Survivors!!
23 Kids that nobody wants (part. 2)
Notas iniciais
“You saw me standing by the wall;
Corner of the main street;
And the lights are flashing on your window sill;
All alone ain’t much fun;
So you’re looking for the thrill;
And you know just what it takes and where to go;
Don’t save a prayer for me now;
Save it ‘til the morning after;
No, don’t save a prayer for me now;
Save it ‘til the morning after... ”
Save A Prayer
Duran Duran
Bunker (segunda, 4/9 — 12:58 p.m)
Oliver
—Não vai responder, playboy? Sentiu ou não nossa falta?- o garoto com a espingarda repete, apontando-a diretamente a meu amigo.
—Claro…. Igua sente-se falta de uma dor de dente ou de cabeça — Tommy ironiza, caminhando até o garotinho ruivo, que descera a escada e se encontrava próximo a ele — A propósito, não lembro de ter enviado convite virem aqui — acresce, causando surpresa a todos ao bagunçar o cabelo do menino — Como me encontraram? — verbaliza a pergunta em minha mente.
Após Helena, havíamos melhorado a segurança no perímetro do bunker, logo, essa pequena invasão era algo totalmente inesperado. E estava fazendo a mente de Felicity trabalhar a mil por segundo! Era evidente em sua expressão o quanto estava intrigada e decepcionada consigo mesma. E justo depois de ter-se vangloriado a bem pouco tempo de seus sistemas serem imbatíveis.
—Não foi nada fácil, admito — o mesmo adolescente (que presumo ser o tal Draco) responde, abaixando a arma enquanto caminha, parando a menos de dois passos de mim — Então você é o capuz!! — exclama, um misto de raiva e admiração brilhando em seus olhos — E isto aqui é seu esconderijo — abre os braços e ao fazê-lo percebo algo interessante a respeito da arma em seu poder: não tinha munição além da engatilhada — Maneiro — meio que elogia e enrugo o cenho.
—Obrigado!?! — digo em tom duvidoso, correndo o olhar pelo bunker, estreitando os olhos ao notar que pareciam ter relaxado — Ainda não respondeu a pergunta: como encontraram este lugar e por que vieram? — interrogo, notando outra coisa estranha: estava ferido.
—São duas perguntas agora — ele rebate, me dando parcialmente as costas, e meu instinto fala mais alto que a prudência.
Com um movimento rápido e preciso o desarmo, usando a arma com a qual antes nos ameaçava para prendê-lo, o gesto deixando a todos, inclusive meus amigos, sem ação.
—Primeira lição: jamais abaixe a guarda ou dê as costas um suposto inimigo. Sua vida e a daqueles que lidera dependem disso. Um bom líder deve sempre pôr a segurança de seu time em primeiro lugar — discurso, erguendo-o alguns centímetros do chão quando esboçar uma reação, sua camiseta gasta subindo junto.
—Oliver, ele está ferido! — Felicity alerta, indicando um ponto em seu flanco esquerdo, logo abaixo das costelas
—E jamais saia em uma incursão sem estar cem por cento...a menos que isto seja extremamente necessário — acresço, soprando, irritado. Mais irritado — Thea, pegue o kit de primeiros socorros — ordeno, libertando-o e destravando a espingarda, comprovando minhas suspeitas estarem corretas — Apontar armas sem munição excerto a constante no tambor também não muito inteligente…
—Você se acha muito esperto, né não? — resmunga, fazendo careta ao baixar a camiseta, escondendo o ferimento — No entanto entramos aqui sem nenhum de vocês perceber! — vangloria-se e arqueio a sobrancelha, surpreso com sua atitude.
—Qual de vocês vai responder as perguntas, já que Draco não o fez — questiono, ignorando seu comentário, voltando minha atenção para a garota morena e o garoto asiático a seu lado.
—Antes, poderia nos sinalizar o que pretende fazer antes de o fazer, por favor? Eu quase infartei aqui!!! — Thea reclama, pondo o kit sobre a mesa com estardalhaço.
—Hã...na verdade ele meio que sinalizou — Dig diz, erguendo o indicador.
—Quando foi isso?? — ela insiste, cruzando os braços, emburrada.
—Linguagem corporal maninha. Demora um tempinho pra você pegar o jeito, fica triste não — Tommy explica, dando dois tapinhas em seu ombro ao passar por ela, se aproximando do garoto — O que houve Draco? Por que se arriscaram vindo até aqui? — interroga, o menino ruivo praticamente se agarrando as pernas dele, provocando outro levantar de sobrancelha, o soprar da garota atraindo minha atenção para si outra vez.
—Fomos atacados — revela, abaixando de vez a arma, deixando os braços caírem pesadamente, fazendo os demais membros de seu grupo sentarem-se com um simples movimento de cabeça e pressinto ser um tipo de líder do grupo. Um segundo, talvez — Alguns de nós estão muito feridos… alguns morreram...- conta, enxugando o rosto com o dorso da mão e somente então percebo que chorava ao mesmo tempo em que me questiono quantos eles seriam — Levamos os feridos para um local seguro, aos cuidados de outros mais velhos que não estavam e viemos em busca de ajuda. Igor — aponta o garotinho ruivo -, estava te seguindo a dias porque queríamos saber sua real ligação com o capuz. Sabíamos que passa bastante tempo aqui quando não está em seu apartamento — elucida, caminhando em nossa direção, parando alguns passos de Draco, encarando Tommy — Não podemos ir a policia nem a um hospital porque teremos de dizer onde vivemos e sob que condições…
—Vão separar nós!! — o ruivinho, Igor exclama, agarrando-se mais a Tommy.
