Todos seguimos rigidamente o toque de recolher, mas desta vez teremos que esquecê-lo e fazer uma loucura. Recapitulando, estamos numa crise séria. Somos um grupo de oito homens em um casebre caindo aos pedaços, apenas protegido por uma grande cerca de ferro, que nem é tão resistente assim. Bem, desses oito homens, temos um gordo, um gay, um nerd, dois atiradores de elite, um nerd médico, um bostão e um eu. Sim, somos apenas homens. Uns mais que os outros, mas homens. Nenhuma garota. Agora, estamos com a oportunidade de fazer uma delas entrar no grupo, mas todos a veem como uma ameaça. Ninguém do grupo é tarado, estuprador nem nada, mas estamos sentindo falta de uma essência feminina para cuidar. Sabe, nós homens nos sentimos na obrigação de proteger uma garota. Isso pode até melhorar o grupo. Porém, ninguém além de mim quer ela no grupo. Ela tem um irmão. Segundo ela, ele é um ótimo caçador e sabe lidar bem com armas. É o que precisamos! Uma garota e um atirador! Após trocarmos umas palavras, Bella – que nome lindo, cara – acabou falando que estavam em uma torre de rádio numa cidade vizinha. Eles falaram que subiram na torre pois acharam que havia alguns sobreviventes ali, mas quando chegaram no topo, perceberam que havia zumbis do lado de fora, tapando a entrada e o carro das armas. A missão é simples: chegar, limpar, resgatar e pá. Não, não é simples. É super arriscada.

Era umas quatro e meia da tarde. Cinco horas começa o toque de recolher. Não tinha como fazer a missão em meia hora, então resolvemos pegar os dois carros, todas as armas e comidas e sair. Seja o que Deus quiser. Espero que amanhã nosso casebre ainda esteja em pé. Charlotte e Dayton, pra variar, foram naquela motocicleta com neon. Cara, que inveja. É muita sorte. Em pleno apocalipse zumbi, o cara acha uma moto com neon. Que filho da mãe... Enfim, vamos falar do que interessa: da missão número zero sete cinco cinco. Logo na saída do portão, vários bichos começavam a aparecer. Era noite, e o barulho daquele jipe atraía vários deles. O neon da moto do Charlotte também não ajudava.

Eu estava num Fiat Uno com vidros quebrados. Junto comigo ia Dallas, Orlando, Boston e Mobile. Boston ia dirigindo, era a única coisa que esse bostão sabia fazer. Mobile e eu ficávamos com as armas para fora dos vidros, para matar os bichos, enquanto Orlando cuidava do mapa e de outras coisas que envolvem números e coisas que apenas nerds entendem.

No outro carro iam os restantes.

– Que inferno do cão... Acabou o uísque. – reclamava Dallas, sacando sua metralhadora e apontando para o lado de fora.

– Já era hora, ué. Eu e o Orleans iríamos gastar balas pra caramba. – criticava Mobile.

– Calem a boca, estou calculando.

– Foi mal quatro olhos.

– Porra, não enche o saco. Se não fosse eu calculando as estradas e atalhos mais livres dessas coisas, vocês já estariam mortos.

– E sem a gente você também morreria. Agora calcula aí aonde tem um bar com uísque. Estou começando a ficar insatisfeito. Vale lembrar que eu estou com a metralha aqui, né.

Naquele momento, Orlando engoliu seco. Ele entendia MUITO de números, contas, plantas, porcentagens, mas de armas entendia muito pouco. E Dallas é um pouco louco, quer dizer, ele era uma boa pessoa, mas tem certo vício por uísque, e ele faria qualquer coisa pra conseguir uma garrafinha dessa bebida.

– Tá certo, eu acho um bar. – Orlando falava, com certa angustia.

– Espera, eu que mando nesse carro. Só vamos parar se o grupo concordar. – dizia Boston, freando o carro, dando sinal para os outros pararem e descerem. Já estávamos na estrada, era por volta de seis horas.

