Susana, a gentil traidora.
2 Bosque entre mundos
Notas iniciais
Por alguns segundos tudo ficou confuso, ela sabia que devia estar no bosque entre mundos, mas não sabia como, seus pés não tocavam em nada, aparentemente ela estava dentro d’água. Nadou suavemente para cima e arrastou-se para a grama verde. Curiosamente ao se jogar na grama percebeu que não estava molhada, aquilo lhe pareceu incomum, não estava mais acostumada com magia, mas até mesmo ela, que há muito havia se esquecido de Narnia poderia sentir o cheiro de magia naquele lugar.
Ela pensou em marcar o local, caso não achasse o caminho de Narnia, mas pensou que qualquer outro mundo seria melhor que aquele. Susana se lembrou de como o Professor Kirke havia descrito o bosque, “Era um lugar rico: rico como um panetone”, na época a descrição tinha a feito rir, mas agora podia entender. Era tudo tão calmo e pacifico, não como Narnia, pois não havia nada de tão significante na beleza do Bosque como havia em Narnia, mas era um lugar tão simples quanto magnífico.
“Não era um lugar onde as coisas acontecem. As árvores vão crescendo, só isso”, “Aquele lugar era calmo demais... Tão feito sonho. Caso se entregasse passaria a vida inteira cochilando” Diziam o Professor Kirke e a Srta. Polly, mas Susana não entendia o porquê eles diziam isso, não era um lugar bom para viver o resto da vida, era de certa forma triste demais, solitário demais. O problema, no entanto, não era com o Professor Kirke ou com a Srta. Polly, naquela época eles eram crianças de mais para terem objetivos tão fortes quanto os de Susana e o que era triste e solitário, não era exatamente o bosque, era ela. Tudo que ela queria no momento era poder finalmente ir para um lugar em que poderia falar com as pessoas sobre os seus antigos amigos, grandes heróis, queria, simplesmente, voltar para casa, porque sim, ela era de Narnia, sempre seria, nem Aslan, nem ninguém poderiam mudar isso, mas como sempre, ela percebera isso um pouco tarde demais, agora, apenas, poderia tentar corrigir seu erro.
Susana colocou o anel verde e entrou em um lago qualquer, naquele minuto jurou ver o sistema solar, distinguiu planetas e estrelas, até que o mundo ao qual ela havia visitado se tornou mais nítido, era um mundo velho e destruído, nunca seria Narnia, mas, de repente, sentiu uma inesperada vontade de vomitar, aquele fora o local de onde viera Jadis, a feiticeira branca, que provocara à Narnia cem anos de inverno incessante. O sol tão triste quanto a noite mais sombria e solitária de inverno, aquele era, com toda a certeza, um mundo no qual ela não desejava ficar mais nem um segundo, mas a curiosidade dos Pevensie a atingiu como um golpe e ela adentrou no palácio com a coragem em suas mãos. O palácio parecia estar pronto a desmoronar a qualquer segundo, um grito, toque, até mesmo o silêncio poderia derrubar aquela estrutura, mas se prendeu ao ver uma enorme porta dourada de folhas duplas. Havia centenas de pessoas, todas incrivelmente imóveis, estatuas muito bem vestidas. Vestimentas que fariam brilhar os olhos de qualquer garota, Susana se repreendeu, mas não muito firmemente, ela sabia que ser feminina não fazia dela fútil, o que a tornara assim um dia foram suas escolhas e ambições, apenas. Logo se distanciando do seu pensamento pode sentir o cheiro de magia ainda mais forte, quase a deixava sem ar, era magia negra. Por obra da feiticeira aquele mundo havia sido destruído, como ela tentara fazer com Narnia, Jadis merecia um fim muito mais torturante do que teve, todas aquelas vidas tiradas, por sua culpa, era repugnante. Os rostos tão nobres e solenes quanto os de Narnia, pessoas com feições inteligentíssimas.
Susana estava com tanta raiva, que poderia berrar, mas se berrasse a estrutura desmoronaria e ela seria apenas mais um corpo diante da magia de Jadis. Então, correu porta a fora, foi até o lugar onde o sol, agora tão cansado de iluminar, estava, foi até o extremo do jardim, o lugar era alto e um pouco abaixo estavam mais algumas estatuas, ela tomara as dores daquele povo para ela mesma, por esse mesmo motivo adquirira o título de gentil. Observou mais claramente o rosto que estava a frente de todos os outros, uma mulher, parecia tranquila, segurava uma espada em suas mãos, mas nenhum escudo protegia seu corpo. Ela era tão alta quanto magnífica, ela, provavelmente, era na verdade muito mais bonita que qualquer uma das outras nobres mulheres que havia observado durante sua expedição pelo salão. Susana desceu o barranco, com cuidado, ora correndo, ora pisando cautelosamente. Seus olhos se encheram de lágrimas ao ver a figura da rainha de perto, ela tinha provavelmente a mesma idade de Pedro, e a mesma áurea dele, mas no momento parecia tranquila, provavelmente achara ter vencido e então fora surpreendida pela morte iminente.
A garota sem pensar segurou uma das mãos da jovem rainha e beijou-lhe, sentiu magia ao tocar os lábios na mão da mulher, acreditou que fosse a mesma magia encontrada no salão, mas então percebeu que não era tão pesada, era mais leve e…
Viva.
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