—Então decidimos vir para cá — a menina prossegue, afagando a cabeça do garotinho — Igor e os pequenos confiam em você, logo…
—Só para que saiba, eu votei contra porque Eu não confio em você!! — Draco a interrompe, resistindo às tentativas de Thea em tratar seu ferimento, dando atenção a garota, que abria a boca, pronta para protestar — Cometi o erro de confiar em um adulto e olha o que acontecer? — abre os braços, bravo, ao que podia perceber, consigo mesmo mais do que com ela propriamente — Não pretendo cometer o mesmo erro duas vezes seguidas, portanto…- se volta para mim — Não vá pensando que vamos nos tornar amiguinhos ou coisa do gênero caso resolva nos ajudar — avisa, dedo em riste — Algumas pessoas e esses daqui — aponta alguns dos garotos e garotas em volta -, consideram você um tipo de Robin Hood, mas tudo que vejo é um cara que persegue uns riquinhos da cidade, que bota medo neles, faz eles serem presos de vez em quando e igualmente de vez em quando faz, de fato, algo pelas pessoas — diz, erguendo o queixo em desafio.
—Sério que disse isso? — Thea questiona-o, não lhe dando chance responder — Sabia que não fosse a interferência de meus irmãos o hospital ainda estaria tendo o estoque de medicamentos roubado? Que metade dos riquinhos, como você falou, que Ollie levou a cadeia tiveram que devolver o que roubaram, ainda que sob ameaça — diz, fazendo uma careta estranha — para as pessoas das quais haviam roubado, trabalhadores em sua maioria, e que graças ele, ao Tommy, a Felicity, o Dig e outras pessoas que não estão aqui agora, o estrago causado pelo terremoto poderia ter sido bem pior? — enumera.
—Tá se referindo ao terremoto que Sua Mãe provocou juntamente com o Pai dele? — rebate de pronto, prosseguindo antes que qualquer de nós pudesse dizer algo — Quanto às boas ações feitas pelo capuz e os demais — faz aspas no ar -, nem nós, nem a maioria das pessoas que vivem, e Sempre viveram nas ruas e esgotos de Starling sentiu qualquer diferença em seu modo de vida. Continuamos vivendo nos guetos, sem saúde, a mercê de caras como o prefeito, portanto, vou lhe dizer que tô cagando e andando pro seu irmão e o time dele! — bufa.
—Mas que moleque mal agradecido!! — Sara bufa de volta, irritada — Escuta aqui garoto…
—Sara — admoesto-a com um olhar duro, ela hesitando um segundo, fechando a boca e cruzando os braços, brava — Sinto muito por tudo que acaba de citar ainda esteja acontecendo na cidade — digo, dando atenção a Draco — E sinto que parte do sofrimento tenha sido causado por minha família. Minha luta pessoal é para redimir os erros cometidos por meus pais, mas nem tudo é possível ser resolvido por meio de minhas ações com a equipe — indico-os com um gesto de mãos — Cada um de nós aqui tem se esforçado para ao menos minimizar os danos do terremoto e continuaremos a fazê-lo…
—Mesmo que seja uma gota no oceano! — Felicity me interrompe, se aproximando — Oliver é apenas um homem e mesmo com nossa ajuda e de outros que não estão presente, como Thea lembrou, não pode resolver os problemas do mundo! — afirma, apertando as mãos como faz quando está ansiosa ou tensa — Eu sinto que estejam vivendo esse inferno, sinto que os adultos tenham decepcionados vocês a ponto de preferirem se isolar e sinto que esse tal prefeito, seja lá quem ele for, esteja aproveitando-se, ao que pude entender, da situação para se engrandecer e tirar vantagens, mas no momento o mais importante é ajudarmos os demais garotos, especialmente os feridos, e não perder tempo aqui discutindo o sexo dos anjos! — discursa, firme.
—Felicity está certa — anuo ligeiro, dando atenção a garota — Nos guie até onde os deixou..
—Pretende trazê-los para cá? — John questiona, me cortando — Porque, a meu ver, iremos trocar seis por meia dúzia já que não temos espaço nem meios de tratar feridos. Um kit de primeiros socorros não será suficiente — argumenta.
—Sem mencionar que vamos atrair um pouquinho de atenção começar a trazer um monte de crianças e adolescente para uma boate, mesmo que a luz do dia — Sara observa
—Vai valer no mínimo a cassação da licença de funcionamento — Thea acrescenta, conseguindo (finalmente) fazer Draco sentar-se para cuidar dele.
—E mesmo que tivéssemos outros tantos kits, Aqui não é o local indicado para acomodar e manter um grupo de sabe-se lá quantos garotos e garotas. Tecnicamente ainda é um esconderijo...Ou deveria ser!! — Felicity comenta, abaixando a voz no final, contrariada.
—Vamos descobrir como conseguiram burlar seu sistema de segurança, sweet, não se preocupe — cochicho, pondo a mão em seu braço — Por hora, preciso pensar em um local adequado e em uma forma de socorrer esses garotos — acresço, voltando-me ao escutar a voz de Tommy.
—Acho que tenho a solução — meu amigo diz, atraindo a atenção dos demais — Não sei, ainda, como faremos para levá-los para lá, ou como entrar já que deve estar sob vigilância da polícia — coça a barba, fazendo uma careta leve -, mas acho que seja nossa melhor opção no momento — afirma, me encarando — Lembra do galpão aonde me contou meu pai te prendeu algumas horas antes de dar início ao plano? — faço que sim com a cabeça — É uma das poucas coisas que não irá a leilão logo mais a tarde, não sei bem porque — revela — Temos espaço suficiente para acomodar a todos, mas em compensação não posso garantir ter energia elétrica ou mesmo água. Não sei em que condições o prédio se encontra depois do terremoto já que fica nos arredores dos Glades — admite.
—Tendo um teto basta — Draco chama nossa atenção — O resto a gente se vira — garante, orgulhoso e não decido se quero abraçar pu espancar esse garoto por ser tão parecido comigo.
