Notas iniciais
Escrevi essa fiz agora pela madrugada porque fiquei inspirada, não pensei muito para ela sair. Mas espero que gostem dessa one-shot e boa leitura ♥

Harry abriu os olhos. Ainda estava no dormitório silencioso depois de um sono restaurador. Não sabia dizer que horas eram, se havia dormido por muito ou pouco tempo, e não se importou.

Finalmente, todo o pesadelo que o perseguia por dezessete longos anos tinha acabado.

Soltou um suspiro de alívio, e se sentiu extremamente culpado.

Se levantou e seu corpo dolorido protestou, mas o sentimento que corroía seu peito não o fez recuar. Como podia suspirar de alívio quando naquele momento, muitos de seus colegas e amigos próximos estavam sendo velados? Como poderia suspirar e sentir alívio ao ter de encarar a família Weasley novamente? Ao encarar Ted Lupin, seu afilhado que acabara de nascer e já ficara órfão?

Ele olhou para o quarto, e parecia que por ironia, a janela mostrava um céu claro e limpo, completamente alheio a todo o terror da noite anterior. Podia sentir o sereno da poeira espiralando pelos feixes fracos do sol, que iluminavam o aposento, e se sentiu culpado mais uma vez por ter a oportunidade de ver o sol nascer mais um dia, quando outros nunca mais teriam essa chance.

Seu suspiro agora era precedendo as lágrimas torrenciais.

***

A casa do largo Grimmauld, número doze, estava irreconhecível. Limpa e aconchegante, bem diferente do aspecto sombrio que Harry havia conhecido nos últimos anos. Até mesmo os ares da casa mudaram, parecia que uma família habitava os cômodos agora claros e iluminados à luz das velas. Harry não pôde deixar de dar um sorriso mínimo ao ser recebido com entusiasmo pelo velho elfo doméstico que herdara. Monstro vestia uma toalha novinha em folha para receber seu amo — já que suas roupinhas ficaram em frangalhos devido a batalha.

Depois de jantar e dispensar Monstro, Harry se sentiu extremamente sozinho.

Mais um suspiro, de frustração desta vez, lhe escapou pelos lábios. Pensou em toda a loucura dos dias que se seguiram ao deixar Hogwarts. A culpa ainda o assolava como chicote em brasa, mas ficou o tempo devido para prestar as últimas homenagens aos valentes bruxos que perderam a vida naquela noite.

Porém, não aguentou o olhar maternal e carinhoso de Molly Weasley, que mesmo vermelho e afogado pelas lágrimas pela perda do filho, eram gentis e acolhedores para ele. Não conseguiu suportar o olhar vago de Ron, que parecia não ter digerido por inteiro tudo o que estava acontecendo, ele parecia tão perdido... e não teve estruturas para encarar George por mais tempo. O irmão gêmeo de Fred Weasley era o que expressava menos emoção, como se ele também estivesse morto. Era o retrato de um homem vazio, oco.

E Harry se abominou por isso.

Contudo, mais difícil do que encarar qualquer pessoa naquele momento, foi sentir a mão pequena e quente contra a sua, gelada demais. Ele sabia de quem se tratava, como não saberia? A última lembrança boa que ele tinha daquelas mãos nas dele era dos tempos que pareciam ser da vida de outra pessoa. Ginny Weasley segurou sua mão o tempo todo durante os funerais sem vacilar, mas ele não ousou olhar nos olhos castanhos nem uma vez. Tinha medo das promessas que tinha quebrado, medo que se refletissem nos olhos dela.

Naquele momento, no entanto, ele sentia que ela precisava dele tanto quanto ele precisava dela. Precisava sentir algum resquício de vida.

Hermione Granger também estava um caco, enquanto pousava a cabeça no ombro de Ron. Não só pelas perdas dolorosas ou pelo estresse dos últimos meses. Ela fora a única que notou a culpa nos olhos de Harry, a partir do momento em que Luna Lovegood sugeriu que ele fosse descansar. Ela sabia que ele não deveria ficar sozinho, mas lhe deu espaço.

Aconteceu exatamente o que ela temia.

Harry Potter colocaria todo o peso sobre seus ombros.

