Susana Pevensie
4 O Diário de Lúcia
Duas semanas haviam se passado desde o acidente.
Catherine deixou de morar em minha casa, mas visitava-me frequentemente, assim como Charles e outros amigos que vinham com seus pêsames.
Cath e Charlie eram as poucas pessoas que me faziam sorrir naquela situação. Eu sabia que poderiam se passar anos, eu jamais iria superar.
Um dia, um dia em que tanto Charlie quanto Cath ficaram ocupados demais para me visitar, eu abri a porta do quarto de Lúcia e o vasculhei.
Na gaveta da cômoda, embaixo dos vestidos de escola de Lúcia, eu encontrei um diário. Pequeno e azul, com um leão estampado na capa. Imediatamente compreendi porque Lúcia resolvera comprar o diário. Abri-o indecisa, Na primeira página estava escrito:
Eu, Lúcia Pevensie, escrevo neste diário para me lembrar-me sempre de Nárnia. Para me lembrar de cada momento de Nárnia e cada história, desde daquela em que eu e meus irmãos chegamos à Nárnia, passando pela história do príncipe Cor, da Arquelândia, e até a famosíssima história que se conta e se reconta do início de Nárnia.
Se algum humano que já soube de Nárnia abrir este diário, saiba que está aqui a resposta de todos os dilemas de Nárnia. Se algum humano que mal sabe que lugar é esse abrir este diário, leia-o e talvez você seja o próximo a chegar lá.
Assinado, Lúcia Pevensie, também chamada de Rainha Lúcia, a Destemida, Lady Lúcia, a sorridente, e Srta Lúcia Pevensie, arqueira e dona da destreza.
Eu li esta parte duas vezes, com lágrimas nos olhos. Depois passei às outras páginas. Estavam ali registrados todas as história já contadas em Nárnia, todos os poemas e as canções que ouvíamos dos poetas e bardos em nossos banquetes, tantos anos atrás. Lúcia havia contado a respeito do Sr Tumnus, do Sr e da Sra Castores, do príncipes gêmeos Cor e Corin, de Rabadash, que quis casar-se comigo a força, de Caspian, e a única história que eu nunca havia lido ou ouvido ali era a do filho de Caspian, que viveu anos e anos preso abaixo da terra por uma feiticeira maligna. Vi que aquela história citava Jill Pole, a garota amiga de Eustáquio com quem meus irmãos e meu primo viviam a conversar, e o próprio Eustáquio. Cheguei, então, em uma página em que Lúcia havia escrito algo que não era nem uma história nem uma biografia, nem um poema, nem uma música, mas uma descrição do dia dela. Eu li:
Lúcia Pevensie escreve:
Hoje foi o primeiro dia em que os sete amigos de Nárnia se reuniram. Na verdade, é Eustáquio que está anotando os nossos debates, eu estou escrevendo aqui apenas para manter na memória.
Tudo isso dos sete amigos de Nárnia começou quando nós ainda éramos seis: eu, Pedro, Edmundo, Eustáquio, tio Digory e tia Polly.
Nós convidamos Susana, mas ela diz que já não acredita mais em Nárnia. Pedro não gostou, mas não fez caso. Sabia que algum dia, por alguma razão, Susana voltaria a pensar em Nárnia e faria de tudo para voltar.
Enfim, quando nós ainda éramos seis amigos de Nárnia, Eustáquio voltou à escola (que, diz ele, é terrivelmente horrível). E Pedro teve de voltar ao trabalho e Edmundo teve de arranjar um. Tio Digory e tia Polly já eram aposentados, na vida mansa, mas mesmo assim os seis amigos de Nárnia tiveram de se separar por uns tempos.
Mas então veio uma carta de Eustáquio, uma carta enorme, sem fim, falando mil coisas, que ele havia voltado à Nárnia com uma amiga chamada JIll Pole e que eles haviam viajado junto com um paulama para a cidade dos gigantes e outras bilhões de coisas que não me lembro direito. Oh, como fiquei feliz quando soube que Eustáquio havia conhecido os paulamas e como fiquei preocupada quando li que eles haviam escapado de gigantes e como fiquei triste quando soube que Caspian havia morrido!
Quando recebemos essa carta, imediatamente combinamos outra reunião dos seis amigos de Nárnia, e dissemos a Eustáquio para levar Jill Pole, a garota. Ele levou-a, e me simpatizei por ela no mesmo instante. Ela conhecia muito bem as estrelas de Nárnia, tal qual eu, que viajei no Peregrino da Alvorada e fiz tantas outras expedições naquelas terras. Jill é uma garota muito corajosa, percebi, e também educada, mas ela me disse que não serve para rainha, quando eu lhe perguntei sobre isso. "Sou muito durona" falou Jill "Não gosto de ficar sentada num trono quando há guerras lá fora para encarar".
