Sussurro das Borboletas

4 Início da Noite


Imergindo na escuridão, sentia estar afundado lentamente em um oceano. Uma voz soou distante e as palavras eram quase incompreensíveis.

— Talvez sinta falta de algo que ficou no jardim — a voz de Lyria não transmitiu qualquer pesar ou empatia. Parecia simplesmente anunciar a chegada da tempestade sem carregar qualquer inquietação. — Isso a fará se recordar por muito tempo.

Ivan, pensou Amarílis.

Tentou dizer o nome do amigo, no entanto, som algum deixou seus lábios.

— Pobre garoto — a voz retornou enquanto a jovem sentia o desespero na sensação de estar sendo levada em um ritmo lento e contínuo por correntes fortes. — Ele contou um segredo que não o pertencia. Ele não roubou flor alguma. Por você eu teria mostrado o caminho de volta se ele não fosse como os outros e escolhido a porta errada.

Como os outros?

Após alguns segundos sem resposta, e ainda com a sensação de estar caindo e sendo puxada para baixo, Amarílis abriu os olhos. Estremeceu antes de apoiar as mãos no chão e as borboletas azuis surgiram na sua frente. A voz de Lyria soou em seu ouvido:

— Não era tão bonito por dentro quanto por fora.

As borboletas tomaram altitude, desaparecendo ao deixar aqueles pontinhos luminosos para trás. Amarílis procurou pelo amigo novamente e ele não estava deitado ao seu lado como antes. Recordou-se daquela imagem sombria de ambos dormindo profundamente. Se aquilo fora um sonho prolongado, o vazio tinha finalmente o levado silenciosamente.

Ao longe chamavam por ela e Ivan, mas som algum a alcançava realmente. Escutava unicamente uma pergunta em sua mente que se repetia insistentemente e a impedia de derramar lágrimas naquele instante.

Por que?

Esperava que ainda pudesse receber a resposta de Lyria, contudo, o que recebeu foi um som agoniante nos cantos mais sombrios de sua consciência como a última lembrança de Ivan.

Tornou a deitar-se na terra, observando o céu que escurecia. Era tarde, sabia disso, mas não encontrava forças para se erguer e correr para longe do campo e encontrar refúgio. Observando aquela imensidão, um único ponto luminoso surgiu antes de todo aquele tom alaranjado do pôr do sol se ir por completo. A dor finalmente irrompeu em seu âmago, refletido pelo choro incontrolável que se iniciou com a chegada da primeira estrela da noite.

Uma das vozes desesperadas que repetia os nomes pelo campo ficava mais alta, apesar da garota pouco dar atenção para qualquer detalhe ao seu redor. Somente reconheceu Kier quando o rapaz a segurou pelos ombros, a levando a sentar-se, e o olhar desesperado de encontro ao seu a fez conhecer o peso de quem escapava. As perguntas que ele fazia como “Por que está chorando?” e “Meu irmão está com você?” não necessitaram das respostas que Amarílis poderia lhe entregar entre os soluços. O silêncio daqueles que conseguiam evitar o vazio sempre seria compreendido.

Kier segurou sua mão e ambos se levantaram para correr antes que a noite se aprofundasse.

A garota sabia que um dia teria de contar o que acontecera para alguém. Certamente sua história seria tão parecida quanta as daqueles que perderam alguém, mesmo com algumas particularidades. Possuía, sim, algo além de dizer que correu para longe quando escutou o amigo gritar de dor e guardou tal segredo consigo.

Após cair na escuridão, Ivan se encontrava ajoelhado na margem de um lago. Já não sentia mais a dor que tomara seu corpo inteiramente, entretanto, a aflição permanecia presente o mantendo tenso como se não tivesse terminado. Ao passar pela porta continuava naquele lugar sombrio e seu pesadelo permanecia tão vívido que começava o irritar seriamente.

