Notas iniciais
Eu nem demorei tanto dessa vez, hein? E acho que esse é o capítulo mais comprido que eu já escrevi pra essa fic até agora.
Bom, como a Cath teve um capítulo do ponto de vista dela, achei que o Charles também devia ter.
Aproveitem a leitura!

Foi assustador. Quer dizer, em um segundo, nós estávamos prontos para ir para Nárnia, e no outro um terremoto derrubou a gente do sofá.

Era muito estranho. Finchley não costuma ter terremotos. Nós tentamos nos segurar em algo, mas tudo se balançava demais. Os anéis caíram da mesa e foram parar sabe-se lá onde. Tudo o que eu sabia é que estava desesperado demais para procurar os malditos anéis.

Fechei os olhos e me agarrei à parede. Gradualmente, o terremoto parou, me desgrudei da parede, mas ainda não queria abrir os olhos. Temia que não pudesse. Temia que estivesse... Morto.

– Charlie – sussurrou a voz no meu ouvido – Charlie, abra os olhos.

Eu confiava tanto naquela voz que abri. Quando abri os olhos, estava em um gramado verde sem fim, com um pequeno riozinho, uma montanha com uma caverna e um enorme abismo. Ao meu lado, estava Catherine, muito confusa (e descabelada). Ao meu outro lado, Susana... Ou ao menos o fantasma de Susana.


– Su-Susana... – murmurou Catherine ao ver a palidez e transparência de Susana, como se ela fosse uma aparição naquele mundo.

Susana olhou para si mesma e cobriu a boca com as mãos. Flutuava alguns centímetros acima do chão.

– Ela está viva – ouvi uma voz grave e austera, mas suave e aconchegante, como uma lareira. Viramo-nos e ao nosso lado havia um grandioso leão dourado. Aslam, o leão das histórias de Nárnia. Susana não o viu... Grandioso como ela o descrevia, ele devia estar aparecendo somente para mim e Catherine – Seu corpo está no mundo de vocês... Mas sua alma pertence à Nárnia. Ela está aqui como que num sonho dela. Em seu mundo ela está... Como vocês dizem? Em coma.

Eu e Catherine empalidecemos.

– Em coma? – perguntei – Como, em coma?

– Sim, em coma – disse-nos Aslam – Susana deve ter lhes contado que não pode vir diretamente a Nárnia? Da última vez que veio, eu a fiz desmaiar e trouxa parte de sua alma aqui, ou para o céu daqui. Agora, eu a fiz entrar em coma e transportei sua alma inteiramente para cá.

– E cá seria Nárnia? – perguntou Catherine arrumando os cabelos.

Aslam riu.

– Sim, cá seria Nárnia – respondeu – Ou melhor, a real Nárnia. O meu país.

– O país de Aslam? – perguntou Susana repentinamente. Ela podia ver e ouvir Aslam agora? Fosse como fosse, Aslam disse:

– Sim, meu país, querida. Você está em coma no seu mundo. Trouxe sua alma aqui para acompanhar seus amigos. Mas logo você irá e eles continuarão esta jornada sozinhos.

– Sozinhos? – Susana pareceu alarmada – Não! Eles não podem sair andando pelo país de Aslam sozinhos... Eles... Eles...

Susana se perdeu em seus pensamentos. Depois de algum tempo, olhou desesperada para Aslam.

– Aslam – disse – Eles não estão...

– Não, não estão – disse Aslam – Sou poderoso o bastante para fazer mais algumas coisinhas. Vocês farão uma rápida visita a seus irmãos e depois vou levar seus amigos à Nárnia.

Susana pareceu se perder depois da palavra “irmãos”.

– Meus... Meus irmãos? – murmurou – Vou poder vê-los uma última vez.

– A visita terá uma intenção, Susana – disse Aslam – Voc~e deve se desculpar.

Susana pareceu sentir remorso.

– Sim, Aslam – disse de cabeça baixa.

Aslam acenou-lhe a cabeça.

– Não precisamos ter pressa, Filhas de Eva e Filho de Adão. É uma pequena caminhada até o castelo dos heróis.


Quando eu finalmente encontrei Pedro e os outros, tinha passado pelo dia mais bizarro de toda a minha vida.