***

As cartas se acumulavam sob a porta da casa ou sobre o aparador do corredor. Monstro as reunia quando aparecia para ver se seu amo precisava dele.

Harry passava boa parte do tempo dormindo, sem sonhos. Acordava somente para comer e ir ao banheiro. Havia pedido a Madame Pomfrey que lhe receitasse esse sonífero, com medo de sofrer com o estresse pós traumático.

Não se tinha notícias dele há semanas, e ele sequer tinha notícia dos amigos. Quando passava pelo corredor, mal notava as cartas enfiadas por baixo da porta ou na portinhola do correio.

Suspirava pesadamente todas as vezes que Monstro acrescentava mais uma pequena pilha às demais.

Três semanas e o Menino-que-Sobreviveu apenas suspirava pelos cantos, ou em seu sono pesado.

Estava cansado de suspirar.

***

Abriu os olhos, confuso. As luzes do antigo quarto que outrora pertencera a seu padrinho estavam apagadas, mas escutou vozes vindas da cozinha. Com a varinha em mãos, desceu as escadas que rangiam sob seus pés. Ele sabia que provavelmente o tinham escutado, porque as vozes se calaram. Porém, Harry continuou descendo sem dar bola para isso. Imaginava quem poderia ser...

Uma profusão de cabelos castanhos e fartos o abraçou antes que ele pudesse de fato assimilar o que estava acontecendo. Hermione tremia e soluçava, parecia morta de preocupação. Atrás dela, magro e alto, Ron sorria minimamente, mas seus olhos exibiam o mesmo que os de Hermione. Harry não entendia o que a amiga balbuciava em seu pescoço, olhar nos olhos de um Weasley naquele momento lhe doía tanto...

Sentir tanta culpa era uma tortura.

Ron apenas se adiantou para abraçar os dois amigos, e Harry, apesar de tudo o que estava sentindo, apenas deixou seus sentimentos reprimidos por suspiros saírem por seus olhos. Ele chorou abraçado ao seu melhor amigo, seu irmão, a pessoa que tinha lhe dado uma nova chance de ter uma família e que ele havia falhado em proteger.

O ruivo chorou junto com ele, como se ele dissesse "somos família, estamos aqui para isso".

E como se fosse a primeira vez, Harry pôde suspirar de maneira mais leve.

***

A família Weasley estava a sua espera. Molly e Arthur, como sempre, acolheram o jovem rapaz de cabelos pretos como um filho. Harry se lembrou que costumava achar engraçado ser o único irmão moreno em uma família de ruivos. Mas naquela casa, todos eram família, de fato.

Porém, depois de todos os abraços, palavras de conforto e alguma comida caseira para acalentar, Harry ainda não tivera coragem para encarar uma pessoa.

O cabelos flamejantes de Ginny entravam e saíam de seu campo de visão o tempo todo. Ele não sabia dizer o que os olhos castanhos transmitiam, tinha medo do que veria neles. Ela era forte, mas o golpe que toda a família sofrera fora demais.

E ele não estava pronto para vê-la daquela forma.

Mas como nada acontece por um acaso, muito menos o que o destino pré-determina, os olhos verdes se cruzaram com os castanhos, e ele a encarou pela primeira vez.

Os olhos dela estavam menos abatidos do que o restante da família, mas a intensidade que emanava deles mostrava que ela sentia tanto quanto os outros, talvez tanto quanto George, Ron e Percy. No entanto, o olhar de Ginny tinha um quê diferente dos demais. Harry só conseguia enxergar o luto durante todas aquelas semanas; e naqueles olhos quentes e brilhantes, havia uma promessa silenciosa.

A promessa de que a vida podia melhorar, com o tempo. Uma expetativa alta demais para Harry Potter.

Ela apenas o encarou, dizendo tudo com esse único olhar; ela colocou sua tristeza, o luto que também estava ali. Mas também tinha amor, ternura e força. Força para mostrar que eles haviam passado por uma guerra, e que eles tinham todo um futuro pela frente. O olhar dela dizia que ele não estava mais sozinho.

E nos braços de Ginny Weasley, sob seu olhar, Harry pôde suspirar de alívio verdadeiramente pela primeira vez na vida.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!