Susana e Rudolf: A conexão
1 Capítulo 1
Sentados na beira da praia, avistando o mar, Susana e Rudolf, um ao lado do outro, contemplavam a vista, imersos em seus próprios pensamentos.
Finalmente, Susana quebrou o silêncio.
— Foi um caminho e tanto.
— Uma jornada — concordou Rudolf. — Me surpreendo com o tanto de coisas pelo que passamos.
— Que enfrentamos — corrigiu-o Susana. — Não me recordo de ter te soltado no meio do caminho, senhor. Fizemos tudo juntos, passamos por tudo juntos.
Ele sorriu.
— Tem razão. É... eu estou me acostumando. É uma coisa nova. Incrível, intensa, excitante, empolgante... Uma nova realidade.
— Uma montanha-russa — opinou ela. — Se me permite dizer. É como eu vejo.
Ele riu de leve.
— Sabe, é uma ótima definição.
— Talvez a melhor — pontuou Susana.
— Eu estou me acostumando... Fiquei sozinho por tanto tempo. Emocionalmente falando, quero dizer.
— Eu também — declarou Susana. — Eu te contei algumas coisas sobre mim. Não se esqueça...
— Algumas? Então não foi tudo? — disse Rudolf, arriscando um sorriso pelo canto dos lábios.
Susana olhou para baixo por um breve momento, mas logo depois deu uma risadinha.
— Quando você conhece alguém... Você sai contando tudo sobre sua vida para essa pessoa, assim, simplesmente? Logo de uma vez?
Era uma ponderação válida. O lado acadêmico de Rudolf inclinava-se para concordar. Contudo, ele queria desligar um pouco esse lado acadêmico naquele momento.
— Touché— admitiu ele, por fim. — Você tocou num ótimo ponto.
— Não se preocupe — disse ela. — Você não precisa querer saber de tudo, desde o começo, ou o tempo todo. Relaxa, tenta relaxar. Dê tempo ao tempo... vamos viver um dia de cada vez. Achei melhor você ir sabendo sobre mim... aos pouquinhos.
Rudolf a fitou, olhando bem no fundo dos seus olhos.
— Me sinto tão a vontade com você — ele disse. — Em paz. Não sentia isso há muito tempo. Não sei se já estive assim, na verdade. É tudo muito novo.
— Não precisamos analisar tudo agora — ela falou. — Ou descobrir tudo agora. É como eu te disse. Não sei por qual motivo eu entrei na sua vida.
— Eu não sei por qual motivo eu entrei na sua.
— Então vamos caminhando, juntos — declarou ela. — Como já vínhamos fazendo.
Ela ofereceu a mão a ele. Ele aceitou prontamente.
— Nada a dizer?
— É claro que eu concordo. Isso tudo foi muito lindo e...
— Não, seu bobinho — riu-se ela, como se estivesse se divertindo com alguma piada interna que só os dois conhecessem o significado, entendessem e achassem graça. — Estou falando da surpresa que teve sobre mim.
Rudolf hesitou, franzindo o cenho levemente.
— Que surpresa?
— Naquela hora em que meus documentos caíram no chão, você foi apanhar e deu de cara com meu RG.
— Ah.
Rudolf revisitou o momento na sua mente, quando estavam no quarto de Susana. Olhou para trás — ainda dava para ver o apartamento, do ponto em que estavam sentados.
— O seu nome? — disse ele, voltando a olhar para ela. — Bom, não vejo nada demais...
— Nada demais! — ela riu de forma ainda mais divertida, quase beirando uma gargalhada. — Eu me apresentei como Susana e você aceitou simplesmente a informação. Nem se perguntou se eu podia estar mentindo.
— Eu não conheço tantas pessoas que mentem o próprio nome, para começo de conversa e em minha defesa. E em sua defesa, não foi bem uma mentira.
— Tá, seu chato — disse ela, fazendo beicinho. — Bobinho. Consegue tirar a graça de tudo. Eu querendo fazer um suspensezinho com você e você reage assim...
— Para ser justo, quando eu acordei naquele dia, já na sua cama... você me distraiu de "outras formas", que eu nem me atentei para perguntar sobre o seu nome. — Ele riu, e piscou de modo nada inocente para ela.
— Hmpf. Sei...
— Não vi motivos para que você tivesse escondido isso. É um nome bonito, afinal.
— Você acha?
— Maria Liz Susana. Definitivamente, é um nome bonito.
Ela se virou para olhar o mar novamente, com uma expressão tranquila no rosto.
— Por que? Você não gosta do seu nome? — indagou Rudolf finalmente.
— Eu gosto — disse ela. — Mas acho que as pessoas complicam demais as coisas. Eu gosto de me apresentar como Susana. Quando as pessoas veem meu nome completo, sempre gera perguntas. Ninguém quer calçar os sapatos do outro. É como redes sociais: as pessoas complicam e implicam com tudo. Se você tá acima do peso, se tá magro demais, se suas fotos têm filtro ou não...
— Entendi a mensagem — disse Rudolf. Agora ele é quem estava rindo, bobamente.
— Qual é a graça?
— Você fala de um assunto bobinho e depois parte para um assunto sério, assim, bem rápido. E sem perder a compostura. É engraçado, mas também eu acho algo admirável em você.
Ela o fitou.
— Rudolf, você é mesmo uma caixinha de surpresas.
— Obrigado, Maria Susana — ele respondeu.
Ela revirou os olhos.
— Liz ou Susana eu aceito, mas Maria Susana? Me poupe, seu chatinho.
Apesar do "chatinho" no fim, ela se inclinou para dar-lhe um beijinho no rosto, sorrindo para ele logo em seguida.
— Vamos? — perguntou ela.
— Vamos — concordou ele. — Para onde?
Ela deu de ombros.
— Isso importa? Se estivermos juntos... o céu é o limite. Embarcamos nessa montanha-russa, juntos... Então vamos nessa, lindinho.
Ela apertou firmemente a mão dele, mais ainda. Os dois contemplaram o pôr do sol.
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