Todos desceram do carro, angustiados pelo carro mestre ter parado. Dallas descia do carro. Quase não se aguentava em pé, então se apoiava no carro. Mobile descia, dando um certo apoio. Orlando continuava no carro, um pouco assustado. Orlando não era de se assustar, mas ele e Dallas tinham uma certa rixa por causa de coisas do passado.

– Que palhaçada é essa? – criticava Charlotte, já apontando seu arco e flecha para Boston, que parara o carro.

– Acontece que eu quero uísque, e sem uísque não vamos para a guerra.

– Como é? – Charlotte atirava o arco para longe, partindo para cima de Dallas, que mal ficava em pé. Mobile ao perceber que iria apanhar junto, soltava Dallas, que caía de cara nos asfalto. – REPITA O QUE DISSE, IDIOTA.

– Uísque, ahuahua...

Charlotte começava a socar Dallas no asfalto. Com vários socos, sangue começava a escorrer, atraindo mais bichos. Dayton tentava afastar Charlotte de Dallas, mas no fim das contas acabava apanhando junto. Orlando então liga o carro, iluminando a estrada com as luzes. Vários bichos, cerca de 20, estavam ali, prontos para devorar nosso grupo. Isso só pela frente, por trás não era possível ver quantos vinha.

– BICHOS! – gritei.

Charlotte largava Dallas, correndo para pegar seu arco, que já estava numa área cercada dos bichos.

– MEU ARCO!

– Esquece ele, pega a metralhadora do Dallas.

Enquanto Charlotte corria para pegar a metralhadora, Dayton, eu e Mobile começávamos a atirar. Hartford também tentava, mas errava a maioria. Eles iam se aproximando, e quanto mais se aproximavam, mais a coisa ficava feia. A munição ia acabar antes mesmo de chegarmos na cidade vizinha.

– AAAAAAAAAAAAAAAAAAAH! – gritou Orlando, preso dentro do carro, que já estava cercado.

Como as janelas eram quebradas, facilmente os bichos entravam para o carro. Orlando começava a se espremer. Charlotte, quando finalmente chegara no carro, percebera que não teria como pegar a metralhadora.

– PESSOAL, EU VOU MORRER!

– A munição acabou aqui! – afirmava Mobile.

– DROGA! – falava Charlotte – DALLAS, CADÊ VOCÊ?

Dallas não respondia. Sem visibilidade no local onde Dallas estavam, tudo ficava complicado.

– TIVE UMA IDEIA, PESSOAL, ESPERO QUE MINHA VIDA SALVE VOCÊS. – dizia Orlando.

– NÃO FAÇA MERDA, A GENTE VAI SALVAR VOCÊ!

– JÁ FUI ARRANHADO, ESPERTEZA! NO TRÊS, SE APROXIMEM DO CARRO. NO DEZ, PULEM DA ESTRADA! ESTÃO OUVINDO?

– TÁ LEGAL. – disse.

De fora do carro não dava para ver o que ele estava fazendo, mas ele começou a narrar suas ações, como se estivesse se lamentando pela sua vida e desistindo de tudo. Paciência, se aquilo fosse nos salvar, tanto faz. Contando do zero ao dez, fomos nos aproximando do carro. No sete, Orlando pegava a garrafa de uísque, que para a infelicidade de Dallas, não estava totalmente vazia. Logo, o mesmo fazia o sinal de dez. Todos se atiramos para longe do carro. No exato momento que a palavra dez fora, Orlando jogava um fósforo aceso na garrafa, que junto com os restos de uísque caídos no carro e a gasolina do mesmo, causava uma grande explosão. O carro começava a pegar fogo, espalhando seu fogo em todos os zumbis e dando grande visibilidade do local. Haviam centenas dos bichos. Do lado direito da estrada, Charlotte e Mobile. Do meu lado, o lado esquerdo, Dayton, Boston, Hartford, e eu. CARAMBA, POR QUE RAIOS DO MEU LADO DA ESTRADA FICARAM OS RUINS CARAMBA. Cof, cof. Todos saímos correndo para lados opostos. Era tudo ou nada.