—Eu não sei se te beijo ou te dou uns tapas por ser tão orgulhoso! — Felicity solta, causando espanto — E teimoso. E atrevido...mas enfim, tem seus motivos para ser assim — dá de ombros, ajustando os óculos ao me encarar — Temos um local, ok, mas e quanto a suprimentos médicos? Curativos, vacinas, medicamentos, e o principal: médicos! — enumera — Se ao menos Cait ainda estivesse aqui — suspira, me assustando ao sacudir as mãos freneticamente logo a seguir — Ela não está, mas pode ajudar!! — exclama, os olhos brilhando — Com certeza saberá indicar alguém em quem possamos confiar nos ajudar sem ir correndo nos entregar ao detetive Lance — estala os dedos — E tem o Donner! ele falou que está disposto ajudar então essa é a chance de provar. Laurel pode muito bem falar com ele e conseguir que nos ajude sem muitas perguntas — declara, dando soquinhos no ar — Vou ligar para elas agorinha e providenciar tudo enquanto vão até as crianças e preciso do endereço do galpão antes que saiam — apressa-se, girando nos calcanhares, me dando as costas, indo para a frente de seu computador sem esperar resposta.
—Eu...acho que tô meio perdido aqui — tommy diz, enrugando o cenho, John e eu nos divertindo com sua confusão.
—Felicity sendo Felicity — Dig diz, dando de ombros — Agora é melhor pensarmos em uma maneira de transportar a todos para o galpão a começar pelos que estão aqui e em quem mais pode ajudar a transportar os outros. Só temos meu furgão e as motos a disposição — alerta.
—Não por isso — Thea diz, me fazendo olhar em sua direção — Aposto como o Roy consegue isso em dois tempos — afirma, orgulhosa, sacando o celular — Aguenta as pontas um segundo dragão, que vou ligar pra meu gatinho esperto — estala a língua, afastando-se minimamente.
—Gatinho esperto?? — Tommy repete, estreitando os olhos — Desde quando? — inquere.
—Não sei, mas teremos uma conversinha com o Harper depois de tudo resolvido — garanto, Sara bufando a minha frente.
—Sério que pretendem bancar os homens da caverna? — questiona, sacudindo a cabeça — Esquece. Tenho certeza que a baixinha vai pôr os dois em seu devido lugar — aponta de mim para Tommy — Agora vamos para de enrolação e sair logo a caça dos demais fed...garotos. Demais garotos — corrige-se ligeiro, olhando Draco de esguelha — Você aí, bonitinha…
—Meu nome é Letícia- a garota morena diz, torcendo o nariz.
—Letícia. Vai nos guiar ou não até os outros? — questiona fazendo Tommy rolar os olhos.
—Sua sutileza e delicadeza só aumentam a cada dia loira! — ironiza, ela mostrando-lhe, não tão discretamente, o dedo do meio em resposta.
—Letícia, poderia nos dizer de quantos de vocês estamos falando? — peço.
—Quinze, sendo cinco abaixo dos quatro anos, três com ferimentos mais sérios e os demais com ferimentos leves — relata com precisão — Somos...éramos bem mais, mas além dos que foram mortos, alguns correram sem rumo certo e estão espalhados pela rede de túneis antigos e outros lugares aonde se sentirem seguros — conta, me estendendo a arma — Eu nem sei usar essa porcaria direito — admite, se voltando para o garoto asiático — Aquele é Ayume e atrás dele o Doc — indica os dois garotos mais afastados.
—Doc não fala nada. Nem escreve. A gente nem sabe o nome dele de verdade. Chamamos de Doc porque tava com um jaleco de médico quando achamos ele — Igor conta, agarrando-se a Tommy novamente — Eu vou com você — avisa.
—Não. Você vai com o grandão aqui quando ele for levá-los pro galpão enquanto vamos com a Letícia encontrar os os outros -meu amigo determina, firme, me encarando — Que é o que suponho será feito interroga.
—Nos dividiremos em dois grupos: Dig vai com Thea e Felicity levar os que estão aqui. Você, eu e Sara vamos buscar os demais assim que Speedy me der sinal verde — determino, inclinando a cabeça a fim de enxergar minha irmã.
—Roy disse que consegue dois furgões. Ele e Sin irão ao encontro de vocês — avisa, Felicity chamando nossa atenção para si.
—Laurel vai falar com Donner e entra em contato e Cait vai entrar em contato com dois amigos dela que trabalham no hospital. Assim que conseguir nos avisa — relata, levantando-se — Não esqueçam os comunicadores, fiquem de olhos e ouvidos atentos e tenham cuidado — recomenda.
—Pode deixar mamãe! — Sara a provoca, indo até o armário de armamentos enquanto Dig, Thea e Tommy começavam a organizar os garotos.
—Eu vou com vocês — Draco, que se mantinha estranhamente calado, avisa vestindo a camiseta.
—Não pensei que fosse diferente — digo, seguindo-o com o olhar, me voltando ao sentir o toque em meu braço.
—Vou tentar descobrir algo a respeito desse tal prefeito — Felicity avisa e anuo com um gesto de cabeça, me surpreendendo quando me dá um selinho — Tenha cuidado lá embaixo — reitera, mordendo o lábio inferior.
—Você também — recomendo, retribuindo o gesto, beijando primeiro seu rosto, aproveitando para sussurrar um pedido em seu ouvido, lhe dando um selinho antes de nos separarmos, cada um indo em uma direção.
Em poucos minutos havíamos nos organizado, John, Thea e Felicity, espremendo-se no furgão com os garotos enquanto Tommy, Sara e eu vamos com Letícia (com ela) e Draco (em minha garupa) em busca dos demais. Optei por deixar Tommy livre, pondo-o na retaguarda, em alerta (por mais que tenham ido ao bunker em busca de socorro, não confiava em Draco ou mesmo Letícia, especialmente por não saber que tipo de traição o tal prefeito teria feito e principalmente qual acordo aparentemente existia entre eles já que o garoto afirmava categoricamente não confiar em adultos), seguindo a direção indicada pelos dois, Roy e Sin unindo-se a nosso grupos na metade do caminho.