Sentindo o incômodo na garganta de tanto que havia gritado durante a sensação de se afundar em águas agitadas, inclinou-se sobre o lago. Mesmo com o escuro daquele pesadelo ainda enxergava bem e assustou-se com o que viu. Um espelho refletia sua face, porém, estranhava aquela imagem distorcida. Tocou o que parecia vidro e seus dedos mergulharam na água gelada que lhe causou um formigamento imediato em sua pele. O que lhe preocupava e incomodava, de fato, era aquele rosto familiar. Seu próprio rosto não deveria parecer somente conhecido.

Agora estava sedento por respostas.

— Ela facilitou bastante para vocês — disse Nyven caminhando em seu ritmo lento. — E eu imaginei que você seria aquele que conseguiria escapar.

— O que quer dizer com isso? — o garoto permaneceu observando o que deveria ser seu reflexo, intrigado com a cicatriz na têmpora que parecia ainda mais proeminente e outros detalhes que nunca existiram em seu rosto. — Não faz diferença. Por qual motivo esse reflexo é tão mentiroso?

Nyven acabou rindo fraco e a tosse logo veio em seguida.

— Eu vejo exatamente o que está enxergando na água.

Ivan franziu o cenho, ainda mais confuso com a situação. Tocou o nariz e inesperadamente percebeu o desvio que o deixava torto como observado na imagem do lago.

— O que aconteceu?! — quis saber ao se afastar do lago espelhado.

— É apenas o início. Não se assuste tanto.

— Início do que?

— Da punição.

Voltou-se para o homem, o qual parecia mais cansado do que antes. Aguardou ver uma forma diferente e menos fadigada como mostrado antes em uma fração de segundos, e Nyven era o mesmo. Muito magro e pálido, com traços nada agradáveis se olhasse demais. O lembrava um pouco de Lyria. Pensou nas guardiãs tão parecidas em alguns detalhes e ao mesmo tempo completamente diferentes em muitos aspectos. Uma calorosa como um sonho de verão e a outra fria como flocos de neve. Inegavelmente as duas possuíam intenções ruins, ambas enganadoras com promessas vazias.

Lembrou-se da amiga, Amarílis estava em outro lugar. Curioso estava sobre ela, se havia sido levada para algum canto distante do jardim ou se tinha despertado.

Nyven suspirou, como se pudesse ler seus pensamentos, de alguma forma sugerindo o mesmo que sua amiga tanto parecia acreditar diante a descrença que ele demonstrava.

Ivan, finalmente, acreditou nas histórias.

O pedido de desculpas continuava incompreendido pelo garoto, mas as lágrimas e as palavras sobre o levar de volta para casa finalmente fizeram sentido. Amarílis estava prestando atenção nos detalhes de maneira que o garoto se recusava. Cada momento lhe retornava à memória, tudo parecia incrivelmente compreensível depois que se obtinha a resposta certa.

— Elas eram a mesma pessoa no campo e perto das portas. — ponderou Ivan e o homem assentiu. — Rosa é o nome dela?

Nyven sentou-se ao seu lado e esboçou um sorriso fraco, seus olhos sem vida pareceram finalmente exibir o mínimo de expressão além do cansaço. A melancolia nada tímida se fez tão presente que o garoto sentiu um aperto no peito como se já houvesse escutado a história.

— Um nome que muito foi questionado devido sua aparência. Restam somente espinhos agora — contou-lhe.

Ivan assentiu, compreendendo que ela continuamente se vingava de alguém ao testar as pessoas daquela pequena e amaldiçoada cidade.

— Se Amarílis foi por outra porta significa que voltou pra Volery. Ela vai ficar bem? Ela escapou desse pesadelo.

O garoto percebeu sua falta quando conheceu Nyven e quando esteve diante das guardiãs, o bom conselho que fora concedido também se tornava claro. Por isso se agarrou a ínfima esperança de que Rosa teria, em algum canto de seu coração, o espaço para a bondade e livrar a amiga daquele tormento de definhar por uma noite sem fim.

— Tão jovem... — suspirou Nyven ao desviar o olhar.

Ninguém escapava do vazio. E tão claro como a estranheza no modo como foram levados sem dor alguma, Amarílis soube que a sentiria até o final de seus dias. As borboletas tornariam a sussurrar em seu ouvido quando surgissem em sua janela, aparentemente inocentes e belas com o frescor da primavera.

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