Eu tinha visto ratos falantes, cavalos com e sem asas (também falantes), homens-bode, homens-cavalo, unicórnios, mais animais falantes, reis, rainhas, príncipes e princesas... Eram muitas criaturas, cada uma diferente da outra. Quando rato gigante e falante, Ripchip, nos levou para uma sala do castelo, eu e Catherine estávamos atordoados, e beliscávamos a nós mesmos, perguntando-se se aquilo era um sonho.

Susana, porém, parecia maravilhada. Apesar do aspecto espectral, os animais falantes e as outras criaturas a tentavam abraçar e a cumprimentavam, quase até a veneravam. Afinal, ela já havia sido rainha de Nárnia.

Ripchip abriu a porta da sala com alguma dificuldade, meteu a cabeça lá dentro e disse:

– Majestades, há algumas pessoas aqui fora para te verem.

– Abra a porta, Ripchip, deixe-as entrar – ouvi uma voz feminina.

Susana pareceu endurecer quando Ripchip abriu a porta.

Era a sala mais linda do mundo, com uma janela grande e um teto abobadado. Mas não é da sala que eu vou falar.

Pedro, Edmundo e Lúcia, estavam, é claro, mais velhos, mas eu ainda podia ver seus antigos traços. Vestiam roupas leves e deslumbrantes. Pareciam mais saudáveis do que nunca.

– Susana – murmurou Lúcia quando viu a irmã. Então, correu para ela e tentou a abraçar aos risos – Susana! É você mesma! Espectral, mas você!

– Sim, eu, Susana Pevensie, trazendo meus amigos juntos – disse ela, rindo.

Edmundo sorriu radiante, mas Pedro apenas deu um sorriso fraco, como se já esperasse que aquilo acontecesse. Susana o fitou com um olhar que... Que o quê? Pedia desculpas? Sorria? Chorava? Talvez tudo isso junto.

Então eles nos viram e sorriram.

– Catherine Dean... – disse Pedro – Bom te ver novamente.

– Igualmente – disse Cath. Foi só impressão minha ou ela estava corando?

– E Sir Charles, o verdadeiro! – exclamou Lúcia radiante.

Foi um grande momento de abrações, reencontros, e um eu muito surpreso pela falta de rabugice de Edmundo, até que nos sentássemos para conversar.

E, Deus, como falamos! Conversamos tanto tempo, e falando das coisas mais insignificantes: das cartas que escrevíamos, das aventuras que passávamos, das histórias de Nárnia, das aventuras dos Pevensie em Nárnia, das aventuras dos Pevensie fora de Nárnia, e finalmente, coisas mais importantes: porque estávamos ali, como Susana estava ali e como diabos havíamos chegado ali.

– Quer dizer, aqui é o... – começou Edmundo, mas Susana o calou com um gesto.

– Não vá falando de bandeja, Edmundo, não faz nem um dia que eles sabem de tudo – ralhou, e Edmundo caiu na gargalhada – Que é que foi?

– Aí está a velha Susana, agindo como se fosse mamãe! – exclamou ele aos risos. Susana estreitou os olhos para o irmão, mas eu podia ver o esboço de um sorriso em seus lábios – Você não mudou muito.

– Mas mudou – observou Pedro. Susana o mirou novamente com aquela expressão cheia de sentimentos – Que é que foi aquilo, Su? Você sabe, uma vez...

–... Rainha de Nárnia, sempre rainha de Nárnia – completou Susana ligeiramente cansada. Ela claramente não esperava ter essa conversa com os irmãos – Eu sei. É que eu só... Eu quis crescer.

– Tem diferença entre crescer e entre esquecer-se da infância, Susana – replicou Lúcia.

– Eu sei – disse Susana firmemente, apesar de em seu tom de voz haver remorso – Querendo ser madura, eu me tornei imatura. Mas nós... Nós podemos falar disso sozinhos? Depois?

Ela deu um olhar de desculpas a mim e a Catherine, mas nós fizemos que não ligávamos, embora estivéssemos muito interessados em saber do que diabos eles estavam falando.

– Certo – disse Pedro grave, mas firme, e eu percebi que ele realmente não deixara de ser um rei – Falamos disso depois. Então...

– Hora do jantar! – gritou a vozinha de Ripchip lá fora, e os Pevensie sorriram.

– Está na hora de vocês provarem a comida de Nárnia – disse Lúcia, e nós fomos jantar.


Notas finais
Esqueci de dizer: cheguei aos trinta reviews woohoo! É realmente muito para mim. Me façam chegar aos quarenta!