatera sobre o Uchiha assim que viram os primeiros resquícios da cidade, o taxista falou alto demais, numa tentativa de parecer animado e, no entanto, deixando claro o leve tremor que entoou entre as palavras:

— Estamos quase chegando, senhor.

— Hum. – Sasuke Uchiha murmurou, sem fazer qualquer questão de prolongar uma conversa que não estava disposto a trocar.

O taxista tentou manter sua atenção à estrada e apertou ainda mais as mãos ao redor do volante, rezando para voltar para casa são e salvo.

No entanto, repentinamente, gritou:

— QUE P-

O taxista pisou no freio de supetão, e Sasuke sentiu seu corpo ser lançado para frente – sentiu o cinto apertar sua clavícula, evitando o choque da cabeça contra o para-brisa.

— Que merda foi essa?! – exclamou irritado, olhando para o homem ao seu lado, que agora tremia visivelmente, os olhos fixos e arregalados num ponto à frente do carro.

— E-e-eu-eu... A-a-acho que-que-que... – Um engasgo. — A-a-a-a-atrop-pelei... Alguém!

O Uchiha olhou novamente para frente, mas não viu nada nem ninguém sendo iluminado pelos faróis do carro. Aborrecido, desafivelou o cinto e saiu. Ele não estava realmente esperando encontrar uma pessoa desmaiada na frente do carro, então o primeiro pensamento que teve ao ver uma mulher ali, inconsciente, foi o de que o Kami lá de cima só podia estar de muita sacanagem com ele.

— Por Kami-sama! – Sasuke ouviu o motorista exclamar apavorado ao sair do carro e ver o corpo no chão. Sasuke não olhou, mas teve a impressão de que o homem estava com a voz embargada. Viu pelo canto do olho o homem levar as mãos à cabeça, num ato de desespero. — Eu a matei! Eu vou ser preso! O que será da minha esposa? E das minhas filhinhas? O que elas pensarão de mim? Como elas viverão sozinhas s-

— Fica quieto! – sibilou o Uchiha com impaciência, e o taxista o obedeceu imediatamente, mordendo o lábio.

O Uchiha fitou por uns instantes a mulher, sem poder ver seu rosto por estar caída de lado, o cabelo espalhado por cima, mas logo notou que não havia sinal de ferimentos nas mãos, braços e pernas, nem sangue no veículo ou no chão. Aproveitando o silêncio, Sasuke se agachou próximo à mulher e afastou algumas mechas do cabelo escuro – ouviu o taxista resfolegar com medo — para tocar a lateral do pescoço.

Imediatamente sentiu a pulsação dela contra seus dedos, e até seu coração pareceu pesar menos, ele até então não tendo percebido que estava preocupado com a situação na qual poderia se meter. Se eles realmente tivessem atropelado ela e ela morresse, estando Sasuke envolvido, adeus vida e qualquer outro objetivo que ainda ousava ter.

— Ela está viva. – explicou para o taxista, fazendo menção de se levantar. Naquele instante, no entanto, a mulher agarrou a mão dele e se virou no chão, aninhando-se ao braço dele como se fosse um travesseiro.

Dormindo. E pelo cheiro de álcool que Sasuke sentiu quando ela abriu a boca num bocejo, muito bêbada.

Mas não foi o fato dela estar dormindo no chão, nem o fato de estar bêbada, que fez Sasuke arregalar os olhos, e sim porque agora que podia ver claramente o rosto dela, molhado pelas lágrimas, a reconhecia. Mesmo depois de dez anos. Como se alguma vez conseguira esquecer a expressão desolada da garota que deixara para trás.

Hinata Hyuuga.

Notas finais
Pois bem, esse capítulo foi "curtinho". o.O Os próximos possivelmente serão maiores. hehe Na verdade, esse capítulo foi bem introdutório. Mas posso garantir que a volta do Sasuke à cidade vai gerar muitas tretas #oqueeuamo O que acharam?