Susana Pevensie
2 Os pertences dos Pevensie
Eu acordei confusa e abalada na manhã seguinte, consequência da notícia desastrosa que havia recebido na noite anterior.
Meu corpo doía por ter dormido no chão duro do hall de entrada. Meu nariz estava entupido por ter passado a noite chorando. Quando me levantei, com certo esforço, fui atingida por uma horrível dor de cabeça. Lentamente, dolorida e chorosa, fui até o meu quarto.
Meu quarto jamais me pareceu tão hostil. Olhei para um canto entre a parede e a cama em que eu e Lúcia costumávamos nos espremer e conversar sobre Nárnia. Avistei uma carta na minha penteadeira que Edmundo havia me mandado quando ele e Lúcia estavam hospedados na casa de Eustáquio. Ao lado da carta, havia uma presilha de cabelo presenteada por Pedro, que alegara que lembrava aquela presilha que eu usava em Nárnia. Cada detalhe do quarto me lembrava de Nárnia, de meus irmãos, e do fato de que eu não os tinha mais.
Dirigi-me ao espelho embutido na porta do meu guarda-roupa, e vi como eu parecia uma personagem de um conto de terror: meus olhos estavam inchados e vermelhos. Meu rosto, outrora tão belo, estava pálido e molhado das lágrimas que havia derramado. Meu cabelo já não sustentava o penteado de Catherine, mas estava embaraçado e caía sombriamente pelas minhas costas. Meu vestido de festa, amarrotado e sujo. Minha boca estava aberta, uma vez que não conseguia respirar pelo nariz. E, por fim, eu parecia estranhamente magra e fraca.
Olhei para o relógio na parede. Eram oito e dez. Eu tinha apenas cinquenta minutos para me arrumar, comer alguma coisa e ir para o trabalho. "Você não pode ir para o trabalho, está de luto e veja só o seu estado!" disse uma vozinha em minha cabeça, mas eu a ignorei. Fui tomar um banho e me senti momentâneamente mais disposta, mas quando vesti as habituais roupas de trabalho eu me sentia ligeiramente mal. Um pouco de frio e tontura, mas acho que posso sobreviver, pensei.
Ao olhar ao relógio novamente, vi que eram oito e quarenta e cinco. Eu não tinha tempo para um café-da-manhã decente, então comi uns biscoitinhos e tomei um pouco de suco e saí correndo de casa.
No meio do caminho para a Agência Jornalística de Finchley, onde trabalho, alguém gritou atrás de mim:
– Susana! Ei, Su! — virei-me e deparei com Catherine, que saía correndo de sua própria casa em meu encontro — Susana, você parece mal, não devia ir trabalhar hoje — disse Catherine com um olhar de preocupação à mim.
– Eu estou ótima, Cath — menti descaradamente. Mas então percebi que estava caindo para o lado, tonta e fraca. Alguém me segurou.
– Ah, achei que nos veríamos novamente, Srta Pevensie — disse a pessoa que havia me segurado. Levantei os olhos e deparei com um sorridente, porém preocupado, Charles Harris. Os olhos do moço brilhavam, enquanto os meus, eu sabia, estavam opacos e sem vida.
– Se isso é estar ótimo, nem quero saber como é estar ruim — comentou Catherine tentando me fazer rir. É claro que eu não conseguia rir. Doía-me rir quando eu sabia que minha família estava morta — Susana, estou falando sério, você não deve ir trabalhar!
– Está pensando em ir trabalhar? — perguntou Charles enquanto me colocava em pé — Neste estado?
Eu sacudi a cabeça afirmativamente. Meu trabalho era importante. Mas nesse momento, a dor de cabeça insuportável que eu tive quando acordei me atingiu novamente. Massageando as têmporas, eu respirei fundo e resolvi optar pela saúde e não por uma promoção.
– Vocês tem razão — eu disse — Vou para casa.
– Eu vou com você, Su — ofereceu-se Catherine, mas eu neguei.