Seguimos, para meu espanto, até bem perto do limite dos Glades, parando em uma viela escondida onde só as motos conseguem ter acesso e mesmo assim é preciso ter habilidade para não se chocar com algum dos lados, o que te jogaria de encontro ao outro e dali para o chão. Seria um encontro nada agradável e bastante doloroso. Por sorte, nós três o somos. Sem falsa modéstia.
—Fiquem atentos — recomendo, sinalizando que permanecessem na entrada do beco enquanto Tommy, Sara e eu íamos em busca dos demais garotos, o que implicava entrar um bueiro.
Seguimos Letícia e Draco por corredores que, confesso, desconhecia, o som forte de água a nossa esquerda chamando minha atenção.
—Estamos perto de alguma fonte de água, saberiam dizer? — pergunto, preocupado. Se podia escutar o som com tamanha precisão, significava que as paredes deveriam ser finas. A umidade também era outro indicativo.
—A represa da cidade fica alguns metros daqui — Draco comunica com tranquilidade.
—Espera…. saímos dos Glades? — Sara interroga.
—Quase. Os limites dos Glades são um pouco maiores do que os mapas que a prefeitura dispõe — ele afirma com segurança.
—Como sabe de tudo isso? — Tommy dá voz a meu questionamento íntimo, a resposta demorando um tempo impreciso — Draco? — meu amigo insiste, um suspiro impaciente vindo antes de o garoto responder.
—Meus pais eram geólogos. Passei parte de minha infância entre mapas e rochas...até eles partirem e me deixarem para trás — o final é dito de forma rancorosa e quase inaudível, me dando a certeza ter sido ali que a personalidade desse garoto (que aparentava ter pouco mais de quatorze anos) começara ser moldada.
—É. Alguns pais tendem fazer este tipo de coisa. Ou pior — Tommy murmura, amargo, fazendo Draco olha-lo rapidamente, tencionando, ao que pareceu, perguntar algo, mudando de idéia e voltando-se para frente outra vez.
—É logo ali — avisa, indicando uma bifurcação alguns metros adiante.
Tomamos o caminho da direita, nos afastando do som de água, caminhando ainda por cerca de dez minutos até um arco surgir e através dele divisamos uma saleta menor do que aquela para onde haviam levado Tommy, um garoto moreno e forte (muito forte mesmo!) pondo-se de pé com um taco de beisebol nas mãos ao nos ver.
—Somos nós Apolo — Letícia adianta-se, indo abraçá-lo — Como você está? Ainda tá sangrando? — preocupa-se, tentando fazê-lo erguer o braço.
—Tranquilo, chica! — responde com um forte sotaque latino — Quem são? — questiona, apontando o taco para nós.
—O playboy e uns amigos dele que estão nos ajudando — Draco responde, indo até um pequeno grupo encolhido no canto, agachando-se — Venham. Estamos de saída — ordena num tom mais gentil, puxando uma garotinha com cabelo de cor indefinido e incríveis olhos verdes — Marianne, Juan, Sebastian, levantem — ordena novamente, erguendo-se com a menina agarrada a seu pescoço — Todos, apúrense! Vamos se apressem!! — incita olhando para a esquerda e de repente outros começam a surgir das sombras.
Apesar de estarmos sob o solo, a luz ali era relativamente boa em alguns pontos. Em outros, especialmente a esquerda, eram as sombras que dominavam. Começo a contar, instintivamente, a fim de confirmar o que nos haviam dito no bunker.
—Há vinte e três aqui e não quinze — digo, encarando a Draco e Letícia.
—Alguns chegaram depois que eles se foram em busca de ajuda. Estes quatro já estavam aqui quando cheguei — Apolo justifica, indicando quatro meninos de uns dez anos aproximadamente — Problemas? — pergunta, olhando-nos alternadamente.
—Nenhum — afirmo, sinalizando a Sara e Tommy aproximarem-se — Mostrem os que estão mais feridos para que possamos carregá-los. Os que podem andar, comecem a fazê-lo — ordeno, Apolo assumindo a tarefa de nos indicar os garotos, meninos em sua maioria, que não se encontravam em condições de caminharem ligeiro, como Draco e Letícia incitavam fazer, o que me despertou um questionamento.
—Por que a pressa? — interrogo, fazendo com que um garoto se agarrasse as minhas costa enquanto segurava outro nos braços, Tommy fazendo o mesmo.
—Estava me perguntando isso agora mesmo — meu amigo diz — Na verdade, desde que saímos parecem estar com medo de algo...ou seria alguém?? — inquere.
—Só queremos pôr todos em segurança, só isso — Letícia diz sem muita convicção.
—Como falei antes, sou responsável pelo que aconteceu. Quero e devo me redimir — Draco diz, firme, trincando os dentes com tanta força que quase os escuto ranger — Quando todos estiverem em segurança…
—Nós iremos ter uma conversa franca sobre o que aconteceu e por que aconteceu — o interrompo — E não aceitarei nada além da verdade — advirto, tomando a dianteira.
Tinha o pressentimento de que aquele garoto iria me dar trabalho e por alguma razão sentia que devia intervir.
Quando nos aproximamos da saída, assobio, Roy surgindo na entrada do bueiro quase ao mesmo tempo em que paramos embaixo desta. Com o auxílio de cordas, retiramos todos, a começar pelos maiores e mais fortes, os menores e feridos por último. Não foi tão difícil quanto pensei ajeitar todo mundo nas duas vans que Harper e sua amiga haviam conseguido (sei lá como e realmente, naquele momento, não importava tanto).
—Não espancaram nem mataram ninguém, não é? — Sara pergunta, ganhando olhares emburrados de ambos — Só conferindo — diz, sentando-se em sua moto, Letícia na garupa.
—Felicity me enviou as coordenadas e pediu para avisar que Laurel e Donner fizeram a parte deles — Harper avisa, dando a partida.
—Ok. Nos vemos no galpão -digo, pondo o capacete, aguardando ambas vans saírem para somente então as seguir juntamente com Tommy e Sara, hora a frente, hora na retaguarda, minha mente trabalhando a mil por hora, pensando no que poderia fazer por aquele imenso grupo de crianças.