E foi assim que Jill se tornou oficialmente a sétima amiga de Nárnia. É claro que depois disso não pudemos fazer muita coisa juntos, uma vez que ainda tínhamos trabalho e escola e aposentadoria. Mas quando as escolas e os trabalhos deram uma pausa para as férias de verão, nós nos encontramos de novo. Nos reunimos num jantar na casa de tia Polly e conversamos, conversamos sobre Nárnia e contamos histórias, e recitamos poemas, e cantamos músicas, e falamos e falamos tanto que fiquei surpresa que não tenhamos ficado roucos. Então, no finalzinho do jantar, ele apareceu.
Era um homem alto, parrudo, que parecia tão assustado quanto nós. Ele apareceu de repente, parecendo um fantasma. Não havia percebido sua presença de início, de tão entretida que estava conversando com Jill. Então, eu o vi, ao mesmo tempo que Jill e Eustáquio. Nós três levantamos e eu dei um gritinho. Tia Polly ergueu-se de repente e pareceu prender a respiração. tio Digory se moveu brucamente na cadeira e derrubou o copo de vinho que tinha em sua mão. Pedro, porém, não fez nada, apenas continuou sentado, e disse, enquando todos nós morríamos de medo: "Fale, se você não é um fantasma ou uma visão. Existe em você algo que lembra Nárnia, e nós somos os sete amigos de Nárnia.
O homem pareceu querer falar algo, mas nada saiu. Pedro levantou-se da mesa e disse firmemente: "Espectro ou espírito ou seja lá o que for! Se você é de Nárnia, ordeno-lhe em nome de Aslam que fale comigo. Eu sou Pedro, o Grande Rei". "Vejam! Está sumindo!" eu gritei numa voz aguda que não era minha. Ele já ia sumindo, desaparecendo lentamente. Então nada mais vimos dele e nos entreolhamos.
Então Pedro tomou palavra: "Ele tem algo haver com Nárnia. Foi Aslam. Ele o mandou para cá como uma aparição, para mostrar que Nárnia precisa de ajuda"
"Certamente, Pedro" respondeu tia Polly "mas como vamos chegar lá? Você muito bem sabe que não podemos ir todos para lá sem a ajuda de Aslam."
"Bem, não todos" respondeu Edmundo gravemente "mas Eustáquio e Jill podem" ele olhou para Eustáquio e Jill e os dois pareceram surpresos.
"Quê, mas..." gaguejou Jill, como se estivesse sem fôlego "Por que não vocês, ou..."
"Esqueceu-se, Jill, que só nós dois neste grupo podemos retornar a Nárnia?" disse Eustáquio "Tio Digory e tia Polly não voltam lá há anos. Pedro, Lúcia e Edmundo já não podem voltar de forma alguma" JIll fez uma careta "Tem que ser nós dois"
Assim Eustáquio convenceu Jill e se seguiu um debate tão comprido que nem me lembro direito como foi para reescrevê-lo aqui. Sugiro que quem quer ler esse debate vá procurara o caderninho de Eustáquio, onde ele anota tudo.
Só me lembro que depois ficou resolvido que Eustáquio e Jill chegariam lá por meio dos aneis mágicos com que tio Digory e tia Polly chegaram à Nárnia. O problema era que a casa onde os aneis haviam sido enterrada havia sido vendida e ali acabou o jantar. Pedro e Edmundo disseram que tinham uma ideia, não disseram qual, mas uma ideia.
Bem, amanhã saberemos o resultado da ideia de Pedro e Edmundo.
Assinado, Lúcia Pevensie, também chamada de Rainha Lúcia, a Destemida, Lady Lúcia, a sorridente, e Srta Lúcia Pevensie, arqueira e dona da destreza.
Eu terminei de ler essa parte muito indagadora. Então, eles realmente pretendiam voltar a Nárnia, Eustáquio e Jill. Então eu olhei para os aneis verde e amarelo na minha mão direita. Corri para o meu quarto, onde a caixa com os pertences de minha família se encontrava abandonada e vasculhei-a novamente. Haviam mais um par de aneis: um verde e um amarelo. Eu observei-os cautelosamente, e pensei:
Se nem Eustáquio, nem Jill colocaram os aneis, por que eu tenho essa sensação de que eles estão em Nárnia?
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