– Não, você vai para o trabalho — eu falei, quase numa ordem.
– E deixar você desmaiar no meio da rua? — disse Catherine — De forma alguma.
Me senti meio irresponsável, por estar tirando Catherine do trabalho, meio grata por ter uma amiga tão atenciosa, mas não discuti. Catherine Dean era uma das pessoas mais persistentes que eu já havia conhecido e eu sabia que não adiantaria tentar convencê-la.
– QUER UM POUCO DE CHÁ, SU? — perguntou-me Catherine assim que entramos na casa de meus falecidos pais.
– Sim, obrigada, não comi quase nada no café-da-manhã — respondi, e Catherine foi para a cozinha preparar o chá.
Assim que minha amiga desapareceu na porta do hall que levava à cozinha, a campainha tocou. Eu fui atender, mesmo sabendo que não queria conversar com ninguém, e topei com Charles na soleira da porta.
– Srta Pevensie — disse ele formalmente — Tenho uma encomenda para você — na verdade — estava pensando em visitá-la, mas aproveito para deixar um pacote que haviam me mandado entregar.
Eu fitei o moço curiosa. Ele parecia encabulado, e perguntei-me se nós já havíamos nos visto em outra ocasião, além daquela terrível em que ele me trouxe a notícia do falecimento de meus pais. Então eu me lembrei.
– Por Deus! Charles Harris, o menino que vivia a visitar Pedro quando ele tinha dez anos e ainda morávamos lá no centro! Que coincidência! — exclamei surpresa em vez tal pessoa ali, na soleira da porta.
Charles sorriu.
– Sabia que se lembraria que a senhorita se lembraria de mim — disse ele — Têm tido notícias de Pedro?
Nesse momento eu congelei. Muito delicadamente, e procurando palavras que não machucassem tanto a ele quanto a mim, eu disse:
– Houve um acidente de trem... Pedro, Lúcia e Edmundo... Meus pais...
Não pude continuar e senti uma lágrima rolar. Charles limpou a lágrima de meu rosto.
– Sinto muito — disse Charles, parecendo sinceramente pesaroso — Eu sei como dói.
– S-sabe? — indaguei.
– Sei — respondeu Charles, e seu olhar ficou distante — Meus pais morreram quando eu completei dezenove, num incêncio horrível, junto com minha irmã, de apenas sete anos e meu tio, que já era bastante velho.
Senti pena de Charles, e percebi que ele talvez fosse o tipo de pessoa que acreditasse se eu lhe contasse sobre Nárnia. Sinto dizer que não lhe contei a respeito desse lugar até que chegássemos lá.
– Entre, por favor — convidei-o, e Charles pareceu se recuperar de seu olhar distante e entrou na casa, logo antes de me dar uma caixa, que, juro, eu não havia percebido até aquele momento.
– Creio que aí estão os pertences de sua família — disse Charles delicadamente.
Eu mirei a caixa. Abro agora ou quando estiver sozinha?, perguntei-me. Descobri que não resistia à tentação de abrí-la ali e naquele momento, e foi aquilo que eu fiz.
Charles me observava abrir a caixa. Quando eu a abri por completo, Catherine apareceu, com uma bandeja de chá nas mãos. Se Cath não fosse tão firme como é, juro que deixaria a bandeja cair com um estardalhaço ao ver Charles ali, tamanha foi a sua surpresa.
A caixa continha poucos objetos. Havia uma maletinha que reconheci como a de Lúcia; dentro da maleta, alguns sanduíches e bilhetes de trem. Havia também uma lanterna, de Edmundo, aquela que ele havia comprado depois que perdeu a antiga em Nárnia. De mamãe e papai, roupas, fotos e produtos de higiêne pessoal que eles haviam levado para a viagem de trem. Também dois aneis, um verde e amarelo. Aqueles aneis me pareceram algo de Nárnia, e eu senti que havia acontecido outra coisa aos meus irmãos, algo muito além do acidente de trem.
Notas finais
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