………………………………………..
Galpão Global (17:20 p.m)
Narrador
Pensativo, Oliver olhava os jovens e crianças espalhados pelo galpão aonde algum tempo atrás Malcolm o aprisionara na tentativa de o impedir deter seu plano de destruir os Glades.
Quando chegara, sua irmã, Felicity e Diggle haviam providenciado colchonetes e cobertores para quase todos (não contavam com um número maior de crianças). Também trouxeram roupas e comida. Pouco após sua chegada, Laurel e Adam Donner apareceram trazendo consigo dois médicos amigos de Caitlin e algum suplemento de medicamentos. Durante mais de uma hora o time se dedicou ajudar a cuidar dos feridos e preparar o local para que pudessem dormir com o mínimo de conforto, deixando o local num verdadeiro frenesi de vai e vem de pessoas limpando instalações e instalados. Roy conseguira religar água e energia de forma clandestina, permitindo um pouco mais de rapidez e conforto nos procedimentos por conta de o local ser naturalmente escuro e uma tempestade se formara minutos depois de todos estarem no lugar, transformando a tarde em noite rapidamente.
Agora que o tumulto inicial cessara e todos tinham sido tratados e alimentados, um clima de calma se instalara. Excerto nos pensamentos do arqueiro.
—Não vou dizer que pago um dólar por seus pensamentos porque sei que valem bem mais que isso — Felicity declara, aproximando-se dele devagar, trazendo um sorriso sincero ao rosto do loiro — Tá pensando no tal prefeito? — quer saber a nerd, apoiando-se ao peitoril onde ele se encontrava apoiado, Oliver olhando-a de lado.
—Também — admite, posto as informações passadas por ela assim que tiveram oportunidade de conversar, o tinham deixado a ele e John, em especial, inquietos — Conseguiu descobrir como eles entraram no bunker? — pergunta, a careta dela o fazendo rir novamente.
—Bueiro — revela a loira, fazendo mais uma careta — Nunca pensei que poderia ser um ponto fraco o local por onde a chuva escorre. Já estou pensando em uma maneira de nos proteger sem nos enlouquecer — ela diz, rindo discretamente ao vê-lo enrugar o cenho — Se colocar sensores de movimentos, cada vez que uma gota de água passar pelas grades, os alarmes soarão — explica.
—Entendi — limita-se a dizer o loiro, olhando o movimento logo abaixo deles.
—Então. Vai me dizer o que te preocupa ou terei de tentar adivinhar? -reinquire a loira, tocando-lhe o braço carinhosamente.
—O futuro destes garotos e garotas — assume, erguendo-se — Não podem ficar aqui para sempre. O local, mesmo abandonado, faz parte do espólio da Global e se não foi a leilão hoje junto com os demais bens, não temos como garantir que poderão permanecer aqui por um longo tempo — diz, erguendo o olhar para o teto ao sentir a gota de água em seu antebraço — Sem mencionar as condições precárias. Se chover assim por mais tempo iremos precisar de capas e guarda-chuvas — consegue brincar, arrancando um sorriso fraco dela.
—Está preocupado em para onde os levaremos daqui — conclui a nerd.
—Isso. Eles não irão aceitar ser levados para orfanatos e outros lugares parecidos. A maioria está apegada, formaram uma família — constata
—Verdade — ela anui, olhando-os rapidamente — O pequeno disse mais de uma vez que não deixaria os demais. Não duvido nada que fugissem, um a um dos lares para os quais fossem encaminhados — supõe a loira, ambos rindo.
—Com certeza não seria fácil manter qualquer deles aonde não quisessem ficar — Oliver diz.
—Que vamos fazer então? Se não puderem ficar aqui, para onde irão? — questiona, ambos voltando os rostos ao escutarem a voz de Tommy.
—Acho que posso ter encontrado a solução — avisa o moreno, torcendo-se ao sentir o beliscão em suas costelas aplicado por Thea — Quer dizer, acho que nós encontramos a solução — corrige-se, massageando o flanco.
—Mesmo? — Oliver pergunta, esforçando-se para não rir da careta que Tommy ainda fazia.
—Lembra do prédio onde funcionava a clínica da mãe do Tommy? Aonde ele encontrou os garotos pela primeira vez? — Thea questiona, ambos, Oliver e Felicity acenando afirmativamente — Pois bem, vamos reformá-la e torná-la uma casa de passagem para menores em situação de abandono. Ou de moradia temporária. Ou lar temporário. Ainda não escolhi o nome — declara a morena, entusiasmada — Eles poderão viver lá sem serem incomodados por ninguém. O promotor Donner prometeu e Laurel se comprometeu a conseguir ajudar com as ONGs que conhecem pessoas para dar aula aos pequenos e formação profissional para os maiores — relata.
—Devagar aí Bernie Sanders, ninguém se comprometeu nem prometeu nada — Laurel e os demais surgem logo atrás dos irmãos — Dissemos que iríamos tentar conseguir tudo isso — retifica a advogada.
—De certo nisso tudo apenas o fato de não correrem o risco de serem despejados ou incomodados por nenhum órgão responsável por cuidar de menores em situações de risco, como é o caso e eu já sei que elas não têm feito seu trabalho satisfatoriamente — Donner adianta-se, erguendo a mão, calando o protesto ensaiado por Thea — Será exatamente este argumento que usarei para mantê-los longe da casa. O problema principal é reformá-la em tempo recorde para tirar todos eles daqui o quanto antes.
—E como faremos isso?? — Felicity questiona, olhando para Oliver — Melhor dizendo, Quando faremos isso? Seus dias estão ocupados com a QC ..sem mencionar as noites — cochicha a segunda parte, mesmo sabendo que Donner provavelmente já estaria supondo tratar-se do team arqueiro todos os presentes e participantes da operação.
—Isto deixem por minha conta — Tommy prontifica-se — Amanhã mesmo começo a cuidar disso — assegura, sem entrar em detalhes.
