Susana, a gentil traidora.

9 O grande leão, senhor dos bosques, filho do imperador de além mar


Susana achava que quando finalmente chegasse o momento ela congelaria, não conseguiria falar ou andar simplesmente abaixaria a cabeça e esperaria um rugido de desgosto e depois ser expulsa de Narnia. Não foi isso que aconteceu. Ao abrir a porta e a pelagem dourada logo chamar sua atenção Susana se sentiu compelida a correr em sua direção e abraça-lo com toda sua força, mas não preciso dizer que não foi isso que a garota fez, na verdade, o medo não lhe travava mais, mas mesmo assim fazia com que seu coração batesse mais forte. A última coisa que passou em sua cabeça naquele momento foi a que lhe pareceu mais lógica, se ajoelhar. Foi o que ela fez. Manteve a cabeça ereta por poucos segundos, porém segundos o bastante para passar os olhos pelos olhos do Grande Leão e se sentir culpada o suficiente para se jogar da ponte mais alta. Queria poder simplesmente voltar ao bosque entre mundos. Escapar do tempo, da tristeza e mesmo da memória. Escapar da memória… Já tentara fazer isso uma vez e olha no que isso resultara, se tornara uma traidora. Não importa o que Edmundo diga, não importa o quanto Lucy tente consola-la, ninguém nunca poderia arrancar esse pensamento de sua mente, pelo menos não tempo o suficiente para que ela voltasse a ser a Rainha Gentil que ela nunca fora. Nunca.

Edmundo e Caspian chegaram quando Susana já estava de joelhos e cabeça baixa, portanto ela não os vira entrar. Susana esperou alguns segundos, que mais lhe pareceram séculos, antes de falar.
– Grande Leão, Senhor dos bosques – Fez uma pausa tentando lembrar-se do outro título – Filho do imperador de além mar.
– Rainha Susana, a Gentil. – Diz ele se aproximando da garota que agora Susana não era mais. Ela sentiu medo e raiva, não suportava mais ser chamada de rainha, e agora Aslan a chamaria assim antes de lhe tirar o título. – Você se atrasou.
Você se atrasou. O que ele queria dizer com isso. Susana acabara de receber a notícia de que Aslan estava a sua espera.
– Me desculpe. – Disse abaixando a cabeça novamente.
– Estivemos a sua espera todo esse tempo.
Ela estava atrasada para Aslan, demorara, mas mesmo assim ao que parece todos a esperaram. Todos. Tomou um susto repentino, ergueu a cabeça e encarou Aslan com os olhos tristes, depois mudou a direção do olhar e focou em algo que estava a sua esquerda. Caspian. Então olhou para seus irmãos novamente. Aquilo só podia ser um sonho. Todos estavam vivos diante de seus olhos.
– Sei que tudo lhe parece irreal e que a confusão já lhe tomou os pensamentos várias vezes, mas teremos tempo de lhe explicar tudo. Todo o tempo do mundo. – Aslan disse calmamente dando ênfase a última frase, o que a assustou.
– Aslan, nunca vou me perdoar pelo que fiz, por isso não peço que você o faça, mas, por favor, não haja como os outros, fingindo que o que fiz não teve importância, pois para mim teve e isso vai me atormentar para sempre, se você não me tratar como a traidora que sou e não me punir de forma adequada.
– Não preciso punir você. Seus próprios atos a puniram e não existe nada pior nesse mundo que a solidão e a dor causada pela perda, você suportou os dois e provou seu valor enquanto batalhava para encontrar esse lugar. Você queria ver Narnia, pois em Narnia veria seus irmãos, apenas não imaginava que em Narnia os reencontraria, mesmo quando eles a visitaram e deixaram claro para você que ainda existia esperança.
– Cada escolha poderia te trazer ou não de volta para cá e você voltou, minha querida. – Aslan soprou sobre Susana, o sopro da vida. Aquele sopro capaz de mover montanhas a deixara leve e tirara suas duvidas sobre si própria, agora precisava apenas aceitar e aceitar é o primeiro passo para compreender. – Uma vez rei ou rainha de Narnia, sempre rei ou rainha de Narnia.
– Obrigada, Aslan. – Diz Susana se jogando sobre pelagem macia do grande leão. – Me desculpe, mas tenho um pedido a lhe fazer. – Disse sem jeito.
– Fale, criança.
– Eu prometi ajudar uma pessoa, prometi pedir ajuda por essa pessoa. – Disse Susana. – A Rainha de Charn, Aroin, teve seu mundo destruído pela própria irmã, Jadis, mas por meio de algum feitiço conseguiu sobreviver, porém agora já não tem mais poderes e nós acreditamos que alguns dos habitantes de Charn ainda possam estar vivos. Agora Aroin me espera no bosque entre mundos com esperança de que eu consiga lhe arrumar ajuda.
– Edmundo, Pedro tenho uma missão para vocês. Usem os anéis para chegarem ao bosque e tragam a visitante para cá.
– Receio que ela não aceitaria de bom grado vir com dois estranhos a um lugar estranho, aliás, pedi que ela me esperasse lá.
– Temo que se ela não vir de bom grado terei que trazê-la a força. – Diz Pedro olhando para Aslan a espera de algum tipo de reprovação, que nunca chegou a acontecer.
– Por favor, deixe-me ir.