Notas iniciais
Eu escrevi essa minúscula one-shot para o meu irmão mais novo, e acabei resolvendo postá-la aqui. É a minha primeira história no Nyah, peguem leve, rsrsrs.

Seu coração bate na mesma velocidade em que ela corre. Cada pessoa viva à sua volta também está correndo, mas eles estão gritando. A garota quase não faz som algum. Corre descalça para diminuir o barulho de seus pés tocando o asfalto. Na mochila carrega os sapatos, além de mantimentos que ela espera que durem no mínimo um mês.

Quando a usina explodiu, toda a cidade em volta dela foi destruída. Cada centímetro de terra da gigantesca Alistair foi coberta por escombros e pedaços de corpos, carbonizados e destroçados. O céu de todo o Estado ficou cinza graças à fumaça. Com quinze anos recém completados, a garota demorou pouco menos de uma semana para notar que algo estava errado nas cidades que faziam fronteira com Alistair. Desaparecimentos e chacinas aconteciam com cada vez mais freqüências nos bairros mais próximos dos destroços. Eram atribuídos à gangues, mas ninguém assumia a autoria, de fato. A garota foi chamada de louca, diziam que tinha aspirado fumaça demais no dia da explosão, mas ela continuou alertando quem pudesse. Até perder seus pais e seus irmãos.

A cidade está chegando ao fim, ela sabe. Daqui a pouco não haverá asfalto, apenas estradas de terra, e é exatamente isso que ela busca. A tranqüilidade do campo, a ausência de pessoas, as árvores frutíferas que irão proporcionar alimento durante mais tempo do que ela é capaz de calcular. Se seus pais tivessem a escutado, estariam vivos agora. Todos estariam. Mas eles agiram como os outros, e agora estavam mortos. Ou quase isso.

O cheiro chega antes que ela escute o som. É pútrido, invade suas narinas e te causa pontadas na cabeça. As moscas chegam antes, como batedores de um imperador. Então ela ouve. Um gemido baixo, animalesco. Ela teve uma espingarda, mas não poderia usá-la aqui, onde o vazio se transformaria num amplificador gigantesco. Antes de fugir, roubou pistolas, silenciadores e munição na casa do vizinho maluco. Ele tinha uma coleção na parede onde ficava sua lareira e já estava morto quando ela invadiu a casa.

É um homem. Alto. Faltam pedaços do cabelo castanho que cobre a cabeça redonda. Ele é gordo, vem arrastando uma perna. Não anda com as mãos à frente do corpo, como ela havia assistido na televisão. Os braços pendem ao lado do corpo roliço como se estivessem desligados. Ela recua alguns espaços para tentar não entrar no campo de visão dele, mas é em vão. Seu pé esmaga alguns galhos e ela quase perde o equilíbrio. Ele joga o rosto para cima, farejando o ar, e vira a cabeça na direção dela. Seus olhos estão brancos, ela percebe, ele é cego. A garota anota mentalmente que precisa checar se isso acontece com todos eles ou se aquele é especial. Enquanto se arrasta, ele balança seus braços na direção dela, tentando agarrá-la de alguma forma.

A mão da garota treme enquanto ela mira uma das glocks na cabeça do morto-vivo. É a primeira vez que usa uma arma e espera que sua experiência com filmes ajude neste momento. Enquanto aperta os olhos, começa a reparar nas roupas que ele usa. Uma camisa social branca, calças de linho preta. Um sapato de couro no pé que está se arrastando. Cada pêlo do corpo dela está eriçado em antecipação. Ela aperta o gatilho e ouve um estampido baixo ao mesmo tempo em que sua mão se joga involuntariamente para trás. Mas ela acertou e, quando conclui isso, começa a pular no mesmo lugar. Não importa se o braço está doendo, não importa se seus pés estão doendo. Não importa nem se ela está tão cansada que pode desmaiar a cada momento.

Vai em direção ao corpo e checa seus bolsos, encontrando a carteira do homem que agora está realmente morto. Quando acha a carteira de habilitação, começa a rir. Talvez seja o cansaço, ou talvez a coincidência seja tão grande que a situação fica engraçada. Randall Oliver. Randall. É o nome dela. Randy para os amigos e parentes, não que tivesse sobrado algum para chamá-la assim.

Randy ainda ri por dentro quando encontra uma árvore com galhos baixos o suficiente para que possa subir. Ela era alta, mas a maioria das outras árvores parecia podre demais para agüentá-la. A garota amarra seu saco de dormir no galho mais forte e se enfia dentro dele. Adormece sem nem ao menos perceber.

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