—Ok — Oliver anui, não querendo pressionar o amigo — E quanto a licença para realização da reforma e demais trâmites legais? — quer saber o arqueiro.
—Disso posso cuidar também — Laurel informa.
—Tudo resolvido!! — Thea comemora, batendo palminhas
—Temos mais uma coisinha a resolver ainda — Diggle ergue o indicador — Como faremos para tomar conta deles enquanto estiverem aqui? — questiona — Não podem ficar sozinhos e ainda não sabemos o porquê terem sido atacados e perseguidos e honestamente falando, não confio naquele garoto, Draco. Ele é bem capaz de estar planejando se vingar do tal prefeito assim que se sentir mais confiante — adverte.
—Acha que seria capaz de colocar a todos em perigo por vingança? — Thea pergunta, incrédula — Ele próprio afirmou se sentir culpado pelo que aconteceu. Como pode pensar em repetir o erro?
—Não disse que levaria os demais — Diggle contesta.
—Concordo com John e mesmo que não houvesse o risco de ele embrenhar uma vingança pessoal, há os menores e feridos que ainda precisam de cuidados. Os amigos de Cait não poderão permanecer aqui a noite inteira nem ficar vindo para estas bandas sem atrair atenção — Tommy observa.
—Bom, eu posso ficar aqui um tempo diariamente. Até o dia inteiro se precisar — Sin prontifica-se, erguendo a mão — Ninguém iria estranhar me ver por estas bandas — argumenta.
—Posso vir depois da ronda — Sara se oferece — Se tudo estiver bem, óbvio — condiciona.
—Acho que todos podemos passar um tempo aqui enquanto o prédio não fica pronto — Oliver diz, dando atenção a Tommy — Acha que consegue resolver isso em quanto tempo? — interroga.
—Só posso te dar um prazo amanhã — sustenta o moreno.
—Por que tanto mistério Merlyn? — Sara questiona-o.
—Porque não posso garantir que a pessoa vai aceitar realizar o trabalho, Lance. Simples assim — responde de pronto — Assim que receber o sinal verde, informo a todos — reafirma.
—Certo. Por hoje, Sin permanece aqui em tempo integral. Sara, eu e John viremos após a ronda. Felicity e Thea…
—Eu venho com vocês — adianta-se a nerd.
—Eu nem vou embora. Já trouxe minhas coisas. Vou dormir aqui — Thea avisa.
—Thea, a mamãe…- Oliver tenta argumentar, ela o cortando.
—A mamãe estará muito ocupada discutindo alianças e plataformas de sua campanha com os colegas partidários. Nem vai dar por minha falta e se der, instrui Raíssa sobre o que dizer — avisa, sorrindo marotamente.
—Por que será que minhas orelhas estão ardendo??? — Tommy brinca, fazendo careta.
—Relaxa irmãozinho. O pior que pode acontecer é mamãe ameaçar te castrar. De novo — devolve a morena.
—Hã...Falou irmão? O que eu perdi? — Donner pergunta, não dando espaço para respostas — Antes que esqueça, fico feliz que tenha decidido aceitar trabalharmos juntos. Estou certo que poderemos fazer grandes coisas juntos — diz, encarando o moreno.
—Espera, eu não disse….
—O que Tommy está querendo dizer é que este foi um teste de confiança promotor — Oliver interrompe — Quando ele nos trouxe sua proposta ficamos duvidosos, mas a julgar pela forma como se prontificou nos ajudar, ele com certeza irá levar em consideração firmarmos uma aliança de fato — discursa.
—Estou certo que isso irá acontecer — Donner afirma, olhando-os um a um — Bem, infelizmente não posso permanecer. Amanhã, depois que resolver a questão da reforma, entre em contato e providenciaremos os alvarás e licenças, Merlyn- pede, voltando-se para Laurel — Me acompanha?
—Sim, mas voltarei para ajudar mais tarde — avisa a advogada.
—Até breve — despede-se Donner, Laurel fazendo o mesmo, deixando o galpão em companhia de Donner.
—Por que deixou que ele continuasse a pensar que Tommy é o vigilante? — Thea questiona, intrigada.
—Pois é. Por que não me deixou esclarecer isso de uma vez por todas? — Tommy faz coro, encarando o arqueiro.
—Apenas quero ter certeza de poder confiar nele, nada mais — Oliver diz, empertigando-se — Vou passar na QC e depois em casa antes de ir ao bunker — avisa — Quer que te leve em casa? — pergunta, olhando diretamente para Felicity.
—Uhum. Quero sim — responde — Se não for precisar de meus serviços no escritório — emenda.
—Não. Prefiro que tente descobrir algo mais sobre o prefeito — diz, voltando-se para Diggle — Importa-se de ir para o bunker antes de mim? — inquere.
—Não. Vou em casa tomar um banho e sigo direto para lá — avisa o segurança.
—Ok. Harper, fique com Thea e Sin até que um de nós venha para cá — recomenda, inclinando-se ao notar a presença de Draco a porta — Sim?!? — inquere, fazendo os demais se voltarem
—Só...bem, quero agradecer — titubeia, socando uma mão contra a outra — Em nome de todos. Obrigado — reforça.
—Tudo bem — responde Oliver, encarando o garoto — Hoje não temos tempo hábil, mas amanhã precisamos conversar. Há algumas coisas a dizer e outras a saber sobre o ataque e sobre o futuro de todos vocês — informa, notando a tensão se formar no rosto do rapaz — Nada com que se preocupar. Estamos providenciando um local seguro e permanente aonde possam ficar em definitivo — revela.
—Bem longe dos esgotos!! — Thea exclama, esfregando os braços, ele rindo esquisito.
—Não é tão ruim depois que se acostuma — afirma, calmo — Bom, vou ajudar Letty com o jantar. De novo, obrigado — reitera, acenando com a cabeça antes de sair.
—Esse garoto foi muito ferido Oliver. Talvez tanto quanto você foi naquela ilha — John observa.
—É o que parece — murmura o arqueiro, pensativo, sacudindo a cabeça para espantar as lembranças do passado — Vamos indo Felicity. Quero encerrar a ronda mais cedo e vir para cá.
—Não vamos atrás do tal prefeito? — Sara pergunta, ansiosa.
—Não diretamente. Hoje vamos sondar as ruas e ver o que descobrimos. À partir de amanhã nos concentramos nele — determina — Fiquem atentos a tudo — recomenda, olhando diretamente para Roy.
—Ficaremos — garante o barman.
—Vou ficar por aqui mais um tempinho. Quando estiver indo pro bunker avisa grandão que vou a seu encontro — Sara pede, Diggle anuindo com um gesto de cabeça.
Depois que Oliver, Felicity, Diggle e Tommy vão embora, Sara, Thea, Roy e Sin se misturam ao garotos, buscando maiores informações sobre o ataque e o prefeito enquanto ajudam, a loira deixando o galpão apenas quando Diggle liga.
…………………………..
Apartamento Tommy ( terça, 5/9- 10:00 a.m)
Tommy
O toque insistente e estridente me desperta e por pouco não atiro o celular contra a parede, irritado, mesmo tendo sido eu a programar o horário.
Ontem, depois que deixamos o galpão, antes partir para a ronda junto com Ollie e Sara, entrei em contato primeiro com meu advogado, melhor dizendo, o advogado da Global, Louis Torres, a fim de conseguir o número do ex capataz que trabalhava para a empresa. Gregory era um senhor de meia idade, baixinho e simpático que conheci quando meu pai mandou-me inspecionar uma obra nos arredores da cidade. De cara nos demos bem e durante toda a turbulência que foi o processo de pré falência da firma, ele e Torres foram meus representantes e mediadores juntos aos credores, a prefeitura e principalmente junto aos funcionários (pra lá de desconfiados depois da “Era Helena”, como haviam denominado a passagem de minha queridíssima madrasta. Por tabela, fui informado dos valores conseguidos com o leilão patrimônio da Global, descobrindo pouco mais da metade de tudo que antes pertenceu a minha família (desde meu avô) estava agora nas mãos de Isabel Rochev, a mesma que atormentava Oliver. O prédio central, em área nobre da cidade, dois quarteirões abaixo do prédio da QC, mais alguns edifícios menores nos arredores do principal, agora pertenciam a Palmer Tech ( o que certamente iria elevar o nível de estresse e irritação de Oliver a patamares astronômicos!). Ray Palmer, atual CEO da empresa de sua família, viria a cidade em breve para tomar posse de sua mais recente aquisição bem como determinar o futuro dos funcionários que ainda mantinham vínculos com a Global (descobri ainda haver um número considerável de pessoal cujos contratos de trabalho não haviam sido, por alguma razão, encerrados). Torres me aconselhou ter uma conversa com Palmer sobre isso porque, querendo ou não, era minha responsabilidade assegurar que teriam ou seus empregos mantidos ou seriam pagos. Eu só não fazia a menor idéia de como conseguir recursos para tal posto ser igualmente minha responsabilidade o segundo ponto, ou seja, pagamento.
Tão logo encerrei a ligação com o advogado e já liguei para Gregory. No geral, ele foi bastante receptivo, embora tenha notado certa hesitação em sua voz em alguns momentos. Marcamos de nos falar pessoalmente hoje, na hora do almoço, em um restaurante próximo a casa dele. Assim que desliguei, enviei mensagem a Cait perguntando se poderia ligar mais tarde. Bem mais tarde. De madrugada, para ser mais específico. Começar nosso trato falhando já no primeiro dia seria desastroso e reforçaria o receio dela em não dá certo esse relacionamento a distância (combinamos nos falar todos os dias, sem falta, a exceção de quando um ou outro avisasse estar indo a cidade) e isto não queria de forma alguma. Para minha alegria (e alívio) ela concordou avisando, sem maiores detalhes, que estaria mesmo acordada até mais tarde. Sai para a ronda bem mais tranquilo.
Quando me reuni a Oliver e Sara, informei sobre minha conversa com o capataz e do combinado para o dia seguinte, optando por não falar sobre Palmer (ele certamente iria querer me esganar quando soubesse, o que fatalmente ocorreria quando fosse a QC pela manhã, mas preferi isto a tê-lo estressado durante a ronda. Isso nunca dava bom resultado).
Retornei ao apartamento por volta das duas e quarenta, exausto (enfrentamos alguns assaltantes de banco muito bem armados e uma gangue de motoqueiros que estava meio que examinando o terreno a fim de se fixar na cidade, o que significaria mais encrenca). Assim que me livrei das roupas sujas, enviei mensagem a Cait avisando que tomaria um banho e depois ligaria, ela respondendo com um emoji de polegar erguido. Tomei uma chuveirada rápida, vesti apenas o short do pijama, preparei uma macarronada simples, peguei uma cerveja, me sentei na cama e liguei para ela. Chamada de vídeo, claro. Conversamos até quase o raiar do dia, ela me contando como fora o seu e eu como fora o meu dia, explicando ter ficado acordada até mais tarde porque os sinais vitais de Allen havia se descontrolado novamente… —Mas ele está bem? Dentro do possível, quero dizer. E você e Ramon, como estão— tinha perguntado, ansioso e preocupado....—Barry está estável agora, mas nos deu um belo susto. Quanto a mim e Cisco, também estamos bem. Doutor Wells tem nos monitorado constantemente e nós estamos em alerta... — ela respondera, me tranquilizando. Depois de lhe contar nossos planos para ajudar aos garotos, mudamos de assunto, deixando o trabalho de lado, conversando amenidades(tipo nossos gostos particulares, como quais filmes, estilo musical e outras coisas gostamos) a fim de nos conhecermos um pouco melhor. Somente quando ambos começamos bocejar desligamos e para não arriscar perder a hora, programara o despertador com duas horas de antecedência, assim se decidisse ficar na cama mais um tempinho, não me atrasaria. E assim fiz.
Permaneci deitado, escutando os sons lá fora, por quase uma hora, tempo após o qual me levanto. Arrumo a cama, escolho uma roupa informal, tomo banho, preparo um café simples e rápido (torrada, café e queijo), pego as chaves do carro (evitava usar a moto a luz do dia, mesmo sabendo o risco ser mínimo) e parto ao encontro de Gregory, encontrando-o já a minha espera no local marcado, em companhia de dois rapazes que não conheço.
—Bom dia Gregory — o cumprimento tão logo desço do carro, estendendo-lhe a mão, que prontamente aceita — E obrigado por me ouvir -agradeço antecipadamente.
—Bom dia Thomas. Por nada — responde, sorrindo gentil, espantando a impressão ruim que ficara após nossa conversa ao telefone — Estes são meus filhos, Anthony e Benedict — apresenta, ambos erguendo as mãos em um cumprimento rápido — Eles se prontificaram ajudar — revela.
—Obrigado — agradeço, olhando em volta — Vamos conversar aqui fora ou lá dentro? — pergunto, visualizando o modesto restaurante de onde vinha um cheiro que estava fazendo meu estomago roncar.
—Lá — ele diz, sinalizando a mim seguir a frente.
Entramos e de cara me apaixonei pelo lugar. Era simples e acolhedor com uma decoração que transitava entre o moderno e o antigo com um toque vintage, a jukebox na parede dos fundos me fazendo sorrir discretamente e prometo a mim mesmo que traria Cait aqui para jantar da próxima vez que estivesse em Starling.
—Servem todas as refeições aqui, saberia dizer? — pergunto enquanto ocupamos uma mesa no centro — Digo, não apenas lanche e almoço — explico.
—Sim, sim. Tudo — Gregory diz, gesticulando — Minhas noras e minha filha tomam conta e antes minha esposa também o fazia...antes de adoecer — ele acresce, entristecendo, mas antes que pudesse perguntar algo, ele recomeça falar — Então, pretende reformar um prédio. Todo ele ou parte? — questiona.
—Todo Do teto ao chão e adianto que as condições do local são péssimas — confirmo, contando-lhe detalhadamente o estado e qual uso daria para o prédio, ele e os filhos fazendo alguns questionamentos de vez em quando, os dois mais jovens entusiasmando-se, para minha grata surpresa, mesmo eu tendo dito não ter certeza de quanto e como faria para pagar-lhes, eles me tranquilizando, dizendo ser uma ótima forma de pagamento se os deixasse filmar e usar a reforma para mostrar o trabalho deles.
—Depois que Global faliu as coisas não têm sido fácil para nós. Todas as firmas da cidade já possuem um quadro formado e não estão contratando e como sempre tivemos a vontade de ter nossa própria firma, esta pode ser uma boa oportunidade de dar o pontapé inicial — Anthony explica.
—Não faço objeção alguma quanto a filmarem o processo — libero — Mas ainda assim receberão — reafirmo.
—Neste caso, iremos hoje a tarde, por volta das dezesseis, caso não tenha problema, fazer uma visita avaliativa — Gregory propõe, formal e aceito.
—Por mim tudo bem. Só preciso verificar umas coisinhas antes — aviso, pegando o molho de chaves em meu bolso, retirando uma — Aqui, a chave da porta principal para que possam entrar enquanto não chego. Tenham cuidado porque parte do piso afundou — recomendo, uma jovem de cabelo muito escuro vindo nos atender.
—Nina, almoço para quatro. Caprichado — Gregory adianta-se, me encarando — Bife acebolado com arroz e fritas está bom ou prefere algo mais?
—Está ótimo — aceito, sorrindo para a garota.
Quando ela se afasta, retomamos a conversa, os rapazes me contando algumas idéias que haviam tido enquanto lhes falava, parando apenas quando a refeição é servida. Comemos em silêncio, nos despedindo ao término e mais uma vez agradeço aos três a disponibilidade.
Sigo direto para a QC, meu ânimo para contar as novidades perdendo a força ao dar de cara com Ray Palmer saindo do escritório de Oliver.
—Merda! — xingo baixinho, cumprimentando Palmer com um aceno breve (não havíamos sido apresentados, mas tive a nítida impressão de ele saber quem sou), entrando no escritório de Ollie com cautela — E aí? — indago, chamando atenção de Felicity em primeiro lugar — Tudo bem por aqui? — quero saber.
—Mais ou menos — Felicity diz, rindo forçado
—Algo errado? — questiono.
—Não, nada — Oliver diz, me encarando, sério — Apenas uma visita cordial entre concorrentes — acresce — A propósito, sabia que foi o Palmer a comprar o prédio da Global?
—Eu…. soube ontem a noite, quando falei com o advogado da QC, mas confesso ter preferido não te falar naquele momento — admito. Uma coisa que havia aprendido de minha recente convivência com o novo Oliver e principalmente com Cait é sempre falar a verdade — Algum problema?
—Não — ele responde com um suspiro impaciente, passando a mão no cabelo — Veio para conversarmos sobre meios de atrair investidores para a QC? — pergunta.
—Nops, mas podemos falar sobre isso também se estiver disponível — respondo.
—Estou — Ollie diz, indicando a cadeira a sua frente e me sento — Então, sobre o que veio me falar? — pergunta.
—A reforma do prédio vai sair — aviso — E quase de graça — acresço, lhe contando detalhadamente o que conversei com Gregory e os filhos, a conversa se estendendo até perto das dezesseis, Ollie decidindo ir, junto comigo, até o prédio, levando Felicity e Dig consigo.
Chegamos com quinze minutos de atraso. Depois de fazer as apresentações, inspecionamos o lugar, deixando tudo encaminhado, indo embora após cerca de uma hora e meia, nos preparar para mais uma noite de ronda.
"...Don't save a prayer for me now;
Save it till the morning after;
No, don't save a prayer for me now;
Save it till the morning after"

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